sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Black Sabbath: the deluxe editions – Parte II

 

No dia 25 de abril de 1980 chegou às lojas Heaven and Hell, o registro de um (então) novo Black Sabbath. Contando com o baixinho – de voz inversamente proporcional à sua estatura – Ronnie James Dio no lugar de Ozzy Osbourne, depois desse ter sido demitido devido ao uso de drogas demais e trabalho de menos. Fora essa mudança, a banda se manteve a mesma: Tony Iommi nas guitarras, Bill Ward na bateria e Geezer Butler no baixo. Embora Craig Gruber (Elf e Rainbow), que chegou a ensaiar com o grupo, tenha afirmado que sua contribuição nessa função havia sido “substancial” nessa época, Butler permaneceu como o baixista oficial da bolacha. A famosa capa, de autoria de Lynn Curlee, uma pintura que retrata três anjos fumando e jogando cartas, é uma das mais conhecidas e lembradas da banda. Quanto ao conteúdo lírico, o quarteto moveu sua inspiração de temas como loucura, ocultismo, guerra e depressão para temas mais fantasiosos (guerreiros e dragões, por exemplo), cortesia de Ronnie.
Heaven and Hell contém o maior números de clássicos da era Dio, entre eles “Neon Knights”, “Children of the Sea”, “Die Young” e a faixa-título. O disco bônus do pacote inclui versões ao vivo de “Children of the Sea” e “Heaven and Hell”, originalmente lados B dos singles para “Neon Knights” e “Die Young”, respectivamente, mais a versão editada de “Lady Evil”, que também saiu como single. Além dessas constam “Neon Knights”, “Children of The Sea”, “Heaven and Hell” e “Die Young”, todas gravadas ao vivo em Hartford (EUA) em 1980. Se por um lado Heaven and Hell não apresente nada realmente novo em sua versão deluxe, por outro reforça o poder do disco enquanto uma das obras mais relevantes do Black Sabbath.

Disco 1:

1. Neon Knights
2. Children of the Sea
3. Lady Evil
4. Heaven and Hell
5. Wishing Well
6. Die Young
7. Walk Away
8. Lonely Is the World

Disco 2:

1. Children of the Sea [Live, Single B-Side]
2. Heaven and Hell [Live, Single B-Side]
3. Lady Evil [Mono Edit, 7″ Single]
4. Neon Knights [Live]
5. Children of the Sea [Live]
6. Heaven and Hell [Live & 12″ Single Version]
7. Die Young [Live]

No final do ano seguinte saiu a segunda cria do Black Sabbath com Dio nos vocais. Lançado a 4 de novembro de 1981, Mob Rules trouxe uma baixa no line-up: saiu Bill Ward, entrou Vinny Appice. Essa, na verdade, pode ser considerada a formação clássica da era Dio. A mesma, aliás, que gravaria todos os discos de Ronnie com o Sabbath dali em diante, inclusive quando assumiram a alcunha de “Heaven and Hell”, mas essa já é outra história. Para a capa, dessa vez a banda optou por uma imagem já pronta – no caso, uma pintura chamada “Dream 1: Crucifiers”, de autoria de Greg Hildebrandt, artista norte-americano nativo de Detroit – apenas modificando mínimos detalhes, e inserido os nomes da banda e do disco.

Musicalmente, Mob Rules continua de onde Heaven and Hell parou: faixas mais velozes e diretas dividem espaço com outras mais épicas. Algumas outras, a exemplo de “Country Girl” remetem a algo do antigo Sabbath. A edição de luxo traz duas faixas a mais no primeiro disco: “Die Young” ao vivo, lado B do single para “The Mob Rules”, e uma versão demo para a própria “The Mob Rules”, originalmente lançada na trilha sonora da animação canadense “Heavy Metal”, de 1981. Já o segundo disco traz na íntegra o álbum ao vivo Live at Hammersmith Odeon (gravado entre dezembro de 1981 e janeiro de 1982), originalmente lançado em uma edição limitadíssima em maio de 2007. Fazem parte do tesouro 14 faixas. Dessas, oito são extraídas de Mob Rules e Heaven and Hell, enquanto as outras seis são clássicos da era Ozzy. Mob Rules mantém o altíssimo nível de seu predecessor, e é outro disco entre os mais fundamentais do Sabbath.

Disco 1:

1. Turn Up the Night
2. Voodoo
3. The Sign of the Southern Cross
4. E5150
5. The Mob Rules
6. Country Girl
7. Slipping Away
8. Falling Off the Edge of the World
9. Over and Over
10. Die Young [Live, Single B-Side]
11. The Mob Rules [“Heavy Metal” Original Soundtrack Demo Version]

Disco 2: Live at Hammersmith Odeon

1. E5150

2. Neon Knights
3. N.I.B.
4. Children of the Sea
5. Country Girl
6. Black Sabbath
7. War Pigs
8. Slipping Away
9. Iron Man
10. The Mob Rules
11. Heaven and Hell
12. Paranoid
13. Voodoo
14. Children of the Grave

Praticamente um ano depois de Mob Rules, Iommi, Dio, Butler e Appice lançaram Live Evil, gravado ao vivo durante quatro datas (23 e 24 de abril, 12 e 13 de maio) em três cidades norte-americanas (Seattle, Dallas e San Antonio), trazendo 14 faixas, entre clássicos da era Ozzy, preferidas de Heaven and Hell e (então) novidades de Mob Rules. A versão deluxe – dupla – não traz faixas bônus, mas restaura o tempo original das músicas, que haviam sido “decepadas” nas reedições mais recentes em CD simples. Infelizmente, desentendimentos racharam a banda (e algumas caras, aposto) na época de sua mixagem; Dio e Appice caíram fora, deixando Iommi – de novo – com uma bomba nas mãos. O que ele fez nesse momento é matéria para a terceira parte dessa série.

Disco 1:

1. E5150
2. Neon Knights
3. N.I.B.
4. Children of the Sea
5. Voodoo
6. Black Sabbath
7. War Pigs
8. Iron Man

Disco 2:

1. The Mob Rules
2. Heaven and Hell
3. The Sign of the Southern Cross
4. Paranoid
5. Children of the Grave
6. Fluff

Eis que, dez anos após a separação ocorrida na época do lançamento de Live Evil, o mesmo line-up se reuniu para a gravação de mais um disco (e subsequente turnê). Dehumanizer, lançado em 22 de junho de 1992, trouxe uma sonoridade moderna e mais densa, além de uma sensível mudança no conteúdo de suas letras, abordando alguns temas mais reais e sombrios, e, de certa forma, mais pessimistas. A capa do álbum reflete, de certa forma, a questão da modernidade/pessimismo: a Morte (aquela da foice), em versão andróide, ceifa a vida de um infeliz.

