terça-feira, 24 de janeiro de 2023

ESQUINA PROGRESSIVA

 

Magma - Mekanïk Destruktïw Kommandöh (1973)



O terceiro lançamento do Magma está marcado por três letras reconhecíveis: MDK. Ás vezes as pessoas podem pensar que por isso seja o disco mais popular da banda, pois todos os outros, com exceção de Merci lançado em 1984 e K.A de 2004 sempre houveram álbuns com nomes complexos, língua criada por Christian Vander, líder e principal compositor do grupo. Na verdade esse disco também é em Kobaïan, mas ganhou popularidade através das iniciais do seu nome original, Mekanïk Destruktïw Kommandöh.

Mas o motivo da popularidade de Mekanïk Destruktïw Kommandöh (tanto quanto o gênero Zeuhl pode oferecer) não tem nada (ou muito pouco) a ver com o nome, mas com o produto encontrado dentro dele. Zeuhl é uma música extremamente única e provavelmente o seu exemplo mais claro esteja nesse disco. Imagine alguém olhando para as possibilidades musicais e se sentindo em um beco sem saída, como se tudo fosse fútil e sem originalidade, pois bem, podemos dizer que Vander sentia basicamente isso e que de alguma forma precisava fazer algo que o tirasse dos limites desse universo. A princípio esse novo gênero seria visto mais ou menos como um ramo da música de vanguarda, mas basta apenas uma audição em MDK pra perceber que a única coisa de vanguarda aqui é o vocal, o resto da música é extremamente sinfônica e clara.

Zeuhl tem muitas faces, mas essa forma é a mais reconhecida: as composições extremamente complexas, as estruturas clássicas do século XX, os temas de marcha e ópera. Musicalmente, praticamente não tem nada a ver com a cena Prog do início dos anos 70. Vander expressou claramente em entrevistas que ele não sentiu nenhuma ligação com essas bandas e qualquer um que tenha ouvido este álbum, sem dúvida alguma concorda.

Embora seja separado em sete faixas diferentes, MDK é melhor apreciado quando visto apenas como uma longa peça, sendo que ouvi-las isoladamente e fora de ordem deixa o disco com menos brilho. MDK é o terceiro movimento da trilogia Theusz Hamttaahk. O primeiro e o segundo movimento são Theusz Hamttahk e Wurdah Itah, mas MDK foi gravado e lançado antes de qualquer um desses dois.

No que diz respeito à instrumentação e formação, este é o primeiro álbum "clássico" do Magma da década de 70, com os elementos centrais de Christian Vander na bateria, Jannick Top no baixo e Klaus Blasquiz e Stella Vander cantando. Tal como acontece com a maioria das músicas da banda, o violão elétrico é usado com moderação, há uma seção de metais e também de flauta e clarinete, além de claro, o inconfundível Fender Rhodes, que é essencial para o som Magma de ser.

Curioso quando as pessoas falam sobre o progressivo ser um gênero pretensioso, bombástico e mesmo autoindulgente e usam por exemplo, uma banda como o Emerson, Lake & Palmer pra dá um exemplo disso, mas ninguém costuma lembrar do Magma. MDK soa como uma espécie de adaptação de Carmina Burana para um filme de batalhas épicas. Isso sim é pretensioso, bombástico e autoindulgente. Mas qual o problema? Dentro do progressivo vejo isso como uma virtude e particularmente adoro.

O disco abre através de "Hortz Fur Dëhn Stekëhn West", onde vários dos maravilhosos excessos que aprendemos a amar do rock progressivo estão presentes, desde os vocais fortes na linguagem fictícia Kobaian até o excelente refrão e arranjos pomposos.

"Ïma Sürï Dondaï" segue o humor da faixa anterior com uma excelente abertura de Christian e coro feminino, a música é brilhante com quase nenhuma conexão de jazz, contrário ao que poderia ser esperado, além de uma combinação entre orquestra neoclássica e sinfônica proggressiva.

"Kobaïa Is De Hündïn" é uma continuação direta de "Ïma Sürï Dondaï", desta vez a introdução do piano é simplesmente deliciosa e o coro acrescente uma sonoridade bombástica, algo que é tão preeminente neste álbum. As mudanças radicais não alteram o humor da música, mas a velocidade crescente cria algum tipo de sensação claustrofóbica devido à falta de espaços silenciosos, sem tempo para descansar. "Da Zeuhl Ẁortz Mëkanïk" começa com um canto misterioso, mas os teclados adicionam algum tipo de som eletrônico que lembra um pouco Vangelis, mas quase instantaneamente retorna ao coro principal.

"Nebëhr Gudahtt" mantém a melodia principal, mas desta vez com um piano suave e uma guitarra repetitiva na veia de Mike Oldfield, os vocais são quase uma narração, com Christian Vander mostrando sua gama versátil, esta música leva sem pausa para "Mëkanïk Kömmandöh", ousaria dizer que ambas as músicas são fortemente influenciadas pelas Óperas de Wagner.

