segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

O Som Não Propaga Atrás da Cortina de Ferro

 

A História do Plastic People of the Universe

Era uma vez uma primavera em Praga

Jovens cabeludos vestindo roupas coloridas, bandas de garagem abusando dos decibéis, o rock tocando nas rádios e alimentando matérias em revistas especializadas, um cheiro de cannabis no ar… Não, senhoras e senhores, não estamos falando de Londres ou São Francisco nos anos 60, mas sim de Praga, na Checoslováquia, em pleno regime comunista.

Os responsáveis: de um lado os Beatles, que espalharam a beatlemania não apenas no Reino Unido ou nos Estados Unidos, e do outro o poeta beat americano Alen Ginsberg, que em 1965 fora expulso da cidade depois de insultar o governo com seus poemas libertários entremeados de acusações contra a repressão e a política de exceção no país comandado por Antonin Novotny.

Ofendido além da conta, Novotny radicalizou tanto a sua ação contra essas novas idéias, que dois anos depois o partido comunista local resolveu substituir sua liderança pela de alguém que pudesse instituir as reformas necessárias no país sem ofender os senhores do Kremlin. E foi assim que surgiu a figura de Alexander Dubcek em janeiro de 1968.

Com Dubcek nascia a Primavera de Praga, um conjunto de ações que abrandava a linha dura na Checoslováquia, instituindo a democracia socialista e uma maior aproximação cultural com o Ocidente.

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Alexander Dubcek

Para o jovem que viveu no país nessa época, foi uma espécie de versão comunista do Verão do Amor californiano, com direito a hippies, drogas, psicodelia e contra-cultura.

A resposta irada do Kremlin contra os excessos democráticos da Primavera de Praga de Dubcek não tardou a aparecer: na manhã de 21 de agosto de 1968, a cidade foi invadida por tanques soviéticos escoltados por 175 mil soldados do Pacto de Varsóvia. Depois de 3 dias, as tropas assumiram a situação e o sonho de liberdade acalantado a rock and roll acabou.

Tanques T-62 soviéticos em Praga

Tanques T-62 soviéticos em Praga

Na cidade ferida pelos tanques de aço surge o povo de plástico

Menos de um mês após a invasão e ainda inspirado pelos ideais libertários das reformas instituídas pela Primavera de Praga de Dubcek, o baixista Milan Hlavsa fundou o Plastic People of the Universe. O grande barato de Milan, juntamente com o diretor artístico e empresário Ivan Jirous, o guitarrista Josef Janicek e o mago da viola Jiri Kabes, era abusar da maquiagem e das luzes psicodélicas  para criar verdadeiros happenings enquanto tocavam covers das músicas de seus heróis americanos: Velvet Underground, Fugs, Doors, Captain Beefheart e Frank Zappa, de quem os rapazes se aproveitaram da música Plastic People para batizar a banda.

Acontece que as coisas já não eram as mesmas. A mão de ferro do Kremlin caiu pesada sobre o cotidiano do país, substituindo Dubcek e instituindo uma pesada censura aos meios de comunicação e outras instituições. A cena roqueira ainda sobreviveu um pouco, mas logo foi atingida pelo programa de normalização do atual governo.

O PPU em 1968

O PPU em 1968

As bandas passaram a não mais poder cantar em inglês e precisariam mudar seus nomes para a língua local. Usar cabelos compridos e roupas extravagantes nem pensar. Os concertos e shows eram totalmente controlados pelo governo e, exagero dos exageros, cada músico ou grupo musical era forçado a se submeter a um exame anual perante uma comissão comunista. Apenas os que passavam nesse exame eram autorizados a levar sua arte ao público.

Numa clara demonstração de fidelidade às suas convicções, o Plastic People of the Universe, na época a banda psicodélica mais popular da Checoslováquia, não apenas se recusou a participar de tais exames, como resolveu também manter o nome original e cantar em inglês. Como represália, foram obrigados a cair na clandestinidade, sem licença para trabalhar e sem instrumentos, já que de acordo com o governo comunista tais instrumentos eram propriedade do estado.