Além de todas as pauladas que mantiveram alto o nível do Sabbath no começo dos anos 90, a edição deluxe traz, em seu disco bônus, a primeira versão de “Time Machine” que originalmente havia saído na trilha sonora da comédia “Wayne’s World” (de título imbecil “Quanto Mais Idiota Melhor” no Brasil), lançado no começo de 1992, versões alternativas para “Master of Insanity” (editada) e “Letters From Earth” (estendida), além de cinco músicas gravadas ao vivo na Flórida em julho de 1992: “Children of the Sea”, “Die Young”, “TV Crimes”, “Master of Insanity” e “Neon Knights”. Depois da turnê de divulgação do álbum, Dio brigou outra vez com a banda (notadamente Iommi) e caiu fora novamente. O guitarrista não perdeu tempo e trouxe Tony Martin novamente para suas fileiras. Mas Dehumanizer cravou o nome do Black Sabbath entre os melhores discos de rock dos anos 90.

Disco 1:

1. Computer God
2. After All (The Dead)
3. TV Crimes
4. Letters From Earth
5. Master of Insanity
6. Time Machine
7. Sins of the Father
8. Too Late
9. I
10. Buried Alive

Disco 2:

1. Master of Insanity [Single Edit]
2. Letters From Earth [B-Side Version]
3. Time Machine [“Wayne’s World” Original Soundtrack Version]
4. Children of the Sea [Live]
5. Die Young [Live]
6. 6. TV Crimes [Live]
7. 7. Master of Insanity [Live]
8. 8. Neon Knights [Live]

Black Sabbath: the deluxe editions – Parte I

 

O ano de 2009 trouxe o relançamento em edições luxuosas de três clássicos fundamentais tanto do rock quanto do heavy metal. Trata-se dos três primeiros discos dos ingleses do Black Sabbath. Petardos de importância indiscutível para qualquer apreciador não só das facetas mais pesadas do nosso amado rock ‘n’ roll, mas para qualquer ser humano que goste de boa música.
Black Sabbath, o primeiro disco, foi lançado aos 13 dias de fevereiro do ano de 1970, e, quase quatro meses depois, no dia primeiro de junho do mesmo ano, em solo norte-americano. A tétrica imagem da capa traz a foto de uma figura (possivelmente uma mulher) tirada em frente ao moinho Mapledurham, situado à beira do Rio Tâmisa, em Oxfordshire (Inglaterra). Na contracapa, se percebe a silhueta de um corvo entre as árvores. Cerca de um mês antes do lançamento inglês do full-lenght, a banda colocou no mercado o single para “Evil Woman”, cover do grupo The Crow. O disquinho, lançado em vinil de 7″, trazia “Wicked World” no lado B, original do Black Sabbath. “Evil Woman” constava somente na versão inglesa original de Black Sabbath, enquanto o lançamento norte-americano trazia “Wicked World” integrada ao track list. Na remasterização do catálogo da banda, ocorrido em 1996, constam ambas as faixas, somando oito músicas no total.
O novo relançamento, em versão dupla, traz as sete faixas da edição inglesa no primeiro disco, enquanto “Wicked World” abre o disco bônus. Além dela, temos versões alternativas de algumas músicas: a faixa-título vem em uma variante com letra diferente, e omitindo o famoso barulho de chuva que a introduz originalmente. “Behind the Wall of Sleep” aparece sem efeitos nos vocais, e a própria “Evil Woman” pinta em uma versão com instrumentos de sopro. “N.I.B.”, “Sleeping Village” e “Warning” vêm em mixagens diferentes, essa última com o sufixo “Part 1”, contendo os sete primeiros minutos da música. “Black Sabbath” (a canção) ainda comparece em versão instrumental.
Black Sabbath é, sem sombra de dúvida, um dos mais significativos e influentes discos de estreia da história do rock. 
Disco 1:
1. Black Sabbath
2. The Wizard
3. Behind the Wall of Sleep
4. N.I.B.
5. Evil Woman
6. Sleeping Village
7. Warning
Disco 2:
1. Wicked World
2. Black Sabbath [Studio Outtake]
3. Black Sabbath [Instrumental]
4. The Wizard [Studio Outtake]
5. Behind the Wall of Sleep [Studio Outtake]
6. N.I.B. [Instrumental]
7. Evil Woman [Alternate Version]
8. Sleeping Village (Intro) [Alternate Version]
9. Warning (Pt. 1) [Studio Outtake]
Paranoid, lançado no segundo semestre de 1970 na Inglaterra (e no primeiro mês do ano seguinte na America do Norte), conta com o maior número de clássicos do quarteto de Birmingham, e as músicas mais conhecidas pelo público em geral. Entre as pedradas, maravilhas do calibre de “Iron Man”, “War Pigs”, “Electric Funeral” e a faixa-título. No entanto, todas as músicas do disco estão no mesmo patamar de qualidade das citadas. “Electric Funeral” traz aquele que é provavelmente o riff mais pesado de Tony Iommi, embebido no efeito wah-wah. O impacto já começa com a polêmica capa, com a estranhíssima fotografia – propositalmente distorcida – de um homem munido de espada e escudo, saltando de trás de uma árvore. O fato de a imagem da capa não ter relação com o título do álbum tem uma explicação simples: originalmente, a bolacha deveria se chamar “War Pigs”, mas a gravadora da banda na época (Vertigo) temeu um retorno negativo, devido à possível polêmica com a corrente Guerra do Vietnã, que ainda duraria mais cinco anos (totalizando quase 20 anos de matança). Sendo assim, ficou escolhido para o álbum o mesmo título do primeiro single de divulgação: “Paranoid”. A música foi escrita e gravada no último minuto, uma vez que o Black Sabbath ainda não tinha faixas suficientes para preencher um LP inteiro.
A luxuosa reedição de Paranoid traz, além de um disco bônus com oito músicas, um DVD extra, contendo o mix quadrifônico de todas as faixas originais. As bônus do segundo disco são versões instrumentais de “War Pigs”, “Iron Man”, “Electric Funeral”, “Hand of Doom” e “Fairies Wear Boots”, além de “Paranoid” e “Planet Caravan”, ambas com letras diferentes das originais (a segunda também em uma mixagem com menos efeitos). Há ainda uma mixagem alternativa de “Rat Salad”.
Disco 1:
1. War Pigs
2. Paranoid
3. Planet Caravan
4. Iron Man
5. Electric Funeral
6. Hand of Doom
7. Rat Salad
8. Fairies Wear Boots
Disco 2:
1. War Pigs [Instrumental]
2. Paranoid [Alternate Lyrics]
3. Planet Caravan [Alternate Lyrics]
4. Iron Man [Instrumental]
5. Electric Funeral [Instrumental]
6. Hand of Doom [Instrumental]
7. Rat Salad [Alternate Mix]
8. Fairies Wear Boots [Instrumental]
Disco 3: DVD bônus com todas as faixas do álbum original em mixagem quadrifônica.
Master of Reality, lançado em 21 de Julho de 1971, trouxe alguns novos elementos para o som da banda, como a introdução acústica “Orchid” e o interlúdio “Embryo”. Embora em mínimo grau, esses elementos seriam mais evidentes nos lançamentos futuros do quarteto. O registro é outra coleção de clássicos atemporais do rock. A capa original também era peculiar, uma vez que, em um fundo preto, trazia o nome da banda em um tom púrpura, e o título do álbum no mesmo preto do fundo, ambos em alto-relevo. Em algumas reedições não há o efeito de alto-relevo, e o título é impresso em cinza.
Quanto aos bônus, Master of Reality traz versões alternativas para quase todas as faixas do disco principal (“Embryo” é a exceção), além de uma música inédita, a ótima “Weevil Woman ’71”. Segundo comentários que constam do encarte do relançamento, a música recebeu esse título pelo fato de “Evil Woman” ter sido referência (e ter seu riff “roubado”) à música. Entretanto, trata-se de uma canção com identidade e força próprias, e é uma pena que ela nunca tenha sido lançada de uma forma mais acabada em algum álbum do grupo. Seguem-na versões alternativas de “Sweet Leaf” e “Children of the Grave” (ambas com letras diferentes das originais), mais uma versão inicial de “Into the Void” (chamada “Spanish Sid”). “Orchid” inclui pequenas conversas de estúdio. “Lord of This World”, desta feita, tem incluso slide e piano, enquanto “Solitude” não conta com a flauta presente na versão original. “Children of the Grave” se repete, dessa vez em versão instrumental, e “After Forever” também pinta no mesmo formato instrumental.
Disco 1:
1. Sweet Leaf
2. After Forever
3. Embryo
4. Children of the Grave
5. Orchid
6. Lord of This World
7. Solitude
8. Into the Void
Disco 2:
1. Weevil Woman ’71
2. Sweet Leaf [Studio Outtake – Alternate Lyrics]
3. After Forever [Studio Outtake – Instrumental]
4. Children of the Grave [Studio Outtake – Alternate Lyrics]
5. Children of the Grave [Studio Outtake – Instrumental]
6. Orchid [Studio Outtake]
7. Lord of this World [Studio Outtake]
8. Solitude [Studio Outtake – Alternate Version]
9. Into the Void ‘Spanish Sid’ [Studio Outtake – Alternate Version]
Se em seus formatos originais esses discos já eram indispensáveis, com a adição de material bônus passam a ser obrigatórios!
Formação clássica do Black Sabbath: Bill Ward (bateria), Tony Iommi (guitarra),
Ozzy Osbourne (vocal) e Geezer Butler (baixo)

