As Balas
Adriano Correia de Oliveira
Dá o Outono, as uvas e o vinho,
Dos olivais, azeite nos é dado.
Dá a cama e a mesa o verde pinho,
As balas deram sangue derramado.
Dá a chuva o Inverno criador,
Às sementes dá sulcos o arado.
No lar a lenha em chama dá calor,
As balas deram sangue derramado.
Dá a Primavera o campo colorido,
Glória, coroa do mundo renovado.
Aos corações dá o amor renascido,
As balas deram sangue derramado.
INSTRUMENTAL
Dá o Sol as searas pelo Verão,
O fermento no trigo amassado.
No esbraziado forno cresce o pão,
As balas deram sangue derramado.
Dá cada dia ao Homem novo alento,
De conquistar o bem que lhe é negado.
Dá a conquista um puro sentimento,
As balas deram sangue derramado.
De meditar, concluir, ir e fazer,
Dá sobre o mundo o Homem atirado.
À paz de um mundo novo onde viver,
As balas deram sangue derramado.
INSTRUMENTAL
Dá a certeza o querer e o construir,
O que tanto nos negou o ódio armado.
Que a vida construida é destruir,
As balas deram sangue derramado.
Essas balas deram sangue derramado,
Só roubo e fome e o sangue derramado.
Só ruina e peste e o sangue derramado,
Só crime e morte e o sangue derramado.
As Mãos
Adriano Correia de Oliveira
Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

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