It’s only rock’n’roll but they don’t like it

 

A partir daí, a banda teve que se virar para sobreviver enquanto procurava retomar sua licença de trabalho. Instrumentos usados foram conseguidos aqui e ali e Janicek, um mecânico de automóveis por formação, construiu amplificadores primitivos a partir de velhos transistores de rádio. Foi por esta época que Paul Wilson, um estudante canadense que aportou em Praga por volta de 1967 para estudar de perto o comunismo e foi ficando na cidade como professor de inglês, conheceu Ivan Jirous e começou a ensinar a banda a cantar as músicas dos grupos da costa oeste americana. A afinidade de Wilson com os músicos foi tanta que ele acabou virando o cantor da banda.

Paul Wilson (esq.) no PPU

Paul Wilson (esq.) no PPU

Segundo Wilson, no período em que ele participou do grupo, de 1970 a 1972, o Plastic People conseguiu se apresentar pouco mais que uma dezena de vezes em público, mas sempre boicotados ou interrompidos pela ação da polícia. No último desses shows, um concerto no centro de Praga, milicianos completamente bêbados passaram a agredir os fãs e o grupo foi obrigado a se retirar da cidade e a se isolar no interior.

Logo após a saída de Wilson, um novo membro foi convidado a entrar para a banda: o saxofonista Vratislav Brabenec, músico oriundo de grupos de jazz e pelo menos 10 anos mais velho que a maioria dos outros integrantes. Brabenec, de longe o melhor músico da banda, impôs algumas condições para aceitar ser um novo Plastic People, entre elas tocarem apenas material composto pelo grupo e cantarem na sua própria língua, mudanças que radicalizaram totalmente o som do PPU, tornando-o mais experimental e sombrio, criando a atmosfera ideal para os solos brilhantes de Brabenec.

Apesar de relegada a uma condição totalmente amadora, praticamente refugiada no interior da região da Boêmia, a fama do grupo cresceu tanto que inspirou toda uma cena underground à sua volta. Mas suas apresentações durante muitos anos podem ser resumidas às festas de casamento dos amigos e a raros e disputados concertos escondidos no meio do mato, que eram divulgados no esquema boca-a-boca um ou dois dias antes de acontecerem, com os fãs tendo de parar seus carros na estrada e andar durante horas pela mata, em meio à chuva ou neve, para encontrarem uma fazenda onde, num palco improvisado, a banda iria tocar.

O Plastic People of the  Universe em 1973

O Plastic People of the  Universe em 1973

Um desses concertos, em março de 1974, ficou conhecido como o Massacre de Ceske Budovice, onde centenas de fãs foram recepcionados pela polícia e obrigados a andar por uma espécie de corredor polonês, sendo agredidos pelos policiais antes de serem enviados de volta a Praga. Pessoas foram fichadas, seis estudantes acabaram presos e dezenas foram até expulsos da escola.

A revolta do maluco.

Por essa época, Ivan Jirous, um misto de diretor artístico, empresário e agitador cultural da banda, achou por bem radicalizar ainda mais a postura subversiva do grupo. Ele acreditava que o Plastic People of the Universe poderia levantar a bandeira daquilo que ele chamava de Segunda Cultura, ou seja: um conjunto de ações e atitudes, artísticas e intelectuais, que se opunha totalmente à Primeira Cultura totalitária patrocinada pelo governo.

Feita a cabeça da banda, ele assumiu o apelido de Magor (ou maluco, em péssimo português) e organizou o primeiro Festival de Música da Segunda Cultura, na cidade de Postupice, em 1º de setembro de 1974, onde o Plastic People e outras bandas underground se apresentaram para centenas de fãs.

Um segundo festival, agora na cidade de Bojanovice, aconteceu em 21 de fevereiro de 1976. Mas este teve conseqüências, pois nem um mês depois a polícia secreta prendeu, entre músicos que participaram desse festival e seus amigos, todos os membros do Plastic People. Mais de 100 fãs foram interrogados, todos os instrumentos foram apreendidos e casas foram invadidas à procura de gravações, filmes e anotações suspeitas. Paul Wilson, o ex-cantor da banda, foi expulso do país e retornou para o Canadá.