Sonic LSD: a saga do mensageiro cósmico Rolf-Ulrich Kaiser

 

Entre 1942 e o final da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha conheceu o pavor das firestorms, as tempestades de fogo que despencavam noite e dia de um céu carregado de aviões da RAF (a real força aérea britânica) e da USAAF (a força aérea americana). Para se ter uma ideia do que representava uma firestorm, entre os dias 30 e 31 de maio de 1942, mil e quinhentas toneladas de bombas, 8.300 delas incendiárias, 116 de fósforo, 81 de alta combustão e mais quatro bombas carregadas de fluído altamente inflamável, foram lançadas sobre uma única cidade: Colônia.
Até 8 de maio de 1945, 161 cidades alemães foram bombardeadas na seguinte progressão: 40 mil toneladas de bombas em 1942; 120 mil em 1943; 650 mil em 1944 e 500 mil toneladas nos quatro últimos meses da guerra. Esse foi o tamanho da esfrega que fez com que os alemães substituíssem a arrogância típica de quem canta vitória pelo sentimento de culpa que persegue os derrotados. Mesmo as crianças que nasceram durante o conflito e que não poderiam ser recriminadas pelas barbáries do nazismo, chegaram à maioridade, nos anos 60, vítimas dessa culpa que, quando muito, dizia respeito aos pais. A inibição proveniente desse sentimento era tanta que mesmo o rock’n’roll, uma manifestação típica da rebeldia jovem mundial, demorou a se desenvolver na Alemanha ocidental (menos ainda na oriental). O que se ouvia de rock por lá até bem depois do meio da década ainda era bombardeado pelos ocupantes ingleses e americanos.
O surgimento dos Beatles e da psicodelia americana, somados aos experimentos eletrônicos de Karlheinz Stockhausen e a cena da Darmstadt avantgarde, de repente tudo isso fermentou e o jovem alemão passou não só a ouvir, mas a produzir rock de um jeito pessoal, improvisado e futurista. Um ingrediente político também foi acrescentado à mistura, já que a Alemanha, junto da França e da Itália, foi protagonista das passeatas estudantis de 1968, inspiradas pela Primavera de Praga, que produziram uma nova classe de jovens intelectuais de esquerda, abertos a movimentos politizados e até mesmo a grupos terroristas que encorparam a cólera dessa geração.
Nascido em 18 de junho de 1943 em Buckow, uma vila ao sul de Berlim, Rolf-Ulrich Kaiser foi outra criança alemã cria da guerra que chegou aos anos 60 repleta de incertezas e curiosidades. Seu primeiro contato com uma forma de música popular que não fossem as baladas schlager aconteceu em 1964 no primeiro dos hoje prestigiados festivais folk do Castelo de Hunsruck. Sua paixão e entusiasmo, primeiro pelo folk e daí pelo rock, o levou a arrancar uma garantia de trezentos mil marcos da prefeitura da cidade de Essen para dar início ao primeiro grande festival de rock da Alemanha, o “Internationale Essener Song Tage”, acontecido em 1968. Nesse festival, apelidado depois de Woodstock alemão, Kaiser pintou e bordou, reunindo The Mothers of Invention, Family, The Fugs, entre outros, aos alemães do Amon Düül, Floh de Cologne, Tangerine Dream e Guru Guru, só para citar alguns.
O festival reuniu 40 mil pessoas durante 5 dias e nele aconteceu de tudo: teve um Frank Zappa irritado com a audiência que não se decidia se estava lá para discutir música ou apreciá-la; teve os músicos do Amon Düül completamente chapados tocando sem parar, a ponto de várias vezes serem advertidos pelos auto-falantes que insistiam: “Amon Düül, por favor parem de tocar, nós temos que mudar de banda agora”; o próprio Kaiser se movia entre o caos daquele enorme parque de diversões cultural afirmando que só a música era capaz de proporcionar novas formas de experiência e colocar em cheque todos os hábitos estabelecidos; teve até mesmo roubo de bilheteria, mas que não conseguiu denegrir o sucesso desse festival e suas consequências para o incipiente rock alemão.
68 também foi o ano em que Rolf se formou em ciências políticas pela Universidade de Saxonia-Coburgo-BadenBaden e começou a escrever sua tese de doutorado que foi defendida dois anos depois sob o título “O Mundo da Música Pop: Aproximação Indireta e Contracultural ao Planeta Socioeconômico”. Em 26 de março de 1970, diante da Classe dos Reais Professores Eméritos de Sua Muito Augusta Majestade Federico, O Grande, a tese foi reprovada com as seguintes palavras: ”… indigno sob todo ponto de vista o uso desta nossa magnífica Ciência Política em prol das frivolidades e despropósitos dos assim chamados músicos e seus assuntos… e percebendo que se faz chacota e escárnio desta Ciência, recomendamos encarecidamente ao examinando que repense sobre suas responsabilidades para com a sociedade que espera sustento cultural benéfico e não mais uma contribuição ao colapso moral que assola nosso régio e glorioso passado”. Kaiser, formado e sem doutorado, se despediu dos Reais Professores Eméritos com a promessa de que iria publicar sua tese.
Acontece que o Internatiole Essener Song Tage deu a Rolf-Ulrich Kaiser o prestígio que ele precisava para lançar-se de vez no cenário da música jovem alemã. Logo ele juntou-se a Henry M. Broder (que havia trabalhado com ele no Festival como assessor de imprensa), e foi trabalhar como freelancer na rádio WDR, criando um novo programa de música pop: o Panoptikum. Como escrevia muito bem e tinha experiência no jornalismo musical, passou a escrever artigos em profusão e a lançar livros seguidamente. Entre os mais interessantes, estão Fuck the Fugs, Zapzapzappa e o Das Buch der neuen Popmusik (O livro da nova Música Pop, a tal tese defendida e reprovada), todos publicados até 1970. Em 72 lançaria o não menos importante Rock-Zeit – Stars, Geschaft und Geschichte der neuen Popmusik (Tempo de Rock – Artistas, Negócio e História da nova Música Pop). Seus livros, além de importantes documentos sobre o pop internacional e as bandas alemãs da época, já revelavam sua fascinação e a importância que Kaiser atribuía às drogas no cenário da música pop.
