quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Disco Imortal: Molotov – ¿Dónde jugarán las niñas? (1997)


Disco Inmortal: Molotov – ¿Dónde jugarán las niñas? (1997)

Universal Music, 1997

Hoje parece normal ouvir músicas em que um governo e suas autoridades são criticados. Hoje as bandas fazem isso em todos os níveis, tanto de forma independente quanto sob os auspícios de uma grande gravadora, mas há 20 anos esse era um desafio maior, principalmente na América Latina. Porém, teve uma banda do nosso lado que se arriscou, tirando a merda do governo mexicano e usando os microfones para convocar a rebelião. Era 1997, Molotov eram "Micky" Huidobro, Tito Fuentes, Randy Ebright e Jay de la Cueva, que lançaram seu primeiro álbum "Where will the girls play?", que os levou a ser nomeados para "Melhor Álbum de Rock Latino Alternativo" . » no Grammy Latino de 1998. A obtenção do sucesso na primeira tentativa de gravação os colocou na feliz situação de semear um caminho que na América Latina foi silencioso,

Produzido pelo prolífico Gustavo Santaolalla, o criador de ter levado o som do Molotov para terras mais latinas ao amalgamar o som do baixo, junto com Anibal Kerpel conseguiram fundir o rock com o rap, hip-hop e funk de uma forma muito interessante . Mas o que tornava esse material transcendente eram as letras, que seguiam a estrutura das incorretas bandas espanholas do início dos anos 80, mas por uma geração a MTV teve que se nutrir, além disso, de uma densa camada de funk metal para atingir a massividade. .

Várias canções marcaram a história de sucesso deste trabalho. "Gimme the Power" criticou duramente os políticos do PRI (partido político mexicano) que estava no poder na época; Embora tenha tirado a foto do reality mexicano, na América do Sul o "Viva México, safados!" como se estivessem cantando para seu próprio povo. Essa questão ultrapassou fronteiras e conseguiu ser comum em diversos protestos na região. O riff de dois baixos que abre "Que no te haga bobo Jacobo" explodiu nossas cabeças e seu ritmo diabólico exalava fúria. "Molotov Cocktail Party" é puro hip hop dos anos 90, com um ar do que os Beastie Boys faziam. "Voto Latino" é uma proclamação antirracista na qual o grupo expressa com alegria seu desprezo; Destaca-se o uso de instrumentação folk latino-americana, com muita percussão. A irreverência ficou mais clara em “Chinga tu madre”, uma música que, musicalmente, nada mais é do que uma jamming, mas é um bom exemplo de que a provocação pode sustentar uma canção através de linhas vocais ousadas. Mais interessante é o subestimado “Más vale cholo”, que tem um desenvolvimento narrativo muito bem conseguido e em sintonia com a sala “Pedro Navaja”. Um hip hop cheio de força traz “Use or Lose It”, uma música subestimada e na qual Molotov mostra talento composicional; É bastante ambicioso mas destaca-se pela elegante linha de baixo que termina num riff simples mas de qualidade. que tem um desenvolvimento narrativo muito bem conseguido e em sintonia com a sala «Pedro Navaja». Um hip hop cheio de força traz “Use or Lose It”, uma música subestimada e na qual Molotov mostra talento composicional; É bastante ambicioso mas destaca-se pela elegante linha de baixo que termina num riff simples mas de qualidade. que tem um desenvolvimento narrativo muito bem conseguido e em sintonia com a sala «Pedro Navaja». Um hip hop cheio de força traz “Use or Lose It”, uma música subestimada e na qual Molotov mostra talento composicional; É bastante ambicioso mas destaca-se pela elegante linha de baixo que termina num riff simples mas de qualidade.


"Puto" é um dos hinos históricos deixados por esta criação de 1997. Considerado um insulto pela comunidade homossexual, na verdade se referia a uma pessoa de "más vibrações" e "toda aquela mentalidade machista" como eles mesmos disseram mais tarde; Destaca-se por ter linhas muito simples, mas o refrão arremata tudo. "Cerdo" é uma mistura muito interessante de funk e disco mas com letras sem sentido, enquanto o fechamento do álbum começa com um riff que parece vir da guitarra de The Edge. "Quítate que masturbas (perra arrabalera)" é uma brutalidade Rapcore com letras muito sexualmente explícitas que os chamou de banda misógina, tanto que o próprio Santaolalla teve que argumentar que era uma paródia da mentalidade machista latina; você tem que considerar que a geração MTV respondeu bem a esse tipo de fraseado limítrofe,

A capa de "Where Will the Girls Play?" Foi outro ponto que ajudou a internacionalizar o álbum. Obra do estilista Víctor Covarrubias, a imagem retratava o corpo de uma jovem de uniforme escolar e calça na altura do joelho, foto que repercutiu e colocou a banda na mira do público, com o apelido de ousada e complicada. Houve até gravadoras que se recusaram a vender o disco e os próprios músicos tiveram que sair às ruas para oferecê-lo.


O som de "Onde as meninas vão brincar?" era o lógico para 1997. Rap, hip hop, funk, nu metal e rock latino, misturados com muita desenvoltura e com letras provocativas ao microfone embora, ao longo dos anos, essa autoconfiança tenha sido entendida como um simples bem tocado jogos; Nunca foi intenção de Molotov encarar sua proposta com uma parcela de ideologia, mas sim gritar muito, como faria alguém em uma festa com muita bebida. Apesar do cenário aparentemente complicado, o sucesso do álbum superou todas as expectativas, recebendo críticas favoráveis ​​do The New York Times, Rolling Stone e outros.

