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Jimi Plays Berkeley" nunca foi pensado para ser um filme finalizado. Como tantas coisas associadas ao rico legado do icônico guitarrista, "Jimi Plays
Berkeley" tomou forma no vácuo turbulento criado pela morte prematura de
Hendrix, em set/70. Que tenha se tornado um item comercial quando outras filmagens de shows de Hendrix definharam em outros lugares, em cofres ou foram deixadas sem serem reclamadas, foi algo devido inteiramente às manobras do empresário de Jimi,
Michael Jeffery. O projeto começou em mai/70 como uma tarefa simples de Jeffery para
Peter Pilafian. Pilafian era um faz-tudo musical. Ele era um violinista que se apresentou com "The Mamas & The Papas" e participou de uma série de álbuns durante a época. Ele também esteve envolvido no
Monterey Pop Festival de 1967, onde Hendrix fez sua triunfante estreia americana. Aparentemente do nada, Jeffery entrou em contato com ele para avaliar seu interesse em filmar dois shows de Jimi Hendrix.
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| Jimi no palco em Berkeley (30/mai/70, 1º show) |
"Inicialmente, Michael Jeffery queria que eu cobrisse os shows de Berkeley", explica Palafian.
"Essa era nossa missão principal". Com pouca orientação de Jeffery além de documentar as
performances, Pilafian organizou uma pequena equipe de produção e viajou de Los Angeles até Berkeley (que ficava 6 horas de viagem para o norte) para filmar os dois shows de Hendrix no
Berkeley Community Theater em 30/mai/70. Hendrix poderia facilmente ter lotado o
Oakland Coliseum, o local do último show do
Experience no ano anterior, mas Jeffery tinha um motivo alternativo. Em vez disso, ele optou por fazer com que o promotor local
Bill Graham agendasse dois shows em uma noite no famoso teatro de Berkeley.
"Basicamente, Michael Jeffery queria a cobertura desses shows", lembra Pilafian.
"Ele provavelmente tinha algum instinto sobre a importância provável daquele momento. As coisas estavam acelerando naquela época e Jeffery sentiu a importância de filmar esse tipo de coisa. Fomos lá com nossa equipe e, sendo bons documentaristas, cobrimos material periférico que estava acontecendo em Berkeley naquela época e falamos com as pessoas sobre o que elas pensavam sobre Hendrix". Com Pilafian e sua equipe prontos, Jeffery rapidamente colocou os planos em movimento para gravar profissionalmente ambas as
performances. Hendrix contratou o caminhão de gravação móvel do famoso engenheiro de som
Wally Heider e designou Abe Jacobs, que cuidava do som do guitarrista na turnê, para fazer a engenharia da gravação no local. As duas apresentações de Jimi em Berkeley não faziam parte de um itinerário de turnê. Hendrix havia começado uma sequência solta de datas nos EUA em 1970 com um show esgotado no
Los Angeles Forum em 25/abr, mas o guitarrista havia restringido Jeffery a essencialmente agendar shows nos fins de semana, deixando os dias úteis para gravações em estúdio.
"Nós apenas fazíamos o trabalho nos fins de semana e havia um tempo livre entre os shows", lembra o baterista do
Experience, Mith Mitchell.
"Jimi, sendo como era, estava usando muito o Electric Lady Studios, mesmo que ele estivesse inacabado".
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| Devon Wilson e Jimi numa limusine a caminho do Berkeley Community Theater |
Os shows em Berkeley foram um de uma série do que Hendrix, sua banda e equipe viriam a conhecer como "fly-outs". Os dias de turnês de perua e pura resistência física já tinham passado, mas não eram esquecidos.
"As turnês naquela época não eram tão sofisticadas quanto são hoje", relembra o baixista do
Experience,
Billy Cox.
"Hoje, as turnês têm apenas 100 milhas, 200 milhas. Cobríamos os EUA inteiro. Voávamos para o Texas e voltávamos depois". No dia das apresentações, Hendrix e seu pequeno grupo de companheiros de banda, amigos selecionados e equipe de estrada de confiança voaram para o oeste, para a Califórnia. Jeffery havia informado à comitiva de que os shows seriam filmados e gravados, antes da partida. Hendrix, por sua vez, consentiu com uma passagem de som à tarde no local para garantir que todos os requisitos técnicos seriam atendidos e verificados com antecedência. Esta foi uma concessão rara, sugere Billy Cox, pois Hendrix não gostava de passagens de som e geralmente as evitava. Pilafian foi instruído por Jeffery a encontrar Hendrix e sua equipe no hotel deles e o cineasta estava de prontidão quando o guitarrista e sua pequena comitiva chegaram em Berkeley.
