quinta-feira, 9 de março de 2023

“As Quatro Estações” (EMI, 1989), Legião Urbana

 



  

O ano era 1988, a Legião Urbana estava em plena turnê do seu terceiro álbum, Que País É Este (1978/1987), lançado em outubro do ano anterior e que trazia músicas que estavam entre as mais tocadas no rádio como “Que País É Este”, “Faroeste Caboclo”, “Angra dos Reis” e “Eu Sei”. De norte a sul do Brasil, os shows daquela turnê eram disputadíssimos, sempre com plateia lotada. Todos queriam ver a Legião Urbana tendo à frente Renato Russo (1960-1996), vocalista que havia sido elevado pelo público e pela crítica a porta-voz daquela geração de jovens.

Tudo ia muito bem naquela turnê até o dia 18 de junho de 1988, quando a Legião Urbana se apresentou no fatídico show no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, capital do Brasil e cidade natal da banda. Desorganização por parte da empresa que promoveu o show, superlotação do estádio, indisciplina de uma parcela do público, segurança insuficiente, acabaram gerando uma das maiores confusões já ocorridas em concertos de rock no Brasil. Um fã mais alucinado chegou a invadir o palco para estrangular Renato Russo, mas logo foi retirado pelos seguranças. Parte enfurecida do público atirava objetos contra a banda, que para preserva a sua integridade física, encerrou a apresentação antes do horário previsto. A partir daí, uma batalha campal se instalou no estádio. Pessoas que estavam nas arquibancadas invadiram o gramado, outras tantas foram pisoteadas. Para controlar o cenário caótico, a polícia agiu com violência, que acabou se espalhando para as áreas externas do estádio e ruas próximas. O saldo foi de 385 pessoas atendidas pelo serviço médico, 63 pessoas presas e 64 ônibus depredados. A Legião Urbana tornou-se uma persona non grata na própria cidade onde nasceu. Foi o último show da banda em Brasília. Diante do ocorrido, todo o resto da turnê foi suspenso.

O show caótico no Estádio Mané Garrincha fez o quarteto brasilense repensar a sua orientação musical e o conteúdo do próximo álbum. A banda decidiu que para o novo álbum, a banda abandonaria o tom raivoso nas letras de temática político-social, e focaria numa musicalidade mais calma, mais amena.

Após uma vantajosa renovação de contrato com a EMI, a Legião Urbana entrou em processo de pré-produção do novo álbum. Contudo, a banda se esbarrou em novos problemas. Renato havia entrado num bloqueio criativo para escrever novas letras para o novo álbum, o que acabou de alguma maneira desmotivando os outros companheiros de banda. O produtor Mayrton Bahia, o mesmo que havia produzido os dois álbuns anteriores da Legião, desempenhou o papel de incentivador dos integrantes do grupo. Embora não tivesse mais vínculo empregatício com a EMI, pois estava trabalhando como produtor freelancer, Mayrton decidiu focar apenas na produção daquele novo álbum da banda, abrindo mão de produzir os discos de outros artistas, o que de alguma forma, era um prejuízo para ele. Mayrton estava sobrevivendo dos cachês dos discos que já havia produzido para outros artistas.

Enquanto as letras não saiam, a banda ia criando e ensaiando as linhas melódicas. Mas aos poucos, uma e outra música já prontas, iam ganhando letra à medida que novas ideias iam brotando na mente de Renato Russo, que naquele momento, vinha lendo muita coisa no campo da espiritualidade.

Mas um outro fato iria contribuir para redirecionamento musical da Legião Urbana: a saída do baixista Renato Rocha (1961-2015), que também era conhecido como Negrete ou Billy. Suas constantes ausências nos ensaios e a sua falta de compromisso com a banda naquele momento, provocaram atrasos do processo de produção do novo álbum. A situação ficou insustentável até que em janeiro de 1989, Negrete foi expulso da Legião Urbana. Negrete chegou a gravar linhas de baixo de algumas faixas do novo disco, porém foram descartadas após sua expulsão. Essas linhas de baixo foram regravadas por Renato Russo e Dado Villa-Lobos, que se revezaram no instrumento.

Renato Rocha (o primeiro à direita), expulso da Legião Urbana.

Todos esses contratempos e a dedicação da banda em produzir um álbum com todo o cuidado possível, acabaram prolongando o período de gravação em quase um ano. Enquanto as outras grandes bandas do rock brasileiro como Titãs, Paralamas do Sucesso e Engenheiros do Hawaii, estavam lançando álbuns, fazendo turnês e aparições na TV, a Legião Urbana estava enclausurada no estúdio gravando, o que só aumentava ainda mais a ansiedade dos fãs pelo novo disco da banda brasiliense.

