quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Artigos Especiais: Rock Brasileiro 1974 – 1976 (Parte 3)

 

Conforme informado anteriormente, esta terceira parte do texto cuidará de falar do rock brasileiro na mídia,  bandas de larga envergadura do período que não lançaram discos e também dos lançamentos fonográficos de 1976. Sugere-se ao leitor buscar referências nas duas partes precedentes para um panorama mais completo de todo o assunto tratado. Nos comentários serão postados links com materiais de referência a este texto. 

O jornalista Nelson Motta na coluna no Jornal Hoje, da Rede Globo, em meados dos anos 70

Na TV, na mídia impressa e no rádio o rock, de alguma forma, crescia. A Rede Globo lançou o programa Sábado Som, que estreiou em março de 1974 e ficou no ar até fevereiro de 1975, deixando a moçada maluca com video tapes de grandes bandas da época e registros de seus concertos – Pink Floyd, Black Sabbath, Mahavisnhu Orchestra, Allman Brothers, Humble Pie, Johnny Winter, etc. Segundo relatos, o Veludo foi a única banda nacional a aparecer no programa. O programa era apresentado por Nelson Motta no início, que logo foi substituído pelo famoso disc joquei Big Boy (nome artístico do radialista Newton Alvarenga Duarte). Todo esse material se perdeu em um grande incêndio ocorrido nos estúdios da TV Globo em 1976 e muitos outros registros de grande relevância para toda a música brasileira.

No rádio, despontava com crescente sucesso entre a moçada a Rádio Eldorado, no FM, mais conhecida como Eldo Pop. O FM era novidade na época e a Eldo tocava material até então inédito no país, principalmente do rock progressivo e hard-rock contemporâneo (não só inglês e norte-americano, mas de vários outros países, inclusive som das bandas locais), sem locuções e com pouquíssimos intervalos, numa longa viagem sonora. A rádio começou em fins de 1972 e durou até 1978, pouco tempo depois da morte de Big Boy (ocorrida prematuramente em 1977), que era quem conseguia o fantástico material que a rádio veiculava e era seu principal programador. Deixou como legado uma imensa legião de órfãos que a cultuavam e que até hoje pesquisam nomes de algumas músicas que tocavam na programação, já que não eram anunciadas enquanto tocavam. Ainda atualmente, grupos de ouvintes da Eldo Pop se reúnem no Rio para celebrar as músicas de sua programação e diversos blogs e fóruns na internet rememoram seu legado.

O lendário Big Boy

Em São Paulo, grande repercussão tinha o programa Kaleidoscópio, apresentado diariamente nas madrugadas por Jacques do Kaleidoscópio. Em uma rádio católica (Rádio América AM), o radialista Jacques Gersgorin botava o fino do rock para rolar, com entrevistas e muito papo cabeça. O público podia assistir e curtir o programa no próprio auditório da rádio e o programa, apesar da vida curta, marcou época.

Página da revista Hit Pop, longeva publicação na década de 70

Como revistas de grande circulação, havia a Hit-Pop (que surgiu a partir da seção de música da revista teen Pop, da editora Abril), Jornal de Música (depois rebatizada como Revista Música) e a Rock: A História e a Glória, que além de anunciarem as novidades lançadas no Brasil e no mundo, encartavam posters de bandas que despontavam na época e traziam algumas resenhas e entrevistas. Acontecimentos como o Festival de Águas Claras e o Hollywood Rock foram notícia em grandes veículos da mídia tradicional da época. As citadas revistas, além de colocar a juventude brasileira a par das novidades do rock mundial e do rock brasileiro (as publicações dedicavam generoso espaço a lançamentos de grupos e artistas estreantes e comentavam lançamentos de artistas nacionais já renomados), contavam com os préstimos de críticos reconhecidos até hoje no ofício – Ana Maria Bahiana, Tarik e Okky de Souza, Ezequiel Neves, Luiz Carlos Maciel, dentre outros. Nestas publicações também era comum aparecerem colunas ou resenhas escritas por músicos e poetas – Jorge Mautner, Egídio Conde, Julio Medaglia, Julio Barroso, Rogério Duprat, etc.

O Jornal de Música resenhando o trabalho da Barca do Sol

Não só no circuito Rio-São Paulo as coisas aconteciam. Em Porto Alegre, a agitação começou a partir da Rádio Continental, com o apresentador Julio Furst, que apresentava um programa patrocinado pela marca de calças jeans Lee. Após ser convidado para atuar como jurado no festival universitário Musipuc, o cara resolve apostar nas bandas locais. Julio propõe a rádio oferecer espaço para gravações semi-profissionais (em dois canais) para as bandas que participaram do Musipuc e outras que surgissem, para rolar em seu programa. Porto Alegre praticamente não possuía estúdios profissionais na época. A direção da rádio em princípio hesitou e colocou o risco do fracasso do projeto nas costas de Julio. Mas o cara seguiu com a idéia, auxiliando as bandas na divulgação do som e levando aquela música a uma amplitude maior dentro da região Sul. As bandas gravavam e as músicas rolavam no programa de Julio, que tinha grande audiência. E a partir disso começaram a surgir os eventos da rádio, com as bandas que tocavam no programa se apresentando nos palcos, principalmente da capital gaúcha.

Julio Furst, vulgo Mr. Lee, e Hermes Aquino

Vieram a tona nestes eventos bandas que ainda hoje permanecem obscuras, por não possuírem registros oficiais (fora os gravados na rádio), como o Bizarro (grupo de hard-progressivo), Inconsciente Coletivo (folk-MPB), Mantra (jazz-rock), Élbia (rock n’ roll), Utopia (folk progressivo) entre outros. Outro grupo importante da cena gaúcha na época era o Saudade Instantânea, que segundos relatos, tinha uma linha de som parecida com a dos Mutantes (fase progressiva). A banda, formada em 1972, era capitaneada pelo guitarrista Cláudio Vera Cruz, que viria a integrar o grupo mais famoso vindo da região sul na época, o Bixo da Seda (sobre o qual falaremos em seguida). A banda participou de vários eventos e esteve envolvida com teatro, criando trilhas sonoras para alguns espetáculos. Um de seus maiores feitos foi abrir o show dos Secos & Molhados em Porto Alegre, em 73. Já as bandas Inconsciente Coletivo, Bizarro e Utopia abriram o show do cantor Bill Halley, em 1975, no Gigantinho.

Na região nordeste (principalmente em Recife, João Pessoa e Fortaleza), acontecia a gestação de toda uma geração de compositores e interprétes, muitos com impressões digitais estritamente rockeiras. A partir de 1972, gente do calibre de Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Lula Côrtes, Marconi Notaro, Zé Ramalho, Fagner, Ednardo, o pessoal do Ave Sangria, Quinteto Violado, Flaviola, passou a cantar em outras freguesias. Recomendo a leitura do valioso artigo de nosso colaborador Eudes Baima a respeito (veja aqui).

