domingo, 16 de novembro de 2025

Mastodon: crítica de Once More 'Round The Sun (2014)

 



Há 15 anos em sua trajetória rompendo cada vez de forma mais violenta e inesperada a burocrática e corruptível atmosfera da indústria musical, Troy Sanders, Brent Hinds, Bill Kelliher e Brann Dailor comandam o Mastodon de forma impressionante, tornando-os não apenas uma das mais intrigantes e criativas bandas da última década, como também uma das mais respeitadas dentro ou fora dos círculos do heavy metal.

Da marcha com o homem elefante montado nas formigas de fogo, até esculpir um monumento de madeira ao caçador da língua preta no vale dos ossos secos, passando por um capitão e sua obsessiva guerra contra um desconhecido deus dos mares, uma montanha banhada em sangue e um cordão de prata, o quarteto de Atlanta alcança finalmente uma volta completa em sua história. 

O fechamento e o início de um ciclo com Once More ‘Round The Sun, seu sexto disco de estúdio é o primeiro a contar com o produtor Nick Raskulinecz (o mesmo de Infestissumam e Shogun, por exemplo) e o artista Skinner, responsável pela espetacular capa. Com lançamento para o dia 24 de junho, o novo trabalho já se encontra disponível nas principais plataformas de streaming.

Se a ideia é que o álbum prossiga como uma continuação natural do anterior, “Tread Lightly” demonstra de forma perfeita a proposta: sem uma introdução exatamente marcante, ela soa como uma composição de meio de disco, cadenciada no tempo exato e assombrada pela mesma atmosfera flutuante e lisérgica de antes, uma sensação que representa tanto a fuga apressada por uma claustrofóbica floresta ou através do universo. “The Motherload”, em seguida, é um hard rock carregado por uma aura espacial gerada automaticamente por uma inteligência artificial presa em algum filme de baixo orçamento, robótica, mas sem perder o sentimento ou a consciência.

High Road”, apesar do vídeo oficial de qualidade extremamente duvidosa (fala a verdade, vocês podem fazer melhor, caras), foi sabiamente escolhida para ser uma das primeiras faixas a serem divulgadas – básica, direta, pesadíssima e carregada de melodias mastodônicas até o osso, unindo a cadência de The Hunter com o poder absurdo de Blood Mountain. Essa identidade mantém-se na faixa título, totalmente dominada pela sempre característica e embriagada voz de Hinds (menos presente em Once More ‘Round The Sun do que nos  álbuns anteriores, porém) sobre um ritmo galopante que se acelera até a borda do thrash metal em “Chimes At Midnight”.

O clima sci-fi é retomado com “Asleep In The Deep”, uma personificação mais eletrônica e artificial dos mais etéreos momentos em Crack The Skye, deixando-se carregar pela gravidade através do espaço. Interessante notar o jogo entre as vozes quase savatagiano (mas bem mais superficial), um artifício mais do que interessante a ser explorado pela banda e que contribui de forma significativa para o efeito hipnótico que a música causa. Ao mesmo tempo em que se olha para frente, “Aunt Lisa” relembra muito bem a época de sludge martelante e claustrofóbico intercalado com toques progressivos de alguns anos atrás. Não apenas isso, a banda The Coathangers retribui o favor que o Mastodon lhes fez no vídeo de “Follow Me” (de forma bem menos hilária, infelizmente) e contribui com seus gritos de torcida.

A imundice volta a se confundir com alucinações em “Ember City”, que mesmo com o seu leve odor de encheção de lingüiça espacial e repetição de passagens, traz uma das mais espetaculares viagens intermináveis de Hinds na guitarra, um saudável virtuosismo que permanece em “Halloween”, composição esquecida por quatro décadas em algum baú enterrado no porão e finalmente trazida à superfície com roupagem estranhamente moderna (mas efetiva). 

Diamond In The Witch House”, por outro lado, pode ser considerado um híbrido entre duas personificações da banda: a fantasia soturna de Blood Mountain com a acidez palpável de Crack The Skye, porém de uma forma ainda mais sombria, arrastada e densa, resultante principalmente da presença de Scott Kelly, que faz mais do que a superficial participação costumeira e de fato atribui uma atmosfera neurótica ao encerramento do álbum.

Once More Round The Sun talvez seja o primeiro álbum do Mastodon que não traga grandes diferenças em relação ao seu trabalho anterior. E tampouco em relação ao restante de sua discografia (vide a quantidade de vezes que os trabalhos anteriores foram citados). Se por um lado isso mostra como a banda de fato amadureceu completamente a sua identidade musical, na contramão deixa lá no fundo da mente um ligeiro incômodo se ainda há algo a ser demonstrado.

Verdade seja dita, há sim uma aura mais próxima do hard rock em relação à The Hunter, assim como importante presença de bem encaixados sintetizadores, mas detalhes passageiros se compararmos com outros aspectos a serem considerados. Tanto os vocais de Troy Sanders quanto de Brent Hinds estão muito mais melódicos, limpos e afinados com as músicas (a voz do baixista parece estar em plena forma – vide o disco de estreia do Killer Be Killed -, enquanto o guitarrista traz alguns de seus mais inspirados solos em toda a carreira), na mesma proporção em que Brann Dailor tomou a frente e pode facilmente ser considerado o personagem principal do Mastodon aqui, seja no sempre intrincado e complexo trabalho percussivo ou predominando como vocalista nas músicas.

Por outro lado, algo definitivamente incomoda na produção de Raskulinecz. Parece haver um limiar pouco definido entre cada passagem (talvez causado por desnecessárias dobras nos instrumentos) que definitivamente tiram aquela fácil identificação com cada uma das composições. O álbum apresenta várias nuances, de excelentes composições acima da média, mas acabam sendo niveladas de forma homogênea pela produção, comprometedora em certos casos, principalmente no que diz respeito a criar uma experiência imersiva.

O Mastodon completa uma volta ao redor do Sol, e revisita suas personalidades já manifestadas, porém desta vez com experiência e maturidade que definitivamente fazem a diferença mesmo com alguns obstáculos na trajetória. A questão agora é: a banda permanecerá inerte, em translação na órbita ao redor do que ela mesma criou? Ou arriscará e deixará o seu planeta para trás em busca dos limites do universo, mesmo sob o risco de vislumbrar borboletas intergaláticas assassinas e ser sugado por ele?


Faixas:
1. Tread Lightly
2. The Motherload
3. High Road
4. Once More ‘Round The Sun
5. Chimes At Midnight
6. Asleep In The Deep
7. Feast Your Eyes
8. Aunt Lisa
9. Ember City
10. Halloween
11. Diamond In The Witch House





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