Músicos do Segundo Festival de Musica da Segunda Cultura – Alguns membros do PPU estão à direita

Músicos do Segundo Festival de Musica da Segunda Cultura – Alguns membros do PPU estão à direita

Seis meses depois, os presos foram levados à julgamento. E de nada adiantaram as alegações da defesa em favor da liberdade de expressão artística e outros clichês da democracia. Ali era um tribunal comunista e eram os hippies e o rock and roll que estavam em questão, com suas letras vulgares e anti-sociais prejudicando a formação saudável da juventude checa. Os quatro membros do PPU foram finalmente condenados: Jirous pegou 18 meses, Kajicek 12, Karezec e Brabenec 6 meses cada, penas cumpridas na prisão de Praga.

O bolero libertário de Havel

Como toda ação implica uma reação, os artistas e intelectuais checos que acompanharam o julgamento resolveram se movimentar a favor desses jovens músicos hippies que ousaram enfrentar o regime comunista  simplesmente por acreditarem que tinham o direito humano de manifestar seu pensamento do jeito que quisessem. Liderados pelo dramaturgo Vaclav Havel eles criaram o Charter 77, manifesto a favor dos direitos humanos que ficou mundialmente conhecido e que foi precursor da revolução nacional ocorrida 12 anos depois e que poria fim ao regime de exceção, conduzindo Havel à presidência do país.

Mas esta é uma outra história e nós vamos ficando por aqui. Para concluir, a banda continuou seu percurso marginal durante os anos 80, sofrendo novas prisões e sansões por parte do governo. Apenas com a subida ao poder de Vaclav Havel e a queda do regime comunista ela chegaria finalmente à legalidade.

Foto recente do PPU

Foto recente do PPU

Discografia do Plastic People of the Universe

  1. Muž bez uší (live recordings 1969-72)
  2. Vožralej jak slíva (live recordings 1973-75)
  3. Egon Bondy’s Happy Hearts Club Banned (1974)
  4. Ach to státu hanobení (live recordings 1976-77)
  5. Pašijové hry velikonoční (1978)
  6. Jak bude po smrti (1979)
  7. Co znamená vésti koně (1981)
  8. Kolejnice duní (1977-82)
  9. Hovězí porážka (1983-84)
  10. Půlnoční myš (1985-86)
  11. Bez ohňů je underground (1992-93)
  12. The Plastic People of the Universe (1997)
  13. For Kosovo (1997)
  14. 10 let Globusu aneb underground v kostce (2000)
  15. Milan Hlavsa – Než je dnes člověku 50 – poslední dekáda (2001)
  16. Líně s tebou spím – Lazy Love/ In Memoriam Mejla Hlavsa (2001)
  17. Pašijové hry/ Passion Play (with Agon Orchestra) (2004)
  18. Do lesíčka na čekanou (2007)
  19. Magor’s Shem (40 Year Anniversary Tour PPU 1968-2008) (2008)
  20. Maska za mascou (2009)
  21. Non Stop Opera (2011)

 

Egon Bondy’s Happy Hearts Club Band – O Sgt Pepper dos disco obscuros.

(8)Egon Bondy foi um poeta checo com uma grande veia satírica. Entre 73 e 74, refugiados num castelo na Boêmia, os músicos do Plastic People of the Universe  vestiram as palavras do poeta com uma ousada fusão de psicodelia, jazz rock e melodias clássicas européias. Nascia mais um dos vários tapes que a banda gravava e presenteava os amigos. Acontece que uma dessas fitas acabou sendo contrabandeada para o ocidente e lançada em disco pela Scopa Invisible Productions em 1978, na França, acompanhado de um rico encarte contando a história da banda, do rock na Checoslováquia e da situação política em que viviam os músicos no país. E detalhe: tudo isso sem o conhecimento da banda. O disco transpira Zappa por todos os sulcos e é um verdadeiro legado às gerações roqueiras. Gravado com o coração, a alma e a esperança de liberdade, Egon Bondy’s Happy Hearts Club Band é um clássico, talvez o maior disco obscuro da história do rock.

Obs: esta materia é uma compilação, adaptação e, algumas vezes, tradução literal de textos existentes na internet e no encarte do primeiro disco do Plastic People of the Universe lançado no ocidente. A história mais detalhada da banda a partir de 1977 está disponível na net.

Jo Ann Kelly

 

Ser coroada rainha em um país que preza tanto a monarquia já dá uma boa dimensão da importância de Jo Ann Kelly para o blues britânico. Mas sua fama há muito deixou de estar cercada de água por todos os lados para extrapolar a Grã-Bretanha e conquistar os aficionados do blues no mundo inteiro.

