Sete anos após “Desmanche”, Buhr retorna com um trabalho que chega como rastro, faísca e movimento: “Feixe de Fogo”, seu quinto álbum solo, chegou às plataformas na última sexta (10). O disco sai pelo selo paulista Sound Department.
Gravado de forma independente, ao longo de quase dois anos entre as cidades do Recife (PE), Fortaleza (CE), Sobral (CE), Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP), o disco carrega o trânsito como linguagem.
Buhr assina a direção artística e produção musical do álbum junto a Rami Freitas. Entre elementos de rock, reggae e de outras paisagens musicais, o disco é costurado por camadas eletrônicas e orgânicas, guitarras em brasa, tambores – de pele e de pulso elétrico – e sintetizadores que se entrelaçam.
Nas letras, uma combustão interior inquieta Buhr sob vários aspectos, desembocando em versos que articulam dores e conflitos citadinos e as angústias da existência e das relações.
“Feixe de Fogo” também é um ponto de virada: é o primeiro álbum assinado como Buhr, nome que acompanha a afirmação de sua não-binariedade.
Entre cidades e transições
“Feixe de Fogo” é um disco que arde enquanto se move. Buhr alude ao rastro, à faísca que marca o caminho do fogo enquanto ele avança, ilumina e consome.
“É a faísca do disco, dessas andanças todas, porque o disco foi feito por todos esses lugares. É o que acompanha, é esse caminho da turbina, da fogueira”, conta Buhr em entrevista à Folha de Pernambuco.
Essa itinerância por diferentes cidades também influenciou o processo de feitura (de quase dois anos) do disco, já que Buhr atualmente se divide entre três cidades – Recife, Fortaleza e Salvador.
“[Foi essa coisa] de mudar de lugar, de cidade, de reconfigurar a banda, essa produção nossa durante esse tempo todo, andando pelos lugares e convidando as pessoas para cantar junto uma música ou outra”, conta.
"Feixe de Fogo" é o primeiro álbum em que o nome assinado é Buhr, não mais Karina Buhr, como assinava artisticamente há mais de 30 anos. A mudança veio em virtude do entendimento como pessoa não-binária.
“Na minha experiência, eu não sentia essa necessidade de falar sobre isso publicamente", começa Buhr. "Só que isso começou a ficar muito forte, e eu acho que é uma questão coletiva também. É muito individual, mas é, também, coletiva. Inclusive, as percepções, né? A percepção minha, a percepção das pessoas e de todo mundo, elas também vão junto com esse diálogo."
Em “Feixe de Fogo”, a não-binariedade de Buhr surge menos como tema explícito e mais como força criativa. Ao assumir esse entendimento, a artista inscreve sua vivência no próprio gesto de criação.
“Isso tá comigo, tá ali”, resume, ao explicar que não traduz sua experiência de maneira direta nas letras, ela se manifesta na forma e no processo: um trabalho que se constrói em trânsito, sem fixar formas, assim como sua identidade.
Do tambor à poesia
Mesmo atravessado por sintetizadores, guitarras e camadas eletrônicas, o disco nasce de um gesto primário: voz e tambor. É assim que Buhr compõe. “Minhas músicas são isso. Pode entrar harmonia, guitarras, synths, mas elas são voz e tambor”, resume.
Assim como o som orgânico – que reflete a sua escola primal: maracatu, cavalo-marinho e outras expressões populares –, Buhr tem na palavra, na poesia, uma base fundamental na construção de sua música.
Apesar de encontrarmos músicas “raivosas” em seus discos anteriores, em “Feixe de Fogo”, não há, à primeira escuta, explosões de fúria. Mas, a raiva pulsa, deslocada.
“Tem muita raiva nesse disco, só que de outro jeito. Ela tá nas letras”, adverte, ao citar canções como “Ânsia”, com imagens de sangue, agonia e tensão, e “Oxê”, que se estabelece em um contraste entre suavidade e ruptura. O álbum ganha força justamente nessa espécie de “delicadeza incendiária”.
Encontros que moldam o som
Uma prática curiosa em álbuns solo brasileiros: eles são exuberantemente coletivos. “Feixe de Fogo” mostra bem isso, sendo um disco cuja sonoridade é costurada também com a colaboração dos artistas convidados por Buhr e Rami Freitas.
“É engraçado isso, é louco esse negócio de feat. Você tem que chamar de feat só quem canta, né? E, na verdade, todo mundo desse disco é feat! Todos esses instrumentos”, Buhr chama a atenção.
Como instrumentistas, Buhr trouxe ao álbum antigos parceiros de banda – os guitarristas Edgard Scandurra e Fernando Catatau –, além de Arto Lindsay e o maestro Ubiratan Marques (Orquestra Afrossinfônica), e do baixista "Novo Baiano" da música brasileira, Dadi Carvalho.
Parceiro de primeira hora desde o álbum de estreia de Buhr, "Eu Menti Pra Você" (2010), Edgard Scandurra deixa a marca de sua guitarra canhota – assim como outro lendário "guitar hero", Jimmi Hendrix – em “Anzol”, “70 Cigarros” e “Chão Frio”.