Intitulado As Quatro Estações, o quarto álbum de estúdio da Legião Urbana finalmente foi lançado em 26 de outubro de 1989, para deleite de milhões de fãs. Numa entrevista para a revista Bizz, em junho de 1989, Renato Russo havia dito que o título se referia às quatro estações do ano, à renovação de ciclos.

O primeiro single do álbum foi “Há Tempos”, seguidos pelos singles de “Pais E Filhos” e “1965 (Duas Tribos)”. A capa prateada do álbum apresenta a Legião Urbana em sua nova versão, em formato de trio.

Musicalmente, a sonoridade da banda se mostra mais leve, serena e melódica, essencialmente voltada ao folk rock, gênero musical que a Legião Urbana já acenava desde o álbum Dois, por meio da canção “Quase Sem Querer”. Os arranjos são mais elaborados e os temas abordados giram em torno do amor, da família, da homossexualidade e da espiritualidade. As letras com teor político-social também estão presentes no álbum, porém, mais metafóricas e dotadas de lirismo poético, diferente das de Que País É Este (1978/1987), mais cruas e diretas.

A faixa “Há Tempos” é quem abre o álbum As Quatro Estações. Segundo o encarte do álbum, o segundo verso de “Há Tempos” foi retirado de um texto antigo encontrado numa igreja em 1600: “Muitos temores nascem do cansaço e da solidão”. No entanto, os últimos versos da música estão entre os mais emblemáticos já escritos por Renato Russo: “Disciplina é liberdade / Compaixão é fortaleza / Ter bondade é ter coragem / Lá em casa tem um poço / Mas a água é muito limpa”.

“Pais E Filhos” tem um início lento e delicado, com uma levada de violão inspirada em “Fast Cars”, de Tracy Chapman. A beleza melódica e agradável do início da canção, emoldura os primeiros versos que descrevem claramente o suicídio de uma garota, o que provavelmente fez muita gente não prestar a atenção na cena trágica descrita pela letra da música. Por muito tempo, Renato Russo demonstrou revolta com o público por cantar a letra da canção sem reparar no trágico detalhe. Apesar da tragédia retratada nos primeiros versos, a canção em si aborda a relação familiar, o choque de geraçóes entre pais e filhos. O refrão da canção é daqueles que fazem multidões cantarem em coro nos shows a plenos pulmões: “É preciso amar as pessoas / Como se não houvesse amanhã / Porque se você parar pra pensar / Na verdade não há”.

Única faixa do álbum gravada em inglês, “Feedback Song For A Dying Friend” teve a sua letra escrita por Renato Russo escrita em 1985. Sua gravação para o álbum As Quatro Estações foi dedicada ao fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe (morto em junho de 1989, aos 42 anos, vitimado pela AIDS) e a Cazuza, que na época, travava uma batalha contra a AIDS, mas que acabaria morrendo em julho de 1990, aos 32 anos. Em meio a tantas canções que trilham entre a folk music e o folk rock, “Feedback Song For A Dying Friend” destoa musicalmente de todo o contexto do álbum por ter um arranjo pesado, mais voltado ao hard rock. Apesar do som pesado e agressivo, seus versos são rebuscados, com inspirações em Shakespeare. O encarte do álbum traz uma tradução da letra da música para o português, feita pelo jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Renato Russo tinha um sonho de um dia ter um texto seu em inglês traduzido para o português por Millôr. Na tradução, o título da canção traduzida para o português virou “Canção Retorno Para Um Amigo À Morte”. Curiosamente, a faixa termina num ritmo de música indiana.

Renato Russo dedicou "Feedback Song For A Dying Friends" a Robert Mapplethorpe e Cazuza.

A faixa seguinte, “Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto”, foi inspirada num livro que Renato Russo leu num quarto de hotel, A doutrina de Buda, de Bukkyo Dendo Kyokai. Os versos da canção são carregados de mensagens de otimismo e esperança. A canção é um folk rock leve e solar, e que se encerra bem ao estilo dos Byrds, com Dado Villa-Lobos fazendo um solo de guitarra bem melódico numa guitarra Rickenbacker de 12 cordas.

Fechando o lado A da versão LP de As Quatro Estações, “Eu Era Um Lobisomem Juvenil”, uma canção sobre transformações, mudanças. A própria vida de Renato passou por grandes mudanças, como na adolescência, quando teve que superar o problema de epifisiólise, e na vida adulta, quando assumiu a sua homossexualidade. E são sobre essas transformações na sua vida que a letra trata, ainda que de maneira subjetiva. O lobisomem, um ser que na mitologia é um homem que se transforma em lobo, é usado por Renato como uma metáfora para simbolizar essas transformações pelas quais passou o cantor.