Nascida em Streatham, no sul de Londres, em 5 de janeiro de 1944, a pequena Jo Ann foi o raio que caiu pela segunda vez no mesmo lugar: seu irmão mais velho, Dave Kelly, também se tornaria um grande nome do blues inglês, tocando na John Dummer Blues Band e na sua Dave Kelly Band.

Adolescentes ainda, e já apaixonados pelo blues acústico, os irmãos Kelly conheceram Tony McPhee, outro tarado pelo gênero e que mais tarde formaria o Groundhogs. Foi Tony quem introduziu Jo Ann ao som de Memphis Minnie, a grande cantora de blues americana, que seria sua maior inspiração na carreira.

kelly 2Por volta de 1962 Jo Ann Kelly já começava a impressionar a audiência dos nightclubs londrinos, adaptando os clássicos de Memphis Minnie, Bessie Smith e outras grandes cantoras ao seu próprio estilo. Sua marca registrada, já bem definida nessa época, era a voz poderosa e penetrante e sua exímia habilidade com a guitarra acústica.

Quem ouve a voz e o violão de Jo Ann Kelly imagina imediatamente uma negra sofrida, descendente de escravos, cantando suas mazelas em um campo de algodão perdido no interior dos EUA em plena depressão. Mas sua voz vem de um rosto delicado e branco, de cabelos loiros, com toda pinta de uma bibliotecária londrina. O contraste é impressionante, tanto que surpreendeu os americanos nas suas primeiras apresentações no país.

kelly 3No ano de 1969, Kelly lançou seu primeiro álbum solo (já havia lançado um EP em 64 numa prensagem limitada e dois discos com Tony McPhee) e começou a ganhar o mundo. Suas apresentações em festivais de blues foram sempre marcantes. Em um deles, o segundo National Blues Convention, fez uma jam com o Canned Heat e imediatamente foi convidada para fazer parte da banda em bases permanentes, coisa que declinou simplesmente por não querer ter uma banda eletrificada às suas costas. Outro que se apaixonou pela sua voz foi Johnny Winter, que também não teve sucesso ao convidá-la para seu grupo.

Ficamos então imaginando o que teria sido a cantora Jo Ann Kelly se tivesse trocado sua paixão pelo Delta Blues por um som pesado e mais roqueiro. Provavelmente teria eclipsado todas as cantoras de rock e chegado a um patamar que só Janis Joplin atingiu.

kelly 4Ao longo dos anos 70 e 80, Jo Ann trabalhou muito, seja em discos solos, seja em projetos e bandas de amigos. No Brasil, infelizmente, seu trabalho nunca teve repercussão (só conheço duas faixas suas numa coletânea do selo Immediate chamada Blues Anytime). Em 1989 começou a sentir dores de cabeça e um tumor foi diagnosticado e operado aparentemente com sucesso. Em agosto de 1990 fez sua última apresentação em um festival em Lancashire, onde ganhou o prêmio de melhor cantora de blues do ano. Em outubro veio a notícia: the queen of the british blues is dead.

Algumas músicas

Jo Ann Kelly e Tony McPhee – Oh Death  

Jo Ann Kelly e Tony McPhee – Rollin’ and Tumblin’ 

Jo Ann Kelly – I Feel So Good , Ain’t Seen No Whisky  

Tramp (1969) – Baby What You Want Me To Do 

Jo Ann Kelly –  Me And My Chauffeur Blues  

Letter to Bowie (David Bowie: 08 / 01 / 1947 – 10 / 01 / 2016)

Sempre estar lá e ver ele voltar …” nunca a aberração feita pelo Nenhum de Nós em “Astronauta de Mármore” fez tanto sentido. Essa foi a “primeira canção” de Bowie que ouvi, ou melhor, uma reconstrução terrível para “Starman”, mas que quando eu tinha meus quatro / cinco anos, era uma referência do que eu iria gostar.

David Bowie_fase_glam

Bowie sempre foi um desafio para mim. Demorei muito tempo para tomar coragem e ouvi-lo, e sempre o fiz como desafios. Cada álbum deglutido era um choque, uma sensação o que mais esse cara pode fazer?”, e uma busca por novos álbuns, novas canções, novos filmes, novas interpretações. Um artista completo. Um homem que caiu na Terra, e fez o mundo mudar . Esse homem, batizado David Robert Jones e apelidado de David Bowie. Por conta dele, a década de 70 se transformou, e sua influência atingiu desde pequenos nomes do rock como Mott the Hopple até gigantes jurássicos como o Led Zeppelin.