Este álbum mudou a forma de fazer rock no México ou na América do Sul? Talvez esteja dando pontos demais, mas abriu caminho na nossa linguagem, bem na época em que Rage Against the Machine era um bom exemplo a ser seguido. O "Onde as meninas vão brincar?" É muito bem produzido e era preciso fazer barulho no rádio, abrir o debate, aumentar o volume e criar espaços para o retrato da realidade latino-americana.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

“Arise” (Roadrunner Records, 1991), Sepultura

 


Na virada dos anos 1980 para os anos 1990, o Sepultura surpreendia o mundo com o seu terceiro e elogiado álbum de estúdio Beneath The Remains, lançado em 1989. Era o primeiro álbum da banda lançado através da gravadora americana Roadrunner Records, responsável por abrir as portas do Sepultura para a carreira internacional. O álbum causou um grande impacto no cenário mundial do heavy metal, dominado por artistas americanos e europeus, que ficaram perplexo pelo fato daquele quarteto ter saído do Brasil, o lugar que para eles, era o mais improvável para sair uma banda de heavy metal.

A perplexidade dos “gringos” era compreensível, afinal, sempre viram o Brasil como o país do samba, futebol e Carnaval. Soma-se a isso, a própria o desinteresse da maioria dos estrangeiros em saber da diversidade musical do Brasil que vai muito além do samba. Por outro lado, apesar da ascensão do Sepultura na carreira internacional, no Brasil, a banda originária em Minas Gerais tinha pouquíssima visibilidade. A não ser os fãs de heavy metal, ninguém no país conhecia o quarteto mineiro. Mas essa situação iria mudar com o quarto álbum de estúdio do grupo, o aclamadíssimo Arise, que tornaria o Sepultura mais conhecido no seu país natal e colocaria a banda entre os grandes do cenário do heavy metal internacional.

O sucesso de público e de crítica de Beneath The Remains motivou a Roadrunner Records tornar o Sepultura uma prioridade. Para a gravação do próximo álbum da banda brasileira, a Roadrunner bancou US$ 40 mil. As gravações de Arise ocorreram no Morrisound Studio, em Tampa, na Flórida, e repetiu a dobradinha que produziu Beneath The Remains, com o produtor americano Scott Burns e o Sepultura na coprodução.

Sepultura em 1989, da esquerda para a direita: Andreas Kisser,
Max Cavalera, Paulo Jr. e Igor Cavalera.

A arte da capa foi concebida pelo pintor e ilustrador americano Michael Whelan, artista com experiência em ilustrar capas de livros e de discos, como a do álbum Victory (1984), dos Jacksons.

Arise segue uma mesma linha estilística de Beneath The Remains, apoiada no thrash metal e no death metal. No entanto, embora possua a velocidade alucinante do álbum anterior, Arise consegue conciliar essa característica com uma certa cadência rítmica na maioria das faixas. O álbum apresenta sinais de experimentalismo, que envolve uma aproximação do Sepultura com a música industrial e o emprego da percussão, revelando que a banda estaria passando por um processo de redirecionamento musical. Em Arise, a sonoridade do Sepultura se mostra mais madura e mais coesa do que nos seus álbuns anteriores.

Uma curiosidade nas gravações de Arise, é que Max Cavalera, então vocalista e guitarrista rítmico do Sepultura, convidou Henrique Portugal, tecladista da banda Skank, para tocar sintetizador no álbum. O Skank que estava na época em começo de carreira e fazia parte da cena alternativa da música de Belo Horizonte, mesma cidade onde surgiu o Sepultura.

O álbum começa com uma espécie de tambor acompanhando de um som que parece de programações eletrônicas - provavelmente executadas por Henrique Portugal - que juntos, criam um clima de tensão que abre a faixa-título. Logo em seguida, o ouvinte é surpreendido pelo som poderoso e pesado do Sepultura. A ferocidade da bateria de Igor Cavalera contrasta com os solos de guitarra afiados e técnicos de Andreas Kisser. Enquanto isso, Max Cavalera despeja com sua voz gutural, versos que falam de guerra, terrorismo e dominação religiosa.

Cena do videoclipe da faixa "Arise", filmado no deserto de Mojave,
sudoeste dos Estados Unidos. O videoclipe foi censurado pela MTV americana
por mostrar um Jesus Cristo crucificado usando uma máscara de gás.

Na faixa seguinte, “Dead Embryonic Cells”, o Sepultura trata sobre uma suposta doença criada pelos grandes laboratórios para infectar a humanidade e obter altos lucros. A música possui levadas rítmicas variadas, alternando andamentos rápidos com os lentos. Kisser mais uma vez, mostra o seu talento brilhante como guitarrista, fazendo solos fantásticos com seu instrumento. As variações de andamento rítmico prosseguem em “Desperate Cry”, música cuja letra versa sobre dor, morte e desespero: “Death the coldest wind / Seeps into your pores” (“A morte é o vento mais frio / Vaza dentro dos seus poros”).

Com uma sonoridade veloz e violenta, a faixa “Murder” trata sobre a violência, a banalização da morte e as contradições humanas: “Same hand that builds destroys / Same hand that relieves betrays / Same hand that seeds burns / Same peace that exists here lies” (“Mesma mão que constrói destrói / Mesma mão que alivia trai / Mesma mão que semeia queima / A mesma paz que existe aqui jaz”). A visão desesperançosa da banda sobre o mundo prossegue em na faixa seguinte, “Substraction”.

Sanidade mental e o estado emocional das pessoas são temas de “Altered State”, música que  possui uma base instrumental muito bem construída e que mostra o perfeito entrosamento entre os integrantes do Sepultura, que criam uma sucessão de variedades de andamentos rítmicos. Os versos de “Under Siege (Regnum Irae)”, traz nos seus versos os conflitos religiosos e os absurdos que os seres humanos são capazes de cometer em nome da fé.