“1965 (Duas Tribos)”, abre o lado B da versão LP do álbum, e é cheia de referências de quem vivenciou a infância no Brasil entre o final dos anos 1960 e começo dos anos 1970, como Renato Russo. Um tempo em que o país estava sob regime da ditadura militar. A letra faz citação sobre a tortura empregada pela ditadura militar brasileira contra aqueles que reagiam contra ela: “Cortaram meus braços / Cortaram minhas mãos / Cortaram minhas pernas / Num dia de verão (...) Podia ser meu pai / Podia ser meu irmão”. Há citações que remetem à infância da época como o autorama, desenhos animados da Hanna-Barbera que passavam na TV, e os brinquedos Revell, fabricante de réplicas em miniaturas para montar de carros, aviões, navios e veículos de combate. 

“Monte Castelo” é uma canção que remete aos antigos trovadores. O tema da canção é o amor, e para tratar sobre ele, Renato Russo fez uma interessante conexão entre um poema do português Luiz Vaz de Camões (1524-1580), “Soneto 11”, também conhecido como “Amor É Um Fogo Que Arde Sem Se Ver” (“O amor é o fogo que arde sem se ver/ É ferida que dói e não se sente/ É um contentamento descontente/ É dor que desatina sem doer”), e uma passagem da Bíblia. O refrão da canção é inspirado em 1 Coríntios 13:1, da Bíblia, e faz referência exclusivamente sobre o amor. O título por sua vez, é baseado no nome do local onde a Força Expedicionária Brasileira (FEB), venceu uma importante batalha na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial.

"Bíblia" e Camões: inspirações para "Monte Castelo".

A paixão homossexual por alguém que está distante é o assunto da faixa “Maurício”. Já “Meninos E Meninas”, fala de bissexualidade: “Acho que gosto de São Paulo e gosto de São João / Gosto de São Francisco e São Sebastião / E eu gosto de meninos e meninas / Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre / Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente”. “Sete Cidades” refere-se sobre a dificuldade em amar alguém que está fisicamente distante. O amor é tratado na letra da canção em versos simples, diretos, sem metáforas.                                                                                                                                                                                                                  
Fechando o álbum, “Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar", onde amor e espiritualidade são abordados numa mesma canção. A espera por um grande amor é tratada na canção, mas os seus últimos versos são inspirados no Evangelho de João: “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós / Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, dai-nos a paz”.

O álbum As Quatro Estações foi bem recebido pela imprensa. Jornalistas do meio musical ressaltaram positivamente o redirecionamento que a Legião Urbana tomou, ao afastar-se dos rocks corrosivos de contestação para investir numa sonoridade mais eletroacústica, serena e mística. O crítico musical, Tom Leão, em sua coluna no jornal O Globo, classificou As Quatro Estações como um disco de amor, que vai além do “João ama Maria”. André Forastieri, da Folha de S. Paulo, afirmou que nesse álbum, a Legião abandonou os ares militantes. Bia Abramo, na edição de janeiro de 1990 da revista Bizz, apontou que a Legião Urbana poderia tomar dois caminhos a partir daquele álbum: o lado mais raivoso e agressivo, com as guitarras cortantes de “Feedback Song For A Dying Friend”, ou o extremo oposto, a sutil delicadeza, quase sacra, de “Monte Castelo”.

Após dois anos, os fãs finalmente puderam desfrutar de um novo álbum da Legião Urbana. O cuidado da banda com as letras e os arranjos das canções, e a produção do álbum que levou cerca de um ano, valeram a pena. A resposta do público foi mais do que satisfatória: a tiragem de 450 mil cópias de As Quatro Estações se esgotaram rapidamente. Das onze faixas, nove viraram sucesso nas emissoras de rádio de todo o Brasil. “Pais E Filhos” entrou para a trilha sonora da novela Rainha da Sucata, da TV Globo, em 1990. O sucesso radiofônico de quase todas as faixas de As Quatro Estações levou o álbum em menos de um ano a ultrapassar a marca de 750 mil cópias vendidas. No total, o quarto álbum da Legião Urbana chegou à casa de 2,6 milhões de cópias vendidas, tornando-se o álbum mais vendido da discografia da banda brasiliense.

Em abril de 1990, já com álbum As Quatro Estações estourado no mercado, a Legião Urbana partiu para uma grande turnê nacional, algo que não acontecia desde 1988, quando aconteceu a turnê de Que País É Este 1978/1987. Pela primeira vez, a Legião partiu para uma turnê sem o baixista Renato Rocha, que fora expulso. Outro fato inédito até em tão com a banda brasiliense, é que ela contou com músicos de apoio: Fred Nascimento (violão e guitarra base), Bruno Araújo (baixo), e Mu Carvalho (teclados), ex-A Cor do Som.