Em 1970, Kaiser cruzou o caminho do produtor musical e editor Peter Meisel, dono, desde 1964, de um pequeno selo em Berlim voltado para a música schlager. Meisel havia assinado com algumas bandas de rock que estavam surgindo e não sabia o que fazer com elas, apesar de já estar produzindo algum material delas desde meados de 1969. O nome dessas bandas: Amon Düül, Tangerine Dream, Xhöl Caravan e Birth Control. Kaiser meio que caiu do céu para Meisel e os dois se associaram na criação de um dos mais mitológicos selos do rock alemão: Ohr Music Production.
Kaiser logo tratou de se cercar das pessoas mais talentosas que conhecia. E talvez a mais brilhante delas tenha sido o artista gráfico Reinhard Hippen, que se tornou o designer da maioria das capas lançadas pelo selo. É criação dele inclusive o slogan “Macht das Ohr auf” (Abra as Orelhas), sutilmente calcado no slogan do tablóide “Bild” (“Macht das Tor auf” – Abra os Portões – referência ao Brandenburg Gate, o portão principal do muro que separava a Berlim ocidental da oriental), que fazia a cabeça dos estudantes politizados da época. A empatia foi imediata, pois se de um lado a juventude esperava do rock um apelo político, do outro o rock se insinuava como um possível aliado aos protestos estudantis. E Kaiser sabia exatamente como explorar esse impacto na comunicação do selo.
Em março de 1970, os três primeiros lançamentos do selo Ohr tomaram o mercado de assalto: o anarquista Fließbandbabys Beat-Show, do Floh de Cologne, o vanguardista Mandals, do Lymbus 4 e o ácido Lieder Von Vampiren, Nonnen und Tote, de Bernd Witthüser (seu companheiro de dupla Walter Westrupp participava, mas este disco não saiu sob a tutela de Witthüser & Westrupp). Entre abril e junho, mais três futuros clássicos do rock alemão viram a cor do dia: Opal, da banda Embryo, e os álbuns de estreia do Tangerine Dream (Eletronic Meditation) e do Guru Guru (UFO).
Hoje, passados mais de 40 anos, é fácil olhar para trás e reconhecer a ousadia e a importância desses discos para a história do rock. Mas muitas outras coisas acrescentaram na época uma aura de visionário a Rolf-Ulrich Kaiser. Primeiro que ele logo tratou de contratar dois engenheiros de som fantásticos para acompanhar suas produções: Dieter Dierks e depois Conny Plank. Fora a criatividade absurda que emanava das bolachas, a qualidade do som que Dierks conseguiu extrair do equipamento de seu pequeno estúdio de quatro canais em Cologne não tinha equivalente na Alemanha da época. Os LPs, com o incrível e personalíssimo trabalho gráfico de Reinhard Hippen, eram lançados com capa dupla, posters, adereços divertidos e, no caso do segundo disco do Floh de Cologne (Rockoper Profitgeier), vinil colorido.
A intenção de Kaiser era claramente sacudir o mercado discográfico do país e desenvolver um nicho voltado para a juventude alemã. Como parte de sua estratégia de marketing, ele alardeava pelos quatro cantos que seu selo havia assinado com os melhores grupos de rock da Alemanha e que novas descobertas sensacionais estavam a caminho. Embora bandas do primeiro time como Amon Düül II, Can, Cluster, Kraftwerk ou Neu jamais passaram pelas suas mãos (assinando com outros selos, alguns multinacionais, que – com uma boa dose de cautela – começaram a apostar nas bandas germânicas devido ao sucesso da Ohr), não fosse pela ousadia de Kaiser, dificilmente conheceríamos o som de grupos mais obscuros e pouco comerciais do quilate de um Anima, Emtidi, Hölderlin, Mythos, Wallenstein, Witthüser & Westrupp e muitos outros.
Por volta de 30 grupos formaram o bolo do selo Ohr e as cerejas foram Tangerine Dream, Guru Guru, Popol Vuh e Ash Ra Tempel. O selo crescia e apostava em novas bandas numa velocidade tal que obrigou a distribuidora Metronome a pisar no freio. Kaiser e Meisel então decidiram fundar o selo Pilz e acharam um segundo canal de distribuição na gigante da química BASF, que havia entrado no mercado discográfico em 1969. A estratégia de Kaiser era deixar a Ohr voltada para o rock e orientar a Pilz para o mercado folk, mas rapidamente as coisas se mesclaram já que muitas bandas de rock da Ohr passaram para a Pilz.
Um exemplo de como era o mercado roqueiro na Alemanha do início da década de 70 pode ser visto nos youtube da vida, mas é preciso uma introdução: Kaiser, as bandas alemãs, seus críticos e fãs pertenciam todos, politicamente, à ala esquerdista. Não que Kaiser ou suas bandas tivessem alguma dúvida de que estavam na indústria do disco para fazer dinheiro, mas tanto os críticos quanto os fãs pouco se importavam se as bandas precisavam vender seus discos para pagar suas contas e sobreviver; na verdade, eles desqualificavam quem começasse a subir nas paradas de sucesso, taxando-os de comerciais, o que significava a “morte” para a imagem de qualquer grupo. O tal exemplo que pode ser visto no Youtube diz respeito a um programa de televisão, um debate ao vivo no canal WDR TV sobre a indústria da música na Alemanha da qual faziam parte Kaiser, Conny Veit (músico do Gila), Bobo Albes (empresário do Frumpy) e outros. Lá pelas tantas, Nikel Pallat, empresário da banda de protesto Ton Steine Scherben e participante do debate, começa a acusar Kaiser de ser vassalo dos capitalistas. Este responde, afirmando que o selo Ohr jamais diz a uma banda o que ela deve ou não fazer, mas é lógico que sua empresa não é uma sociedade beneficiente. Pallat, visivelmente exaltado, resolve for fim à discussão sacando uma machadinha de sua jaqueta e atacando a mesa que servia de centro para os debatedores. Xingando o programa de “merda liberal” e fracassando nas machadadas diante da resistência da mesa, ele rouba os microfones (dizendo que são seus prisioneiros) e desaparece. Verdadeira pândega, sem justificativa alguma, já que mesmo uma banda esquerdista como a Ton Steine Scherben precisava cobrar seus shows para se manter.