“Meaningless Moviments” não tem nada de tão especial, mas mantém o ritmo pesado e agressivo do álbum em alta. O álbum encerra com “Infected Voice”, um thrash metal massacrante e veloz que trata sobre o medo. Contudo, nas edições brasileira, europeia e japonesa de Arise, foi incluído um cover de “Orgasmatron”, um dos grandes clássicos do Motörhead.

Embora Arise tivesse a sua data de lançamento programada para março de 1991, a Roadrunner Records decidiu lançar às pressas, dois meses antes, em janeiro daquele ano, cinco mil cópias de uma edição especial pré-mixada do álbum. O motivo da antecipação foi que naquele mês de janeiro de 1991, o Sepultura era uma das atrações do Rock in Rio 2, no Rio de Janeiro, um dos mais importantes festivais de rock do mundo. A ideia da gravadora era impulsionar a banda no seu próprio país de origem, onde ainda era pouco conhecida. O festival de grandes proporções, com algumas das maiores estrelas da música mundial, era bastante oportuna.

Andreas Kisser em show do Sepultura no Rock in Rio 2,
no Maracanã, janeiro de 1991.

Lançado oficialmente em 25 de março de 1991, Arise recebeu avaliações positivas por parte da imprensa musical. Revistas especializadas como as britânicas Kerrang! e Metal Forces, teceram elogios. A também britânica, Melody Maker, ressaltou a possibilidade do Sepultura se tornar maior que o Slayer.

Dois meses após o lançamento do álbum, o Sepultura fez uma apresentação gratuita na Praça Charles Miller, em São Paulo. A Polícia Militar esperava um público de 10 mil pessoas, mas compareceram ao local 40 mil. Lamentavelmente, o show foi marcado por brigas na multidão, que resultaram algumas pessoas baleadas e um rapaz assassinado.

As vendas de Arise foram excelentes para o Sepultura, e principalmente em se tratando de uma banda de rock brasileira trilhando carreira internacional. Em dois anos, o álbum vendeu 1 milhão de cópias em todo o mundo. No Reino Unido, Arise alcançou a marca de 60 mil cópias vendidas, enquanto que do outro lado mundo, na Indonésia, o quarto álbum do Sepultura vendeu 25 mil cópias. O álbum gerou três singles: “Arise”, “Dead Embryonic Cells” e “Under Siege (Regnum Irae)”. O sucesso do álbum teve também polêmica, como o videoclipe da música “Arise”, que foi censurado pela MTV americana por mostrar Jesus Cristo crucificado com uma máscara de gás.

Para promover o álbum Arise, o Sepultura fez uma longa turnê iniciada em maio de 1991, e que durou pouco mais de um ano. A turnê circulou entre a América do Norte, América do Sul, Europa, Ásia e Oceania, passou por 39 países e teve 220 apresentações.

Após Arise, o Sepultura deixou de ser aos olhos da crítica especializada internacional uma mera atração “exótica”, uma promessa, para ser uma realidade, uma banda com capacidade para estar em pé de igualdade com as mais importantes bandas de thrash metal do mundo. Os sinais de mudança que o quarto álbum do Sepultura apontava, iriam nortear os trabalhos posteriores como Chaos A.D (1993) e Roots (1996), que dariam um novo rumo ao heavy metal alternativo e influenciariam uma nova geração de bandas do gênero mundo a fora. E justamente em Arise que reside o ponto de partida que deu início a esse processo.

Faixas

Lado 1

  1. Arise (Max Cavalera)
  2. Dead Embryonic Cells (Max Cavalera)   
  3. Desperate Cry  (Andreas Kisser)
  4. Murder (Max Cavalera)
  5. Subtraction (Andreas Kisser)   

Lado 2

  1. Altered State (Andreas Kisser) 
  2. Under Siege (Regnum Irae) (Max Cavalera) 
  3. Meaningless Movements (Andreas Kisser)   
  4. Infected Voice (Andreas Kisser)                

Faixa bônus na versão CD: “Orgasmatron” (Würzel, Phil Campbell, Pete Gill e Lemmy Kilmister) (edição brasileira, europeia e japonesa) 

Sepultura: Max Cavalera (voz e guitarra base), Andreas Kisser (guitarra solo e vocal de apoio), Paulo Jr. (baixo) e Igor Cavalera (bateria).


Ouça na íntegra o álbum Arise
(mais faixas bônus: 
"Orgasmatron"
(Motörhead cover),
"Intro/Criminals In Uniform",
"Desperate Cry" (Scott Burns Mix)


"Arise" (videoclipe original)


"Dead Embryonic Cells"
(videoclipe original)

“Afrociberdelia” (Chaos/Sony Music, 1996), Chico Science & Nação Zumbi

 


Os pernambucanos da banda Chico Science & Nação Zumbi desfrutavam de prestígio graças ao aclamadíssimo álbum de estreia Da Lama Ao Caos, lançado em 1994. O disco conquistou a opinião da crítica e surpreendeu o público, que comprou 100 mil cópias do álbum. Da Lama Ao Caos abriu portas e atravessou fronteiras. Em 1995, Chico Science & Nação Zumbi levaram a nova música pernambucana para fora do Brasil através da turnê intitulada From Mud To Chaos (Da Lama Ao Caos em inglês), que passou pela Alemanha, Suíça, Holanda, Bélgica e Estados Unidos.

Na Suíça, os pernambucanos se apresentaram no legendário Festival de Montreaux. A passagem de Chico Science & Nação Zumbi pelos Estados Unidos incluiu apresentação no CBGB, em Nova York, “templo sagrado” do punk nova-iorquino que revelou Ramones, Blondie, Talking Heads e Television.

Após deixarem uma ótima impressão no exterior, Chico Science & Nação Zumbi retornaram para o Brasil com a moral lá em cima. Foram escalados para se apresentarem na 8ª e última edição do Festival Hollywood Rock, com shows em São Paulo e Rio de Janeiro. A band pernambucana tocou nos mesmos dias em que estavam escalados Cidade Negra, Steel Pulse, Aswad e Gilberto Gil, em janeiro de 1996.