Legião Urbana como um trio, durante as sessões de fotos para a capa
do álbum As Quatro Estações.

Para evitar os transtornos da turnê anterior, a Legião tomou todo cuidado com a nova turnê. Além dos músicos de apoio, a banda contou com uma estrutura de palco mais arrojada e segura, e um serviço de segurança redobrado. O repertório da turnê de As Quatro Estações foi formado por 24 músicas, entre sucessos dos discos anteriores e canções do novo álbum. Nos dias 11 e 12 de agosto de 1990, a Legião Urbana se apresentou no estádio Parque Antártica, em São Paulo, cujos shows foram gravados, mas só lançados em 2004 no álbum duplo As Quatro Estações Ao Vivo.

Na edição de junho de 1990, a revista Bizz publicou uma entrevista com Renato Russo na qual confessou publicamente a sua homossexualidade. A confissão, que para muita gente, não era uma novidade, dividiu opiniões: houve quem se revoltasse, mas também houve quem apoiasse o vocalista da Legião Urbana.

Mas a entrevista polêmica não freou a popularidade da Legião Urbana alcançada naquele ano, graças ao sucesso estrondoso de As Quatro Estações. As vendas do álbum superaram as dos álbuns recentes dos Titãs e Paralamas do Sucesso juntos. Em outubro de 1990, Renato Russo foi capa de uma das edições da revista Veja, que trazia o título de matéria “O novo rei do rock”. Uma matéria do Jornal do Brasil, em novembro do mesmo ano, colocou a Legião Urbana entre os maiores vendedores de discos do Brasil, ao lado de Roberto Carlos e Chitãozinho & Chororó.

Contudo, em meio a todo o sucesso da Legião Urbana, uma notícia abala Renato Russo em dezembro de 1990. Durante uma internação do vocalista numa clínica de reabilitação no Rio de Janeiro, ele passou por um exame de HIV, o vírus da AIDS, cujo resultado, infelizmente foi positivo. Renato havia contraído o vírus através de um namorado norte-americano que recém havia retornado aos Estados Unidos.

A vida de Renato Russo passaria por uma nova transformação que também afetou a Legião Urbana. A crise econômica que o Brasil passava, a dependência química de Renato Russo e a descoberta recente de que era portador do vírus da AIDS, refletiram no perfil do álbum seguinte, V, de 1991, um trabalho mais denso, lento e pesado, bem diferente da leveza e a espiritualidade de As Quatro Estações.

Faixas

Todas as faixas foram compostas por Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, exceto a indicada.

Lado A
1 – “Há Tempos”
2 – “Pais E Filhos”
3 – “Feedback Song For A Dying Friend”
4 – “Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto”
5 – “Eu Era Um Lobisomem Juvenil”

Lado B
6 – “1965 (Duas Tribos)”
7 – “Monte Castelo” (Renato Russo)
8 – “Maurício”
9 – “Meninos E Meninas”
10 – “Sete Cidades”
11 – “Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar”

Legião Urbana: Renato Russo (vocal, baixo, guitarra, violão, gaita e teclados), Dado Villa-Lobos (guitarra, violão, baixo e bandolim) e Marcelo Bonfá (bateria, gaita e percussão).



 “Há Tempos” (Videoclipe oficial)


“Pais E Filhos”


“Feedback Song For A Dying Friend”


“Quando O Sol Bater Na Janela 
Do Teu Quarto”


“Eu Era Um Lobisomem Juvenil”


“1965 (Duas Tribos)”

 “Monte Castelo” (Renato Russo)


“Maurício”


“Meninos E Meninas”


“Sete Cidades”


 “Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar”

“Cavalo de Pau” (Ariola, 1982), Alceu Valença

 




O relacionamento de Alceu Valença com as gravadoras não era dos melhores no final dos anos 1970. Após vários desentendimentos com elas e sem perspectivas para a sua carreira aqui no Brasil, Alceu partiu para um autoexílio na França, em 1979, numa tentativa, quem sabe, de encontrar por lá uma melhor sorte para a sua música. Contudo, depois de um ano em terras francesas, a saudade bateu e a vontade de retornar para o Brasil falou mais alto. Movido por esse sentimento, Alceu chegou até a compor em Paris uma canção que se tornaria famosa mais tarde: “Coração Bobo”.

Em 1980, Alceu Valença já estava de volta ao Brasil, e sem perder tempo, inscreveu a canção “Coração Bobo” num festival de música que a TV Tupi estava promovendo. Ele participou do festival com essa música fazendo dueto com Jackson do Pandeiro (1919-1982), porém, não foram muito longe, logo estavam eliminados.