De acordo com os balanços anuais da Ohr em seus dois primeiros anos de vida, o selo vendeu por volta de 250 mil discos. Ninguém hoje tem como provar se os números não foram manipulados para parecerem mais interessantes do que eram, mas mesmo assim eles estavam longe de serem impressionantes. Basta lembrar que só a Philips em 1970 faturou uma vendagem de 60 mil cópias no ano com a estreia do Kraftwerk. Especulando que apenas Tangerine Dream, Ash Ra Temple e Guru Guru (as cerejas dos selos Ohr e Pilz) rivalizavam com o Kraftwerk em termos de sucesso, chegamos facilmente à conclusão de que a maioria dos 18 grupos do selo Ohr tinha uma vendagem irrisória de mil a três mil discos por lançamento. Outro agravante é que as bandas alemãs respondiam por apenas meio por cento do mercado de rock (o restante, 99,5%, estava nas mãos das bandas inglesas ou americanas) e suas produções eram custeadas integralmente pelo selo a que estavam filiadas. Ora, se a Ohr tinha apenas duas ou três bandas que vendiam bem, com certeza o sucesso delas não era suficiente para fazer o selo bancar a produção de suas outras quinze bandas. Ou seja: 250 mil cópias vendidas em dois anos estavam longe de tornar o selo bem sucedido.
No entanto, Kaiser também tinha seus trunfos. Primeiro que, como jornalista, ele tinha muito prestígio na época e passou a abastecer as revistas de música com reportagens sobre a cena pop alemã e entrevistas com suas bandas. Também publicou uma revista voltada só para o mercado de rock alemão, a “deutsche popszene” (nada de letras maiúsculas). Segundo que seu talento para marketing e relações públicas era considerável: vivia promovendo seus lançamentos com campanhas impactantes e muita promoção, inundando de press releases e peças de propaganda todos os meios de comunicação disponíveis. Kaiser conhecia seu público alvo como ninguém e sabia exatamente o que deveria oferecer à juventude roqueira alemã. Criou tamanho buchicho no mercado com sua estratégia de “discos mais imagem” que não demorou muito e todos passaram a acreditar que o rock alemão tinha realmente uma cena consistente, chamando, inclusive, a atenção de outros mercados fora do país (o jornalista inglês Ian MacDonald, diante do impacto causado por esse novo som, cunhou a expressão Krautrock para rotulá-lo). No fundo, o que Kaiser tinha mesmo era ambição, pois arquitetava e trabalhava incansavelmente para que o rock das bandas alemães passasse dos sonolentos meio por cento para 50% de participação no mercado.
Sua megalomania chegou a tal ponto que alguns executivos de outras gravadoras alemãs chegaram a pressionar Peter Meisel (a metade mais capitalista da Ohr e da Pilz) para que ele fizesse Kaiser desacelerar o ritmo, pois apesar de estarem sempre atrás de algo novo para sustentar seus negócios, achavam que a realidade do mercado alemão não era grande o suficiente para tamanho delírio.
Meisel talvez devesse ter posto um freio no seu sócio e na sua companhia, mas não o fez. Em contrapartida, um aditivo poderoso já vinha sendo adicionado ao combustível de Rulf-Ulrich Kaiser: a designer têxtil Gerlinde (Gille) Lettman. Ela apareceu na vida de Kaiser no final de 1970 e no ano seguinte já passava de simples namorada a amor de sua vida, instalando-se inclusive nos seus negócios onde rivalizava com o companheiro em ideias ousadas e no gosto por consumir drogas. Parar Kaiser podia não ser fácil, mas parar Gille era ainda mais difícil.
O destino, porém, resolveu intervir e declarar o início do declínio dos devaneios do casal. Ele surgiu na lisérgica figura do profeta do LSD Timothy Leary, criador da famosa frase hippie “Turn on, tune in, drop out”. Leary começou a ter problemas com a lei americana em 1965. Em 69 foi condenado a 30 anos de cadeia, onde trabalhou como jardineiro numa prisão para detentos de baixa periculosidade. Ajudado por um militante Yippie, ele conseguiu escapar em setembro de 1970 e fugiu com a esposa para a Argélia com um passaporte falso e a cabeça raspada. Da Argélia os dois se mudaram para a Suiça em 1971, onde foram protegidos por um famoso traficante de armas e recepcionados por um dos artistas gráficos que trabalhavam para a Ohr. Sergius Golowin (o artista gráfico) tratou logo de colocar o casal Leary e o casal Kaiser em contato. Gille não demorou muito em assumir Leary como seu gurú e amante e enveredou de vez no ácido. Kaiser, enciumado, embarcou na onda, tentando daí para frente ser para Gille o que ela via em Leary.
Ainda na Suiça, eles reuniram Leary com o grupo Ash Ra Tempel, que tinha em mente a ideia de trabalhar um álbum baseado no conceito dos sete passos para se alcançar um karma melhor de consciência, uma espécie de mapa dos estágios da consciência da mente traçado por Timothy e pelo escritor inglês Brian Barrett. Daí nasceu o álbum Seven Up, cujo nome é uma homenagem ao LSD que o genro de Leary colocava numa garrafa de refrigerante 7 Up e servia os músicos sem que eles soubessem o que estavam realmente bebendo. E só não se tornou uma bad trip sonora (com Leary nos vocais) porque o engenheiro de som Dieter Dierks poliu os excessos e transformou o disco numa das peças mais emblemáticas da psicodelia cósmica alemã.
Mas, vistas de hoje, era fácil notar que as coisas já não andavam bem para Kaiser. Cada vez mais chegado, junto com Gille, ao consumo de LSD, começou a perder talentos importantes na companhia. Dois deles, Bruno Wendel e Günter Körber, assim que se demitiram, conseguiram o apoio da gravadora Deutsche Metronome para o lançamento do sub-selo Brain, trazendo consigo algumas bandas da Ohr e da Pilz. Não demorou muito e a Brain se tornou o principal selo do rock alemão, deixando o ex-patrão para trás (em 1976, Körber se tornaria free-lancer e fundaria o selo Sky Records). O próximo nome importante a abandonar o barco foi o próprio cabeça Peter Meisel, sobrando para Kaiser e Gille o comando absoluto da agora Ohr & Pilz Musikproduktion.