David Bowie - 70s

Além de músico, David fez cinema, era artista plástico, compôs clássicos da música que eram de estilos tão distintos, seja no pop, seja no soul, seja no eletrônico, seja no hard rock, várias faces que fizeram com que ganhasse um apelido marcante, o Camaleão.

O estranho é que preciso desabafar aqui. Ontem ouvi pela primeira vez o novo álbum de Bowie, Blackstar, e me arrepiei com “Lazarus”. A letra da canção é uma despedida gloriosa, e meus neurônios não queriam raciocinar que Bowie estava mesmo despedindo-se. Senti-me mal ao ouvir o disco, sinceramente, e acabei deixando-o de lado, para tentar assimilar o que passou nas canções. Pois hoje, acordei-me com as notas de “Warszawa” na cabeça, por volta das nove da manhã, e fiquei enrolando na cama mais algumas horas. Eis que decidi me levantar, liguei o computador e … o mundo caiu. Ele partiu, vítima de câncer, mais um ídolo, mais um grande nome, só que este era diferenciado, pois como um Midas, tudo o que tocou virou ouro.

DAVID BOWIE 80s

Faço um a parte aqui, que os fãs entenderão, sendo uma pequena homenagem escrita pelo próprio Bowie, já que não tenho palavras para descrever a dor desse momento, a não ser estas, que batizo simplesmente de Letter to Bowie:

Mr. Bowie

Don’t you wonder sometimes you get so lonely …

How I wish to meet you once

To see you strong in the failling light

Who will connect me with love and music?

Wonder who wonder who wonder who?

You can go, but I’ll follow you wherever I go

Just me and my idol singing falsetto

Oh, God knows I’m Good

But why I can’t control it 

So many fans crying

News guy wept and told us

I’m gonna say goodbye, Lost in my circle

But I hope you live forever

Here I am, there are you

David Bowie CDs

Blue, blue, that’s the color of your room, where you will live

Jamming good with Mick and Trevor, the Spiders from Mars

Look up, you are there

You put the world on fire

Kennedy would kill for the lines that you’ve written

The Bowie Genie 

The man who enchanted the world

I will sing, me with a big hurt

And then you stay with us

We will remember this guy that’s been in such a early song

We can be Heroes, to not cry for you lost, just for one day

As the world falls down

Because we’re like creatures of the wind

and Wild is the Wind, like Wild was your life

Goodbye …

David Bowie piratas

IMG_2287David não morreu, ele apenas metamorfoseou-se mais uma vez, dessa vez no ar que conduzirá eternamente suas músicas, sua voz, sacudindo o cérebro por conta de uma das mais talentosas almas que Aquele (ou Aquela) que criou o universo colocou na Terra. 

Fico com a alegria de “Modern Love” girando na vitrola, mas a triste harmônica de “A New Carrer in a New Town” fazendo as lágrimas caírem como cataratas em um dia de rio cheio. R. I. P., meu ídolo maior David Bowie.

BOWIE

“I’m A True Fairy!” – A Saga de Jobriath

 

O ano era 1975. Como uma Greta Garbo machucada, mas ainda mantendo certo ar de dignidade blasé, Jobriath, o futuro do rock and roll, descrito dois anos antes por seu empresário nas páginas da Rolling Stones como aquele que “para ser apresentado da maneira como merece teriam que ser quebradas todas as regras”, anunciou sua saída do mundo artístico e retirou-se para sua pirâmide de vidro no teto do Hotel Chelsea, em Nova Iorque.

Começava assim a parte final de uma das mais tristes histórias do rock, culminada pela sua morte em julho de 1983, vitimado pela Aids.

Jobriath e um de seus figurinos estranhos usados no palco

Jobriath e um de seus figurinos estranhos usados no palco

Nascido Bruce Wayne Campbell em 1946, deu início à carreira de músico adotando o nome artístico de Jobriath Salisbury (imagino que Batman não iria gostar de ter um homônimo para sua identidade secreta) no grupo hippie de inclinações progressivas Pidgeon, cuja fantástica trajetória não passou de um único LP recheado de canções meiguinhas com arranjos bacaninhas.