Já Fernando Catatau, outro parceiro desde o início da trajetória solo de Buhr, faz guitarras em duas músicas: a faixa-título, "Feixe de Fogo", e "Ânsia", single lançado no final de março.
O músico e produtor nova-iorquino Arto Lindsay traz seus noises de guitarra também na faixa-título e em "Seilasse", que também ganha piano elétrico e arranjo de cordas do maestro baiano Ubiratan Marques, nome à frente da Orquestra Afrosinfônica. O maestro também toca synths e criou os arranjos de metais de "Voaria" e "Desmotivacional".
O baixista Dadi Carvalho, outro importante nome da música brasileira há décadas – desde Novos Baianos, A Cor do Som, ou acompanhando nomes como Caetano Veloso, Marisa Monte, Tribalistas –, também atendeu ao chamado de Buhr e fez o baixo em "Motor de Agonia".
Três faixas de "Feixe de Fogo"contam com feats vocais. A artista trans sobralense Moon Kenzo (da banda Procurando Kalu) traz interpretação rasgada na curta “70 Cigarros”. "Eu acho ela incrível! Dramática, extremamente dramática! E essa música para mim é muito novela, eu vejo nela uma cena de novela", diz Buhr, sobre a canção que traz uma aura de samba-canção.
Em "Oxê" – música que Buhr já chegou a cantar em seus shows "Voz e Tambor", empunhando um triângulo, assim como na faixa –, Negadeza e Josyara cantam e tocam. “Negadeza eu conheço há mil anos, desde Selma do Coco, de Aurinha do Coco, conhecia ela pirralha. Ela chegou a fazer alguns shows com a Comadre Flozinha", lembra Buhr.
Musicalmente doce, leve, "Oxê", assim como "70 Cigarros", são faixas "fora da curva" de um disco "cheio de curvas", como declara Buhr e como podemos perceber durante a audição.
Outro convidado supercelebrado no disco é Russo Passapusso, parceiro de composição e também vocal em “Desmotivacional”, que encerra o álbum. Na contramão do tanto de mensagens motivacionais e "papos de coach" que se embrenham na nossa "sociabilidade" digital, a faixa traz versos como "Não tenho nada pra tentar, eu só ando/ com o tempo meu erros eu jogo na minha cara".
“A ideia era ser uma música raivosa, uma das barulhentas, 'dos rock'. Aí, Russo mandou um videozinho, daqueles videozinho redondos do WhatsApp, tocando o violão e cantando uma coisa (...) um negócio totalmente diferente do que eu tinha pensado. Foi muito louco porque eu fiz outra letra e encaixei a melodia na levada do violão de Russo, e Russo fez outra letra para caber com a minha letra", conta Buhr sobre o processo de composição que acabou gerando duas canções, com "Desmotivacional" entrando no álbum.
Completando o time que construiu "Feixe de Fogo", também estão Janice Brandão, Susannah Quetzal, Rosa Denise, Izma Xavier, Nilton Azevedo, João Teoria, Regis Damasceno, Briar Aguarrás, MAU e Plínio Câmara.
Fagulha inicial
"Feixe de Fogo", por sinal, abre o disco como o riscar do fósforo que produz a brasa, a chama inicial, cuja combustão vai se adensando à medida que a faixa avança. Ela foi a primeira composição do disco.
A intenção incial da música era se tornar parte da trilha sonora de uma série, na qual Buhr gravou a convite de Beto Villares. A imagem ponto de partida foi o parto de uma mulher cangaceira, que rendeu o verso "Coroo a cabeça de sangue".
O primeiro significado na música é esse, é o “coroo” do nascimento do neném, no meio do cangaço, daquela coisa toda, só que, ao mesmo tempo, ressignificou para uma coisa de não ser só a correria dentro do cangaço, mas, a correria fora, na rua, na estrada, a andança. O correr não só de alguma coisa que ameaça, mas correr na direção que se quer", explica Buhr.
“Veio essa música, só que acabou que isso trouxe muitas outras imagens e muitas outras coisas que puxaram o resto do disco, sabe?", explica Buhr, ao contar que "Feixe de Fogo" acabou, então, tomando um caminho próprio, se desgarrando da trilha da série e sendo a fagulha inicial do que seria seu álbum.
"Eu corro em cima da brasa acesa/ no medo onde ninguém mergulha". É com esses versos que "Feixe de Fogo" abre o disco, com Buhr avançando em sua andança. A música também ganhou videoclipe, já disponível no Youtube.
A capa de "Feixe de Fogo" tem foto de Priscilla Buhr, direção de criação e design de Guile Farias e direção de arte de biarritzzz.
“Desde o começo, eu disse: 'A capa tem que fazer em Recife. A capa em Recife e o show do lançamento tem que ser em Recife. Isso foi uma coisa da qual eu fiz questão que fosse assim”, diz Buhr.
No palco
"Feixe de Fogo" ganha os palcos do Brasil em turnê que estreia no Recife, no próximo dia 24 de abril, no Teatro do Parque. A banda que acompanha Buhr é formada por Rami Freitas (bateria), Susanah Quetzal (guitarra e synths) e Izma Xavier (baixo).
No show de estreia, Buhr terá duas convidadas: Lourdinha Nóbrega (saxofone) e Néris Rodrigues (trombone).

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