Lula Côrtes, um dos expoentes da geração ’70 no Nordeste

Em Minas Gerais, apareceria o Saeculum Saeculorum, que havia começado em 74. Participaram de um grande festival em Minas, chamado “Camping Pop” e em 76 entraram em estúdio para registrar uma fita demo, a fim de negociar um contrato com a gravadora Warner. O contrato não rolou e o material ficou esquecido, com a banda encerrando as atividades em 77. Somente nos idos de 1996 é que esse material veio à luz, graças ao garimpo do violinista do grupo, Marcus Viana (futuro integrante do grupo Sagrado Coração da Terra). A formação do grupo era Marcus Viana (violino e vocais), Giácomo Lombardi (piano), José Audísio (guitarras), Bob Walter (bateria) e Edson Plá Viegas (baixo) e a gravação revela um som de grande qualidade musical, numa linha sinfônica e com instrumental de primeira grandeza.

Saecula Saeculorum

A história do período não ficaria completa se não fossem citados os inúmeros casos de bandas da época que morreram antes de ter algum material oficial lançado (em alguns casos inexistem até mesmo os registros extra-oficiais). Destas, algumas merecem especial destaque por terem sido grande live-acts da época, serem aclamadas por público e crítica, e figurado em festivais e grandes shows – Veludo, Vímana, Soma, Rock da Mortalha e Burmah.

A trajetória do Veludo muitas vezes é confundida com a trajetória do Veludo Elétrico. Não necessariamente uma veio da outra, mas tiveram membros em comum. O Veludo Elétrico era um agrupamento de músicos cariocas que viriam a ficar celébres, seja no mainstream ou no underground do período. Na guitarra, estava um tal Luís Maurício (futuramente denominando-se Lulu Santos), que era tido com um jovem guitar hero da zona sul do Rio. Além dele, Fernando Gama (baixista) e Pedro Jaguaribe (também baixista) e os futuros Mutantes Paul de Castro (após sua passagem pelo Veludo), Rui Motta e Tulio Mourão. Então, dos ossos do Veludo Elétrico, surgiram músicos que abasteceram três das principais bandas progressivas do período – Veludo, Vímana e Mutantes.

Elias Mizhrai, tecladista, vocalista e fundador do Veludo

O Veludo mesmo foi formado a partir da banda de apoio que Zé Rodrix estava recrutando para seu novo show, no fim de 1973. Foi ali que Elias Mizhrai, tecladista, compositor e arranjador, trava encontro com o já rodado guitarrista paulista Paul de Castro (com passagens pel’O Bando e também pelo Veludo Elétrico, já no Rio). Elias tinha uma outra banda progressiva chamada Antena Coletiva, na qual já desenvolvia o som que viria a adotar para o Veludo. Junto com Pedro Jaguaribe (outro ex-Veludo Elétrico) e Gustavo Schroetter (que era baterista da Bolha) estreiam com muito sucesso no reveillon de 1973 no Teatro João Caetano (há um pequeno trecho em super 8 desse concerto, veja aqui), junto com outra estreante, o Vímana. Curiosamente, ambas tem o Veludo Elétrico em sua árvore genealógica. O som do Veludo era um rock progressivo de alto impacto, saindo da linha contemplativa de muitos grupos influenciados pelo Pink Floyd, rasgando-se entre violentas interações de guitarra e teclados e chocando-se com uma sólida cozinha de bateria e baixo, abusando de convenções e mudanças de andamento em suas longas suítes. Se o público se amarrava no som dos caras, as gravadoras tinham uma visão restritiva quanto ao tipo de música praticada; consideravam aquilo como um som para um nicho específico e pequeno, apenas. A despeito da grande repercussão na época, a banda não conseguiu nenhum contrato para gravar um disco. Em um show, inclusive, contaram com uma canja do ex-tecladista do Yes, Patrick Moraz, que estava se radicando no Brasil. Contudo, nem só de louros se conta a trajetória da banda. Ezequiel Neves, um notório detrator do rock progressivo, os detonava sem dó:

“O grupo do guitarrista Paul de Castro desaprendeu de forma chocante sua eficaz receita de rock-blues. Agora o Veludo entrou para o rol do som bolo de noiva, marca registrada do Terço, Mutantes, etc… Tudo de uma chatice sem limites. A competência instrumental a serviço da bobagem. Temas fantásticos totalmente jogados fora, sufocados por improvisações totalmente desprezíveis. O fato do Veludo, o Terço e os Mutantes estarem conscientemente batendo com a cabeça na parede, me deixa com pena é da parede”

Gustavo Schroetter e Paul de Castro, baterista e guitarrista do Veludo

No fim de 1974, Nelsinho Laranjeiras substitui Pedro Jaguaribe no baixo e em 1975, após o festival Banana Progressiva, em São Paulo, Gustavo Schroetter também se manda para ocupações mais rentáveis (entrou para a banda de Jorge Ben, tocou com Raul Seixas e depois formou o A Cor do Som no fim da década).  No lugar de Gustavo, o guitarrista Ari Mendes (que já tocara alguns anos antes com Nelsinho Laranjeiras) assume o posto de baterista de forma improvisada.

Elias Mizhrai, fundador do grupo, também buscou uma carreira solo e foi trabalhar com Ney Matogrosso, deixando momentaneamente a banda. Também Paul de Castro, por convite de Sergio Dias (um admirador confesso do grupo) assume o baixo nos Mutantes, no lugar de Antonio Pedro Fortuna. Nelsinho reestrutura totalmente o som do grupo, tornando o mais eclético e agregando elementos mais presentes de música brasileira e latina. A banda entrou em um vaivém de músicos (até o próprio Elias retornou por um tempo nessa nova fase do grupo) e prosseguiu com essa fusão de estilos até sua dissolução em 1978.

Matéria do Jornal de Música, dando destaque a shows do Terço, Veludo e Tony Osannah em 1976

No fim da década de 1990, surge um registro gravado da platéia do show da banda no festival Banana Progressiva, em 1975, no teatro da Fundação Getúlio Vargas, que pode dar uma idéia da qualidade do grupo e do calibre de sua possante fórmula musical (ouça aqui). Nos anos 2000, Elias Mizhrai reativa brevemente a banda e lança o disco A Re-volta; já Nelsinho Laranjeiras revive a segunda fase da banda, lançando em 2016 o álbum Penetrando por todo o caminho sem fraquejar, contando com a participação de alguns dos músicos que integraram a segunda fase da banda, relendo o repertório da época. Atualmente, os dois músicos buscam revitalizar o repertório do grupo separadamente.