"Tínhamos acesso total a Jimi, porque estávamos trabalhando para Jeffery", relembra Pilafian.
"Nós nos coordenamos com sua gerência antes que eles chegassem e nos víamos como parte da equipe". Essa proximidade de estranhos a Hendrix era altamente incomum. Em nenhum lugar, isso é melhor demonstrado do que na famosa cena em que um dos operadores de câmera de Pilafian vai do hotel até o local dos shows dentro da limusine do guitarrista. Essas imagens verdadeiras e nunca vistas da vida privada de Jimi, das quais existe uma escassez de filmagens em qualquer lugar, forneceram um vislumbre fascinante, ainda que fugaz, do lendário guitarrista longe do palco.
Pilafian conhecera Hendrix no
Monterey Pop Festival em 1967, mas não teve mais contato com ele desde aquela breve apresentação. No entanto, ele estava genuinamente intrigado por Hendrix e esperava capturar sua personalidade inimitável e presença de palco da forma mais vívida possível. O impulso de revelar ainda mais detalhes sobre o celebrado guitarrista surgiu quase imediatamente após conhecer Hendrix. No entanto, Jeffery já havia predeterminado a tarefa de Pilafian.
"Estávamos lá para obter cobertura de shows, não para fazer um documentário pessoal dos bastidores sobre Jimi", admite Pilafian.
"Nós meio que tentamos fazer uma entrevista com ele. Lembro-me de filmar algumas coisas no quarto do hotel, mas não deu muito certo. Também passamos algum tempo nos bastidores com ele, mas não deu em nada. Jimi se isolou bastante com um grupo de seu pessoal para que ele não ficasse muito exposto em nenhum período de tempo. Essa foi claramente sua escolha. Eu meio que queria transmitir isso, já que era parte da cena geral de Hendrix, mas nossa missão era focar no show". Na época dos shows em Berkeley, Hendrix havia reformulado o
Experience para incluir o baterista original
Mitch Mitchell e o baixista Billy Cox. O trio havia se unido como uma unidade e havia uma camaradagem entre os três músicos que não existia durante os meses finais do
Experience original, em 1969.
"Quando Billy entrou na banda propriamente, se é que existe tal coisa, como uma unidade de três integrantes, isso me deu muito mais liberdade", lembrou Mitch Mitchell.
"Comecei a me sentir incrivelmente feliz. Para mim, a banda com Jimi, Billy e eu, eu diria que, do ponto de vista musical, essa foi possivelmente a melhor banda que tivemos com Jimi. Foi uma delícia esperar pelos shows. Alguns deles estavam no mesmo circuito de shows de antes — os grandes festivais deixaram muito a desejar, mas houve alguns shows muito agradáveis".
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| Jimi no palco em Berkeley (30/mai/70, 2º show) |
Hendrix deu ao público de Berkeley e à equipe de filmagem de Pilafian duas de suas melhores
performances. Seu repertório não apenas abrangeu canções favoritas mais antigas, como "
Purple Haze", "Hey Joe" e "I Don't Live Today", mas Hendrix também apresentou interpretações extraordinárias de novas músicas, como "Straight Head" (conhecida ainda como "Pass It On" na época desta
performance) e "Hey Baby (New Rising Sun)". A tomada rápida e fascinante de Jimi para "Johnny B. Goode", de
Chuck Berry, permanece como um dos momentos marcantes de sua carreira, assim como sua leitura prolongada e de tirar o fôlego de "Hear My Train A Comin'". Jimi Hendrix não criava
setlists com antecedência, optando em vez disso por operar somente pelo
feeling, lendo seu público e reagindo de acordo.
"Não havia uma lista de canções há algum tempo", lembra Mitchell.
"Quando Billy começou conosco e a liberdade de escopo começou, isso foi algo intencional de Jimi. Haveria muito mais coisas jogadas fora para fugir do que o público queria ou esperava ouvir". Sem ideia do que estava por vir ou em quais canções focar, a equipe de Pilafian deixou suas câmeras rodarem e capturou tudo o que puderam.
"Usamos quatro câmeras para a filmagem do show", explica Pilafian.