"Kreühn Köhrmahn Iss De Hündïn" é de longe a faixa mais dramática, Vander explora seus vocais de uma maneira extrema, porém, nada agradável, infelizmente, soando até irritante. Uma boa trilha arruinada pelos vocais e o efeito final. Uma maneira ruim de fechar um disco até então excepcional.

MDK definitivamente marcou um ponto na discografia do Magma e certamente na história da música. Enquanto um disco deste não pode ser visto como algo mais acessível, alias, muito pelo contrário, é extremamente complexo, ele também pode ser visto como uma espécie de música que nasce na cabeça de um gênio e que assombra a Terra de tempos em tempos cada vez mais distantes um do outro.  



Track Listing

1.Hortz Fur Dëhn Stekëhn Ẁest - 9:34
2.Ïma Sürï Dondaï - 4:28 
3.Kobaïa Is De Hündïn - 3:35
4.Da Zeuhl Ẁortz Mëkanïk - 7:48
5.Nebëhr Gudahtt - 6:00
6.Mëkanïk Kömmandöh - 4:08
7.Kreühn Köhrmahn Iss De Hündïn - 3:14



TRISTA LANÇA NOVO SINGLE… “SABE A POUCO”

 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

O Falo de Deus

Não era fácil ser jovem na Alemanha lá pela metade dos anos 60. Um rapaz sair por aí desfilando roupas extravagantes e cabelos compridos ao vento poderia resultar até em tiro (e não era bala perdida). Isso obrigava a rapaziada mais antenada a andar em turma e a se isolar em comunidades. Nem a música ajudava. Enquanto a Inglaterra, a França e a Itália já tinham seu próprio som dominando as paradas, na Alemanha 90% da programação de radio era estrangeira e os 10% restantes era a música melosa de cantores do quilate de um Udo Jürgens ou de um Heino.

