terça-feira, 1 de setembro de 2026

System Of A Down – Toxicity – 2001

 

System Of A Down – Toxicity – 2001

System Of A Down – Toxicity – 2001

Qualquer tentativa de entender o fenômeno System Of A Down será fracassada. Pense numa banda formada por descendentes de armênios, baseada em Los Angeles, que fala em suas letras sobre drogas, sexo grupal, encarceramento em massa e Charles Manson ao som de um metal extremo e violento – e até seus instrumentos têm afinações totalmente fora do comum. Esse resumo tem toda pinta de milhares de bandas que seguem nos porões e de lá nunca saíram. O SOAD, como chamam os fãs, não só saiu como alcançou números estratosféricos para o seu tipo de som.

Seu primeiro álbum, homônimo, de 1998, serviu para chamar atenção. Mas o segundo, Toxicity, de 2001, chegou ao primeiro lugar da parada norte-americana com esse caldo de metal e confusão – que começou já no show de lançamento. Planejado para 3,5 mil pessoas, o evento atraiu quase 10 mil e se tornou um caos. Parece que havia uma certa ressaca do som que predominou o metal comercial nos anos 1990, o nu-metal, e a audiência pedia algo mais insano. Sim, já havia Slipknot (com quem a banda excursionou, inclusive, com sucesso) e afins, mas até as rádios rock, pouco afeitas ao som estridente das guitarras, adotou o SOAD como banda preferida no comecinho do século 21.

A musicalidade do SOAD, como não poderia deixar de ser, é sempre intensa, mesmo nas (raras baladas). Tem música que é difícil de ser acompanhada até na air guitar – o que é aquela mudança de tempo no comecinho de “Science”? Riffs velozes se fundem a vocais que remetem aos antepassados de Serj, Daron, Shavo e John. A música que dá nome ao disco remete à estrutura muito usada por Metallica, por exemplo, com introdução solo, o riff sendo apresentado a todo vapor e a entrada da voz em destaque para depois tudo explodir de novo no refrão. “Disorder”, mas nem tanto.

Sete dias depois do lançamento do álbum, aconteceu o atentado de 11 de setembro. Com a banda em primeiro lugar nas paradas, o SOAD acabou se tornando, sem querer, a trilha sonora de tempos confusos e sombrios – e até isso causou problemas, já que a faixa “Chop Suey”, que fala sobre suicídio, foi proibida nas rádios por ser mal interpretada.

A produção do disco foi dividida entre o mago Rick Rubin e Daron Malakian e Serj Tankian. Talvez por nem o melhor dos produtores, sozinho, entenderia esse tanto de referências.

E para não dizer que tudo é só confusão perto do SOAD, Toxicity termina com uma faixa escondida inspirada numa música gospel de tradição armênia. Paz.

Ouça o disco

  1. “Prison Song”
  2. “Needles”
  3. “Deer Dance”
  4. “Jet Pilot”
  5. “X”
  6. “Chop Suey!”
  7. “Bounce”
  8. “Forest”
  9. “ATWA”
  10. “Science”
  11. “Shimmy”
  12. “Toxicity”
  13. “Psycho”
  14. “Aerials[+]”


Magister – The Art of Changes – 2017

 

Magister - The Art of Changes - 2017

Magister – The Art of Changes – 2017

“The Art of Changes” é um dos mais espetaculares trabalhos que já foram realizados dentro do amplo rótulo “metal”. É uma gema preciosa, um álbum que merece ser descoberto por toda e qualquer pessoa que goste do estilo, sendo praticamente uma aula sobre os caminhos e influências que desembocaram no heavy metal dos anos 80 – 90. Está tudo lá: a música clássica, que Ritchie Blackmore colocou no rock e Yngwie Malmsteen abraçou, aparece no zig-zag infernal de “The Endless Path”, baseada na “Ode à Alegria” de Beethoven e tocada na velocidade máxima pelo baterista Luciano Melo, como o Accept de “Fast As a Shark”. Os duetos de guitarra do Iron Maiden e Queensrÿche aparecem em vertiginosas e inumeráveis frases construídas e executadas meticulosamente pelos guitarristas André Evaristo e Fabio Gusmão. As baladas melancólicas que o Black Sabbath fez com Dio no vocal são lembradas na música-título. “Over the Rainbow” homenageia esse vocalista mais claramente, com um refrão fácil e os registros altíssimos do vocal. As músicas longas, complexas e os riffs agressivos do Metallica se fazem presentes em diversas passagens, mas em “Cold Fever” a referência se torna explícita, incluindo um pequeno solo de baixo de André Mellado (hoje no Woslom) com wah-wah, efeito favorito do falecido baixista da banda, Cliff Burton. “Salvation Song” é um rockão rápido que se abre num final melodioso, daqueles que você grita num show até acabar a voz, como todas as bandas de arena rock fizeram algum dia nos anos 80.

