Formado por Tony Durant na University of Exeter (condado de Bristol, sudoeste da Inglaterra) em 1970, o Fuchsia produziu uma mistura inovadora de influências Prog Folk orquestrais e lançou apenas um fantástico álbum autointitulado antes de se separar. Tony Durant seguiu por novos projetos pensando que o Fuchsia havia sido esquecido e até migrou para a Austrália. No entanto, ao longo dos anos, o valor do álbum disparou e a notícia se espalhou por todo o mundo, levando-o ao prestigiado reconhecimento feito pela revista Mojo como "Forgotten Classics". Assim, após um intervalo de mais de 40 anos (!), Tony Durant resolveu lançar um segundo álbum, "From Psychedelia To A Distant Place" (em 2013) e, sim, conquistou reconhecimento e passou a se conectar com uma nova geração de fãs. Uma incrível jornada de vida! Vamos repassar a história do Fuchsia hoje. Tony Durant nasceu em Londres, mas sua família se mudou para a África do Sul quando ele tinha apenas 6 meses de idade. Eles retornaram à Inglaterra quando ele tinha 10 anos. Na escola, começou a tocar bateria e depois guitarra. Durante os anos 60, foi atraído pela música psicodélica.
Entre 1966-68, tocou numa banda chamada "Louise", junto com Robert Chudley e Chris Cutler (baterista, depois, no Henry Cow), tocando música original estranha, longa e livre no circuito de clubes psicodélicos. No final dos anos 60, sem ver futuro naquela banda e sentindo que um ciclo havia se completado, decidiu fazer algo diferente e foi para a University of Exeter (planejou se formar lá). Era uma fuga da música, mas duas semanas lá, começou a compor novamente (baseando-se em poemas de Ferlinghetti, imagens de Goya das guerras napoleônicas e uma tema geral pacifista). Durant, então, passou a procurar por músicos e colocou um anúncio. Encontrou Mick McGee (um pianista também de Londres), Mick Day (baixista) e Dave Haskins (baterista). Durant compôs canções e o grupo passou a tocá-las. Nessa fase, Chris Cutler havia postado uma série de anúncios no semanário Melody Maker ao longo de nove meses em 1970. Isto o colocou em contato com muitos músicos e levou Cutler e Dave Stewart (tecladista do Egg) a formarem o The Ottawa Music Company, uma espécie de grande orquestra em 1971. Tony Durant participou de alguns shows da Ottawa Music Company com seu novo grupo, agora um trio (com o próprio Chris Cutler na bateria e Mick Day no baixo). Foi daí que surgiu o Fuchsia, um projeto junto com Michael Gregory (bateria e percussões) e Mick Day (baixo). Durant (violões, guitarras, vocais e compositor) queria experimentar a criação de canções num formato diferente do Pop convencional, procurava algo na linha de uma série de temas musicais. Também queria experimentar com a inclusão de cordas com parte integrante da música e não algo adicionado para embelezar (Durant havia sido exposto à música erudita na universidade). Por isso, entraram no Fuchsia três meninas, também estudantes de Exeter, todas com formação erudita e que também queriam fazer algo diferente: Vanessa Hall-Smith (violino), Janet Rogers (violino) e Madeleine "Maddie" Bland (violoncelo, piano, Harmonium), todas também fazendo vocais de apoio.