Àquelas alturas, Chico Science & Nação Zumbi já estavam em processo de gravação do segundo álbum de estúdio, iniciado em dezembro de 1995, no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. A turnê internacional do álbum Da Lama Ao Caos ampliou o leque de referências musicais da banda pernambucana, a partir dos contatos que o grupo teve com artistas estrangeiros e discos adquiridos no exterior. Para a produção do novo álbum, apostaram num produtor em início de carreira, Eduardo Bid. Era o primeiro álbum que Bid estava produzindo na sua carreira. Para o seu segundo álbum de estúdio, Chico Science & Nação Zumbi buscavam trazer para o estúdio a crueza, o peso e a vibração que a banda promovia no palco, algo que não havia conseguido em Da Lama Ao Caos, embora fosse um trabalho muito bem produzido pelo consagrado Liminha.

CSNZ, o produtor Eduardo Bid (de óculos escuros e braços cruzados) e o técnico de
som G-Spot (camisa preta), no estúdio durante as gravações de Afrociberdelia.

Batizado de Afrociberdelia, o segundo álbum da banda Chico Science & Nação Zumbi foi lançado em 15 de maio de 1996. O curioso título do álbum é um neologismo que deriva da junção das palavras afro, ciberderdelia e psicodelia, ou seja, o disco propõe uma fusão de referências de ritmos africanos, música eletrônica e rock psicodélico. É bem verdade que a palavra afrociberdelia já estava presente no título da última faixa do álbum Da Lama Ao Caos, “Coco Dub (Afrociberdelia)”. Se por um lado, Chico Science é a grande estrela do álbum, merecem destaque também as performances do guitarrista Lúcio Maia, do baixista Alexandre Dengue, e do núcleo percussivo da banda.

“Mateus Enter” é uma faixa curta, uma espécie de vinheta introdutória para a audição do álbum, em que Chico Science canta a plenos pulmões versos que anunciam a banda, sob uma base rítmica pesada. “O Cidadão do Mundo” traz na sua base instrumental uma interessante alternância rítmica entre uma batida eletrônica, rap e ritmos nordestinos. O vocalista Chico Science ora canta, ora declama os versos como numa embolada, um estilo musical muito popular no nordeste brasileiro em que os cantadores, acompanhados de pandeiro, entoam versos improvisados de maneira tão rápida que as palavras soam quase que “emboladas” para quem ouve, daí o nome dado ao estilo.

A miscigenação brasileira é o tema de “Etnia”: “Somos todos juntos uma miscigenação / E não podemos fugir da nossa etnia / Índios, brancos, negros e mestiços / Nada de errado em seus princípios”. “Quilombo Groove” é uma faixa instrumental que começa com uma batida percussiva que remete à música dos terreiros de candomblé, e que gradativamente, a música muda o seu ritmo direcionando-se para um rock lento, pesado e experimental. Em “Macô”, Chico Science & Nação Zumbi contam com a ilustre participação especial de Gilberto Gil fazendo dueto com Chico nos vocais, e Marcelo D2 nos vocais de apoio. “Macô” é uma das melhores faixas de Afrociberdelia, e contém uma base funk com uma linha de baixo hipnótica e uma percussão arrasadora. 

Gilberto Gil e Chico Science no estúdio, em 1996: dueto na faixa "Macô".

Em “Passeio No Mundo Livre”, um misto de funk e manguebeat, Chico canta a liberdade de ir e vir, de andar onde quiser e quando quiser: “Eu só quero andar nas ruas do Brasil / Andar com o mundo livre / Sem ter sociedade / Andando pelo mundo / E todas as cidades / Andar com os meus amigos”. Com participação de Fred Zero Quatro (vocalista da banda Mundo Livre S/A) tocando cavaquinho, “Samba de Lado” possui uma contagiante comunhão entre a base rítmica empregada pela Nação Zumbi e o canto sincopado de Chico Science.

Composta por Jorge Mautner e Nelson Jacobina, “Maracatu Atômico” foi gravada pelo próprio Mautner em 1974, porém gravada um ano antes por Gilberto Gil, cuja versão ficou mais conhecida do que a do autor. Mas 22 anos depois, “Maracatu Atômico” ganhou uma versão definitiva com Chico Science & Nação Zumbi, e que foi a primeira música de trabalho de Afrociberdelia e um grande sucesso na carreira da banda pernambucana. Na curta e experimental “O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu”, Chico Science & Nação Zumbi promovem o encontro da psicodelia com o manguebeat. “Corpo de Lama” leva o ouvinte a refletir que, independentemente das diferenças econômicas, culturais, religiosas ou políticas, sempre vai existir alguém como a gente em algum lugar deste mundo. Na sequência, “Sobremesa”, uma música que começa com versos em inglês e depois prossegue em português em que Chico Science declama versos surreais que mais parecem descrever alguma pintura de Salvador Dali ou de René Magritte.

“Manguetown” foi outra faixa de Afrociberdelia que se destacou e virou hit de Chico Science & Nação Zumbi. O título faz referência ao Recife, cidade-natal da banda, e traz aspectos da desigualdade social da capital pernambucana. A letra registra a vida dura e sofrida de um jovem pobre, que encontra nas saídas noturnas para beber com os amigos, uma forma de aplacar aquela vida miserável e sem perspectivas. “Um Satélite na Cabeça” faz em seu título alusão à figura do mangueboy conectado ao mundo, mesmo sem sair do meio social em que vive. A letra seria uma crítica aos grandes meios de comunicação, que segundo a banda, não dariam visibilidade ao povo que habita a lama, nesse caso, os miseráveis que moram nos manguezais da cidade do Recife nas condições mais precárias.