No sul do país, mais precisamente na região da Baviera e mais precisamente ainda na cidade de Munique, alguns jovens decidiram lutar contra a intolerância e formaram o que viria a ser a mais famosa comunidade alemã, uma espécie de matriz para muitas outras que viriam no futuro, chamada de Amon Dull.
E lutar era a palavra exata. Essas comunas sabiam que chocar não era tudo, era preciso lutar para ser aceito pelas pessoas. Seus integrantes eram mais do que idealistas, artistas ou simplesmente hippies. Eles eram ativistas.
A comunidade Amon Dull
Bom, mas como o assunto aqui é música e o Amon Duul foi pródigo nesse quesito, vamos nos concentrar no som, embora eventualmente seremos obrigados a nos desviar para os aspectos políticos da comuna, já que eles foram responsáveis por importantes mudanças no grupo.
O marco zero da futura história musical do Amon Dull aconteceu em 1966, numa formação que incluía Chris Karrer na guitarra, Lothar Meid no baixo e Christian Burchard (que mais tarde formaria o Embryo) na bateria. Era um trio de free-jazz alucinado por Coltrane e Ornette Coleman e que buscava inspiração e aprendizado circulando pelos clubes de jazz de Munique e de Barcelona. Nada dessa fase existe como registro sonoro e ela acabou no ano seguinte, no momento em que Karrer, segundo suas próprias palavras, seguiu uma garota até um clube recém inaugurado e que apresentava o show de um guitarrista em excursão pelo país. O nome do guitarrista: Jimi Hendrix.
Ver aquele negão detonando a poucos metros de distância, num pequeno palco e circundado por imensos amplificadores Marshall, foi uma experiência tão intensa que do free-jazz Chris passou a buscar a free-psicodelia. E os companheiros que ele procurava para levar adiante essa revelação acabou encontrando nas figuras de Rainer Bauer, Ulrich e Peter Leopold , todos da comunidade Amon Dull, que iria se expandir com o ingresso da irmã de Bauer, Ella, mais Helge e Angelika Filanda, Uschi Obermeier e várias crianças, gatos e cachorros. Como disse Julian Cope no livro Krautrocksampler, era uma comuna de 10 ou 12 músicos comprometidos em criar arte política.
Por arte política ao estilo Amon Dull entenda-se longas e caóticas jams acústico-percussivas envolvendo todos no palco. O registro que ficou para a posteridade, e que Karrer jura não haver tomado parte, é uma sessão de 48 horas ininterruptas de improvisos que resultaram em 4 dos 5 discos lançados pela banda. O primeiro deles, Psychedelic Underground, veio à luz em 1969 pelo selo Metronome e acrescentou toda sorte de efeitos de estúdio ao som improvisado da banda. Os outros discos foram CollapsingDisaster e Experimente, com uma qualidade de som variando entre o razoável e o bootleg tosco.
Embora Julian Cope tenha sido generoso ao dizer que a comuna abrigava uma dúzia de músicos, na realidade só quatro membros podiam ser encarados como tal. O resto fazia era batucada de branco, abusando dos bongôs e das maracas. Isso acabou por desgostar Chris Karrer que estava muito mais voltado para o poder da música do que o da política.
Em algumas entrevistas ele fala inclusive da obrigação de prestar contas de tudo o que fazia para a comunidade e até de aspectos bem bizarros, como ser cobrado por não fazer sexo com as moças com a freqüência exigida. Sexo à parte, Karrer acabou caindo fora da comuna cada vez mais politizada e formando uma dissidência musical que deu início ao grupo conhecido depois como Amon Dull II, com Renate Knaup, Lothar Meid, Peter Leopold, John Weinzierl, Christian Strat Thiele e Danny Fischelscher. A banda assinou com a Liberty e a estréia dessa formação no vinil foi o grande Phallus Dei, uma das pedras fundamentais do space-rock, levando ao extremo o que bandas como Pink Floyd e Jefferson Airplane apenas esboçaram até aquele momento. E olha que isso foi apenas o começo.
A seqüência foi Yeti, um álbum duplo, hipnótico, psicodélico até as entranhas. Com toda a certeza um dos primeiros assaltos sônicos registrados em vinil. Neste disco encontram-se a totalmente maníaca “Soup Shop Rock” e a devastadora “Archangel Thunderbird”, três minutos e meio de blitz sonora bem ao estilo alemão, com um duelo de guitarras injetando doses maciças de adrenalina em nossos corpos.
Lá pelo final de 1970 Peter Leopold teve uma recaída e retornou para a comunidade original do Amon Dull, participando do LP Paradieswarts Dull, um álbum que não se pode dizer que é rock, mas um folk tranqüilo e de uma beleza surpreendente, porém sem grande futuro. Álbum lançado, Peter Leopold caiu na real e voltou correndo para o AM2.
Continuando de onde Yeti parou surge Tanz Der Lemminge, o terceiro álbum do Amon Dull II, também duplo e igualmente um clássico. Estamos agora diante de um épico de ficção científica escrito com instrumentais extraterrestres ao longo de seus quatro lados. Um disco que virtualmente explodiu as mentes alemãs e fez o que nem milhares de toneladas de bombas nazistas conseguiram: conquistou a Inglaterra.
Uma turnê pela ilha de sua majestade foi prontamente planejada, mas parece que o som da banda não produzia faíscas apenas nos ouvidos da platéia: durante uma apresentação preliminar em Colônia, um incêndio destruiu todo o equipamento do grupo e o jeito foi ficar em casa mesmo. Bom, fica para a próxima, eles pensaram. Mas a coisa novamente não deu certo quando a união dos músicos ingleses vetou o visto de trabalho da banda no país. E a frustração foi grande porque algumas mudanças de pessoal se fizeram notar no próximo trabalho da banda, Carnival in Babylon, agora pelo selo United Artists.
O ano é 1972 e este disco marca o início de uma guinada no som, menos psicodélico e mais progressivo. As guitarras e os vocais são excelentes e fazem do álbum um registro marcante da união do grupo para superar a má sorte e acabar com todas as crises internas. As boas vibrações e a energia positiva acumulada não tardaram a apresentar suas conseqüências: o fantástico Wolf City saiu dos estúdios e o grande Amon Dull II entrou na Inglaterra, com direito ao tapete vermelho da crítica e as boas-vindas de uma verdadeira legião de fãs ingleses.
O sucesso foi tão grande que mais duas excursões se sucederam e um álbum foi registrado só na Inglaterra, uma edição limitada chamada Live in London. Por essa época o grupo tinha Chris Karrer na guitarra, violino, sax e vocais, Danny Fichelscher e Peter Leopold na percussão, Lothar Meid no baixo, Renate Knapp nos vocais e Falk Rodger nos teclados. Com essa formação eles gravaram um novo álbum, Vive la Trance, e se estabeleceram como um dos grupos top da Alemanha.
Show londrino do Amon Dull II
Comparado a Wolf CityVive la Trance foi um álbum mais refinado, porém intencionalmente muito mais comercial, principalmente no lado B, onde quatro músicas nos fazem duvidar que esse seja um disco genuinamente Amon Dull II. Foi, de certa forma, uma ducha de água fria a quem esperava outra obra prima do grupo, embora com os ouvidos condescendentes de hoje em dia possamos apreciá-lo melhor.
Por volta de 1973, Lothar Meid tirou uma licença do grupo para se dedicar a outros projetos: a formação do grupo 18 Karat Gold e o lançamento de Utopia, uma espécie de álbum solo, mas assistido por vários membros do Amon Dull II e de outro grupo alemão, o Embryo. Neste disco particularmente o trabalho vocal de Renate Knapp é maravilhoso.
A volta de Lothar Meid se deu no álbum Hijack, que parece ter colocado o AM2 de novo nos trilhos. O som voltou a despertar para o espacial e as letras de Chris Karrer retomaram sua famosa temática de ficção científica.
A coletânea Lemmingmania
(Esse disco saiu no Brasil)
Lemmingmania saiu também por essa época. Trata-se da melhor entre as várias coletâneas lançadas pela banda, cobrindo a época pós Phallus Dei até Wolf City, juntando no formato 12 polegadas todos os lados A e B dos singles lançados pela banda. São versões variando entre 3 e 4 minutos, mostrando que o grupo também tinha excelente potencial para tocar no rádio.
Apesar do sucesso internacional do Amon Dull II, era hora da banda provar mais uma vez suas origens essencialmente germânicas. Made in German foi para as ruas como a primeira ópera rock teutônica, contando a história da Alemanha desde os dias do rei Ludwig da Bavária até o negro período nazista com uma boa dose de ironia e dramaticidade. Um disco duplo realmente ambicioso, forjado por uma banda ávida por reviver seus primeiros tempos de Yeti e Tanz der Lemminge. O problema é que aqui o amadurecimento técnico dos músicos fez perder parte da ousadia inicial.
De toda forma, podemos dizer que Made in German foi o último grande trabalho do Amon Dull II. Infelizmente, como aconteceu com muitos outros grupos alemães que sentiram a guinada da música pop mundial para um som mais dançante e descartável, os próximos discos do AM2 ao longo da década foram se tornando cada vez mais uma sombra dos dias de glória, com vários membros, como Renate Knaup, debandando de vez. Houve ainda uma tentativa de reunião para o álbum Vortex de 1981 e, após mais um longo intervalo, o Amon Dull II voltou em toda a sua majestade para os discos Nada Moonshine (1995), Live in Tokyo (1996) e Flawless (1997).
Para finalizar, vale a pena gastar algumas palavrinhas para comentar uma tentativa de resgate do nome Amon Dull nos anos 80 por dois ex-membros das várias formações da banda, o guitarrista John Weinzierl e o baixista Dave Anderson. Por estar baseada na Inglaterra, ela ficou conhecida com Amon Dull UK, mas na realidade a coisa é meio confusa porque Anderson, com o desconhecimento de Weinzierl, andou lançando alguns álbuns com capas ostentando fotos de Karrer, Knaup e Falk no final dos anos 60. Uma picaretagem sem tamanho, que só serviu para desgostar os membros originais do grupo. Como resultado, tanto o guitarrista, que alegava não ter nada a ver com o peixe, quanto o baixista foram condenados ao ostracismo. Anderson até lançou um disco como Amon Dull junto com o letrista do Hawkwind , Bob Calvert, um pouco antes deste morrer. Neste disco também toca o lendário guitarrista do Groundhogs, Tony MacPhee, o que só contribuiu para por mais vinagre nessa salada.