Capa do lançamento póstumo do Veludo, ao vivo no Festival Banana Progressiva em 1975

O outro “braço” do Veludo Elétrico (Lulu Santos e Fernando Gama) juntou-se aos remanescentes do Módulo Mil (Candinho, baterista, e Luiz Paulo Simas, tecladista) e fundaram a banda Vímana no fim de 1973. Segundo Luiz Paulo Simas, o início do grupo era basicamente composto de longas jam sessions e sons improvisados. Freqüentes problemas de som atrapalharam os primeiros concertos do grupo, que começou a se desmotivar. Candinho pula fora na hora que percebe os movimentos dos outros colegas para tentar arranjar mais o som da banda e também estava mais interessado em seitas orientais e espiritualidade naquele momento. Nelson Motta dá uma força pra moçada e os coloca pra acompanhar uma peça de teatro da atriz Marília Pêra. No fim de 1974, a banda já estava novamente aquecida, tendo o ingresso de João Luís Woenderbarg, mais conhecido como Lobão, na bateria e do flautista e vocalista inglês Ritchie Court (que já tinha passado pelo Scaladácida em São Paulo, pelo Soma e A Barca do Sol no Rio).

Luiz Paulo Simas, em ação com o Vímana

O som do grupo tinha muito de rock progressivo, mas tinha também um tempero brasileiro com bastante swing, soando como uma fusão bastante elaborada. Essa nova fase (fim de 74 e todo o ano de 75) foi a de maior sucesso e repercussão do grupo; nessa época a banda grava o lendário disco que nunca viu a luz do disco, pela gravadora Som Livre, com produção de Guto Graça Melo. Uma entrevista concedida à rádio Eldo Pop (provavelmente de 1976) revela boa parte do material do que viria a ser o disco (desconsidere a coletânea não autorizada On the Rocks que circula na internet, que é uma salada de diversas fases da banda).

Fernando Gama, Lobão, Luiz Paulo Simas, Lulu Santos e Ritchie – o Vímana

Uma horda de problemas não permitiu que o material fosse finalizado e lançado e no meio disso tudo, a Som Livre passou a desconsiderar a viabilidade comercial do lançamento. Apenas em abril de 1977 é que uma das faixas do álbum viria a ser lançada – a curta peça prog “Masquerade“, como lado B do compacto. No lado A da bolachinha, uma faixa gravada posteriormente, chamada Zebra, composição de Lobão, que já mostrava a banda partindo para um som totalmente distinto e de apelo mais pop.

Relançamento do compacto do Vímana, com Zebra e Masquerade

Envolvida com o tecladista Patrick Moraz, que queria fazê-los sua banda de apoio, o Vímana passou a buscar um som mais comercial e com mais raízes brasileiras. A relação com o tecladista suíço é conhecida por suas bizarrices, desentendimentos e acusações de ambos os lados, sendo que nada rolou daí além de várias hilárias histórias. Algumas poucas faixas ao vivo (de baixa qualidade sonora) e as participações do Vímana como banda de apoio para Luiza Maria (com a bela balada “Maya“), Fagner e Walter Franco constituem tudo que existe de material sobre a banda. No início de 1978, tudo estava completamente desfeito para os caras. Contribui para o fato da gravação do disco permanecer engavetada até hoje o interesse quase nulo dos ex-integrantes da banda pelo antigo material, já que quase todos eles seguiram a trilha da música pop nos anos seguintes (Lulu Santos, Lobão e Ritchie; Fernando Gama com o Boca Livre e Luiz Paulo Simas na música instrumental e em trilhas sonoras) com bastante sucesso.

Lulu Santos e Fernando Gama ao vivo com o Vímana

O Soma era carioca e a história da banda começa em 1969, com Bruce Henry, jovem norte-americano que veio morar no Brasil em 66. Depois de ver uma domingueira no clube Monte Líbano com a Bolha no palco ficou impactado e decidiu que precisava urgentemente de uma nova banda (Bruce tocava com o grupo beat The Outcasts). A banda começou com Jaime Shields (guitarra e vocal, outro norte americano), Alírio Lima (bateria) e Ricardo Peixoto (guitarra), além do próprio Bruce Henry no baixo. Em pouco tempo de ensaios, já apareciam nos agitos mais loucos da zona sul carioca, em eventos multiculturais e happenings. Gravaram um compacto duplo com Jards Macalé em 1971 e compactos autorais que saíram na obscura coletânea Barbarella, de 1971.

Compacto de 1971 de Jards Macalé junto com o Soma

Participaram ainda de um dos primeiros festivais ao ar livre do país, o Festival de Guarapari em 1971, alternando-se entre sons próprios e releituras. Pela falta de repercussão do material lançado e outras perspectivas deram um tempo fora do país e só voltaram no ano seguinte. Bruce Henry ficou um bom tempo tocando com a poderosa banda de Gilberto Gil em sua fase Expresso 2222. Depois de um tempo tentando alugar um equipado sistema de som que adquiriu na Inglaterra, decidiu remontar o Soma em 1973. Seus espetáculos eram venerados pelo público e sua musicalidade cada vez mais eclética era plenamente apreciada e anunciada. Neste mesmo ano, diversas demos com canções da banda foram gravadas, mas nada de pintar um contrato. No fim de 1973, Ritchie Court ingressa na banda, em uma catártica estréia junto com os Mutantes e O Terço, no auditório do Museu de Arte Moderna (MAM). Nessa época, também contam com o tecladista Tomás Improta na formação do grupo. O único registro que se tem da banda neste período é a música “P.F” (que significava Paris-Frankfurt, mas para o disco foi dada também a conotação de “prato feito” tão típica para a gastronomia brasileira), que saiu no disco do espetáculo Banquete dos Mendigos organizado por Jards Macalé em comemoração aos 25 anos da declaração dos direitos humanos. O disco retrata um show/festival também ocorrido no MAM em dezembro de 1973. Mais alguns shows, com o lendário baterista Áureo de Souza (da banda de Caetano Veloso e do grupo inglês de jazz-rock Riff Raff), e tudo estava acabado, pela estafa de Bruce Henry de lidar com tanta adversidade e falta de grana. Gravaram também a trilha sonora de um filme sobre o famoso ladrão Ronald Briggs, mas nem o filme nem o disco chegaram a ser lançados e se perderam no tempo. O livro Histórias Secretas do Rock Brasileiro (veja nossa resenha a respeito aqui), do jornalista e escritor Nélio Rodrigues, detalha ferozmente a brilhante trajetória do grupo.