Ocupação irregular em áreas de mangue no Recife, em 2018. A desigualdade social
na capital pernambucana é o tema central da faixa "Manguetown".

“Baião Ambiental” é mais uma faixa instrumental presente em Afrociberdelia. É uma das músicas mais interessantes do álbum. Apesar de ser um baião, a música não possui a tradicional sanfona, apenas zabumba, triângulo e um agogô, acompanhado de uma linha de baixo irresistível. Ao final, há inserções de piano que dão um toque especial à faixa. “Sangue de Bairro”, música incluída na trilha sonora do filme Baile Perfumado (1996), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, traz uma fusão incrível de hardcore, embolada e xaxado.

Em meados dos anos 1990, a cidade do Recife foi tachada de “4ª pior cidade do mundo para se viver”. Talvez baseados nesse triste título, Chico Science e seus companheiros compuseram “Enquanto O Mundo Explode”, uma música que traça um retrato do atraso sócio-econômico do Recife naquele momento, e que na visão da banda, não conseguia acompanhar os avanços tecnológicos e sociais que ocorriam no mundo, o que justifica o título da música.

A curta “Interlude Zumbi” faz referência Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, no século XVIII. “Criança de Domingo” é mais um cover presente no álbum, música da banda paulistana Funziona Senza Vapore, formada por ex-integrantes da Fellini, antológica banda da cena alternativa de São Paulo, da qual, Chico Science era um fã confesso. Única música de temática romântica do álbum, “Amor de Muito” é uma deliciosa mistura de salsa e manguebeat.

Afrociberdelia encerra com “Samidarish”, uma música em que na sua primeira metade é instrumental, que é seguida por um completo silêncio levando o ouvinte a achar que o álbum acabou. Mas após a pausa, acordes de teclado dão início à segunda parte da música, desta vez com vozes declamando versos, em que no final, Chico canta lentamente o verso “Quem mandou você falar de mim?”, acompanhado de uma bateria arrastada e reverberada, e de teclados criando um clima intimista. 

Chico Science & Nação Zumbi em foto de divulgação para Afrociberdelia em 1996.

O lançamento de Afrociberdelia foi seguido pela segunda turnê internacional de Chico Science & Nação Zumbi. A nova turnê internacional passou por alguns países da Europa (Suíça, Bélgica, França, Alemanha, Dinamarca, Holanda e Áustria) e pelos Estado Unidos. Na Bélgica, tocaram em festival do qual participaram também gente do quilate de Coolio, Beck, Ministry e Young Gods, enquanto que na Áustria, participaram de eventos ao lado de Nick Cave e Pogues. Na Suíça, participaram pela segunda vez do Festival de Montreaux, juntamente com os Paralamas do Sucesso.

A segunda turnê internacional de Chico Science & Nação Zumbi foi vitoriosa. Enquanto isso, Afrociberdelia teve um bom desempenho comercial, ao alcançar a marca de 100 mil cópias vendidas, e ter conquistado o disco de ouro, o segundo de Chico Science & Nação Zumbi. Os videoclipes de “Maracatu Atômico” e “Manguetown” eram exibidos com frequência na MTV Brasil. O futuro parecia se mostrar promissor para a banda pernambucana, não fosse um fato trágico que mudaria a carreira daquele grupo.

Na noite de 2 de fevereiro de1997, Chico Science morreu num acidente de carro numa estrada entre Recife e Olinda. Um veículo teria fechado o carro que Chico dirigia. O cantor perdeu o controle do carro e chocou-se violentamente contra um poste, vindo a perder a vida aos 30 anos de idade. A morte de Chico Science causou grande comoção no cenário musical brasileiro.

Em 1998, foi lançado o álbum duplo CSNZ, uma compilação em homenagem a Chico Science, e que traz faixas inéditas, músicas ao vivo, covers e versões remixes. Na então inédita “Malugo”, dedicada à memória de Chico Science, a Nação Zumbi conta com participações especiais de Jorge Ben Jor, Fred Zero Quatro, Marcelo Falcão e Marcelo D2.

A partir do álbum Rádio S.Amb.A.(2000), primeiro álbum de inéditas da Nação Zumbi após a morte de Chico Science, Jorge dü Peixe, que antes tocava alfaia (uma espécie de tambor), assumiu oficialmente os vocais da Nação Zumbi.

Faixas

  1. "Mateus Enter" (Chico Science & Nação Zumbi)     
  2. "O Cidadão do Mundo" (Chico Science & Nação Zumbi, Eduardo Bidlovski)        
  3. "Etnia" (Chico Science - Lúcio Maia)
  4. "Quilombo Groove" (instrumental) (Chico Science & Nação Zumbi)         
  5. "Macô" (Chico Science - Eduardo Bidlovski - Jorge dü Peixe)         
  6. "Um Passeio no Mundo Livre" (Dengue – Gira - Jorge dü Peixe - Lúcio Maia – Pupilo)
  7. "Samba do Lado" (Chico Science & Nação Zumbi)  
  8. "Maracatu Atômico" (Jorge Mautner - Nélson Jacobina)   
  9. "O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu" (H. D. Mabuse - Jorge dü Peixe) 
  10. "Corpo de Lama" (Chico Science - Jorge dü Peixe – Dengue – Gira - Lúcio Maia)  
  11. "Sobremesa" (Chico Science - Jorge dü Peixe - Renato L. - Chico Science & Nação Zumbi )
  12. "Manguetown"  (Dengue - Lúcio Maia)       
  13. "Um Satélite na Cabeça (Bitnik Generation)" (Chico Science & Nação Zumbi)      
  14. "Baião Ambiental" (instrumental) (Dengue – Gira - Lúcio Maia)    
  15. "Sangue de Bairro" (Chico Science – Ortinho - Chico Science & Nação Zumbi)     
  16. "Enquanto o Mundo Explode" (Chico Science & Nação Zumbi)     
  17. "Interlude Zumbi" (Gilmar Bolla 8 – Gira - Toca Ogam)      
  18. "Criança de Domingo" (Cadão Volpato - Ricardo Salvagni)              
  19. "Amor de Muito" (Chico Science & Nação Zumbi)  
  20. "Samidarish" (instrumental) (Dengue - Lúcio Maia)


Chico Science & Nação Zumbi: Chico Science (voz), Alexandre Dengue (baixo), Gilmar Bolla 8 (alfaia), Gira (alfaia), Jorge dü Peixe (alfaia), Lúcio Maia (guitarra, violão de 12 cordas em "Criança de Domingo"), Pupilo (bateria), Toca Ogam (percussão e voz). 