A capa do segundo disco do Amon Dull II, Yeti, é um dos maiores ícones do krautrock. Ironicamente, ela mostra a foto de um membro da primeira comunidade Amon Dull, um bom amigo de Renate e Chris que não quis se juntar aos dois quando estes caíram fora da comuna em 1968. O nome da figura era Wolfgang Krischke e ele morreu dois meses depois da formação da banda, congelado na neve após uma trip de ácido na casa de seus pais. A idéia de usá-lo na capa foi do supervisor artístico e eventual tecladista Falk Rogner, que selecionou uma foto onde Krischke posa de vestido segurando uma foice, numa alegoria a Der Schnitter, O Ceifador, aquele que ceifava a vida das pessoas na simbologia mitológica alemã.

Apesar do sucesso que o Amon Dull II alcançou na Europa, eles nunca emplacaram nos EUA. O primeiro disco da banda a pisar em solo gringo foi Dance of the Lemmings (Tanz Der Lemminge), alguns meses depois do lançamento americano do álbum Psychedelic Underground do primeiro Amon Dull pelo selo Prophesy. Isso causou a maior confusão na cabeça pequena dos americanos que não conseguiam entender dois álbuns tão diferentes, mas de bandas com o mesmo nome. Ao mesmo tempo, a crítica especializada do país do sr. Nixon manteve-se sempre caladinha em relação a qualquer evolução musical que não fosse americana ou no máximo inglesa. Outra prova da “genialidade” americana foi a do lançamento do disco Made in Germany. Os executivos da United Artists simplesmente cortaram o disco duplo pela metade, pois ele falava de nazismo e isso era tabu para os ouvidos ianques. Essa inclusive foi a versão que saiu no Brasil e desfigurou completamente um ótimo disco conceitual.