Jards Macalé divulgando o espetáculo que daria origem ao LP Banquete dos Mendigos

O Rock da Mortalha foi um grupo lendário da cena brasileira, porque, segundo relatos, seu som era extremamente pesado, um hard-heavy rock vigoroso, na linha do Black Sabbath. Os membros da banda, formada na periferia de São Bernardo do Campo, tocavam fantasiados e utilizavam temáticas obscuras e fantasiosas em suas letras. Existem relatos conflitantes e desencontrados a respeito da banda e até surgiram gravações de um suposto ensaio do grupo (com péssima qualidade sonora, ouça aqui aqui) em que realmente percebe-se como o som era pesado. Mas há pessoas que conheceram pessoalmente a banda e seus membros que relatam que o som dos caras não era nada daquilo, e que o material poderia até ser de uma outra banda. Tiveram várias formações e estiveram ativos até o fim da década de 70, já indo numa direção mais heavy metal. Controvérsias a parte, os músicos que faziam parte da banda na época em que tocaram no Festival de Águas Claras (eram eles Orlando Luí no baixo, Marcos Baccas na guitarra e Julinho na bateria) já morreram (ou sumiram) e fica essa lacuna sobre a história do grupo. Também eram acompanhados eventualmente (o que não aconteceu no show em Iacanga) de um dançarino, chamado Lola, que era italiano e fazia performances teatrais durante os shows no período.

O obscuro Rock da Mortalha

Já o Burmah era um grupo argentino, com um dos membros brasileiros, com amigos que se conheceram num navio voltando da Europa. Esse intercâmbio não era exatamente incomum na época: Tony Ossanah era figura carimbada no rock brasileiro dos anos 70, oriundo da lendária Beat Boys que acompanhou Caetano Veloso e Gal Costa, dentre vários outros exemplos possíveis. Sua estreia aconteceu no Teatro Treze de Maio, em São Paulo, no evento Primeira Semana do Rock Paulista, ocorrido em dezembro de 74. O Burmah tocou no Festival de Águas Claras, na Banana Progressiva e no projeto Rock da Garoa, além de diversos eventos na capital paulista, onde estavam baseados. Eram formados por Norton Lagoa (contrabaixo, o único brasileiro no grupo), Eduardo Depose (guitarra), Javier Starrico (teclados) e Juan Piojo Abalas (bateria). Depois de terem problemas com os vistos de permanência no Brasil, a banda passou um tempo de molho; voltou para a Argentina, tocando e tendo boa repercussão por lá e agregando diversos músicos tarimbados na volta ao Brasil, como Franklin Paolilo (do Tutti Frutti), Rolando Castelo Junior (da Patrulha do Espaço) e Manito (Som Nosso de Cada Dia). Alguns registros surgiram em áudio e vídeo de apresentações do grupo (como este aqui), a despeito de não existir nenhum material oficial de estúdio lançado (relatos dão conta de um disco gravado em 1978).

Segunda formação do Burmah em destaque

Várias bandas são meros verbetes em enciclopédias e nem se sabe ao certo o tipo exato de som que praticavam. Aqui vão algumas meras tentativas (agradecemos correções que surgirem nos comentários) de fazer justiça a elas – Montanhas (Rio, hard rock); Movimento Parado (Paraná, rock progressivo), Manga Rosa (Minas, jazz-rock), Mytra (São Paulo, hard rock), Inconsciente Coletivo (Rio Grande do Sul, hard rock), Bizarro (Rio Grande do Sul, hard rock), Tapete Mágico (Paraná, hard rock), 20 Minutos Antes do Começo do Tempo (Minas, blues-rock), Fruto da Terra (São Paulo, blues-rock), Catarse (Minas, rock rural), Biscoito Celeste (Rio, hard rock), Pêndulo Mágico (São Paulo, rock progressivo), dentre outras.

Durante o ano de 1976, aconteceram diversos lançamentos de grande qualidade musical e que fundamentaram a mensagem daquela geração de rockeiros em nosso país. O Terço, no rastro do sucesso de Criaturas da Noite, lançaram Casa Encantada, um trabalho que aprofundou as experiências sonoras anteriores, mas com um brilho ligeiramente menor. Havia referências mais claras à MPB e ao rock progressivo, porém não com a mesma inspiração. Algumas músicas do período ficaram de fora do disco, como a extensa Suíte, Velho Silêncio, Rapoza Azul, entre outras. . Hoje, esses sons podem ser conferidos no raro e limitado disco O Terço Ao Vivo 76, com uma apresentação da banda no Teatro João Caetano, com versões mais pesadas e intensas do que as de estúdio, como “Flor de La Noche“. O sucesso de Casa Encantada também foi grande e a banda se apresentou cerca de 200 vezes por ano (neste período entre 74 e 76), sem dúvidas, o período mais bem-sucedido do grupo, em público e crítica. No ano seguinte, Flávio Venturini viria a deixar o grupo.

Encarte do raro e disputado CD com o show ao vivo do Terço no Teatro João Caetano em 76

Um dos mais incríveis trabalhos do rock na época foi devidamente estragado por uma total falta de visão empresarial e outras questões comerciais – Mutantes Ao Vivo. A formação da banda na época era Sérgio Dias, Paul de Castro (creditado como Paulo de Castro, tocando baixo e violino), Rui Motta e Luciano Alves. A banda tinha feito uma temporada de concertos no MAM do Rio em agosto, e havia registrado o material para lançar um ousado projeto – um disco ao vivo quase todo de músicas inéditas. O plano era de que todo o material saísse num disco duplo, com produção gráfica caprichada. Mas foram limados pelo produtor Peninha Schmidt, que alegou que o projeto seria inviável porque o custo de um disco duplo não poderia ser repassado e o disco encalharia. Para piorar, o disco ainda foi todo retalhado – faixas cortadas e mixadas na ordem diferente da que foi executada no show. Isso gerou uma insatisfação muito grande na banda, e é uma triste constatação frente à qualidade do material, lançado no disco simples. Banda entrosadíssima e ótimas composições, boa qualidade sonora e energia pura. Quem sabe esse imenso equívoco seja desfeito possa ser desfeito no futuro e o show surja íntegra, como era o desejo da banda.

Casa das Máquinas, com o vocalista Simbas, ao vivo

O Casa das Máquinas daria uma outra guinada em seu som, dessa vez partindo para o rock n’ roll básico e pesado. Com a entrada do performático vocalista Simbas, a banda assume uma identidade mais “glam” no disco Casa de Rock, disco que teve como hits a faixa título, “Jogue tudo para a cabeça” e “Stress”. Esse seria o último disco da banda, que no fim de 77 se envolveria num polêmico episódio com um técnico da Rede Record. A banda iria tocar no estúdio da emissora e depois de um acidente entre um veículo da emissora e outro da banda, iniciou-se uma discussão que descambou para pancadaria. O técnico em questão apanhou bastante na confusão e já tinha a saúde debilitada. Pra não queimar o filme do pessoal que se envolveu na briga, o técnico foi instruído pela segurança da emissora a não contar nada. No dia seguinte, o cara piorou e morreu no hospital, com rompimento do fígado e duas costelas fraturadas. Isso sujou totalmente a carreira da banda, que só conseguiu seguir por um pouco mais de tempo, até 78. O julgamento acabou inocentando parcialmente os membros da banda, com Simbas pegando 1 ano de prisão por homicídio culposo (que cumpriu em liberdade por ser réu primário) com a responsabilidade sendo dividida com seu irmão, que na época era menor de idade.