Apesar da eliminação, aquela canção chamou a atenção do produtor Marco Mazola, que naquele momento, estava montando o elenco de artistas da Ariola, gravadora alemã que estava se instalando no Brasil. Alceu foi convidado pelo produtor, e assinou contrato com aquela gravadora. Naquele mesmo ano gravou e lançou o álbum Coração Bobo, cuja faixa-título foi o primeiro grande sucesso de massa do cantor pernambucano. O álbum chegou à marca de 450 mil cópias vendidas.

O sucesso do álbum rendeu a Alceu um convite para participar do especial infantil da TV Globo, Arca de Noé, em homenagem ao poeta Vinícius de Moraes (1913-1980), onde o pernambucano cantou a música “A Foca”. Em 1981, sai Cinco Sentidos, que emplacou apenas uma música, “Cabelo no Pente”. O álbum vendeu modestas 150 mil cópias, bem menos que o álbum anterior. Estaria Alceu errando a mão? Teria perdido o caminho aberto com Coração Bobo?

De jeito nenhum. Na verdade, o melhor de Alceu estava por vir. E veio em julho de 1982, na garupa do seu Cavalo de Pau, oitavo álbum de estúdio do cantor e compositor pernambucano. O álbum manteve a receita musical que Alceu já vinha desenvolvendo nos trabalhos anteriores, ao fundir a tradição da cultura nordestina (forró, baião, maracatu, xote, poesia de cordel e embolada) com as referências musicais contemporâneas (rock, pop e reggae). Com esse caldeirão musical somado ao carisma de Alceu e a canções tão cativantes, inteligentes e de apelo popular, Cavalo de Pau agradou em cheio o público e a crítica.

No entanto, o álbum tinha tudo para dar errado. A ideia concebida por Alceu é a de que o álbum teria apenas oito faixas. O departamento de marketing da Ariola discordava, achava que com oito, o álbum não venderia nada e sugeriu que aumentasse para doze ou catorze faixas. Provavelmente, a Ariola temia que com a ideia das oito faixas defendidas por Alceu, o novo álbum pudesse ter vendas tão baixas ou menores que as de Cinco Sentidos, que tinha nove canções. Coração Bobo vendeu 450 mil cópias com as suas onze faixas. Talvez por essas razões, a gravadora se sentisse com mais propriedade nos argumentos para insistir no aumento da quantidade de faixas. Mas nada disso parecia intimidar o pernambucano de São Bento do Uma: ele insistiu nas oito faixas, e sua vontade foi atendida.

Alceu Valença e Jackson do Pandeiro participaram juntos do
Festival da TV Tupi, em 1980, com a música "Coração Bobo".

Cavalo de Pau começa com “Rima Com Rima”, música em que Alceu faz um interessante jogo de palavras, onde se revela a influência da literatura de cordel e da embolada. O canto de Alceu é bem inspirado nos cantadores de feira do interior do Nordeste.

A faixa seguinte é a música da vida de Alceu Valença: “Tropicana”. Popularmente conhecida como “Morena Tropicana”, a música é uma deliciosa fusão de xote com reggae. “Tropicana” exala em seus versos sensualidade e erotismo, em que há um jogo de associações entre as frutas tropicais tão populares no Nordeste com os atributos do corpo da linda morena cantada por Alceu: a jaboticaba com os olhos; a poupa do caju com a pele macia da morena; o umbu-cajá é o beijo travoso (amargo) da moça, mas a saliva é doce como o mel de uruçu, um tipo de abelha comum nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Se “Tropicana” é sensual e erótica, “Como Dois Animais” vai mais além: é sexo puro, instintivo, animal. Não fosse a sutileza poética, seria quase pornográfica. Em “Como Dois Animais”, como o próprio título sugere, o sexo é tratado como instinto animal, desprovido de qualquer conexão com o romantismo: “Meu olhar vagabundo / De cachorro vadio / Olhava a pintada / E ela estava no cio / E era um cão vagabundo / E uma onça pintada / Se amando na praça / Como os animais...”
O lado A do álbum em sua versão LP, começa com o baião “Pelas Ruas Que Andei”, onde Alceu sai pelas ruas do Recife à procura de alguém. Algumas das ruas da capital pernambucana são citadas na letra da canção. Em “Martelo Alagoano”, Alceu presta uma homenagem a poetas populares e cantadores do Nordeste, citando os nomes de alguns deles nos versos.

Mágoa é um tema abordado de maneira intensa e profunda em “Lava Mágoa”. Porém, o ritmo descontraído da música contrasta com a profundidade dos versos. “Cavalo de Pau” é outro grande sucesso da carreira de Alceu Valença, um xote lento com uma performance vocal em que Alceu alterna o tom de sua voz.