"Tínhamos alguém na sacada do teatro e, o mais importante, alguém bem na frente de Jimi, na beira do palco". Embora a equipe de filmagem de Pilafian tenha felizmente capturado partes de ambos os shows (a captura de "Johnny B. Goode" por si só justificou todo o esforço), eles não tinham operadores de filme e câmera suficientes para cobrir o show tão extensivamente quanto outras aparições de Hendrix em festivais como
Monterey Pop e
Woodstock. Por décadas, os fãs de Hendrix têm sido atormentados por partes incompletas e muitas vezes aleatórias de joias como "Hear My Train A Comin'" e "I Don't Live Today", sem falar na ausência de muitos outros momentos inspirados. Pilafian pode oferecer pouco consolo, pois para cada joia preservada para a posteridade como "Voodoo Child (Slight Return)", muitas outras simplesmente escaparam do alcance de sua equipe. Logo após o show, pouco foi feito com o material que foi filmado e gravado. As fitas master do show foram enviadas para Eddie Kramer no
Electric Lady Studios, mas a filmagem começou uma odisseia peculiar por si só, graças inteiramente a Michael Jeffery. Peter Pilafian explica:
"Depois que filmamos o show, Michael Jeffery, sendo o canalha que era, se recusou a adiantar o pagamento pela maior parte do que tínhamos feito. Eu basicamente disse a ele que ele não poderia ficar com o filme até recebermos um cheque. Enquanto isso, eu o coloquei na geladeira e essa foi a última vez que ouvi falar dele por vários meses. De repente, quando Jimi morreu, começamos a receber telefonemas dele. Isso foi alguns dias após a morte de Jimi. De repente, essa filmagem se tornou muito importante, e Jeffery disse que ele iria transferir o dinheiro e assim por diante, mas eu não achei que essa seria a melhor vantagem da situação. Eu basicamente o segurei em vez de apenas dar a ele o negativo não processado".
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| Jimi tocando em Berkeley, CA (30/mai/70 – 2º show) |
"Na verdade, nunca nos preocupamos em revelar o filme porque nunca recebemos dinheiro dele. Ele ficou na nossa geladeira por quase quatro meses. Nenhum de nós jamais viu o que filmamos. Se não fossemos pagos, eu não revelaria o filme. Eu era ingênuo, mas não tão ingênuo assim".
"Agora, de repente, toda aquela pressa e eu estava recebendo muita pressão para finalizar o filme", continua Pilafian.
"Eu recusei e declarei meu desejo de fazer um filme sobre aquilo, porque até aquele ponto, era simplesmente uma cobertura de show". Jeffery ficou numa situação altamente incomum. Ele ainda não havia visto nenhuma das filmagens, mas com seu artista agora falecido e o interesse em todas as coisas de Hendrix num pico sem precedentes, o combativo ex-agente britânico do MI-5 que virou empresário Pop cedeu e aceitou um acordo.
"Consegui que Jeffery concordasse com um acordo de que faríamos e entregaríamos um filme finalizado e ele pagaria o custo disso", explica Pilafian.
"Demos início a isso e Baird Bryant foi o editor". Bryan era colega de Pilafian e da operadora de câmera Joan Churchill e foi selecionado para editar o material para criar um filme para o cinema.
"Eu era amigo de Peter e Joan, e eles queriam que eu fosse lá e filmasse aquilo com eles originalmente, mas eu recuei", detalha Bryant.
"Quando eles voltaram com todas as filmagens, eles nem tinham dinheiro suficiente para revelá-las. Eles simplesmente as colocaram na prateleira por meses. Peter realmente não sabia como fazer um filme com o que eles tinham. Eles me pegaram como editor e me deram carta branca e disseram: 'Aqui está. Faça um filme'". Quase imediatamente, a falta de material de palco, especialmente
performances completas das canções, levou os cineastas a expandir o conteúdo para incluir muito da cena política de Berkeley.
"O material (da performance de Hendrix) era muito escasso", admite Bryant. "Quando olho para ele agora, posso ver que usei as tomadas das luzes do palco para me ajudar a passar por ele até certo ponto. No entanto, ainda tem um impacto incrível".
Para ampliar o escopo político do filme, Bryant e Pilafian incorporaram filmagens de moradores de Berkeley protestando (com pouco sucesso) contra a exibição de Woodstock em um cinema local. Bryant também editou filmagens de tumultos que foram filmadas independentemente por Johann Rush.
"Nós compramos um pouco de filme desse cinegrafista que filmou os tumultos de Berkeley e usamos essas coisas em 'Machine Gun'", explicou Bryant.
"Eu sabia sobre ele porque eu tinha encontrado esse cara anteriormente em Nova Orleans, onde ele tinha sido um novo cinegrafista. Ele também tinha trabalhado num documentário italiano de 35 mm chamado 'America: God's Own Country'. Ele era como um cinegrafista de combate. Ele tinha filmado os tumultos em Los Angeles e adorava entrar no meio da batalha com balas voando por todo lado. Ele estava em São Francisco e eu entrei em contato com ele e perguntei se conhecia alguém que tivesse filmagens dos tumultos em Berkeley. Ele disse, 'Sim, eu conheço!' Então, eu trabalhei esse material no filme". Apesar dos esforços deles, nenhum material estranho conseguiu igualar a clareza e o poder do próprio “Machine Gin” de Jimi. Com uma versão editada agora em mãos, Bryant e Pilafian ainda não tinham o título do filme.