Ouça na íntegra o álbum Afrociberdelia


"Maracatu Atômico"
(videoclipe oficial)

Yuya Uchida e o Flower Travellin’ Band

 

Nascido em 1939 na cidade portuária japonesa de Kobo, aos 16 anos de idade o jovem Yuya Uchida teve uma revelação: numa sessão de cinema, ele assistiu a Sementes da Violência e, como para outros milhões de Raul Seixas espalhados pelo mundo, o rock’n’roll passou a ser uma religião e Elvis Presley seu principal profeta.

Daí a abandonar os estudos e formar sua primeira banda foi só uma questão de tempo, bem pouco tempo por sinal. Em 1957, Yuya formou sua primeira banda, os Blue Caps, e foi pulando de banda em banda durante a virada dos anos sessenta, gravando inclusive uma série de versões japonesas das canções de Elvis como membro da banda Takeshi Terauchi and the Bluejeans.

Em 1964, outra revelação: um amigo o apresentou aos Beatles. A partir daí Elvis já era, substituído em seu coração por John, Paul, George e Ringo.

Obcecado pela beatlemania, Uchida teve a idéia de aproveitar a vinda dos Beatles ao Japão em 1966 para gravar uma música chamada “Welcome Beatles”. Para isso ele precisava achar uma nova banda e descobriu The Funnies, um desconhecido combo da cidade de Kyoto. O problema é que o grupo não aceitou dispensar seu cantor para se tornar a banda de apoio de Yuya, preferindo continuar como estava (o que não foi uma péssima idéia, uma vez que logo mais eles estourariam em todo o país como The Tigers). Desiludido, nosso samurai pegou a espada e se mandou para a Europa.

Em Londres, o agora hippie Yuya aproveitou para ver e ouvir de tudo, de Hendrix a Who, passando por Zeppelin, Misunderstood e toda a cena psicodélica inglesa. Depois de viver por um tempo também em Paris, Uchida volta para o Japão trazendo muitas ideias novas e, principalmente, a convicção de que o inglês é a língua perfeita para se cantar rock, seja em Tóquio ou em qualquer lugar do mundo.


REGADO A EXPERIMENTALISMO

Tocar em um conjunto de rock e pertencer ao intrépido mundo dos GS (Group Sounds) japoneses da segunda metade dos anos 60 significava usar roupinhas fashion, cortar o cabelo na crista da onda, aparecer nos programas de TV (sempre com um cantor bonitinho monopolizando os closes das câmeras) e participar de campanhas publicitárias para os produtos dos grandes anunciantes. Nada diferente do que foi a Jovem Guarda por aqui, mas com um detalhe fundamental: menina não entrava. Era um clube do Bolinha absolutamente fechado ao sexo frágil.

Yuya Uchida voltou ao Japão disposto a bagunçar esse status quo. Para começar ele queria que o seu novo grupo, que passou a formar arregimentando bons músicos descontentes com a cena local, atuasse em várias frentes. Ele não pensava apenas em gravar discos, mas também em participar de projetos para o cinema, teatro e happenings multimídias.

Um dos primeiros a se entusiasmar com as ideias de Yuya foi o compositor de formação clássica Toshi Ichiyanagi, ex-marido de Yoko Ono, que andava meio contaminado pela psicodelia da época e envolvido no projeto de uma ópera que misturava orquestra sinfônica e banda de rock, baseada nas obras do pintor Tadanori Yoko’o. Na realidade, Toshi ficou tão entusiasmado com Uchida que encomendou uma música a ele com as seguintes exigências: que tivesse 30 minutos e que fosse inspirada num quadro de Tadanori chamado I’m Dead.

Nesse meio tempo, Yuya já tinha formado sua banda, The Flowers, com Hiroshi Chiba nos vocais, Hideki Ishima e Katsuhiko Kobayashi nas guitarras, Ken Hashimoto no baixo e Joji “George” Wada na bateria. A cereja do bolo foi a contratação da cantora Remi Aso, uma espécie de Janis Joplin de olhos puxados, que andava tão desiludida com o machismo dos GS a ponto de abandonar tudo para se casar e levar uma pacata vida de dona-de-casa, coisa que acabou adiando para ser uma Flowers.

From Pussies to Death in 10.000 Years of Freakout

Com essa formação e com Uchida e Tadanori dividindo a mesa de 16 canais dos estúdios da NKH Radio, a banda gravou esse que é considerado um dos grandes épicos psicodélicos da terra do sol nascente, uma imersão total em 10.000 anos de lisergia japonesa. Com 27 minutos de duração e dividida em duas partes, “I’m Dead” ficou anos relegada à fita master, ganhando status de mito. Acabou sendo lançada na íntegra poucos anos atrás num disco pirata chamado From Pussies to Death in 10.000 Years of Freakout.

O mais positivo dessa gravação foi a certeza de Yuya de que tinha realmente uma banda para gravar um LP.


TODO MUNDO NU

Challenge, o LP de estréia de Yuya Uchida and the Flowers, lançado em 1969 pelo selo Synton, foi muito mais um anti-climax do que o tão aguardado estopim da revolução prometida por Uchida.