O álbum termina com o ritmo alegre e festivo do maracatu com a faixa que dá nome ao folguedo popular pernambucano. A música é uma parceria de Alceu Valença com o poeta pernambucano Ascenso Ferreira. O maracatu ganhou uma maior difusão no resto do Brasil e um caráter mais pop através do movimento manguebeat, nos anos 1990, sobretudo por Chico Science & Nação Zumbi.

Ao contrário do que a gravadora temia, Cavalo de Pau superou todas as expectativas. Das oito faixas do álbum, quatro se tornaram sucesso nas rádios brasileiras”: Tropicana”, “Como Dois Animais”, “Pelas Ruas Que Andei” e “Cavalo de Pau”. Mas o maior sucesso do álbum foi “Tropicana”, que teve execução exaustiva nas emissoras de rádio de norte a sul do Brasil. O álbum bateu a marca de 1 milhão de cópias vendidas e elevou Alceu Valença a astro da MPB. Seus shows passaram a atrair um público muito maior do que antes, lotando ginásios e arenas.

No rastro do sucesso de Cavalo de Pau, vieram na sequência álbuns que fazem parte desse momento de auge na carreira de Alceu como Anjo Avesso (1983) - que traz outro megassucesso do cantor, “Anunciação” – e Mágico (1984). Em 1985, ele se apresentou na primeira edição do Rock in Rio, no Rio de Janeiro.

Faixas
Todas as faixas são de autoria de Alceu Valença, exceto onde indicado.

Lado A
"Rima Com Rima"                  
"Tropicana (Morena Tropicana)" Alceu Valença, Vicente Barreto  
"Como Dois Animais"              
"Pelas Ruas Que Andei" Alceu Valença, Vicente Barreto

Lado B
"Martelo Alagoano"             
"Lava Mágoas" Alceu Valença, Dominguinhos         
"Cavalo de Pau"           
"Maracatu" Alceu Valença, Ascenso Ferreira



"Tropicana (Morena Tropicana)" 
(videoclipe para o "Fantástico" 
TV Globo, 1982)

"Como Dois Animais" (participação de
Alceu Valença no programa
 "Geração 80" TV Globo, 1982)

The Police – Outlandos D’Amour (1978)


 

O álbum de estreia dos Police, Outlandos D’Amour, faz uma síntese elegante entre o calor do reggae e a urgência do punk.

Os Police formaram-se em Londres, em 1977, quando o terramoto do punk varria a velha Inglaterra. O cabecilha fora o baterista Stewart Copeland, que não obstante a sua formação musical erudita, e a passagem pelo prog rock, quis fundar uma banda punk. Na voz e no baixo, outro intruso, desta vez com um background no jazz de fusão: um tal de Sting. Só o guitarrista Henry Padovani honrava as credenciais de rua do punk, sabendo menos acordes do que o próprio Johnny Ramone.

Mas Sting achava a sua pobreza técnica limitativa para as canções que queria escrever, convidando Andy Summers para o seu lugar. Andy ainda tinha um currículo mais embaraçoso para uma banda de new wave: dez anos mais velho do que os seus companheiros, fez parte dos Animals no final dos anos 60 (hippie!) e estudou guitarra clássica na universidade (tecnocrata!). Este é o segredo dos Police: três músicos virtuosos e sofisticados, fingindo que só sabem tocar três acordes.

O seu primeiro disco, Outlandos D’Amour, é o que vai mais longe no namoro com a energia do punk: mais cru, espontâneo e urgente do que as rodelas seguintes. O tema de abertura, o vibrante “Next to You”, passaria mesmo por punk pop à Buzzcocks, não fora o solo slide de Andy Summers denunciar as suas origens classic rock. Já “Truth Hits Everybody” é punk da bayer, levando até ao fim a sua simplicidade radical.

O grande legado dos Police está, porém, noutro sítio: na sua elegante fusão da música jamaicana com o punk rock. Não sendo pioneiros deste casamento – os Clash gravaram “Police and Thieves” um ano antes -, foram, ainda assim, dos primeiros a lá chegar, precedendo o próprio ska da 2 Tone. Mais: foram os Police que criaram a fórmula “verso reggae descontraído/refrão apunkalhado repetindo palavras em loop”, que explica a eficácia dos clássicos “So Lonely”, “Can’t Stand Losing You” e “Roxanne”. O truque foi repetido até à náusea – até os nossos Jáfu’mega não resistiram à tentação – mas em 1978 soava fresquíssimo e original.

Não se pense, porém, que a força de Outlandos D’Amour se esgota nos seus três singles demolidores. Os acordes descendentes de “Hole in My Life” – à “Sunday Afternoon” dos Kinks – são uma delícia; a roqueira “Peanuts” transborda de vitalidade new wave; a guitarra à Byrds de “Born in the 50’s” pode ser old wave mas é igualmente irresistível.

