sábado, 16 de maio de 2026

POEMAS CANTADOS DE JOSÉ MÁRIO BRANCO


Cantiga do Fogo e da Guerra
José Mário Branco

Há um fogo enorme no jardim da guerra 
E os homens semeiam fagulhas na terra 
Os homens passeiam co´os pés no carvão 
que os Deuses acendem luzindo um tição 

Pra apagar o fogo vêm embaixadores 
trazendo no peito água e extintores 
Extinguem as vidas dos que caiem na rede 
e dão água aos mortos que já não têm sede 

Ao circo da guerra chegam piromagos 
abrem grande a boca quando são bem pagos 
soltam labaredas pela boca cariada 
fogo que não arde nem queima nem nada 

Senhores importantes fazem piqueniques 
churrascam o frango no ardor dos despiques 
Engolem sangria dos sangues fanados 
E enxugam os beiços na pele dos queimados 

É guerra de trapos no pulmão que cessa 
do óleo cansado que arde depressa 
Os homens maciços cavam-se por dentro 
e o fogo penetra, vai directo ao centro


Cantiga Para Pedir Dois Tostões
José Mário Branco

Nos carris
Vão dois comboios parados
Foste longe e regressaste
Trazes fatos bem cuidados
E já pensas
Em dourar o teu portão
Se és senhor de dez ou vinte
És criado de um milhão
Regressaste
Com um dedo em cada anel
E projectos num papel
E amigos esquecidos
Tempos idos
São tempos que voltarão
Em que pedirás ao chão
Os banquetes prometidos

Milionário que voltaste
Dois tostões p´rós que atraiçoaste

Fazes pontes
Sobre rios e valados
Mas quando o cimento seca
Já morremos afogados
Fazes fontes
No silêncio das aldeias
E a sede é tal que bebemos
Até ter água nas veias
Instituíste
Guarda-sóis e manda-chuvas
Lambe-botas, beija-luvas
Pedras-moles e águas-duras
Inauguras
Monumentos ao passado
Que está morto e enterrado
Entre naus e armaduras

Milionário que voltaste
Dois tostões p´rós que atraiçoaste

Quanto a nós
Nós cantores da palidez
Nosso canto nunca fez
Filhos sãos a uma mulher
Nem sequer
Passa mel nos nossos ramos
Pois a abelha que cantamos
Será mosca até morrer

Milionário que voltaste
Dois tostões p´rós que atraiçoaste



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