As composições do álbum são complexas e ao mesmo tempo prazerosas de ouvir, porque dificilmente algo se repete no percurso de cada uma. O trabalho vocal e instrumental é de um nível soberbo, uma conjunção que é vista pouquíssimas vezes. As letras são um capítulo à parte, muitas delas refletindo as convicções espirituais de André Evaristo, tema que é raro no gênero, mas evitam cair no didatismo. Como canta na faixa de abertura, André é um contador de histórias.

Ocasionalmente, pode existir alguma auto-indulgência com o experimentalismo, como a inclusão de uma passagem atonal no meio da faixa-título ou em “Massacre, Pt. 2”, feita inteiramente de ruído. Mas se o Black Sabbath incluiu uma faixa chamada “FX” em seu Vol. 4 láááááá em 1972, em 2002 já não deveria soar deslocado incluir incursões nessa área. Esses interregnos acabam por construir uma identidade sonora ao longo do registro, conferindo-lhe uma atmosfera única.

O Magister é uma banda de produção irregular, centrada em seu fundador André Evaristo (que tocou cinco anos no Torture Squad), guitarrista, vocalista e principal compositor. “The Art of Changes” foi gravado em 2002 e lançado apenas em 2017, sem nada perder em termos de atualidade. Merece um lugar entre os grandes trabalhos que o metal já pariu, não só no Brasil, mas no mundo.

Ouça o disco

  1. The Endless Path
  2. Over the Rainbow
  3. Close to the Secrets
  4. The Art of Changes
  5. Getaway
  6. Shadows of a Dream: I. Cold Fever
  7. Winding Star
  8. Unfolding Memories
  9. Massacre, Pt. 2: The Shining
  10. Salvation Song

Ike & Tina Turner – Workin’ Together – 1970

 

Ike & Tina Turner – Workin’ Together – 1970

Ike & Tina Turner – Workin’ Together – 1970

As origens negras do som dos Beatles acabaram ficando soterradas pelas imagens dos quatro brancos de Liverpool e por toda a revolução causada por eles. Mas, como os próprios fizeram questão de ressaltar em diversas entrevistas, sim, o rock and roll e o blues negros norte-americanos serviram como impulso inicial para que eles criassem o primeiro fenômeno pop de massa voltado para o jovem. E alguns artistas fizeram questão de “pegar de volta” as referências e regravar Beatles com o molho que só a soul music tinha. Um dos mais bem-sucedidos foi a dupla Ike & Tina Turner.

Come Together chegou no início de 1970 trazendo uma versão da música que deu nome ao disco. Mas foi com Workin’ Together, lançado em novembro de 1970, que o nome da dupla alcançou o sucesso e estourou a porta do mainstream norte-americano. Nesse disco, duas músicas da dupla Lennon-McCartney aparecem: “Get Back” e “Let it Be”.

A ideia do álbum era dar uma passada pelo rock contemporâneo explorando todas as possibilidades da interpretação de Tina – e ela se mostra dessas Intérpretes (com “I” maiúsculo mesmo) capazes de nos fazer esquecer a canção original. Assim como Joe Cocker fez com “With A Little Help From My Friends”, Tina pega pra si as canções de Lennon-McCartney.

Isso porque o destaque do disco nem são essas duas músicas. “Proud Mary”, de John Fogerty/Creedence Clearwater Revival, sai do rock de bailinho e vai parar em algo próximos do gospel. O mais curioso é que Ike Turner não se baseou exatamente na canção original, mas sim numa versão do grupo Checkmates Ltd. Ike pegou essa versão, acrescentou a introdução mais lenta e caprichou na produção. Vale a pena pesquisar esse outro som. Ike & Tina Turner levaram o Grammy de Melhor Performance Vocal por “Proud Mary”.

Hoje sabemos as histórias por trás do sucesso da dupla – assédio moral, traições e violência física. Tina ainda ficou com Ike nos palcos por mais 10 anos e se lançou em carreira solo em 1980 para se tornar a estrela que conhecemos até hoje. Já Ike, se recolheu ao esquecimento até sua morte, em 2007, aos 76 anos. Só artistas como Tina conseguem fabricar pérolas de tamanho quilate a partir da dor.

Ouça o disco

  1. Workin’ Together
  2. (As Long As I Can) Get You When I Want You
  3. Get Back
  4. The Way You Love Me
  5. You Can Have It
  6. Game Of Love
  7. Funkier Than A Mosquita’s Tweeter
  8. Ooh Poo Pah Doo
  9. Proud Mary
  10. Let It Be