Amon Duul II x Can. Coisa de cinema.
Nem tudo era solidariedade na incipiente cena do rock alemão. No começo dos anos 70, limitados geograficamente dentro de um país do tamanho de Minas Gerais e acostumados a tocar juntos em festivais locais, as bandas ainda achavam espaço para os dissabores. Um bom exemplo disso foi causado pelo grupo Can, outro baluarte do krautrock. Numa época onde o cinema underground alemão ganhava a cena, diretores como Winn Wenders e Fassbinder procuraram os jovens grupos de rock alemães para participarem das trilhas sonoras de seus filmes. Numa reunião entre as bandas ficou acertado de que eles cobrariam 10% da bilheteria arrecadada pelos filmes, porém o Can resolveu boicotar essa decisão e foi aos diretores dizendo que não importava o quanto os outros grupos pedissem, eles fariam por menos. A conclusão você pode conferir no segundo disco do Can, Soundtracks, só de trilhas sonoras feitas pela banda. Depois disso, Amon Dull II e Can nunca mais sentaram na mesma fila dentro de um cinema.
Yoko Knaup e Renate Ono
Isto é só para desencargo de consciência. Se você ouvir a voz de Renate Knaup nos primeiros discos do Amon Dull II e compará-la aos trabalhos solo da sra Lennon, fatalmente vai constatar que são vozes gêmeas. Impressionante como os trinados Onomatopéicos encontravam eco nos gargarejos Knaupianos.

DVD: Kiss – Kissology 3 (1992-2000)

 

No dia 18 de Dezembro de 2007 foi lançado a terceira e – até agora – última parte da série Kissology. Este volume retrata o período que vai de 1992 até 2000. Ou seja, desde a entrada de Eric Singer até a turnê de despedida do Kiss. Ao contrário da parte 1 e 2, não estão presentes apresentações em estúdio de televisão, nem clipes.  Seu material é formado essencialmente por shows. Vamos a eles…

O DVD 1 começa com a apresentação  realizada em Detroit em 1992, durante a Revenge Tour. Foi um dos shows utilizados na criação do disco Alive III (mais dois shows foram utilizados neste disco: Indianapolis e Cleveland) e do VHS Kiss Konfidential. Esta turnê acabou se tornando um marco na carreira do grupo por dois motivos: foi a última turnê desmascarada e a última com o guitarrista Bruce Kulick (Eric retornaria mais tarde). 

No setlist misturavam clássicos dos anos 70, hits dos anos 80 e canções de seu mais recente álbum. O grupo tocava as canções com uma dose extra de peso. Eric Singer abusava de viradas e dobradas de bumbo. Entretanto, o show trazia um diferencial. Ao contrário das turnês anteriores, as canções foram interpretadas mais próximas do timing original. Nas giras anteriores os músicos aceleravam as canções mais antigas…