A única canção irritante de Outlandos D’Amour é “Be My Girl – Sally”, cuja promissora frescura pop inicial é traída por um tépido e anticlimático interlúdio spoken word. O facto de a ideia – uma declaração de amor a uma boneca insuflável – ter sido roubada descaradamente aos Roxy Music (a incrível “In Every Dream Home a Heartache”) só agrava a inconsequência do tema.

Como que procurando redimir o passo em falso anterior, o disco acaba com o delicioso reggae experimental de “Masoko Tanga”, monótono na harmonia (apenas um acorde) mas de uma incrível riqueza polirrítmica, de travo africano, prenunciando as posteriores explorações de Sting nas latitudes da world music.

Mas nem só de grandes canções vive Outlandos D’Amour; vive também do bom gosto dos arranjos, da sua depuração, da sensação saborosa do espaço por preencher. Só o absolutamente essencial tem lugar e nada mais: o baixo tremor de terra de tão grave e destacado, o eco elegante da guitarra (desdobrando os acordes em fragmentos coloridos), a voz inconfundível (tão luminosa como enervante), a bateria sincopada e maníaca (quase sobre-humana).

Mais tarde, os Police fariam discos mais complexos e sofisticados, mas nunca conseguiriam igualar Outlandos D’Amour em genica apunkalhada e consistência criativa. Não nos interessa a discussão se os Police eram verdadeiros punks ou apenas turistas de conveniência. A garra e a urgência estão lá. As canções falam por si.


Shame – Drunk Tank Pink (2021)

 

Drunk Tank Pink é uma catarse coletiva ao som de um álbum Rock como deve ser, barulhento e rápido, não deixando de ser intrincado e bem produzido, e, sobretudo, sem pedir desculpa a ninguém por se mostrar frágil.

Depois de um surpreendente disco de estreia que lhes valeu elogios rasgados das mais conceituadas revistas da especialidade, depois de longos meses em tour com concertos um pouco por todo o mundo, depois de atingido o estádio de hottest new band, muitas vezes apelidada de herdeira de um rock que estava, para muitos, morto há muito… O que fazer a seguir?

Drunk Tank Pink é, de certa forma, a resposta. O segundo trabalho dos ingleses Shame, depois de Songs of Praise de 2018, lançado em janeiro deste ano, conta com a produção de James Ford que tem no currículo nomes como Arctic Monkeys e Foals. O título faz referência a uma cor (aquela que encontramos no grafismo da capa) que tem supostas propriedades calmantes, sendo por isso aplicada em estabelecimentos prisionais ou instituições psiquiátricas. Fica por esclarecer se esta terá sido eficaz a aplacar as ansiedades existenciais com que se viram confrontados os recém-regressados a casa membros dos Shame ou se foram antes o próprio álbum e o respetivo processo de produção que fizeram as vezes de instrumento calmante e catártico.

Numa primeira audição, Drunk Tank Pink tem todos os elementos que nos fizeram gostar de Shame quando os ouvimos pela primeira vez: uma bateria bem marcada, guitarras incansáveis e Charlie Steen a cuspir versos zangados com um sotaque cerrado. É, portanto, claramente, um disco de Shame. No entanto, uma audição mais cuidada revelará rapidamente que não estamos perante uma tentativa de repetição da fórmula do álbum de estreia, tentação comum. O rock simples e direto do primeiro álbum ganha aqui mais corpo, com novas camadas e usos mais inventivos dos instrumentos de sempre, demostrando um crescimento técnico, a par do crescimento pessoal, conseguido durante o tempo que passaram a promover Songs of Praise. Ao amadurecimento musical junta-se uma mudança no estado de espírito. Charlie Steen fala-nos agora da inquietação e da falta de rumo que experimentam, com certeza, todos os jovens com vinte e poucos anos (esta vossa escriba pode confirmar), sentimentos ainda mais exacerbados quando se volta à Terra depois de um high como o que a banda experimentou em 2018 e 2019. Em “Nigel Hitter”, que começa ligeira e quase dançável, para acabar num lamento angustiado, versos como “Will this day ever end? I need a new beginning” ou “I’m throwing everything at this wall, and hoping something sticks” ilustram bem a ansiedade de quem se vê confrontado pela primeira vez com o vazio de propósito que é o intervalo entre a juventude e a idade adulta. Ainda na primeira metade do disco, outras faixas como “Alphabet”, o primeiro single de apresentação, “March Day” ou “Water in the Well” contrastam o som bem-disposto e implacavelmente  rápido, com Charlie Steen a cantar em tom de desafio jocoso (bangers como sabemos que os Shame sabem fazer bem), com estes mesmos temas: aborrecimento, apatia, overthinking e saúde mental.

