Gostaria de começar esta resenha mencionando Rosa León, que iniciou sua carreira musical na década de 1970. Muitos se lembrarão dela com seus longos cabelos e óculos redondos, cantando canções infantis acompanhada de seu violão, canções que a tornaram muito popular na década de 1980. Mas essa era apenas uma de suas facetas. Rosa, que também compunha suas próprias canções, algumas verdadeiramente belas, ou interpretava as de outros, caracterizou-se, especialmente em seus primeiros anos, por um forte engajamento político e social. Em 1975, gravou "Al alba" (Ao Amanhecer), composta por seu amigo Luis Eduardo Aute e presenteada como "uma canção de amor". Esta bela canção possui significados e uma história muito particulares que ressaltam a verdade, frequentemente repetida, de que "a arte é liberdade", que as canções nascem e voam livres e abertas à sensibilidade, à realidade social e aos sentimentos daqueles que as ouvem, as internalizam e as fazem suas. Originalmente, para Aute, era uma canção de amor na qual ele expressava e comunicava uma dolorosa despedida ao amanhecer. Mas para Rosa, em 1975, após ter sido profundamente afetada — assim como milhares de outras pessoas — pelas execuções franquistas de 27 de setembro de 1975, ela pensou — ou talvez o sentimento tenha explodido dentro dela — que a canção poderia muito bem ser uma carta de amor escrita por qualquer um dos executados para seus entes queridos na véspera de sua morte. Rosa atribuiu simbolicamente esse sentimento e identificação à canção "Al alba" (Ao Amanhecer), transformando-a em um apelo comovente contra a pena de morte. Seus versos evocavam presságios sombrios e deixavam uma sensação de frieza interior, e a cantora deu-lhe sua própria interpretação, mais alinhada com o que Aute, consciente ou inconscientemente, pretendia escrever. E é verdade que toda a letra de "Al alba" está repleta de símbolos, de imagens que nos conduzem a uma mensagem final, escondida por trás de uma bela canção de amor. Seja como for, quando Rosa León cantou "Al Alba" em seus concertos, dedicou-a corajosamente aos condenados à morte, apresentando-a como "os últimos pensamentos ou a última carta que qualquer um dos executados poderia ter escrito". A canção escapou à censura franquista graças à visão limitada das autoridades, já que Aute submeteu várias canções para avaliação. Entre essas canções, a maioria era bastante explícita em sua crítica ao regime, e "Al Alba" foi vista como uma simples e inofensiva canção de amor. Acabou se tornando um hino de protesto e esperança para a nova era democrática na Espanha.
Em 1978, Luis Eduardo Aute incluiu sua canção no álbum "Albanta", produzido por Teddy Bautista. Ele interpretou a música de forma original, dando-lhe um toque diferente, como se vê neste vídeo de 1983, no qual se apresenta com o grupo folk-rock Suburbano, que foi sua banda de apoio por muitos anos. Falar de Luis Eduardo Aute é falar de uma figura cultural essencial em nosso país, que, além da música, explorou a pintura, a escultura, o cinema, a poesia e qualquer outra expressão artística que lhe viesse à mente, pois gostava de ser "pau para toda obra, mestre em nada". Era um homem tão sensível quanto sincero, o que transparecia em seu olhar, que eu tanto amava quanto sua voz. Talvez sem querer, Aute possuía um certo charme.

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