Na sequência temos a apresentação do MTV Unplugged. Contudo, vale lembrar que esse não é aquele famoso VHS e nem o especial de 50 minutos da MTV. Está apresentado aqui o show na íntegra. Sem cortes. Com direito a erros e músicas que não entraram na edição final. Entre elas, “Hard Luck Woman” e “Heaven´s On Fire”. E, sim, o berro de I Still Love You do Paul Stanley é real e foi feito em um take. Realmente impressionante!
O acústico reuniu os quatro membros originais do Kiss para algumas canções no especial. Era a primeira vez que os 4 tocavam juntos desde 1979. Foi só Ace e Peter surgirem nas telas dos televisores para começarem os comentários de que o grupo estaria retornando à formação original. Os boatos tornaram-se realidade quando o Kiss apareceu reunido com seus integrantes devidamente maquiados e trajados na 38ª edição do Grammy em 28 de fevereiro de 1996. Em 16 de Abril do mesmo ano fizeram uma coletiva de imprensa na cidade de Nova Iorque para anunciarem a turnê. A coletiva foi transmitida simultaneamente para 58 países. A tour iniciou-se na cidade de Detroit no dia 28 de Junho no Tiger Stadium. É exatamente aí que começa o segundo DVD.
A reunião dividiu opiniões. Os fãs mais antigos diziam que o verdadeiro Kiss estava de volta. Os fãs mais recentes questionavam a razão do tal retorno (amizade ou dinheiro) e o nível técnico de Ace e Peter. Não eram apenas Ace e Peter que estavam de volta. Também estava de volta a maquiagem, a pirotecnia, os números solos,… Enfim, pela primeira vez, seus fãs mais jovens teriam a oportunidade de testemunhar como eram os shows do quarteto nos anos 70. Todos os velhos truques estavam de volta. Gene cuspindo sangue, Peter com sua bateria indo até o alto, Ace com sua guitarra soltando fumaça. Entre toda a polêmica existia algo que ninguém poderia negar. O tipo de espetáculo que o Kiss apresentava era único. Ninguém naquele momento apresentava um show daquele porte. Não demoraria para que a banda retomasse seu prestígio. Pelo menos, por um momento. Explicarei mais adiante…
Claro que todos queriam testemunhar aquilo de perto. No entanto, acredito que nem mesmo os músicos seriam capazes de imaginar que a apresentação de estreia teria todos os 40.000 ingressos vendidos em apenas 47 minutos. É exatamente esta apresentação que está presente no Kissology 3. No setlist, nenhuma música da década de 80 e 90 (nem mesmo “I Love It Loud”) e nenhuma música de Dynasty. O setlist foi limitado aos seus primeiros seis álbuns de estúdio. Período tido como o momento clássico dos rapazes.
Logo depois temos a curta apresentação realizada no Brooklyn Bridge em 4 de Setembro de 1996. Lembra-se que a MTV transmitiu o Kiss tocando Rock n´ Roll All Nite no MTV Music Awards daquele ano? Pois bem… É este show!
Com o retorno dos mascarados, não demorou muito para que começasse a cobrança em cima de um novo disco com a formação clássica. O disco – Psycho Circus – foi lançado em Setembro de 1998. No entanto, Ace e Peter quase não participaram das gravações. As guitarras, em sua maior parte, foram gravadas por Tommy Thayer (atual guitarrista do Kiss) e Bruce Kulick. A bateria foi registrada por Kevin Valentine (Graham Bonnet, Lou Gramm Band). Peter tocou apenas em Into The Void. Lembra-se que eu disse que os problemas haviam sido resolvidos por um momento? Pois bem, os problemas internos haviam retornado e continuariam durante sua turnê.
Encerra o segundo disco a apresentação ocorrida no Dodger Stadium (Los Angeles) em 31 de Outubro de 1998, a estreia da Psycho Circus Tour. Os fãs mais fervorosos já conheciam o áudio deste show que havia sido infinitamente pirateado por aí. Graças à transmissão de uma estação de rádio norte-americana. Aqui os músicos ainda não se deixavam abater com os problemas internos. Os fãs que assistiam as apresentações ainda não eram capazes de imaginar o que ocorria nos bastidores. Esta tour ficou famosa por trazer a tecnologia 3D em seus concertos. Provavelmente a primeira vez que uma banda utilizava este recurso em uma apresentação ao vivo. Vale lembrar que o clipe promocional – lançado oficialmente em VHS – já trazia este recurso – Agora em vídeo, verdade seja dita, eles não foram os pioneiros na tecnologia. Quando esse VHS saiu, eu já tinha em casa o VHS Roadkill do Skid Row com o clipe de “Psycho Love” em 3D e não sei dizer se isso já havia sido feito antes deles. Voltando ao show, 3 faixas do novo álbum eram apresentadas aqui: “Within”, “Into The Void” e a faixa-título.
O disco 3 está dividido em 3 capítulos: a segunda parte do show do Dodger Stadium (sim, ele está dividido em dois discos), a apresentação ocorrida na festa de premiação do longa-metragem Detroit Rock City e a turnê de despedida Last Kiss, apresentada originalmente via Pay-Per View.
O Kiss foi mais um daqueles artistas que anunciaram turnê de despedida e nunca pararam (fato que já ocorreu com outros nomes como Ozzy Osbourne e mais recentemente com o grupo Scorpions). Durante muito tempo, a imprensa massacrou os músicos por conta do episódio. Depois de muita especulação, o líder Paul Stanley deu sua versão do fato à revista inglesa Classic Rock quando divulgava o seu álbum solo Live to Win. “Uma vez um fã veio até mim em um lava-rápidos e me disse ‘A Farewell tour foi fantástica. Quando irá acontecer a turnê de 30 anos?’. Uma luz acendeu em minha cabeça. Só existiria uma turnê de despedida se desejássemos ou se ninguém quisesse nos assistir novamente. Eu não queria parar de tocar com o Kiss. Eu queria parar de tocar com os caras que estavam com a gente naquele momento“.

Peter Criss abandonou a turnê em 7 de Outubro de 2000 em North Charleston. No final desta apresentação, Peter destruiu seu kit de bateria no palco (algo que não é de seu costume). Muitos acharam que fazia parte da performance. Quem conhece os show do Kiss, contudo, sabe que esse número não faz parte do espetáculo. O músico estava demonstrando sua indignação. O catman não estava feliz com seu novo contrato (sim, Ace e Peter voltaram como músicos contratados). Na época, para evitar maiores polêmicas, foi anunciado que ele iria se afastar da tour por conta de uma artrite. 