Ainda afetados pela influência de Leary, o casal embarcou de vez nas alucinações cósmicas. E como mensageiros de um novo som espacial, resolvem criar um terceiro selo com o apropriado nome de Kosmische Kuriere, mais tarde rebatizado de Kosmische Musik. Kaiser e Gille elegeram as drogas alucinógenas como uma espécie de salvador, não só para si próprios, mas para toda a humanidade. E começaram a viajar na maionese, incorporando inclusive as palavras de Leary em algumas produções da companhia. Um bom exemplo disso pode ser ouvido na música “Interplay of Forces”, do disco Starring Rose, lançado pelo Ash Ra Tempel em 1973. Gille continuava servindo LSD nas bebidas dos músicos e muitos deles, inclusive Klaus Schulze do Tangerine Dream, alegam nem se lembrar direito das sessões de gravação que faziam na época. Como fazia sucesso nos supermercados uma marca de café chamada Kaiser’s Kaffee, não demorou muito para que esse fosse o apelido dos drinks alucinantes que eram servidos pelo casal.
Dos dois, a mais maluquete era sem dúvida Gille que logo tratou de mudar seu nome para Sternenmädchen (algo como Feita de Estrelas) e passou a desenhar roupas fantasiosas para os músicos das bandas. Os três selos, Ohr, Pilz e Kosmische Kuriere seguiam agora a mesma cartilha alucinógena e isso se refletia em todas as promoções, press releases e peças publicitárias boladas pelo casal. A música daí para frente passou a ser chamada de “sonic LSD” e as conexões cósmicas eram lugar comum em todos os textos promocionais (nem as capas ou encartes dos discos escapavam). As ideias mirabolantes de Kaiser também não conheciam limites: alugou e pintou um vagão de trem para que pudesse, com seus músicos, visitar sedes de jornais por toda a Alemanha; presenteou os jornalistas com passagens de ônibus para conferências de imprensa no meio da floresta, onde instalava sistemas de som e os acomodava em uma centena de cadeiras plásticas; na produção do disco Tarot, de Walter Wegmüller, mandou imprimir um baralho completo desenhado pelo artista; e quando esteve nos Estados Unidos promovendo seus artistas, pagou uma página inteira na Rolling Stone no formato de um editorial sobre a cena alemã. O mais engraçado de tudo isso é que não faltam depoimentos de jornalistas que entrevistaram os dois na época afirmando tratar-se de um casal normal, afável e com toda a pinta de executivos clássicos, bem distantes da imagem que eles passavam em seus negócios.
Típico de quem come mortadela e arrota presunto, Kaiser e Gille tinham projetado para o ano fiscal de 1973 um surpreendente aumento de rendimentos para sua empresa, algo em torno de 600%, uma grana preta na época: mais ou menos três milhões e meio de marcos, dos quais um milhão e oitocentos mil marcos eles pretendiam reinvestir em novas produções. No entanto, quando alguns músicos importantes como Edgar Froese (Tangerine Dream) e Klaus Schulze, cansados dos excessos dos patrões, resolveram entrar na justiça para cancelar seus contratos, a empresa sequer tinha dinheiro para contratar advogados. Em maio de 1974, a Corte Distrital de Berlim foi favorável aos músicos e escancarou as fantasias financeiras de Kaiser. Edgar Froese ainda moveu uma nova ação contra a companhia (que será explicada melhor a seguir) por não pagamento de royalties, mas desta vez ele teve que esperar 4 anos e recorrer a todos os níveis de jurisdição para ganhar absolutamente nada, já que dinheiro era uma coisa que só existia na imaginação de Kaiser e Gille.
Essa história de royalties aconteceu por conta de um projeto chamado The Cosmic Jokers: Kaiser e Gille separaram diversas faixas dos discos de seus selos, deram uma remixada e juntaram material de algumas sessões inéditas de artistas como Tangerine Dream, Wallenstein, Jerry Berkers, Klaus Schulze, Ash Ra Tempel, Witthüser & Westrupp e outros. Depois acrescentaram efeitos de eco e comentários de Gille, Kaiser e Rose Miller, tudo bem no estilo sonic LSD. Foram lançados no mercado cinco álbuns com esse material, mas alguns músicos alegaram mais tarde que não foram consultados sobre esses lançamentos, não deram permissão para que seus nomes ou suas sessões fossem usadas e, consequentemente, não receberam um tostão por isso. Apenas o guitarrista Manuel Göttsching, da banda Ash Ra Tempel, saiu em defesa do casal dizendo que sabia do projeto, estava tudo em contrato e que inclusive recebeu os royalties adiantados. O quinto disco da série, chamado Gilles Zeitschiff, marcou uma briga entre o casal e a mais importante revista pop alemã da época, a Sounds, por causa de uma matéria sobre Timothy Leary. Ohr, Pilz e Cosmic Courier deixaram de anunciar na revista e, longe de prejudicá-la, acabaram por bloquear um dos principais canais de comunicação com seus consumidores, além de criar um poderoso inimigo.
O ano de 1975 marcou o fim do reinado e dos excessos de Kaiser e de sua companheira no rock alemão. A empresa finalmente encerrou as atividades na mais completa bancarrota. Já não havia dinheiro para o aluguel do prédio onde estavam instalados e o casal teve até mesmo que abandonar seu apartamento também por falta de pagamento do aluguel. Os dois foram morar na casa da mãe de Gille, sairam de cena completamente e passarram a viver da seguridade social, pelo menos até onde se saiba, até a década de 90. Os direitos pelos discos gravados passaram a ser propriedade dos músicos e todos os discos do estoque da companhia foram parar nas baciadas de uma rede de departamentos alemã, sendo vendidos a preço de banana.
Esse tempo todo sem notícias reais do casal propiciou toda sorte de boatos e lendas. Que Rolf teria fritado seu cérebro com as drogas e se refugiou em algum hospital psiquiátrico; que estaria vivendo à margem da sociedade, sem documentos ou seguro saúde devido à sua fuga dos processos que teria pendentes junto à justiça; que teria adotado um nome fantasia, enfim, todo tipo de especulação. Gille também estaria com sérios sintomas de esquizofrenia, a ponto de não mais responder a telefonemas ou correspondências que a tratassem pelo seu verdadeiro nome, mas abrindo exceções para quem a chamasse pelo seu nome cósmico: Sternenmädchen.
A verdade é que, passados mais de 35 anos, ninguém sabe dizer com certeza se o mais importante empresário da história do rock alemão, aquele que colocou o krautrock no mapa, que deu o empurrão inicial para a carreira de muitos músicos alemães hoje consagrados, está vivo ou morto.