Era um projeto aventureiro com grandes dificuldades para amplificações das cordas em apresentações ao vivo, além da relativa falta de experiência dentro do grupo. Fizeram alguns shows na universidade e gravaram uma demo tape com duas canções ("Ring Of Red Roses" e "Shoes & Ships") num estúdio na cidade inglesa de Torquay (às margens do Canal da Mancha). Um amigo, Paul Conroy, passou essa demo para Terry King (empresário do Caravan), que os contratou para seu então novo selo, o Kingdom Records (distribuição via Chrysalis Records). Segundo Durant, "Terry ficou tão impressionado com nossa abordagem radicalmente diferente e rica da música, quanto pelo fato de haver três garotas na formação da banda". O grupo gravou seu álbum de estreia no verão de 1971 (claro que com toda a inesperiência do mundo) com produção de David Hitchcock (que depois trabalharia na produção de álbuns clássicos do Genesis, Caravan, Camel, Curved Air e Renaissance) e depois voltou à universidade para realizar uma turnê promocional aproveitando o período de férias. O álbum foi lançado com anúncio no Melody Maker e resenhas em vários jornais (todas muito elogiosas). Entretanto, esta foi a promoção que aconteceu. A turnê não rolou, a banda ficou meio num limbo, sem tocar e sem conviver. Houve a gravação de uma outra demo tape ("The Band" e "Ragtime Brahms"), mas o grupo não conseguiu fechar contrato com uma gravadora. Tony Durant retornou à Londres e seguiu tocando. O conceito do Fuchsia foi revivido em 1975 quando ele compôs uma série de canções para um espetáculo de teatro musical baseado na obra "Die Dreigroschenoper" ("A Ópera dos Três Vinténs"), do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (que Durant declarou, tempos depois, ser a melhor coisa que fez em termos de concretizar o verdadeiro potencial do trio de cordas no contexto de uma banda de Rock). Durant tocou com o Punching' Judy, banda de Hard Glam Rock, e também com a banda Greyhound, na praia do Reggae. Em 1978, ele migrou para a Austrália onde fez carreira produzindo jingles, música para filmes/docs, tocou em bandas e virou produtor de vídeos.E assim, o álbum "Fuchsia", de out/71, ficou esquecido. O nome "Fuchsia" veio de uma personagem (a menina de 15 anos Fuchsia Groan) do livro "Titus Groan" (de 1946), do escritor inglês Mervyn Peake (1911-1968). O livro é parte de um ciclo de histórias góticas chamado "Gormenghast". Michael Gregory foi quem deu ideia do uso do nome, por causa das canções que Durant estava compondo, parecia que o estilo gótico e as imagens de Peake combinavam muito bem com tudo aquilo. Houve um (único) anúncio do álbum: "o estranho primeiro filho da dinastia Groan... imprevisível, misterioso...". Parecia combinar o livro com o disco. De fato, tratava-se de música amplamente composta por Durant (exceto as partes de bateria e baixo, mas inclusive as partes de cordas). Todos ali eram estudantes da universidade, então era aquela coisa bem juvenil de romper barreiras e tradições. Em vez de verso/refrão/verso, por exemplo, na faixa "The Nothing Song" (8:23) era refrão/solo/verso/refrão. "Just Anyone (3:33)" era a única sem cordas, bem no estilo Folk lírico-abstrato que Bob Dylan estava fazendo na época (com imagens desconexas que criavam um imaginário geral forte). Música que desafia classificações ao misturar elementos de Psych Folk, Prog e orquestrações eruditas. Muita gente reconhece no som da banda um "trio duplo" (o de Rock + o de cordas), mas a interação é tão plena e encantadora, tão doce, puro prazer, que não vejo separação. Há a inexperiência palpável, a ingenuidade subjacente, o álbum operando com todo um encanto e inventividade. A primeira impressão é de música bem sinfônica, mas por debaixo há Folk Rock suave, com arranjos de cordas quase medievais, maravilhosa sensação pastoral, letras (esqueça inocência/ideais ripongas) sombrias na linha da obra de Mervyn Peake. O trio feminino barbariza o tempo todo (dificilmente um sintetizador conseguiria reproduzir o que elas fazem). Composições longas, cordas barrocas, vocais femininos de apoio góticos, violões requintados, vocais de Durant na linha dos cantores Folk, música elegante (não pomposa) e de sabor distintamente inglês. A capa foi desenhada por Anne Marie Anderson (que também fez "In The Land Of Grey and Pink", do Caravan). Realmente um tesouro perdido






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