Eric Singer estava de volta à banda. A turnê era para ter sido encerrada com 5 shows no Madison Square Garden  que foram cancelados. Ace também estava fora da banda. Sua última apresentação com o grupo foi o encerramento das Olimpíadas de Inverno em 24 de Fevereiro de 2002. Peter Criss ainda retornaria ao grupo em 2003 para algumas poucas apresentações (entre elas, a apresentação com a orquestra que rendeu CD e DVD ao vivo). Ace Frehley, por outro lado, nunca mais voltou ao Kiss.  

O quarto e último disco traz uma apresentação curta, porém histórica. Trata-se de uma apresentação do grupo em Nova Iorque em Dezembro de 1973. Meses antes do lançamento do seu álbum de estreia. Nesse período, era comum os rapazes tocarem Simple Type (Wicked Lester), mas nessa apresentação, infelizmente, não rolou.

Assim como os outros dois volumes, os discos apresentam Easter Eggs. Não há segredo para acessá-los. Basta selecionar o nome Kissology na página inicial. No disco 1, temos imagens das gravações de “Carnival Of Souls”. Outro momento histórico. Como todo fã está careca de saber, este disco não teve turnê, não teve clipe e por pouco não foi engavetado. Portanto, esta é, literalmente, a única imagem deste período. No disco 2, temos um trecho do primeiro ensaio que Ace, Peter, Paul e Gene fizeram para a turnê de reunião. No terceiro, temos a versão de 2.000 no show que ficou conhecido como Millennium Concert. O show rolou em Vancouver. Era a virada do ano de 1999 para 2.000. Quando deu meia-noite os caras atacaram 2.000 Man (música dos Rolling Stones que havia sido gravada pelo Kiss no álbum Dynasty e no MTV Unplugged. Para quem tiver curiosidade de ouvir a versão dos Stones, a faixa pertence ao álbum Their Satanic Majesties Request). Bem sacado! No quarto disco, após os créditos, temos a imagem de Peter destruindo a bateria.
Lembram-se que eu disse nos textos anteriores que cada Kissology possui 3 versões? Pois bem, este possui 4! Best-Buy, Walmart, Edição Mundial e edição da VH1. Quem comprasse o DVD durante a exibição do programa VH1 Classic: 24 horas de Kiss (exibido entre 7 e 8 de dezembro de 2007) receberia uma versão exclusiva. Esta versão contava com o filme Detroit Rock City como bônus. A edição Walmart e a edição mundial traziam duas apresentações da Kiss Alive/Worldwide Tour. Nova Iorque e Irvine, respectivamente. No entanto, para os brasileiros, a versão mais legal é a da Best Buy. Esta edição traz a apresentação realizada em 27 de agosto de 1994, em São Paulo, na primeira edição brasileira do festival Monsters of Rock. E não é aquele especial da MTV. A versão do DVD é o show na íntegra! Para aqueles que, assim como eu, estavam na plateia, não há presente melhor!
Em 2009 foi lançado um Box Set com todos os DVDs do Kissology 1, 2 e 3. E todos os DVD´s bônus. Bem… Quase todos, uma vez que o filme Detroit Rock City não faz parte do pacote. Mas não há problema, uma vez que o filme foi lançado no mercado separadamente. O grande problema é que eles resolveram lançar esse ítem somente no Japão em uma tiragem limitadíssima. Foi divulgado como 500 cópias, mas há quem diga que exista um pouco mais do que isso por aí. Além dos DVDs, vinha um livro exclusivo, uma camiseta e a embalagem se transformava no palco do Kiss. O preço, obviamente, não é amigável!

Assim como os dois primeiros volumes, esta fita é indispensável na prateleira de qualquer fã que se preze. Um tempo atrás, rolou um boato de que mais volumes seriam lançados. Se for obedecer a lógica de cronologia, acho difícil. O show com a orquestra foi lançado em DVD, o show da Rock The Nation Tour também. Sendo assim, restaria apenas a tour Alive 35 e Sonic Boom. Agora, se for incluir shows que ficaram de fora dos outros pacotes, aí tem material de sobra. Enquanto o próximo volume não vem, bem que poderiam lançar os DVD´s do Kiss em blu-ray… 