Álbuns tributo: talento x oportunismo

 

As regravações de músicas de outros artistas e compositores é normal desde que o rock é rock e ajudaram muitos grupos a preencher álbuns que tinham pressa em ser lançados. Desde o início dessa prática há a discussão a respeito de qual é a melhor versão e se determinada regravação supera a original. Puristas nunca admitem a possibilidade de que algum artista, ao regravar as canções de seus músicos preferidos, superem a versão original. Essa é uma discussão que vai longe.Em um determinado dia, alguém achou que a ideia de juntar versões de diversas músicas de um mesmo artista em um único disco seria muito boa, e assim nasceram os álbuns tributo. Não tenho certeza de qual foi o primeiro lançamento desse tipo, mas foi na década de 90 que esse fenômeno cresceu vertiginosamente, chegando ao ponto de, hoje em dia, ser possível que algumas bandas de média relevância já tenham um álbum tributo dedicado à sua música. Diversas pessoas vêem esses lançamentos como puro oportunismo e uma maneira de projetar a carreira de bandas novas. Tenho certeza de que muitos não passam disso mesmo, mas, em contrapartida, alguns foram feitos por artistas que já eram consagrados na época das gravações, emprestando um caráter sincero ao tributo.

Não vejo qual seria outro interesse ao juntar bandas totalmente desconhecidas em um álbum assim. Para ouvir bandas cover desconhecidas basta irmos a um bar. O que chama atenção para discos desse tipo é ouvir um artista relevante mostrando quem é relevante para ele. Saber que aquele cara que toca algo totalmente diferente também gosta e foi influenciado por determinada banda. É a hora na qual observamos a faceta de fã em nossos ídolos. Uma das outras coisas legais nesses discos é ouvir bandas totalmente diferentes entre si reunidas num mesmo álbum. Também é interessante notar quando um artista executa uma versão na qual imprime sua personalidade a canções de outros músicos. Isso mostra que, por mais que hoje existam diversos subestilos no hard rock e no heavy metal, o ponto de partida foi sempre o mesmo.

Apresentarei aqui alguns álbuns tributo relevantes, que mostram que a idéia de homenagear alguns artistas é muito válida, e que essas homenagens, quando feitas com critério, valem muito a pena.


Kiss My Ass: Classic Kiss Regrooved [1994]

Esse foi o primeiro disco tributo com o qual tive contato, e também é um dos mais lembrados. Com um cast de artistas bem díspares, somos brindados com excelentes interpretações e algumas nem tanto. Lançado no aniversário de 20 anos do primeiro álbum do Kiss, o álbum abre com uma ótima versão de “Deuce” feita por Lenny Kravitz, que se não é unanimidade entre os fãs de rock, deve ser respeitado por ser um músico talentoso. Outro nome que causou revolta na época por ter sido incluído foi o do cantor Garth Brooks, contudo, todos tiveram que engolir em seco sua ira após ouvir “Hard Luck Woman” com um jeitão country. É o rock devolvendo ao country sua influência dos primórdios.

Temos também ótimas regravações de “She” (Anthrax), “Goin’ Blind” (Dinosaur Jr.) e “Plaster Caster” (The Lemonheads). Destaque negativo para “Rock and Roll All Nite”, cometida pela banda Toad the Wet Sprocket. Tudo bem que é legal o fato de que a interpretação seja pessoal, mas esta música é relacionada com festa e diversão, e o que o Toad fez foi dar um clima de velório para a canção. Também achei que o compositor japonês Yoshiki poderia ter feito algo melhor com sua versão orquestrada de “Black Diamond”. A interpretação do Extreme para “Strutter” é bem diferente, cheia de citações a outras músicas em seu andamento.

A edição norte-americana conta com uma faixa a mais que a mundial, uma versão em alemão para “Unholy” gravada pela banda punk Die Ärzte. Uma curiosidade fica em relação à capa. A bandeira dos Estados Unidos está presente em todas as edições, menos no Canadá, Japão e Austrália, que possuem lançamentos com a bandeira local em destaque na capa. Outro detalhe é a maquiagem do garoto da capa que deveria ser igual à de Ace Frehley, fato que não aconteceu por questões contratuais. Foi lançado também um DVD com imagens das gravações e entrevistas. Em uma delas, Paul Stanley afirma que esse tipo de homenagem é muito melhor se feita enquanto o artista ainda está na ativa, e não andando de cadeira de rodas, isso há mais de 15 anos!

Tracklist:

1. Deuce – Lenny Kravitz (com Stevie Wonder na gaita)
2. Hard Luck Woman – Garth Brooks (com o Kiss)
3. She – Anthrax
4. Christine Sixteen – Gin Blossoms
5. Rock and Roll All Nite – Toad the Wet Sprocket
6. Calling Dr. Love – Shandi’s Addiction (Maynard James Keenan, Billy Gould, Tom Morello and Brad Wilk)
7. Goin’  Blind – Dinosaur Jr
8. Strutter – Extreme
9. Plaster Caster – The Lemonheads
10. Detroit Rock City – The Mighty Mighty Bosstones
11. Black Diamond – Yoshiki
12. Unholy – Die Ärzte


Nativity in Black: A Tribute to Black Sabbath (1994)

Muitos criticam esse lançamento pelo fato de não conter nenhuma música que não faça parte da era na qual Ozzy era o vocalista. Ozzy Osboune havia lançado um disco ao vivo com a sua banda, Live & Loud, incluindo uma participação dos integrantes originais do Black Sabbath, o que gerou muita expectativa em relação a um possível retorno, e nada melhor do que privilegiar essa fase da carreira da banda em uma homenagem assim.