"Foi engraçado, quando Baird e eu levamos o filme para a casa de títulos para pedir um título, ainda não sabíamos como chamar a coisa", relembra Pilafian.
"Estávamos parados na janela escrevendo o pedido e eu olhei para Baird e perguntei: 'Como vamos chamar esse pequeno filme?' Um de nós apenas disse... 'Que tal Jimi Plays Berkeley?' O nome veio bem no último minuto".
Com uma cópia de 'Jimi Plays Berkeley' debaixo do braço, Pilafian voou para NYC para conhecer Michael Jeffery. Nem Jeffery, nem ninguém de seu
staff tiveram qualquer contribuição para o filme naquele momento. Pilafian esperava que seus esforços fossem recebidos com entusiasmo, mas em vez disso, seu relacionamento com Jeffery começou mal e se deteriorou rapidamente.
"Nós entregamos o filme, que tinha sido originalmente filmado em 16mm, por cerca de US$ 22.000", lembra Pilafian.
"Baird e eu criamos o melhor filme que pudemos com o material que tínhamos. Jeffery se recusou a me pagar, mas disse que o faria em cerca de três ou quatro semanas. Isso nunca aconteceu. Então, advogados se envolveram e as coisas se arrastaram. Finalmente, negociamos um acordo em que eu aumentaria minha porcentagem (de lucro) em troca de pagamento imediato. Claro, ele me pagou com um cheque sem fundo que não foi compensado por um mês". Com Pilafian agora posto de lado, Jeffery decidiu criar seu próprio filme a partir dos materiais subjacentes. Ele estava bem ciente do impacto comercial que os filmes
Monterey Pop e
Woodstock tiveram na carreira de Jimi. Ele estava determinado a maximizar o desejo considerável do público de ver qualquer filmagem de seu falecido herói. Para renovar o filme, Jeffery designou o engenheiro do
Electric Lady Studios, John Jansen, para reeditar o filme,
"Jimi Plays Berkeley" foi feito como um documentário de uma hora", descreve Jansen.
"Jeffery queria que fosse um longa-metragem e me perguntou se eu poderia fazê-lo. Eu disse claro, 'Por que não?' Eu nunca erraria. Então, eu recoloquei toda a filmagem de volta, porque eles haviam cortado tudo muito estranho. A música nunca fora sincronizada corretamente. Tudo o que eu sei é que todos — todos os cinegrafistas devem ter tomado ácido — principalmente o cara na sacada com a lente de zoom. Porque toda vez que você olha para a filmagem dele, ele estava aumentando e diminuindo o zoom supostamente no tempo com a música. Um horror! E eu estava lá editando o filme, bem na hora em que saí do Electric Lady Studios e fui para a Inglaterra. Alguém gritou: 'O carro chegou'. Eu disse: 'Graças a Deus' e joguei o filme no chão, pulei no carro, dirigi até o aeroporto e fui embora".
Sem se deixar abater, Jeffery completou um novo corte do filme. Esta edição reduziu mais as filmagens do protesto de Berkeley e teve um tempo de execução de menos de uma hora. Jeffery levou o filme para a estrada, aceitando reservas em faculdades e cinemas independentes, onde começou a desfrutar de um culto de seguidores. Jeffery frequentemente agendava o filme junto com sua outra incursão cinematográfica, o desastroso "Rainbow Bridge". Jeffery até fez turnê com "Jimi Plays Berkeley" em shows, usando-o como parte do projeto na Europa que apresentava
Cat Mother & The All-Night Newsboys e
Jimmy & Vela — dois grupos de artistas restantes em seu escritório de gestão. A morte de Jeffery em um acidente de avião em mar/73 atrapalhou qualquer desenvolvimento posterior do filme. Com o advento do DVD/Blu-ray, surgiu a oportunidade de fornecer aos fãs material bônus ou edições expandidas de filmes
cult exatamente como "Jimi Plays Berkeley". Teria sido maravilhoso revisitar o filme e tentar restaurar o máximo possível das magníficas
performances de Jimi em concertos. Infelizmente, nenhuma das sobras do filme foi entregue à família Hendrix pela administração anterior que controlou o legado do guitarrista por mais de duas décadas. Talvez, elas possam surgir algum dia e ajudar a revelar ainda mais o comando e a vitalidade extraordinários de Jimi. "Jimi Plays Berkeley" continua sendo um retrato falho, mas essencial, de quão especial era uma apresentação de Jimi Hendrix.
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