Foto promo do Joelho de Porco no Mercado Municipal de São Paulo, com Gérson Tatini (Moto Perpétuo) a esquerda.

Quem estreou em disco em 1976 foi o Joelho de Porco, com o disco São Paulo 1554 Hoje. Existe certa divergência de informação na internet quanto a data do lançamento do disco – alguns dizem ser um disco de 73, outros de 74. Mas em consulta a revistas do período, 1976 é a data em que se propagou este lançamento e os shows que a banda passou a fazer. O grupo era composto pelo baterista e vocalista Próspero Albanense, Ricardo Petraglia (que no futuro viria a formar sua própria banda, Sindicato) no vocal, Tico Terpins no baixo (o principal compositor da banda) e Serginho Sá no piano. A banda passou por várias formações, tendo também a passagem de Gérson Tatini (baixo, futuro Moto Perpétuo) e Rodolfo Ayres Braga (futuro Terreno Baldio). O Joelho de Porco passou a ser um marco no período pela interessante combinação de um rock possante com um humor ácido e escrachado, usando eventualmente para tal, ritmos caribenhos, vaudeville e doo-wop em suas composições. As letras revelam uma visão crítica (feita com bastante irreverência) do cotidiano da megalópole paulista e musicalmente existem ali pérolas do nosso rock setentista, como “São Paulo By Day”, “Meus Vintes e Seis Anos” e “A Lâmpada de Edson”.

Bixo da Seda ao vivo

No Sul, em 1976 o Bixo da Seda aparecia pela primeira (e única vez) em LP. A banda surgiu a partir do grupo Liverpool, formado em 67 no Rio Grande do Sul. Gravada em 69, com o instigante nome de Por Favor Sucesso, a estréia vinílica da banda não surtiu o efeito que o nome pregava, mesmo fazendo um bom som na esteira psicodélica-tropicalista. No ano seguinte, a banda seria responsável pela trilha do filme Marcelo Zona Sul, com Françoise Fourton e Stepan Necessian, hoje bastante disputado por colecionadores. O grupo passou a radicar-se no Rio de Janeiro e encerrou as atividades em 73, com vários dos músicos voltando para o sul. Em 75, um novo encontro dos músicos Foguete (vocal, flauta e percussão), Mimi Lessa (guitarra), Marcos Lessa (guitarra) e Édson Espíndola (bateria) geraria o Bixo da Seda. Após gravarem o disco, em fins de 75, se mudariam novamente para o Rio de Janeiro, onde agregaram Renato Ladeira (ex-A Bolha, tocando teclados) e durante o período também Vinícius Cantuária, numa época em que passaram a tocar com duas baterias. Fizeram muitos shows em Porto Alegre e no Rio de Janeiro. O disco saiu em 76, batizado de Estação Elétrica, mesclando um rock n’ roll de primeira qualidade, por vezes pesado e com alguns toques progressivos no instrumental, como no caso da bela abertura com “Venus“. Depois do disco, houve algumas trocas de formação até o fim dos anos 70, sendo que uma parte da banda passou a acompanhar o emergente grupo pop-disco “As Frenéticas”. O disco acabou sendo o único do grupo, que se desmanchou depois de mais alguns poucos anos.

Selo do disco Estação Elétrica, do Bixo da Seda

1976 viu a banda A Barca do Sol lançar seu trabalho definitivo – Durante o Verão, novamente com produção de Egberto Gismonti. Tão lírico quanto os anteriores, com mais guitarra elétrica e bateria, esse disco é um ponto alto na música do período, mesmo não sendo puramente “rock”, como a própria banda gostava de deixar claro. Ainda A Barca do Sol gravaria mais um disco, chamado Pirata, em 78 e um outro disco em parceria com a cantora Olivia Byington.

No mesmo ano, também apareceu o lançamento do primeiro disco do Terreno Baldio (que foi gravado ainda em 75), grupo paulistano que já estava na estrada dando o que falar. A formação clássica da banda era João Kurk nos vocais e flauta, Mozart Mello na guitarra, Ronaldo Lazzarini nos teclados, João Ascenção no baixo e Joaquim Côrrea na bateria. A história do grupo começa pelos idos de 66, quando Rodolfo Ayres Braga e Joaquim Correa formaram a banda Islanders, junto de João Kurk e Ronaldo Lazzarini, uma banda de covers que se concentrava em tocar o que havia de mais underground em termos de hard e rock psicodélico. Ficaram juntos nesse projeto até 1971. João Kurk também participou de outro grupo de covers, chamado Utopia. Os músicos foram amadurecendo até que João e Roberto partiram para as idéias próprias, por volta de 73-74, influenciadas pelas grandes bandas progressivas inglesas – Yes, Camel, Renaissance, Gentle Giant, etc. O disco homônimo, estréia da banda, sofreu de um mal similar ao que acometeu o lançamento do disco ao vivo dos Mutantes e também do não-lançamento da suíte “Amazônia” do Som Nosso de Cada Dia. Por pressão da gravadora, a banda não conseguiu gravar todo o material que tinha composto na época, previsto inicialmente para um disco duplo. Seus shows no período eram compostos de três movimentos – Aqueloô, Pássaro Azul e Terreno Baldio. É triste observar a produção pobre do disco, com um som fraco e mal equalizado, anos-luz distante da qualidade musical das composições, da letra e da interpretação do grupo. No ano seguinte, o Terreno gravaria outro importante trabalho – Além das Lendas Brasileiras, com uma formação diferente e uma produção um bocado mais digna.

A primeira formação do Terreno Baldio em ação

No lado mainstream da coisa, Rita Lee continuava botando todo mundo pra ferver com Entradas e Bandeiras e Raul Seixas continuava voando em sucesso com Eu Nasci Há 10.000 anos atrás. E no underground poderia-se citar muitos outros grupos bem ativos, como Sindicato, Flamboyant, Tony Osannah Band, Jazzco, Humauhaca, etc. Esse relato é uma mera síntese. Felizmente, cada vez mais pesquisadores tem se debruçado sobre o rock brasileiro do período, despidos de velhos e caricatos preconceitos. Ainda que seja importante manter sempre em alta a auto-crítica, é precisar dar o devido peso ao contexto e as táticas de guerra que nosso rock precisou adotar para sobreviver. Fica a história ainda obscurecida pela grande mídia nesse período, especialmente pela idéia largamente vendida de um “vácuo” entre a jovem guarda e a onda pop-rock dos anos 80, ignorando sumariamente que muitos dos nomes que despontaram nos anos 80 já tinham experiências musicais bem interessantes em anos anteriores. Seria ótimo ver cada vez mais gavetas e porões sendo abertos e materiais sendo disponibilizados sobre o rock brasileiro dessa época, que ainda carece tanto de fotografias, filmagens, reportagens, artigos e registros de áudio.