O problema é que Yuya agora, como líder e responsável pela banda, tinha que pagar seus músicos. Para isso ele teve que compartilhar a gravação do LP com apresentações em clubes, dividindo o palco e as atenções justamente com as bandas que ele veio para destruir.

Sem tempo de compor novas músicas, o grupo teve que apelar para os covers, o mesmo artifício de seus rivais, e acabou por não trazer nada de novo ao cenário GS.

Challenge

Com uma única composição própria, a instrumental “Okotono o Toco”, Challenge veio à luz com covers dos Big Brother and Holding Co, Cream, Hendrix e Jefferson Airplane. Na verdade, o álbum chamou atenção menos pela música e muito mais por uma genial jogada de marketing de Yuya, que colocou toda a banda nua na capa do LP, a cantora Remi Aso inclusive.

Com as fracas vendas de Challenge e a repercussão apenas morna das apresentações do grupo, era de se esperar que Yuya perdesse o interesse e resolvesse mexer alguns pauzinhos.


VALE QUANTO PESA

Muita coisa nova estava passando pela cabeça de Yuya na virada dos anos setenta. Pra começar, seus ouvidos andavam cada vez mais atentos à fornada de novas bandas inglesas com uma pegada mais pesada, como Led Zeppelin e Black Sabbath. Uma bateria, um baixo e uma guitarra produzindo volume para um bom cantor era mais do que o suficiente para o tipo de som que ele tinha em mente. Ele mesmo estava praticamente convencido de que o seu lugar na banda era muito mais o de agitador, mentor e produtor e menos o de cantor ou guitarrista.

Nessa época, todo o underground hippie da cidade de Tókio andava agitado com a montagem japonesa de Hair. E foi no cast dessa peça que Yuya conheceu Akira “Joe” Yamanaka e seus longos cabelos black power. Ex-cantor da banda Four Nine Ace, Joe foi convidado por Yuya para integrar os Flowers em seu próximo show, o Rock’n’Roll Jam 70, promovido pela Toshiba Express Records  e que reuniria 4 bandas, The Mops, Happenings Four, The Golden Cups e a banda de Uchida, com a finalidade de gravar ao vivo um LP duplo, sendo um lado para cada banda.

Mais do que um festival de música, foi isso sim um festival de covers, onde a apresentação mais radical e bem recebida pelo público foi sem dúvida a dos Flowers e suas novas interpretações para canções do Zeppelin: “You Shook Me”, cantada por Joe, e a performance arrebatadora de “How Many More Times”, cantada por Remi Aso, foram o ponto alto da noite, convencendo de vez Uchida de que estava na hora de se pensar em um novo desenho para sua banda.


PROGRESSIVO MA NON TROPPO

Do septeto original, apenas o guitarrista Hideki Ishima e o baterista George Wada foram mantidos na banda, com Joe nos vocais e Yuya assumindo sua nova identidade de produtor e empresário.

Ainda sem um baixista, a nova formação dos Flowers foi convidada pela Capitol Records para servir de apoio para o álbum solo de estréia do tecladista Kuni Kawachi, do Happening Four + 1, um grupo muito influenciado por bandas do tipo Procol Harum.

Kirikyogen

O álbum, de nome Kirikyogen, caiu como uma luva para testar as novas possibilidades dos Flowers que, juntamente com o teclado a la Vincent Crane de Kuni, gravaram uma pequena obra prima do progressivo japonês.

O único a não ficar satisfeito com o resultado foi justamente Yuya, pois na sua cabeça o teclado de seu amigo Kuni apenas ocupava um espaço desnecessário ao novo som pesado que seu grupo começava a perseguir.

Seguindo agora a cartilha do hard rock e com a recente contratação de um jovem e cabeludo baixista de nome Jun Kosuki, Uchida tinha finalmente uma usina de som para botar na estrada em apresentações arrebatadoras por todo o país e gravar uma safra de álbuns antológicos. O nome dessa nova formação: Flower Travellin’ Band.


TODO MUNDO NU, MAS AGORA DE MOTO

Já com 30 anos nas costas e ainda perseguindo o sucesso, Uchida tinha pressa. E de forma irracional, se considerarmos que o novo FTB ainda não tinha absolutamente nenhuma composição própria, os músicos entraram em estúdio para gravar o disco de estréia.

Anywhere

Todo mundo esperava mais um LP de covers e foi exatamente isso que chegou ao mercado em 1970. O que ninguém esperava era a qualidade do material. Batizado de Anywhere, o álbum fazia releituras memoráveis de 4 músicas que hoje são clássicos absolutos do rock. O guitarrista Ishima, no mais puro estilo “Dr. Jeckyl and Mr. Hide”, havia tomado um elixir de decibéis e se transformado em um verdadeiro demônio da guitarra, desfilando riffs e mais riffs de puro peso sonoro. A cozinha de Wada e do novato Kosuki não ficava devendo nada aos medalhões do hard inglês e Joe cantava com alma suficiente para impor sua personalidade a canções que passaram para a posteridade na voz de ninguém menos que Muddy Waters (“Louisiana Blues”, numa versão que ocupava todo o lado A do disco), Eric Burdon (“House of the Rising Sun”, mais chorosa do que nunca), Ozzy Osbourne (“Black Sabbath”, o primeiro cover que se tem notícia da banda de Tommy Iommi) e Greg Lake (“21th Century Schizoid Man”, onde o sax e os toques jazzísticos da música original foram trocados por toneladas de heavy metal).

Na capa do LP, todos os músicos e Yuya aparecem novamente pelados, desta vez sobre motos, cruzando uma estrada deserta qualquer do Japão, no mais fiel e libertário estilo travellin’ band.


