A certa altura, em meados dos anos 70, o Horslips pareceu prestes a se tornar a resposta da Irlanda ao Steeleye Span. Mas eles também tiveram a chance de ser o próximo Jethro Tull ou talvez o Genesis, ou mesmo o Yes em seus momentos mais Folk. Isto nunca aconteceu, mas o Horslips lançou meia dúzia de álbuns excelentes ao longo do caminho, tornando-se a banda de Prog Folk Rock mais aclamada da Irlanda (ela é considerada como os criadores do chamado "Celtic Rock"). É a história que contaremos hoje. Tudo começou em Dublin, em 1970, um quinteto tocando um tipo de Rock a partir do Folk (pense estilisticamente nos trabalhos iniciais do Fairport Convention, porém com raízes irlandesas combinando o misticismo celta tradicional com o Rock). Entretanto, desde o início, era algo diferente, principalmente porque o Horslips baseou-se na música folclórica irlandesa e foi capaz de tocar repertório Folk puro, em certos momentos, mas também não hesitava em eletrificar as coisas criando um peculiar Art Rock.
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| Carr, Gene Mulvaney, Declan Sinnott, Lockhart, Devlin e O'Connor, em 71 |
A formação imortal da banda teve Barry Devlin (baixo, vocais), John Fean (guitarras e violões), Eamon Carr (bateria, Bodhrán irlandês, percussões), Charles O'Connor (violinos acústico e elétrico, bandolins acústico e elétrico, concertina e vocais) e Jim Lockhart (flauta, sopros, teclados, vocais). Devlin, Carr e O'Connor haviam se conhecido enquanto trabalhando numa empresa de publicidade em Dublin. Ali, foram persuadidos a fingir serem uma banda para um comercial da cerveja irlandesa "Harp Lager", mas precisavam de um tecladista. Devlin conhecia Jim Lockhart e os quatro adoraram toda a brincadeira. Decidiram então tentar carreira como verdadeiros músicos. Juntaram-se aos guitarristas Declan Sinnott (colega de Carr) e Gene Mulvaney, mas este último foi logo dispensado. Diferentemente de outras bandas (como o Jethro Tull, que tornou-se veículo para as ideias e a música de Ian Anderson), o Horslips sempre manteve amplos espaços para cada um de seus músicos fazer o melhor sem que qualquer um dominasse o grupo. O nome veio de uma "antístrofe" (inversão da ordem natural de sílabas em palavras como "bola de gude" virar "gula de bode"): eles pegaram a expressão "The Four Horsemen of the Apocalypse" e a transformaram em "The Four Poxmen of The Horslypse" e daí, apenas, "Horslips". Assim, eles passariam os próximos três anos tocando constantemente em Dublin, aprimorando e aperfeiçoando seu som. Também montaram sua própria gravadora, OATS (depois, Horslips Records, em 75), para produzir e lançar seus discos (e depois conseguiriam contratos de licenciamento para lançamentos fora da Irlanda). Além disso, o Horslips decidiu assumir/fazer todas as artes de capas, redigir as notas informativas e pesquisar todo o material que seria utilizado na base das canções. Tudo isto levou a banda a conseguir um controle perfeito sobre seu trabalho.
Em mar/72, surgiu o single "Johnny's Wedding". Declan Sinnott saiu logo depois (principalmente, por ter ficado aborrecido pelo grupo ter aceito participar de uma propaganda do refrigerante Mirinda, filmado no Ardmore Studios Bray, na Páscoa de 72). Sinnott foi substituído por Gus Guest (que apareceu no segundo single, "Green Gravel", de jun/72), mas saiu logo depois. Johnny Fean, então, substituiu Guest e a formação 'clássica' do Horslips, que apareceria em todos os lançamentos futuros, foi definida.