Pois foi nesse cenário que ele foi “descoberto” por Jerry Brandt (o tal que precisava quebrar as regras para apresentá-lo), empresário de sucesso que na época cuidava de artistas do porte de uma Carly Simon. Jerry viu naquele mocinho frágil uma verdadeira mina de ouro, justamente quem estava procurando para criar o ídolo glam da América, em condições de rivalizar e desbancar os ingleses Bowie e Bolan.

Único LP do Pidgeon

Único LP do Pidgeon

Depois de passar um tempo no elenco original da peça Hair, Jobriath encontrava-se na Califórnia meio que no fundo do poço, sem comer ou ter onde dormir e já bastante dependente das drogas e do álcool. Parece que uma de suas formas preferidas de sobrevivência era prostituir o corpinho com marmanjos não muito delicados. E bem que tentou mandar algumas demos suas para a Columbia Records, mas foi tachado de maluco, desestruturado e destruidor de melodias.

A lábia de Jerry devia ser realmente poderosa, pois convenceu o selo Elektra a assinar com o rapaz por $500,000 e gastar outros quinhentos mil só em promoção. Alguns meses depois, o rebatizado Jobriath Boone aparecia em anúncios de página inteira nos principais jornais e revistas, além de virar pôster gigante em plena Times Square. Releases foram distribuídos a granel e a expectativa para aquela figura pálida que aparecia na capa de seu primeiro disco, Jobriath (1973), como uma estátua de cerâmica com as pernas quebradas, sobre um fundo vermelho carmesim, não poderia ser maior.

Jobriath_album_cover

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Jobriath (acima) e sua versão capa dupla (abaixo)

Tinha tudo para dar certo, mas não deu.

Hoje, algumas décadas depois, as explicações são várias. Uma delas diz que houve um erro de timing, uma vez que o glam rock já estava em baixa em 73 Bowie, por exemplo, abandonou o barco em 74 e Bolan amargou séria decadência até sua morte em 77.

Outros metem o pau no disco (na Inglaterra foi apontado como “o fim do glam”), o que é uma grande injustiça. O LP lembra o trabalho de Bowie em Hunky Dory, e tem momentos de Elton John, com direito a participações de Peter Frampton e John Paul Jones. Pode não ser a oitava maravilha, pode ter sido pretensioso, mas é um digno representante do pop da época e merecia destino melhor.

Jobriath ao vivo

Jobriath ao vivo

 

A terceira explicação e, na minha humilde opinião, a mais correta, é que Jobriath não era o cantor andrógino típico. Ele era viado mesmo, assumido e escancarado, o primeiro artista genuinamente gay do rock, e isso bateu fundo no preconceito do americano machista. Uma coisa era comprar disco de cantor que se dizia bissexual, carregava no rimel e que trocava selinho em público com os Jaggers da vida. Outra era andar por aí carregando debaixo do braço o produto de um cara que dizia que dava, gostava de dar e queria dar para você.

 

Segundo álbum de Jobriath

Segundo álbum de Jobriath

Jobriath ainda lançou um segundo disco seis meses depois, Creatures of the Street, e fez algumas excursões até o final de 74. Começou mesmo a ter um público mais fiel, mas seu tempo havia passado e ele sucumbiu às críticas, inclusive as de seu empresário, o Dr. Frankenstein que o havia criado.

Foi redescoberto por Morrissey nos anos 90, que o apontou como ídolo e organizou uma excelente coletânea em CD. E foi devidamente homenageado no filme Velvet Goldmine, ao ter a capa de seu LP como fonte de inspiração para o disco de Brian Slade. Uma biografia está sendo prometida para breve e ele já é figura cult de algumas comunidades na internet.

Em algum lugar, não sei dizer se do céu ou do inferno, ele deve estar cantando “I’m a Man” envolto em algum daqueles seus figurinos estranhos, com um sorriso brejeiro nos lábios.

Serão estes os melhores álbuns lançados em 2021?


Selecionamos dez excelentes álbuns lançados em 2021 para você ouvir. 

A ordem da lista não segue nenhum critério especial de preferência.