Artigos Especiais: Rock Brasileiro 1974 – 1976 (Parte 2)

 

Ainda que o primeiro texto dessa série possa ter passado a impressão de que os acontecimentos seriam abordados de forma cronológica, o autor preferiu tratá-los por afinidade temática. Se no primeiro texto foi tratado do contexto do rock brasileiro no início dos anos 70 e de alguns lançamentos ocorridos em 1974, esta parte do texto abordará com maior ênfase os festivais e também alguns lançamentos fonográficos de 1975. A terceira parte cuidará de falar do crescimento do rock na mídia (televisão, rádio e imprensa), de bandas que eram populares na época mas que não chegaram a gravar nenhum material e também dos lançamentos fonográficos de 1976. Portanto, observa-se ao leitor que as partes I, II e III desse texto não correspondem automaticamente aos anos de 1974, 1975 e 1976 respectivamente, como se poderia sugerir.

Rita Lee, a soberana do nosso rock ’70

O biênio 1975-1976 seria um marco em grandes eventos e festivais (dadas as proporções do público existente) para o rock brasileiro.

Logo em janeiro de 1975, duas grandes ocasiões agitaram o rock brasileiro – o festival Hollywood Rock, ocorrido no Rio de Janeiro, e o festival de Águas Claras, no interior do estado de São Paulo.

Contracapa da coletânea do Hollywood Rock ’75

O empresário Nelson Motta (que já estava envolvido com o rock dos Brazões e dos Novos Baianos alguns anos antes, e apresentava o programa Sábado Som, na TV Globo) surge com o projeto “Hollywood Rock”, realizado no campo do Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro. Foram 4 fins de semana de som, cada um deles com atrações diferentes. O primeiro, em 11 de janeiro, teve como atração principal Rita Lee & Tutti Frutti. No dia 18 (coincidindo com o segundo dia do Festival de Águas Claras em Iacanga), estavam previstas apresentações do Veludo e dos Mutantes. O público, de aproximadamente 18.000 pessoas, lotava o espaço do campo. Após a apresentação do Veludo, os Mutantes sobem ao palco e logo são recepcionados por uma tempestade de verão, que destruiu o palco e acabou com a apresentação. Isso prejudicou muito a banda, que teve equipamentos danificados e os tirou da apresentação no Festival de Águas Claras (eles iriam direto do Rio para Iacanga, após o show, para se apresentarem no Festival de Águas Claras). No dia 25, as atrações eram O Peso, Vímana e O Terço (que tinha sido um dos headliners em Iacanga no fim de semana anterior). O Vímana foi prejudicado por uma falha no som durante parte do show e chegou a ser vaiado; já os dois outros shows levantaram a moçada. O derradeiro concerto da série recebeu dois artistas já históricos de nosso rock – Celly Campelo e Erasmo Carlos, além do emergente Raul Seixas. Erasmo Carlos vinha acompanhado de um supergrupo, batizado de Cia. Paulista de Rock, contando com os ex-Mutantes Liminha e Dinho Leme. Existe um “falso” registro em áudio de parte do festival, com as músicas de estúdio das bandas que se apresentaram, acrescidas de barulhos de platéia, e um registro raro em vídeo (chamado “Ritmo Alucinante”, cujo registro em vídeo pode ser visto aqui), infelizmente com baixa qualidade de som e imagem, de alguns trechos dessas apresentações, que pelo menos vale pra se ter uma idéia d’O Peso e do Vímana no palco. Houve tentativas da parte de Motta para levar o evento a outras capitais mas não deu certo. A Souza Cruz, patrocinadora do evento, inclusive, já tinha se comprometido com uma versão paulista do festival, que ocorreria no autódromo de Interlagos. Contudo, uma batida policial no hotel em que produção do evento estava hospedada encontrou drogas no local e a Souza Cruz retirou-se da jogada, inviabilizando o evento. Recentemente, foi descoberto no arquivo público do Estado do Rio de Janeiro o relatório de um agente do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) que esteve infiltrado no campo do Botafogo ao longo dos 4 fins de semana, tomando nota da loucura local. Uma de suas anotações destaca: “Inúmeros jovens de ambos os sexos apresentavam sinais de se encontrarem sob dependência psíquica; uns dançavam e contorciam-se no chão: olhos esgazeados, avermelhados, balbuciando frases desconexas.”

O Festival de Águas Claras, realizado entre 18 e 20 de janeiro em Iacanga, foi o maior festival ao ar livre ocorrido no Brasil na década de 70. Como era de se esperar, foi uma festa muito louca, com muita lama e anunciada pela mídia como nosso equivalente à Woodstock. Foram 3 dias (sexta, sábado e domingo) com instalações modestas para o público (eram 50 banheiros, 1 barraca de assistência médica e 2 ambulâncias para cerca de 15.000 pessoas), mas com a garra de organizadores, técnicos de som, luz e músicos para entregar ao público o que de melhor fosse possível, especialmente pelo fato do festival não ter tido patrocínios oficiais. O festival alternou bandas do primeiro escalão do nosso rock e outras bem desconhecidas até mesmo para o público do festival. Segundo relatos da mídia da época, subiram ao palco: Dan Rock-a-Billy (tocando covers de Elvis Presley e Bill Haley), Pedra, Cogumelos, Sacramento, Peyotes, Corpus, Tony Osannah, Movimento Parado e Rock da Mortalha, já varando a aurora do sábado. No sábado, Libertas, Eclipse, Dez Mandamentos, Orquestra Azul, A Chave, Mike (um guitarrista americano recém chegado ao Brasil), Jazzco, Terreno Baldio e Apokalypsis. No domingo, Flying Banana, Grupo Acaru, Tibet, Cézar das Mercês (que já tinha tocado baixo com O Terço e era parceiro de composição da banda carioca); Moto Perpétuo, Som Nosso de Cada Dia e O Terço foram a trinca de ferro que fechou o festival na madrugada de domingo.

O poster oficial do Festival de Águas Claras 1975

O Som Nosso de Cada Dia contou com a participação do ex-Mutantes Liminha na guitarra em sua apresentação no Festival de Águas Claras.

