quarta-feira, 5 de agosto de 2026

POEMAS CANTADOS DE JOSÉ MÁRIO BRANCO


Tiro-no-liro
José Mário Branco

Na zoologia do fala-só 
Há muitos animais de tiro 
Há o tiro-liro e não só 
Também o tiro-liro-ló 

Seja tiro-liro ou tiro-ló 
O tiro-liro leva tiro 
Que é o mesmo que três liros e um ló 
Feridos por um tiro só 

Quem dá o tiro no liro 
Vai p´ró chilindró 
Quem dá o tiro no ló 
Anda de pó-pó 

Lá em cima está o tiro-liro-liro 
Cá em baixo o tiro-liro-ló 

Mas o liro que eu prefiro é o ló 
Que ao liro-liro tira o tiro 
Pois enquanto o ló transpira no pó 
O liro tira o pão do ló 

Há-de vir o dia em que o liro-ló 
Será igual ao liro-liro 
Com a concertina e o sol-e-dó 
Unidos por um tiro só 

Quem dá o tiro no liro 
Vai p´ró chilindró 
Quem dá o tiro no ló 
Anda de pó-pó 

Lá em cima está o tiro-liro-liro 
Cá em baixo o tiro-liro-ló


Utopia
José Mário Branco

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Nao do lobo mas irmao
Capital da alegria
Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
lança o teu
desafio

Homem que olhas nos olhos
que nao negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?



Zeca (Carta A José Afonso)
José Mário Branco

Vieste de menino de oiro pela mão
Acordar a madrugada
E fez mais às vezes uma só canção
Do que muita panfletada

Grandes janelas soubeste abrir
Por onde o ar correu sem te pedir
Que não se cansem de nascer
As fontes onde vais beber

Nunca mais te hás-de calar
Ó Zeca, para nós
Canta sempre sem parar
Que é seiva e flor
A tua voz

Vestiste a capa de caloiro coimbrão
Para ultrapassar o fado
E, em cada natal, teu fruto temporão
Nunca foi ultrapassado

Na distracção jogas à defesa
Com o humor disfarças a tristeza
Cantas a esp'rança e o amor
Que o povo te ensinou, de cor

Nunca mais te hás-de calar
Ó Zeca, para nós
Canta sempre sem parar
Que é seiva e flor
A tua voz

Nem tudo o que reluz é oiro, pois então
E bem gostaria o facho
De te ver calado e manso pela mão
Com medalhas no penacho

Co'a tua ronha felina e sã
Vais-lhe atirando as flechas de amanhã
O olho pisco a acender
E a garganta a acontecer

Nunca mais te hás-de calar
Ó Zeca, para nós
Canta sempre sem parar
Que é seiva e flor
A tua voz



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