Disco 1:
Ø  “Creatures of the Night”
Ø  “Deuce
Ø  “I Just Wanna”
Ø  “Unholy”
Ø  “Parasite”
Ø  “Heaven’s On Fire”
Ø  “Domino”
Ø  “Watchin’ You”
Ø  “War Machine”
Ø  “Lick It Up
Ø  “Take It Off”
Ø  “I Love It Loud”
Ø  “God Gave Rock and Roll to You II”
Ø  “Love Gun
Ø  Behind the Scenes
Ø  “Comin’ Home”
Ø  “Plaster Caster”
Ø  “Goin’ Blind
Ø  “Do You Love Me”
Ø  “Domino”
Ø  “Got to Choose”
Ø  “Hard Luck Woman”
Ø  “Rock Bottom”
Ø  “See You Tonight”
Ø  “I Still Love You”
Ø  “Every Time I Look at You”
Ø  “Spit”
Ø  “C’mon And Love Me”
Ø  “God of Thunder”
Ø  “2,000 Man”
Ø  “Beth
Ø  “Nothin’ to Lose”
Disco 2:
Ø  “Deuce
Ø  “King of the Night Time World”
Ø  “Do You Love Me”
Ø  “Calling Dr. Love
Ø  “Cold Gin
Ø  “Love Gun
Ø  “Watchin’ You”
Ø  “Firehouse”
Ø  “Strutter
Ø  “Shock Me
Ø  “Rock Bottom”
Ø  “God of Thunder
Ø  “Let Me Go, Rock ‘n’ Roll”
Ø  “100,000 Years”
Ø  “New York Groove
Ø  “Deuce
Ø  “Calling Dr. Love
Ø  “Love Gun
Ø  “Psycho Circus
Ø  “Let Me Go, Rock ‘n’ Roll”
Ø  “Shock Me
Ø  “Do You Love Me”
Ø  “Calling Dr. Love
Ø  “Firehouse”
Ø  “Cold Gin
Ø  “Nothin’ to Lose”
Ø  “She”
Disco 3:
  • Dodger Stadium (Parte 2):
Ø  “Into The Void
Ø  “Love Gun”
Ø  “Within”
Ø  “100,000 Years”
Ø  “King Of The Night Time World”
Ø  “God Of Thunder”
Ø  “Deuce”
Ø  “Detroit Rock City”
Ø  “Beth”
Ø  “Black Diamond
Ø  “Rock And Roll All Nite”
  • Detroit Rock City Movie Premiere:
Ø  “Detroit Rock City”
Ø  “Shout It Out Loud”
Ø  “Cold Gin”
Ø  “Rock And Roll All Nite”
  • “Last KISS”, New Jersey (27 de Junho de 2000):
Ø  “Detroit Rock City”
Ø  “Deuce”
Ø  “Shout It Out Loud”
Ø  “Firehouse”
Ø  “Heaven’s On Fire”
Ø  “Let Me Go, Rock ‘N’ Roll”
Ø  “Shock Me”
Ø  “Psycho Circus”
Ø  “God Of Thunder”
Ø  “100,000 Years”
Ø  “Love Gun”
Ø  “I Still Love You/ Black Diamond”
Ø  “Beth”
Ø  “Rock And Roll All Nite”
Disco 4:
  • Nova Iorque (22 de Dezembro de 1973):
Ø  “Deuce”
Ø  “Cold Gin”
Ø  “Nothin’ To Lose”
Ø  “Strutter”
Ø  “Firehouse”
Ø  “Let Me Know”
Ø  “100,000 Years”
Ø  “Black Diamond”
Ø  “Let Me Go, Rock ‘N’ Roll”
Disco Bonus (Edição Regular):
Ø  “Deuce”
Ø  “Love Gun”
Ø  “Cold Gin”
Ø  “Calling Dr. Love”
Ø  “Firehouse”
Ø  “Shock Me”
Ø  “100,000 Years”
Ø  “Detroit Rock City”
Ø  “Black Diamond”
Ø  “Rock and Roll All Nite”
Disco Bônus – Edição Best Buy:
Ø  “Creatures of the Night”
Ø  “Deuce
Ø  “Parasite”
Ø  “Unholy”
Ø  “I Stole Your Love”
Ø  “Cold Gin”
Ø  “Watchin’ You”
Ø  “Firehouse”
Ø  “Got to Choose”
Ø  “Calling Dr. Love”
Ø  “Makin’ Love”
Ø  “War Machine”
Ø  “I Was Made for Lovin’ You”
Ø  “Domino”
Ø  “Love Gun”
Ø  “Lick It Up”
Ø  “God of Thunder”
Ø  “I Love It Loud”
Ø  “Detroit Rock City”
Ø  “Black Diamond”
Ø  “Heaven’s On Fire”
Disco Bônus – Edição Wal-Mart:
Ø  “Deuce”
Ø  “Calling Dr. Love”
Ø  “Cold Gin”
Ø  “Let Me Go, Rock ‘n’ Roll”
Ø  “Shout It Out Loud”
Ø  “Watchin’ You”
Ø  “Firehouse”
Ø  “Shock Me”
Ø  “Strutter”
Ø  “Rock Bottom”
Ø  “God of Thunder”
Ø  “Love Gun”
Ø  “100,000 Years”
Ø  “Black Diamond”
Ø  “Detroit Rock City”
Ø  “Rock and Roll All Nite”
Disco Bonus (VH1):

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