Também participaram do cast do festival Ursa Maior, Burmah (grupo argentino), Mitra, Jorge Mautner, Walter Franco, Odair Cabeça de Poeta e Grupo Capote. Contudo, poucos relatos dão maiores detalhes sobre os shows. O Moto Perpétuo, por exemplo, foi hostilizado por parte do público rockeiro mais radical durante as passagens mais tranqüilas de suas músicas; o Apokalypsis gerou grande catarse com a canção-manifesto “Liberdade”, executada ao raiar do sol; os argentinos do Burmah eram muito bem recebidos, bem como o blues-rock do hermano guitarrista/vocalista Tony Osannah. A Orquestra Azul também causou bastante impacto, por ter integrantes adolescentes (entre 15 e 19 anos) executando um jazz-rock de alto nível. Terço e Som Nosso de Cada Dia fizeram grandes espetáculos e deixaram todos despedidos com largos sorrisos nos lábios.

O festival ganhou as páginas de revistas e jornais da época

Entre 2008 e 2010 noticiou-se a elaboração de um documentário a respeito do festival, que ainda não viu a luz do dia e também foram disponibilizadas no Youtube imagens em Super 8 do festival, do acervo do fotógrafo e cinegrafista Mario Luiz Thompson (veja alguns desses registros aqui).

No Paraná, aconteceu no primeiro trimestre, o Festival de Rock da Praia do Leste. 5 mil estiveram presentes à beira-mar para curtir som de grupos locais e do sul do país. As atrações principais eram O Terço e Rita Lee & Tutti-Frutti. Assim como outros eventos que se tentaram realizar no período de verão, uma tempestade tropical prejudicou todo o equipamento e a estrutura do palco. Mesmo assim, a moçada pode curtir a reunião, bem como o som dos paranaenses do Jantar Rock, os gaúchos do Byzarro e do Bixo da Seda, um show solo de Cézar das Mercês (tendo em sua banda de apoio Celso Carvalho, futuro Celso Blues Boy), as bandas Pedal, Khaos e Movimento Parado. Em Porto Alegre, mas na primavera, ocorreu o Festival Primavera em dois dias no auditório Araujo Viana, contando com Flying Banana, Luzia Maria, Belchior, Utopia, Jorge Mautner e Gilberto Gil.

I Festival de Rock da Praia do Leste

A Banana Progressiva foi outra maravilhosa reunião da nata rock brasileira e da MPB relacionada ao rock. Projetada para ser um evento multicultural (com música, exposições de artes plásticas, fotografia e cinema) e para acontecer como uma temporada, aconteceu de fato no Teatro da Fundação Getulio Vargas em São Paulo, em maio, organizado pela Trinka Produções, produtora que já organizava diversos agitos na capital paulista. Foram 4 noites de evento (29, 30 e 31/05 e 01/06/1975), começando numa quinta-feira. Na abertura do festival se apresentaram Veludo, Quarto Crescente (há outra banda com este nome nos anos 80, da qual fez parte o vocalista Percy Weiss, sem relação com esta), Bandolim e Som Nosso de Cada Dia. O segundo dia do evento foi a vez do grupo Montanhas, Edson Machado & A Rapaziada, Vimana e Burmah. Na noite seguinte, subiram ao palco Biscoito Celeste, A Bolha, Manito (já saído do Som Nosso de Cada Dia, se apresentando como artista solo) e Erasmo Carlo e Cia. Paulistana de Rock. E por fim, o domingo teve uma seleção maravilhosa de shows com Hermeto Pascoal, Barca do Sol, Jazzco e Terreno Baldio. A Banana Progressiva foi noticiada na época e musicalmente malhada pela crítica jornalística, que acusava os grupos de não terem originalidade e usarem fórmulas mal-copiadas de grandes grupos ingleses. O Festival foi bem sucedido em termos de público, porém a idéia de seguir como uma temporada de eventos não se firmou da maneira como a Trinka gostaria. Outras pequenas temporadas ocorreram no Opus 2004 e no Teatro Bandeirantes, todos em São Paulo, no segundo semestre de 75, mas ficou por ali. Recentemente, os registros em película da Banana Progressiva vieram a público, bem como o material gráfico foi digitalizado por um louvável esforço do selo PsicoBR; contudo, os áudios dos shows se perderam e na época já não tinham sido captados na íntegra (você pode conferir o histórico registro do festival aqui). A apresentação do Veludo na Banana Progressiva transformou-se em um disco lançado nos anos 2000 (não contém a íntegra da apresentação, mas boa parte dela), a partir do som capturado da plateia, com qualidade de som razoável e grande performance dos músicos, mostrando o calibre e a garra da banda.

A arte original da divulgação da Banana Progressiva redigitalizada pelo selo PsicoBR

Pedrinho Batera, vocal e bateria do Som Nosso de Cada Dia na Banana Progressiva

Também por iniciativa da Trinka Produções em 75, surgiu o projeto Rock da Garoa, que tinha a intenção de fazer um intercâmbio de bandas de São Paulo em outros estados brasileiros. Contudo, dadas as sabidas dificuldades de nosso show business, o projeto só pintou no Rio e na própria capital paulista, levando para os palcos grupos como o Apokalypsis (incluindo a parceria com o violonista e compositor Edu Viola), Tony Osannah e banda, Sindicato (banda formada pelo ator/cantor Ricardo Petraglia) e Platô, um grupo de jazz-rock vanguardista com Sizão Machado, Duda Neves, Paulo Machado, Datcha e José Neto, que passou a ser bastante cultuado na época e teve alguns de seus integrantes na banda de Hermeto Paschoal. De uma das apresentações do Rock da Garoa no Teatro Bandeirantes também foi retirado um registro do Apokalypsis ao vivo, de grande valor histórico e musical para o rock brasileiro do período.

A Cia. Paulista de Rock, supergrupo de apoio a Erasmo Carlos, em 1975

Nélson Motta novamente apareceu no ramo da produção de eventos, dessa vez buscando aliar o rock com um festival de surfe que ocorreria na cidade de Saquarema, no Rio de Janeiro. O Festival Som, Sol e Surf, ocorrido em maio de 1976, é repetidamente descrito como um grande fiasco, tanto artístico quanto de público. Nelson queria repetir a experiência de fraternidade ao ar livre de Woodstock e trouxe para o palco o que ele considerava o que de melhor havia no rock brasileiro. Segundo Nelson Motta, em depoimento, a idéia surgiu a partir do músico Flávio Espírito Santo, que tinha uma banda e residia no local. Ele interpelou Nelson dizendo que tinha toda a estrutura, alvarás, conhecia o prefeito, etc. A condição para tal era que sua banda pudesse também tocar no festival. Nelson Motta entrou achando que podia ser uma boa e saiu falido.