WEEZER – OK HUMAN

Ao contrário dos trabalhos anteriores, marcados pelo power pop conduzido pelos riffs de guitarra de Cuomo, Ok Human surpreende ao seguir uma direção em que arranjos orquestrais, piano e outros instrumentos de teclas assumem o protagonismo em todas as faixas.

O resultado da empreitada é um disco repleto de belas melodias que remetem ao pop praticado pelos Beach Boys (fase Pet Sounds), The Zombies e Harry Nilsson.

A mudança de sonoridade revigorou a banda e mostrou que Rivers Cuomo e companhia podem ir além do rock básico regado à power chords dos discos anteriores. Afinal, um pouco de imaginação e ousadia não fazem mal a ninguém.

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JON BATISTE – WE ARE

Jon Batiste é um multi-instrumentista e vocalista norte-americano que ficou conhecido inicialmente como diretor musical do programa The Late Show with Stephen Colbert, além de, anos mais tarde, ter composto a premiada trilha sonora da animação Soul em parceria com Trent Reznor e Atticus Ross (dupla do Nine Inch Nails).

WE ARE é o oitavo álbum de estúdio gravado pelo artista. Recentemente o trabalho causou alvoroço ao receber onze indicações ao Grammy, dentre elas a de “Álbum do Ano”. A cerimônia de premiação está prevista para acontecer em 14 de março do ano que vem. O tracklist é composto por treze canções que reúnem elementos do jazz, R&B, soul, pop contemporâneo, funk, rap e hip-hop. Aliás, Batiste transita por esses estilos com bastante autoridade, demonstrando grande fluência musical.

WE ARE é um álbum alto astral que atualiza com maestria tradicionais gêneros da música negra norte-americana para a contemporaneidade. Tudo é feito com grande apuro técnico e sofisticação, mas sem perder de vista o apelo pop ou soar maçante aos ouvidos. 

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ROBEN FORD – PURE

Com mais de cinquenta anos de carreira, Robben Ford é um guitarrista fluente em vários estilos musicais como jazz, blues, soul, rock, funk e fusion. Pure é o primeiro álbum integralmente instrumental lançado por Ford desde o excepcional Tiger Walk, lançado em 1997. Ao todo são nove faixas originais que transitam entre o blues rock e o fusion. 

Pure é um trabalho impecável em termos de composição e execução. Aqui, Ford destila sua técnica afiada nas seis cordas, aliando virtuosismo, sentimento e bom gosto na escolha dos timbres dos instrumentos (principalmente da guitarra, é claro!).

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JOANNE SHAW TAYLOR – THE BLUES ALBUM

A guitarrista e vocalista britânica Joanne Shaw Taylor começou a despontar no cenário musical aos dezesseis anos de idade, quando foi “descoberta” por Dave Stewart (Eurythmics). The Blues Album é o sexto disco de estúdio lançado pela artista.

A produção do ficou a cargo da dupla Joe Bonamassa e Josh Smith.O repertório do disco é composto por onze regravações. Taylor presta tributo a nomes como Albert King, Otis Rush, Peter Green, Little Richard, Magic Sam, Aretha Franklin e outros. Além de ser uma guitarrista muito talentosa, Taylor também chama atenção pelas excelentes interpretações vocais, repletas de emoção e intensidade.

Em The Blues Album, Joanne Shaw Taylor vai muito além das convenções tradicionais do blues e mergulha de cabeça na soul music. O resultado é um trabalho inspirado que honra cada regravação presente no tracklist.

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DAVID CROSBY – FOR FREE

O veterano David Crosby (The Byrds, Crosby, Stills & Nash e Crosby, Stills Nash & Young), cantor, compositor e guitarrista, vem lançando excelentes álbuns desde que retomou sua carreira solo em Croz (2014). Em For Free, o artista mantém a pegada com seu pop rock suave regado à folk, jazz e blues.

For Free foi produzido em parceria com James Raymond, músico e filho de Crosby. O álbum conta com participação especial de Donald Fagen (Steely Dan), Michael McDonald (Doobie Brothers), Abe Laboriel Jr. (Paul McCartney) e Steve DiStanislao (David Gilmour).

Ao todo são dez faixas que demonstram toda a competência de Crosby como cantor e compositor. For Free é um disco belo, honesto e sentimental. A julgar pela qualidade do trabalho, o octogenário artista ainda tem muita lenha para queimar.

