domingo, 26 de abril de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: Spirogyra - "St-Radiguns" (1971)

 

Fundada em Bolton, Inglaterra, em 1967, esta banda de Prog Folk Rock lançou três álbuns entre 1971-73, antes de encerrar atividades no ano seguinte. Originalmente, o Spirogyra começou como um duo Folk formado por Martin Cockerham (um grande fã de Bob Dylan e The Incredible String Band) e Mark Francis (com experiências numa banda de Blues), no verão de 67 (eles eram amigos de escola). Era a época do "Flower Power". Entretanto, esta encarnação não produziu gravações e acabou no final de 68, quando Cockerham resolveu viajar pela Europa e Israel. 
Martin Cockerham
Foram muitas aventuras e, em out/69, ele retornou para estudar na Kent University, em Canterbury. Ali, Cockerham recrutou vários colegas estudantes para reavivar o projeto musical e formou aquela que seria a clássica versão do Spirogyra. Esta encarnação "Canterbury" começou com Julian Cusack, outro amigo de Martin Cockerham na Kent University (eles eram colegas de primeiro ano na mesma faculdade). Cusack tinha tido treinamento erudito em piano e violino e a dupla decidiu aprontar três canções para um evento Folk de música acústica. Max Hole, encarregado da união estudantil, ficou empolgado com a apresentação e resolveu empresariá-los. Pouco depois, a dupla anunciou vontade de expandir o formato para uma banda. Houve um evento tipo "happening" e daí eles escolheram os músicos que mais gostaram: Steve Borrill (para o baixo elétrico, um estudante mais velho, alto e magro, com cabelos bem longos e ótimo músico) e Barbara Gaskin (garota belíssima, carismática, sofisticada, vinda de Hatfield, com uma bela voz). Ela era amiga de Steve Hillage, outro músico da Universidade, que também tocou no happening (ele já tocava no "The Egg", em Londres, e apresentou Barbara como uma cantora de grande potencial).
Steve Borril, Julian Cusack, Barbara Gaskin e Martin Cockerham

Martin Cockerrham passou a compor muitas canções. Eram dias mágicos, com várias namoradas, criatividade artística no talo, todo o movimento do Folk psicodélico, a ideia de se ultrapassar limites (levando a música Folk original para novos e desconhecidos territórios). Enquanto isto, Steve Borrill alugou um casa de cinco quartos (bem precária) no centro da cidade de Canterbury, perto dos fundos da catedral. Localização fantástica e barata para aqueles jovens. Toda a banda se mudou para lá. Barbara, Steve Hillage, Julian Cusack (e sua namorada Sarah), Steve Borrill (e sua namorada Helen), mais a visita de amigos (como Pete Rhodes, artista e filósofo, estudante da Art College), a casa virou um lugar fantástico com todo tipo de jovens legais aparecendo constantemente. A banda progrediu rapidamente construindo um repertório forte de novas canções (a maioria escrita por Cockerham). Enquanto isto, Max Hole começava a conseguir shows (no início na própria Kent University, mas depois em universidades e faculdades vizinhas ou até mais distantes). Rotulados como "banda universitária", o Spirogyra conseguiu realizar muitas apresentações e viajou por toda a Inglaterra (numa van de Steve Hillage). Pete Bell virou roadie e engenheiro de som (aliás, ele e Hillage fabricaram todos os equipamentos de PA). O progresso foi rápido, a banda tocava muito bem e ganhou prática ao vivo. 
Nesta época, eles fizeram gravação de duas demos na sala de música da Keynes College e elas foram usadas por Max Hole para lhes conseguir um contrato com Sandy Robertson e sua September Productions (aliás, estas gravações passariam 30 anos num sótão até ressurgirem na compilação "Burn The Bridges: The Demo Tapes 1970-1971", lançada em 2000). Com as viagens se estendendo por toda a Inglaterra, eles precisaram solicitar uma licença na universidade (e ver até onde a carreira musical os levaria). Também passaram a viajar para a Holanda, Dinamarca, França e Alemanha. O nome "Spirogyra", lá atrás, havia sido ideia de Cockerham tendo uma ameba, um organismo vivo elementar e primordial em mente, e assim, depois de tudo isto, em 1971, surgiu o álbum de estreia intitulado "St. Radiguns" (nome da rua em que ficava a casa de cinco quartos nos fundos da catedral). Com produção de Robert Kirby (que também produziu Nick Drake), foi gravado no Sound Techniques Studio (em Londres, onde o mesmo Drake e a Incredible String Band gravaram com o mesmo engenheiro de som, Jerry Boys). Uma experiência incrível, emocionante estar num estúdio de gravação de verdade, essencialmente com a banda tocando numa sala e o som sendo mixado ao vivo em estéreo, sem overdubs. O resultado foi vibrante, vivo, cheio de uma intensidade apaixonada. Lançado via B&C Records (na Inglaterra, mas com acordos de distribuição pontuais em diversos países), teve adição de Kirby ajudando nos arranjos (e também cordas/trompete), Tony Cox no sintetizador e Dave Mattacks (do Fairport Convention na bateria, que também trabalhava como "session musician"). Embora fosse um grupo saído de Canterbury, o Spirogyra não se encaixava no famoso som de lá e desenvolvera um dos melhores exemplos de Prog Folk Rock caprichosamente inglês. Música aventureira, muito climática, letras com consciência política e românticas, tudo repleto de ótimas interações instrumentais e com um ótimo duo de vozes (Cockerham e Gaskin). Acid Folk excelente, evitando clichês tradicionais, super inventivo (o suficiente para poder ser chamado de "Prog Folk"), com algumas faixas estupendas e fascinantes, musicalmente complexas, belas melodias, impregnado da então cultura da época e de humor inglês. O álbum era repleto de uma abordagem renovada do Folk, tomando as raízes e acrescentando ideias imaginativas atemporais. Inspirado, com os sublimes vocais mezzo sopranos de Gaskin, com mudanças surpreendentes de andamento, cheio de joias cintilantes, em performances ardentes, criando dimensões Prog a todo instante (com piano, violino, contrabaixo, sintetizador, flauta etc.). As ricas melodias pareciam brincar com as texturas, andamentos e estilos, de um modo completamente envolvente. 
Entretanto, a música do Spirogyra possuía uma atmosfera peculiar. Folk básico de violões, um ou dois vocais (os de Cockerham soando confrontadores e libertários), aumentado moderadamente por vários outros instrumentos (principalmente violino e baixo). Violões energéticos, linhas precisas de baixo e violino em uníssono, com ou sem percussão, adições de cordas e um nível emocional mais cru e autêntico. Muitos já classificaram esta música como "Folk psicológico", talvez pelos comentários sociais da época, mas a maioria a considera um grande disco de Prog Folk (pela infusão criativa do Folk britânico tradicional, outrora plácido, agora criativo e trilhando caminhos até então inexplorados).




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