Em out/72, a banda foi para o norte da Irlanda, no condado de Tipperary, e se hospedou na Longfield House, uma mansão de campo isolada de 3 andares construída em 1770. Com apoio do Rolling Stones Mobile Studio, ela gravou o álbum de estreia, "Happy to Meet, Sorry to Part", lançado no início de 73. Esse primeiro álbum com sua mistura de instrumentos folclóricos tradicionais irlandeses e um som de Art Rock (que lembra o Genesis, fase "Nursery Cryme" e "Foxtrot") vendeu mais que o trabalho de muitos artistas então consagrados na Irlanda e levou a um acordo de distribuição com a RCA Records e turnês pela Inglaterra e Europa continental. Não era para menos: tratava-se de uma real viagem pelas entranhas mais tradicionais do Folk irlandês de raiz pela via do Rock. Já na faixa de abertura, flautas, acordeons, percussões, mas com eletricidade e o resultado era Rock melódico, folclórico, celta, climas de hinos, toques de danças ancestrais, espécie de versão meticulosa, verdadeira e atualizada das tradições. "Bim Istigh Ag Ol" era provavelmente a melhor faixa do álbum e "Hall of Mirrors" e "Furniture" permaneceriam no repertórios dos shows por anos. Naquele turbilhão puramente Folk celta havia quatro excelentes faixas Prog que, embora muito diferentes na instrumentação: "Hall of Mirrors", "Furniture", "The Clergy's Lamentations" e "The Musical Priest", eram obras-primas Prog com toques Folk, belos arranjos, ritmos inventivos/incomuns, ótimos solos e imagens fantasiosas. Outro destaque era a capa original com seu elaborado design desdobrável, reproduzindo uma treliça de concertina inglesa, formato octogonal e libreto de oito páginas. Este é amplamente considerado o primeiro álbum de Rock celta já gravado. Com isso, o Horslips assumiu a liderança na música irlandesa da época e criou uma mistura original de músicas tradicionais irlandesas e Rock. O Abbey Theatre, de Dublin, então solicitou à banda que criasse música para uma adaptação teatral para "The Táin" (baseada no livro "Táin Bó Cúailnge", ou "The Cattle-Raid of Cooley", uma das lendas mais famosas da literatura irlandesa antiga (século X, chegou até nós escrita em irlandês antigo), contando a guerra entre Ulster e Connacht por causa de um touro branco premiado, história essa que acredita-se tenha realmente acontecido por volta de 500 a.C.). O Horslips adorou a ideia, manteve todo seu estilo Celtic Rock de fundir música tradicional irlandesa com Rock e partiu para criar todo um álbum conceitual em torno desta rica base mitológica. Gravado em nov/73 no Escape Studios/Manor Studios, mixado no Olympic Studios e lançado logo depois, "The Táin" trouxe o Horslips no máximo de sua mistura de material original com canções tradicionais. As canções contavam a história do ponto de vista das personagens (Cú Chulainn era um herói guerreiro/semi Deus do Ciclo Ulster, uma encarnação do Deus irlandês Lugh; Medb era a rainha de Connacht do Ciclo Ulster; Ferdiad era um guerreiro colocado do lado oposto da guerra em relação a seu melhor amigo e irmão adotivo Cú Chulainn, entre outros). O Horslips tomou bases de cantigas antigas e incorporou-as às novas canções. "The Táin" foi o mais ambicioso e bem-sucedido dos primeiros (e melhores) álbuns da banda. Foi a criação mais Prog deles e talvez seja o álbum conceitual de Rock de maior sucesso já feito. Rock colocado a serviço de uma narrativa épica (ou o contrário), tudo baseado em mitologias/sagas históricas. Uma obra-prima do Celtic Rock, realizada por músicos de alto nível, misturando melodias e lendas (muito caras e populares principalmente no norte da Irlanda), tudo com excelência máxima. A rainha Medb e seu marido que decidem invadir o Ulster para roubar o touro branco 'charolês', a invasão que é retardada por Cú Chulainn em combates individuais (derrotando uma série de campeões de Connacht), Ferdiad entrando na guerra instigado pela filha da rainha, a luta de três dias (com espadas, dardos, lanças) até que Cú Chulainn utiliza ums Gáe Bolga, antiga lança perfuradora, para matar Ferdiad, tudo envolto em drama, bravura, questões éticas etc. Musicalmente, o Folk irlandês é envolto em Rock Progressivo (pense em Jethro Tull e Strawbs). O uso abundante de guitarra elétrica (bem blueseira), a bateria poderosa, os climas místicos, os interlúdios emocionais, a exibição maravilhosa de todo tipo de sons tradicionais irlandeses, melodias cativantes, refrões contagiantes, canções curtas, passagens acústicas, sentimentos pastorais, tensão, sinuosidades, desempenhos individuais impressionantes, vocais muito bons, enfim, um grande álbum, cheio de ambição artística.







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