Logo no primeiro dia, uma chuva forte abateu o local do evento, prejudicando a estrutura organizada e o cronograma. A organização ficou no único hotel da cidade, decidindo o que fazer e confraternizando como podia com os artistas. Nesse metiê estavam, inclusive, artistas que nem iriam se apresentar, como Ney Matogrosso e Patrick Moraz (ex-tecladista do Yes). Fora isso, o público pagante foi pífio (ainda que tenham aparecido mais de 40.000 pessoas no local) e o organizador ficou praticamente falido. A cidade de 10.000 pessoas se viu virada do avesso, com falta de produtos de primeira necessidade e saneamento precário. Tocaram lá as bandas Made in Brazil, Vímana, Rita Lee & Tutti-Frutti (lançando o disco Entradas e Bandeiras) Raul Seixas, O Terço, Bixo da Seda (cuja atuação foi extremamente elogiada por público e crítica, no show de lançamento de seu disco Estação Elétrica) e Ângela Rô Rô (na época uma estreante cantora) e grupo Flamboyant, entre outros. Depoimentos de pessoas que estiveram presentes relatam a precariedade do local e o som que ficou devendo, mas o quanto a festa foi quente. O Jornal O Globo noticiou, em 2014, a elaboração de um documentário sobre o festival e um teaser chegou a ser divulgado. O festival foi filmado em película, com boa qualidade (veja trechos do show de Raul Seixas no festival aqui). Quando lançado, o documentário preencherá uma grande lacuna audiovisual no rock brasileiro.

Uma horda de gente invadiu Saquarema para curtir sol, som e surfe em ’76

Nelson Motta, staff e músicos do Som, Sol & Surf ’76

Aconteceram ainda vários eventos ao ar livre no Parque do Ibirapuera e no Parque da Aclimação, em São Paulo, e no MAM do Rio, além das freqüentes agitações que rolavam na Tenda do Calvário e no TUCA em São Paulo. No Rio, os palcos principais do rock eram o MAM (Museu de Arte Moderna) e os Teatros João Caetano e Tereza Rachel, com  produção de Carlos Alberto Sion e Samuca Wainer. No fim de 1975, cabe destacar as apoteóticas apresentações do mago dos teclados, Rick Wakeman. Foram 5 apresentações no país em novembro – duas em São Paulo, no estádio do Canindé (dias 13 e 14), uma em Porto Alegre, no Gigantinho (dia 18) e duas no Rio de Janeiro, no Maracanã (dias 20 e 21). Todas lotadas e exaltando o estrelato do tecladista que, naquele momento, vivia o ápice de sua carreira.

Em termos de discos lançados, os grandes destaques ficam com o lançamento de Criaturas da Noite, do Terço, um marco do rock brasileiro, e a guinada progressiva do grupo paulista Casa das Máquinas. Com a entrada do tecladista Mário Testoni, a banda envereda fortemente para um som mais elaborado e lançando o disco Lar de Maravilhas, um dos trabalhos mais representativos do rock progressivo do Brasil na época. Como já dito anteriormente, a banda já era bem profissionalizada, vinda do bem-sucedido núcleo d’Os Incríveis no fim dos anos 60, com bons equipamentos e uma certa experiência na lida fonográfica. O disco se saiu muito bem em vendas por conta da faixa de abertura “Vou morar no ar”, uma canção um pouco mais acessível comercialmente falando, que acabou entrando até como trilha sonora de novela da Rede Globo. O tecladista Mário Testoni também foi responsável posteriormente pela guinada ao progressivo da banda Pholhas.

O Terço atingia grande magnitude com as vendas de Criaturas da Noite e se lançara na tentativa de alcançar mercados internacionais. Gravaram uma versão em inglês deste disco que foi lançada na Itália, com algumas mudanças na mixagem da parte instrumental que não ficaram boas. Acabaram não tendo o resultado obtido, porém conseguiram algumas incursões em países vizinhos. Aqui, seus shows eram muito concorridos e a banda era um dos maiores nomes do rock neste período.

Outro marco no rock brasileiro de 1975 foi o primeiro (e único) disco da banda O Peso. Formada a partir da dupla Luis Carlos Porto e Antônio Fernando, vindos de Fortaleza para o Rio concorrendo com a música “O Pente” no FIC de 72, a banda registrou em 75 o disco Em busca do Tempo Perdido, com um rock básico, rasgado e pesado, com influências de blues-rock. A formação que gravou o disco e fez vários shows no período era Luís Carlos Porto (vocal), Carlinhos Scart (baixo), Gabriel O’Meara (guitarra), Constant Papineu (teclado) e Carlos Graça (bateria). O grupo, desiludido pela falta de sucesso e queimado com os empresários pela arruaça que provocava por onde passava, encerrou as atividades após dois anos na estrada. Os músicos do Peso se integrariam novamente nos idos de 76-77 com a banda Flamboyant, que contava com Gabriel, Papineu e Carlinhos, além de Zé da Gaita (que tinha participado do disco do Peso, tocando na faixa “Blues”) e Celso Blues Boy na guitarra. Chegaram a acompanhar Raul Seixas em alguns shows, mas não gravaram nada.

Rita Lee & Tutti-Frutti foram a sensação daquele ano, com seu lançamento mais bem sucedido até então – Fruto Proibido e Raul Seixas continuava numa ascendente com Novo Aeon. No underground pernambucano, a história foi escrita pelo coletivo capitaneado por Zé Ramalho e Lula Côrtes, que lançaram o mítico álbum Paêbirú. Totalmente radical, este foi um trabalho que levou à estratosfera a mistura de música regional nordestina com o espírito psicodélico de experimentação e muita loucura. Gravado em fins de 1974, o disco se tornou uma raridade muito rapidamente, por dois motivos – uma enchente abateu o depósito da gravadora onde estavam os discos prensados e grande parte do material se perdeu nessa ocasião; por conta do ocorrido, somado ao alto custo da prensagem (um encarte bastante caprichado acompanhava a edição original) e o baixo potencial de vendas, inviabilizaram novas produções pelo selo Rozenblitz. O que resta hoje é um legado maravilhoso desta obra, considerada como um dos discos mais valiosos (pelo valor musical e pela raridade) gravados no Brasil.

Adentrando nos territórios da MPB que transava o rock e vice-versa, há ainda que se destacar os lançamentos de Luiza Maria (Eu queria ser um anjo), com a participação dos músicos do Vímana, a estréia auto-intitulada do Azymuth, o primeiro disco solo de Ney Matogrosso, Fagner com Ave Noturna (também contando com músicos do Vímana), Milton Nascimento com Minas e Walter Franco com Revolver, entre outros.

Destaque

Essra Mohawk - Essra (1976) 2003

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