Diferentemente do tributo ao Kiss, onde existem alguns deslizes na escolha ou na execução das faixas, esse é quase perfeito. Digo “quase” pois a inclusão de “War Pigs”, registrada ao vivo pelo Faith No More, já era conhecida na época, o que causou uma pequena decepção. A escolha das bandas foi perfeita. Mesmo o 1000 Homo DJs, com Al Jourgensen (Ministry) no vocal, representando as bandas da vertente industrial, fez uma versão matadora para “Supernaut”. Também causa estranheza para alguns o nome Bullring Brummies. Entretanto, essa foi uma banda formada exclusivamente para gravar “The Wizard”, que tinha entre seus componentes Geezer Butler, Bill Ward e Rob Halford.

A qualidade das faixas está nas nuvens, porém, gostaria de destacar “Symptom of the Universe”, feita pelo Sepultura, que na época estava em seu auge. Já disse muitas vezes que esse é um exemplo de quando um cover fica melhor que a versão original, e podem chover reclamações! O Type O Negative também faz de “Black Sabbath” uma das coisas mais sombrias da história da música, ressaltando essa característica já presente na original. O que dizer de “Sabbath Bloody Sabbath” executada pela parceria de Bruce Dickinson com o Godspeed? E de “N.I.B.”, tocada pelo criticado e “bobinho” Ugly Kid Joe?

Volumes II e III, lançados anos depois.

Anos depois foram lançados mais dois volumes do tributo, mas sem a mesma repercussão do primeiro. Muita gente nem sabe disso. O segundo, lançado em 2000, contém uma versão para “Electric Funeral” feita pelo Pantera que só não entrou no primeiro volume por questões contratuais. Uma terceira edição foi lançada em 2010, contando com participações de Anthrax, Soundgarden e Soulfly, entre outros. Ozzy Osboune e outros ex-componentes do Sabbath, exceto Iommi, participam de algumas faixas como convidados. Acredito ser totalmente desnecessário que o homenageado participe de um tributo desse tipo, mas em todas as faixas em que isso aconteceu, o resultado final valeu a pena.

Tracklist:

1. After Forever – Biohazard
2. Children of the Grave – White Zombie
3. Paranoid – Megadeth
4. Supernaut – 1.000 Homo DJ’s
5. Iron Man – Ozzy Osbourne e Therapy?
6. Lord of this World – Corrosion of Conformity
7. Symptom of the Universe – Sepultura
8. The Wizard – Bullring Brummies
9. Sabbath Bloody Sabbath – Bruce Dickinson e Godspeed
10. N.I.B – Ugly Kid Joe
11. War Pigs – Faith no More
12. Black Sabbath – Type O Negative
13. Solitude – Cathedral


A Tribute to Judas Priest: Legends of Metal Volumes I e II [1997]

Conheço muita gente que tomou conhecimento do Judas Priest por causa desse disco. Essa é outra boa característica dos álbuns que estão sendo abordados nessa matéria. É sabido que o final dos anos 90 foi uma época de proliferação do metal melódico, e o estilo tinha muitos fãs. Porém, a grande maioria era de uma faixa etária mais baixa, que não conhecia muitos dos medalhões do metal. Os fãs de Stratovarius, Gamma Ray, Angra, Helloween e de outros do gênero foram atrás desse tributo pelo fato de que suas bandas preferidas estavam contribuindo e acabaram conhecendo um dos pilares do heavy metal.

Os dois volumes são obrigatórios, sendo o Volume II, na minha opinião, um pouco superior ao primeiro. Apenas não entendi o porquê de Mercyful Fate e Iced Earth participarem com a mesma música, “The Ripper”. O catálogo do Judas Priest é extenso o suficiente para que isso não seja necessário. “Beyond the Realms of Death”, um dos maiores clássicos do Judas Priest, ficou maravilhoso na execução do Blind Guardian. Uma curiosidade fica pela participação do Gamma Ray. Na época, o vocalista original Ralf Scheepers já havia saído da banda. Assim, o Gamma Ray fez duas músicas para o tributo, “Victim of Changes” para o primeiro volume, com Kai Hansen já assumindo o posto que dura até hoje de vocalista da banda e “Exciter” para o segundo volume, onde que eles apresentam Ralf Scheepers. Na ocasião, o Judas Priest também estava sem vocalista, e Scheepers era a principal aposta de muita gente para assumir o posto. Muitos, inclusive, dizem que ele saiu do Gamma Ray por achar que seria chamado para o Priest, e essa versão para “Exciter” seria seu cartão de visitas na nova banda. No final das contas, Ralf não foi escolhido, e acabou formando o Primal Fear.

Fora isso, é muito interessante ver bandas como Overkill e Kreator executando versões de músicas do Judas Priest com uma identidade própria tão marcante. Isso mostra muito o quanto essas bandas homenageadas são influências importantes para o metal em geral, não importando a vertente. Lembro-me de ficar ansioso para ouvir “Painkiller” com o Angra. Confesso que fiquei um pouco desapontado, já que esperava que o André Matos cantasse com um pouco mais de raiva. “Love Bites” com o Nevermore ficou arrastada e muito pesada. Só a parte final do vocal já vale a música toda. Outro destaque é “The Hellion/ Electric Eye” com os alemães do Helloween. Caso vocês se interessem por esses discos tomem cuidado, pois chegou a ser lançada uma compilação com músicas dos dois volumes em apenas um CD. Claro que muitas músicas ficaram de fora, entre elas muitos dos destaques citados aqui.

Tracklist:

Volume I

1. The Hellion / Electric Eye – Helloween
2. Saints In Hell – Fates Warning
3. Victim of Changes – Gamma Ray
4. Sinner – Devin Townsend
5. The Ripper – Mercyful Fate
6. Jawbreaker – Rage
7. Night Crawler – Radakka
8. Burnin’ Up – Doom Squad
9. A Touch Of Evil – Lions Share
10. Rapid Fire – Testament
11. Metal Gods – U.D.O.
12. You’ve Got Another Thing Comin’ – Saxon

Volume II

1. The Ripper – Iced Earth
2. Beyond the Realms of Death – Blind Guardian
3. The Sentinel – Heaven’s Gate
4. Love Bites – Nevermore
5. Exciter – Gamma Ray (com Ralf Scheepers)
6. Dissident Aggressor – Forbidden
7. Painkiller – Angra
8. Tyrant – Overkill
9. Grinder – Kreator
10. Dreamer Deceiver – Skyclad
11. Bloodstone – Stratovarius
12. Screaming for Vengeance – Virgin Steele
13. Night Comes Down – Leviathan

VALE A PENA OUVIR DE NOVO

 

Aracy de Almeida - "Samba com Aracy de Almeida" [1960]

Destaque

Bad Company – Bad Co (1974)

Em seu primeiro álbum, o Bad Company — liderado pelo ex-vocalista do Free, Paul Rodgers, e pelo guitarrista original do Mott, Mick Ralphs — ...