Banda fundada em Bromley, hoje um distrito da grande Londres, em 1970, mas que se separou em 1972. Apesar deste breve período de existência, o Comus foi uma das bandas mais interessantes a emergir da cena Prog-Folk inglesa. Tudo começou quando Roger Wootton conheceu Glenn Goring, ambos com 17 anos, no Ravensbourne College Of Art, em Bromley, em 1967.
Ambos tocavam violão e compartilhavam admiração pelos trabalhos artísticos de John Renbourn e Bert Jansch (que estavam formando o Pentangle na época - Renbourn e Jansch já eram músicos populares na cena Folk inglesa com diversos álbuns solo cada e um em dueto, "Bert and John", de set/66. O uso de complexas partes de violão interdependentes criara uma espécie de "Folk barroco", uma característica própria da música deles). Wootton e Goring passaram a tocar em clubes Folk locais e, numa visita ao Arts Lab (um centro de artes alternativas), em Beckenham (localidade ao lado de Bromley), ficaram amigos de David Bowie (que usava o Drury Lane Arts Lab para ensaiar e havia fundado este, em Beckenham). A dupla passou a tocar regularmente no Arts Lab, lançando as bases para o que eventualmente se tornaria o Comus.
![]() |
| Roger Wootton e Glenn Goring com seus violões, em 1967. |
![]() |
| Hellaby, Goring, Wootton, Watson, Pearson e Young |
Assim, no início de 1970, a formação clássica do Comus estava completa. A residência no Beckenham Arts Lab de David Bowie continuou, dando ao Comus tempo para se desenvolver como banda e para aprimorar seu set ao vivo. Enquanto isso, Chris Youle começou a trabalhar agendando shows, turnês e promoções em todo o Reino Unido. O público rapidamente reconheceu a paixão, a originalidade e a qualidade musical de tirar o fôlego de uma apresentação do Comus, e a banda logo se tornou uma das favoritas no circuito universitário.
Nessa época (início de 1970), o Comus fez um teste (e foi contratado) para o diretor canadense Lindsay Shonteff, para escrever a trilha sonora de seu longa-metragem "Permissive". Shonteff ficou impressionado tanto com a música, quanto com a determinação como Wootton continuou a tocar/cantar, mesmo tendo cortado o dedo nas cordas de seu violão, num certo momento (a banda escreveria e executaria também a trilha sonora de "Big Zapper", em 1971, e após a separação, os membros do Comus fariam trilhas para filmes subsequentes para Shonteff, "Zapper’s Blade of Vengeance"/"The Swordsman", em 1973 e "Spy Story", em 1975). Em jun/70, Chris Youle conseguiu um contrato de gravação com o selo Dawn (subsidiária da Pye Records) depois que o Comus fez um show muito comentado e prestigiado no Purcell Rooms (parte do complexo Royal Festival Hall, em South Bank, Londres), apoiando David Bowie, que, na época, estava surfando no sucesso de seu primeiro hit, "Space Oddity".
Em fev/71, o álbum "First Utterance" (tradução: primeira declaração) foi lançado, precedido pelo EP ""Diana / In the Lost Queen's Eyes / Winter is a Coloured Bird"", ambos com arte de capa feita por Wootton e Goring. A música era em grande parte Folk Art Rock acústico, misturando percussões orientais, Folk tradicional (slide, violões dedilhados de 6 e 12 cordas, climas pastorais), mais violinos/violoncelo/flautas/oboé e dois vocais (um masculino, de Wootton, e outro feminino, de Watson). As letras sombrias/perturbadoras envolviam assassinatos brutais, transtornos mentais e aspectos místicos. Sem elementos do Folk celta ou da Country Music, "First Utterance" preferia mirar numa perspectiva psicodélica/erudita gerando uma obra estupenda e embasbacante. Música emocionante, inventiva, vulnerável, às vezes soando como cânticos evocando feitiços antigos ou algum ritual pagão de eras passada, produzindo uma experiência única no ouvinte. Atmosferas místicas, algo estranhas/bizarras, deixando entrever perigo. Esqueça inclinações sinfônicas ou explosões roqueiras. Na verdade, o "Prog" aqui estava muito mais no espírito progressista. O Comus pegava música folclórica antiga, porém com um viés estranho/sinistro, e acrescentava uma sensação de improvisação experimental, amadorística, medieval, primitiva, com pitadas de drama. Uma incrível viagem, muito criativa e aventureira. Pense em algo como o Tyrannasaurus Rex (o duo acústico que Marc Bolan liderou no final dos anos 60, antes da fama Glam eletrificada do T-Rex) junto com Tim Burton numa noite escura fazendo um antigo ritual de evocação pagã numa floresta. Por isso, esqueça o tradicional Folk de bandas como Fairport Convention ou Steeleye Span. Confira um trecho da letra da faixa "Drip Drip" (que descreve um assassinato numa mata): "You dangling swinging / Hanging, spinning, aftermath / Your soft white flesh turns past me slaked with blood / Your evil eyes more damning than a demon's curse / Your lovely body soon caked with mud / As I carry you to your grave, my arms your hearse " (tradução: você balançando / pendurado, girando, consequência / Sua carne branca e macia passa por mim saciada de sangue / Seus olhos malignos mais condenatórios do que a maldição de um demônio / Seu adorável corpo logo coberto de lama / Enquanto eu carrego você para seu túmulo, meus braços, seu carro funerário"). É mole? Parecido com nada nesta seara, não é?
![]() |
| na frente sentados: Lindsay Cooper,Glenn Goring e Bobbie Watson; atrás: Roger Wootton, Andy Hellaby e Colin Pearson |
Em 1995, "First Utterance" foi relançado em CD e, em 2005, surgiu um CD duplo reunindo os dois álbuns, o EP e algumas outras faixas (em resumo, tudo que o Comus havia gravado). Com o crescimento da internet, "tesouros perdidos" como o Comus e seu primeiro álbum passaram a ser desenterrados, debatidos e valorizados. Fãs famosos foram surgindo (Mikael Åkerfeldt, líder da banda sueca Opeth, é um desses a ponto de ter nomeado um álbum de 98 de sua banda como "My Arms, Your Hearse", uma citação da letra de "Drip Drip"). Para comemorar, o empresário Chris Youle buscou reunir todos os membros originais (inclusive o gerente de turnês, Wilf Wittingham) e, em mar/2008, a banda foi reformada para o Melloboat Festival (apenas Rob Young preferiu não prosseguir na fase de ensaios e acabou substituído por Jon Seagroatt, marido de Bobbie Watson). Foi um memorável e emocionante reencontro (alguns não se viam há mais de 30 anos). Seguiram-se algumas outras apresentações em festivais e um álbum novo, "Out Of The Coma", lançado em jun/2012 (contendo novas canções e uma gravação ao vivo de 1972 de material abandonado para o então planejado segundo álbum).











Sem comentários:
Enviar um comentário