A noite de 26 de maio de 2026 marcou Lisboa com um dos concertos do ano. Depois de duas noites intensas no Porto, a tour Pain To Power dos Maruja passou pela capital e provou ser uma avalanche de caos e emoção sem paralelo. Abaixo fica o nosso registo.
Bad Tomato
As honras de abertura da noite couberam aos lisboetas Bad Tomato, que durante meia hora aqueceram o público com a sua fusão de post-punk e indie rock. A chuva de energia começou logo com Rain, e um “como é que é Lisboa” deu o mote para o baixo de abertura da Can’t Complain mostrar todo o seu groove. Agradecendo ao público por terem vindo mais cedo, o trio continuou com Posh Friends e FEEFA 25, a primeira a arrancar a primeira reação mais efusiva do público e a segunda a forçar passos de dança menos tímidos.
Mas a verdadeira diversão começou, paradoxalmente, com No Fun, numa trilogia final de temas que incluiu também Get Up (Now) e a contagiante Bodybag, num crescendo de animação das hostes que culminou com o vocalista a vir dançar para o meio do público. Foram trinta minutos punk que cumpriram a missão de aquecer o público para a tempestade sonora que se aproximava.
Setlist: Rain | Can’t Complain | Posh Friends | FEEFA 25 | No Fun | Get Up (Now) | Bodybag
Maruja
Há concertos durante os quais reconhecemos logo “a memória desta noite vai perdurar no tempo, como uma gravura se perpetua em pedra”. Faltavam cinco minutos para as 22 horas quando uma introdução com flautas medievais e caos crescente ecoou nas paredes do LAV, para à hora certa os Maruja assaltarem o palco com uma energia absurda.
Bloodsport entrou a todo o gás, com o baixo de Matt Buonaccorsi a dar um groove acelerado e imponente logo no arranque. Mas o instrumento cujo brilho se elevou acima de todos os outros foi o inevitável saxofone de Joe Carroll, cuja irreverência sonora encontrou par numa presença em palco dominadora e assertiva, apenas vencida na energia pelo vocalista Harry Wilkinson. Este foi debitando o seu rap com uma cadência irrepreensível, enquanto pegava ocasionalmente na guitarra.
Trenches deu continuidade ao concerto com uma energia ainda alta mas mais contida, encontrando Harry as trincheiras do público onde surfou num mar de braços frenéticos. Com Break The Tension, a vertente jazz acentuou-se, com fills deliciosos da bateria de Jacob Hayes e o saxofone do Joe a criar uma tensão penetrante que explodiu no final da música.
Zeitgeist elevou os níveis de caos sonoro e experimentalismo errático, levando um público já intenso a um assomo de movimento inebriante. A tempestade de post-punk ainda ia a meio, e foi com Thunder que a versão mais doce da voz se revelou, bem como um saxofone mais melancólico e emotivo. Born To Die, o épico de dez minutos, foi o arranque de uma segunda metade cujos níveis de brilhantismo se elevaram acima do teto do LAV. A progressão da música, da entrada minimalista ao estrondo final, foi um privilégio de testemunhar, e nem os problemas técnicos no saxofone estragaram o momento.
Saoirse foi onde a emoção encontrou a devoção do público, cantando com Harry, alguns com os olhos marejados de lágrimas. A beleza nas nossas diferenças foi sonorizada da forma mais exímia possível, terminando com um pedido do vocalista para o público se abraçar. Seguiu-se a história do homem invisível, onde o post-rock espreitou com mais arrojo, voltando a bateria a destacar-se na forma como preenchia o som com mestria evidente.
Inevitavelmente, o momento da noite foi Look Down On Us, uma das composições desta década que vai certamente ficar na história da música alternativa. Os primeiros acordes entregaram o público à loucura, com o movimento de corpos a assemelhar-se a um tufão. A entrega da banda foi total, novamente com a voz e o saxofone em destaque. A transição da entrada frenética para a emotiva mensagem de amor que se seguiu derreteu até o mais empedernido dos corações. No final desta obra-prima indescritível, o público foi levado a erguer os punhos no ar, num momento de resistência poderoso em que um “não passarão” se ouviu vindo de algures.
Esse momento levou-nos a Resisting Resistance, uma espécie de créditos finais de um espetáculo que mais do que inesquecível, é daquelas experiências que nos moldam o carácter. O som parou, o pano fechou, a plateia dispersou, mas o momento perdurou.
Setlist: Bloodsport | Trenches | Break The Tension | Zeitgeist | Thunder | Born To Die | Saoirse | The Invisible Man | Look Down On Us | Resisting Resistance


Sem comentários:
Enviar um comentário