O DESABROCHAR DAS FLORES

Em 1971, os deuses finalmente começaram a conspirar a favor de Yuya. Os shows do FTB por todo o Japão eram sucesso e Ishima estava se revelando não apenas um guitarrista de ótima pegada como também um compositor de mão cheia.

Mas a grande notícia do ano veio de um velho amigo de Uchida chamado Ikuzo Orita, que estava deixando a Polydor para assumir o comando da Atlantic. Por tradição, Orita investia pesado nos grupos japoneses e queria ter o Flowers como carro chefe, uma banda capaz de rivalizar com os grandes do cast internacional da gravadora.

Nas primeiras conversas ficou estabelecido entre Yuya e Orita que o FTB seria a primeira banda a ter um álbum lançado nessa nova administração e que muito dinheiro seria investido tanto na produção e apresentação do LP como na sua promoção, no Japão e no exterior. Yuya aproveitou para expor ao amigo algumas novas ideias e uma delas seria tentar trabalhar o peso do rock com a sutileza da milenar música oriental.

Satori

Banda reunida no estúdio para planejar o novo álbum e Ishima tira da manga três temas que a banda andava trabalhando, com forte influência justamente na sonoridade oriental. Como as músicas ainda estavam sendo desenvolvidas, elas tinham como nome de trabalho Satori I, Satori II e Satori III.

Surpresos com a coincidência e totalmente animados pela força do material e a simplicidade poética das letras, Yuya e Orita não viram apenas uma luz para o novo LP, mas uma verdadeira iluminação, como se tivessem realmente atingido o Satori (a iluminação através do Zen).

Lançado ainda no ano de 1971, acondicionado numa primorosa capa ilustrada pelo artista Shinobu Ishimaru e inspirada no budismo, Satori é de longe o mais ensandecido LP de rock japonês dos anos 70 e um dos mais influentes álbuns de hard rock produzidos fora do eixo Inglaterra-Estados Unidos.


FEITO NO CANADÁ

Passadas quatro décadas do lançamento de Satori, fica fácil olhar para trás e constatar todo o gigantismo deste álbum, mas acontece que as respostas imediatas ao seu lançamento no Japão foram um tanto frustrantes. Parece que o gosto dos jovens japoneses de repente mudou e eles estavam mais folkies do que nunca, embalados pelo som dos James Taylor e Carole King da vida.

A boa nova veio do outro lado do mundo, com a banda sendo convidada para abrir os shows da próxima turnê do grupo canadense Lighthouse. Ainda nessa mesma época e também no Canadá o FTB abriu para o Emerson, Lake and Palmer e Bob Seger numa apresentação em Toronto.

Made in Japan

A camaradagem entre os Flowers e Paul Hoffert, organista e líder do Lighthouse, foi tanta que o canadense resolveu produzir o novo LP do FTB ali mesmo, no Canadá. Um álbum que ironicamente seria chamado de Made in Japan.

Como Yuya e Orita permaneceram em Tóquio, não havia ninguém para bater o pé e Paul Hoffert ficou à vontade para conduzir o som da banda para algo muito mais próximo de sua formação jazzística e conservadora. Os vocais de Joe, por exemplo, foram muito mais privilegiados do que a guitarra maluca de Ishima. A banda gravou baladas e algumas passagens acústicas, coisas impensáveis na mão de Yuya.

Ainda assim Made in Japan revelou-se um grande álbum, com pérolas irretocáveis como “Kamikase”, “Hiroshima” e “Spasm”. No fim das contas, sua sonoridade acabou sendo muito bem aceita pelos agora mais comportados fãs japoneses.


THE END

Qual um Godzila cansado de destruir Tóquio, o Flower Travellin’ Band estava perdendo o pique quando voltou ao Japão. Já dava para sentir sérias divergências de interesses entre os membros da banda, uma vez que Joe começou a inclinar-se para a soul music, enquanto Ishima estava tomando gosto pela sonoridade acústica.

Quando acendeu a luz vermelha, Uchida tratou de se mexer. Criando todo um carnaval sobre o fato da banda ter tocado e “arrasado” na América (cá entre nós, no Canadá), abrindo para o ELP e coisa e tal, ele credenciou o FTB para ser a banda de abertura no show dos Stones no Japão. Infelizmente, esse show acabou fracassando depois que as autoridades negaram o visto de trabalho a Mick Jagger por seu envolvimento com drogas.

O jeito foi inventar um disco ao vivo e planejaram com a Atlantic de Orita o lançamento de um álbum duplo que seria gravado durante um show nas montanhas, a uma hora de Tóquio, no dia 16 de setembro de 1972.

Quando chegou o dia, com ele chegou um tremendo dilúvio e o show só não foi cancelado porque já havia alguns milhares de fãs lotando o local. E foram esses privilegiados que acabaram assistindo ao último grande concerto dos Flowers.

Make Up

Tudo perfeito, menos o fato de que a chuva acabou atrapalhando o posicionamento do caminhão com o estúdio móvel. Assim que Yuya ouviu a gravação do show pôde constatar que boa parte do som estava arruinado. O que se salvou teve que ser misturado com sobras de estúdio para completar o álbum duplo, resultando num tremendo pastiche: a música “Kamikase”, por exemplo, virou uma overdose sonora com 24 minutos de duração.

Novamente o ponto alto de mais esta bolacha da banda foi a apresentação gráfica, pois os discos foram acondicionados numa incrível maleta marrom.

Já à beira do fim, Joe tratou de jogar a pá de cal que faltava ao anunciar que iria abandonar a banda para dedicar-se à carreira solo. Ishima fez o mesmo, aprofundando-se no estudo da cítara e gravando vários discos e Yuya passou a dedicar-se à sua prolífica carreira paralela de ator de cinema (trabalhou em Merry Christmas, Mr. Lawrence, por exemplo, ao lado de David Bowie e  Ryuichi Sakamoto).

É isso aí. The dream is over. Sayonara.

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