JOE BONAMASSA – TIME CLOCKS

O prolífico guitarrista, vocalista e produtor Joe Bonamassa, um dos principais nomes das seis cordas na atualidade, dá prosseguimento em sua discografia solo pouco mais de um ano após o lançamento do excelente Royal Tea. Desta vez, o músico apresenta ao ouvinte Time Clocks, décimo quinto álbum gravado em estúdio. 

Trata-se de um petardo de blues rock recheado de riffs e licks de guitarra executados com maestria. É preciso dizer que as letras compostas pelo artista melhoram significativamente a cada disco. Em Time Clocks elas ganharam contornos reflexivos discorrendo com maturidade sobre a passagem do tempo.

Joe Bonamassa é um artista que surpreende pela regularidade superior apresentada em cada trabalho em que põe as mãos, e Time Clocks é mais um exemplo cristalino dessa constatação.

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GOV’T MULE – HEAVY LOAD BLUES

O Gov’t Mule é uma banda americana que transita por variadas vertentes do rock e de outros gêneros musicais. Suas apresentações são marcadas por longas improvisações musicais, seguindo a escola de bandas como Grateful Dead e The Allman Brothers Band.

Heavy Load Blues é o primeiro da banda integralmente dedicado ao blues. O repertório apresenta uma mescla de canções originais e versões para clássicos de artistas como Tom Waits, Howlin’ Wolf, Elmore James, Junior Wells, Ann Peebles, “Bobby Blue” Bland e The Animals.

O álbum é direto e orgânico como um disco de blues autêntico deve ser. Ponto para Warren Haynes e sua trupe.

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ROBERT PLANT & ALISON KRAUSS – RAISE THE ROOF

Após 14 anos do lançamento do premiado Raising Sand (2007), Robert Plant, o lendário vocalista do Led Zeppelin, retoma a parceria com a cantora Alison Krauss em Raise the Roof.

tracklist é composto por 12 faixas que transitam por diversos gêneros musicais (folk, soul, spiritual, blues e country). Estão presentes regravações para canções de artistas diversificados como Merle Haggard, Allen Toussaint, Everly Brothers, Anne Briggs, Geeshie Wiley, Bert Jansch, Bobby Moore, Lucinda Williams e outros. A produção de T-Bone Burnett e as vocalizações afiadíssimas de Plant e Krauss conferem ao trabalho um clima atmosférico e lúgubre.

Mais uma vez a dupla proporciona uma rica imersão pela música de raiz norte-americana. Um trabalho profundo e emocionante.  

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STING – THE BRIDGE

A versatilidade sempre foi um dos pontos de destaque na carreira solo do veterano Sting, e The Bridge explora exatamente esta faceta. Ainda que predominantemente pop, há espaço para jazz, rock, R&B e folk.

Atento ao que acontece no cenário musical e disposto a apresentar novidades, o artista recrutou o produtor Martin Kierszenbaum (Lady Gaga, Madonna, Sheryl Crow, Samantha Fish e outros) para auxiliá-lo na produção do álbum e na composição de algumas faixas. 

The Bridge é um trabalho delicado, recheado de canções com letras inteligentes e soluções melódicas intrigantes. O artista prova novamente que há vida inteligente na música pop.

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NEIL YOUNG & CRAZY HORSE – BARN

O veterano cantor e compositor canadense acrescenta mais um álbum em sua extensa e sólida discografia. A bola da vez é Barn, trabalho de inéditas concebido durante o período de lockdown e gravado num celeiro reformado construído no século XIX, localizado no alto das Montanhas Rochosas, porção do estado norte-americano do Colorado.

As dez novas faixas de Barn capturam um artista inspiradíssimo, atento à causa ambiental e disposto a explorar um lado sentimental repleto de memórias afetivas, paisagens bucólicas e amor. A sonoridade é crua e as letras são diretas. Young alterna momentos elétricos e distorcidos com outros acústicos e brandos, algo habitual em sua carreira. 

Barn capta toda a essência criativa de Neil Young e seu talento inigualável para compor rocks crus e belas baladas que passam longe da cafonice. 

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Destaque

Action (1972) - Discografia

    Action foi uma das muitas bandas de rock alemãs obscuras dos anos 70 não documentadas na época. Action veio da cidade de Zweibrücken e e...