“Snow Day” abre uma segunda parte mais pesada e menos saltitante do álbum. Aqui as faixas fundem-se umas nas outras num conjunto mais caótico, barulhento e urgente. Destaca-se “Human, For a Minute”, um interlúdio mais calmo e talvez a faixa em que as fragilidades de Steen estão mais expostas (“And I’m half the man I should be, can’t you see?”). Em “6/1” somos guiados por guitarras e bateria que aceleram até um refrão onde mais uma vez se exorcizam demónios pessoais (“I represent everything that I hate, yet I’m the person I always dreamt I could become” ou “And I hate myself but I love myself”). O álbum fecha com “Station Wagon”, reflexão épica de quase 7 minutos em que, mais a falar do que a cantar, Steen conclui num crescendo de ruído que há coisas que não podemos controlar já que “Happiness is only a habit”, mas também, “nobody said this was gonna be easy”.

Drunk Tank Pink herda do primeiro álbum dos Shame não só as fundações musicais sobre as quais constrói, mas também a experiência do rescaldo da fama que este lhes proporcionou. O interessante é que a inquietação dos jovens Shame, isolados em casa pela primeira vez em dois anos, confrontados com quem são e com quem gostariam de ser, acaba por ressoar com as experiências de grande parte do mundo que teve também de encontrar a paz possível com a sua própria companhia, mais ou menos ao mesmo tempo que saía este disco. Temos então, se quisermos, uma catarse coletiva ao som de um álbum Rock como deve ser, barulhento e rápido não deixando de ser intrincado e bem produzido, e, sobretudo, sem pedir desculpa a ninguém por se mostrar frágil, numa altura em que mais do que nunca se fala da importância da saúde mental.


Floating Points, Pharoah Sanders & London Symphony Orchestra – Promises (2021)


 

Ao todo, somos presenteados com nove movements, mas é como se fosse apenas um. Enquanto escutamos as notas respiradas por Pharoah, os apontamentos eletrónicos de Floating Points e o trabalho de cordas discreto, mas assertivo, da London Symphony Orchestra, não sentimos a passagem do tempo.

É certo que todos os ouvidos encontram em Promises uma descoberta astral – mesmo aqueles que, desde os anos 60, escutam os murmúrios de Pharoah Sanders e que, desde o final da primeira década do século XXI, esbarram nas palpitações eletrónicas de Sam Shepherd (Floating Points). No entanto, a música inscrita nesta colaboração, que era uma das mais esperadas do ano, não deve surpreender ninguém.

Promises é um trabalho que reproduz fielmente as vidas criativas do mago norte-americano do jazz e do feiticeiro britânico da música eletrónica. Do primeiro segundo ao último, as mentes musicais dos dois artistas unem-se e transformam-se numa única existência, num só momento. Ainda que a London Symphony Orchestra seja a terceira parte integrante do projeto, ficamos com a sensação de que, na grande maioria dos movimentos, ela escolhe ficar escondida atrás do sopro de Pharoah e dos cabos infinitamente eletrónicos de Floating Points.

Promises resulta de uma colaboração iniciada em 2015. Nesse ano, Pharoah soprava as velas pela septuagésima-quinta vez. Também nesse ano, Floating Points editava Elaenia, o seu LP de estreia. Em 2015, os agora confidentes não se conheciam – ainda. Entre eles, existia então uma enorme extensão de vida, formada por longos processos temporais e espaciais, que os separavam. Até que, um dia, a criatividade juvenil de Floating Points, que na altura contava apenas 26 anos, interrompeu a merecida velhice de Pharoah. O saxofonista admitiu que, após ter escutado as produções de Sam, sentiu uma enorme vontade de criar mais uma grande obra. Realmente, faixas como “Silhouettes (I, II & III)”, a obra-prima de Elaenia, colocam qualquer coração aos saltos e aceleram os sentidos de todas as almas.

Este álbum é, efetivamente, uma promessa que Sam faz a Pharoah. O inglês concedeu-lhe, talvez, a derradeira oportunidade para tocar o instrumento de sopro, autêntico companheiro de uma vida. Assim, o jovem ajuda o velho e satisfaz-lhe esse desejo. Mas o velho também intercede pelo jovem, ajudando-o, e dá-lhe a provar uma experiência inesquecível, quase divina.

Não são todos os que colaboram com Pharoah Sanders. Num plano prévio e abstrato, revelava-se improvável uma colaboração entre os dois músicos, que são oriundos de épocas e áreas criativas tão diferentes. Mas toda a música é possível. Desde que exista, primeiro, uma ideia e, depois, a vontade louca de a concretizar na prática, todas as sonoridades são possíveis. A beleza de Promises reside nessa realidade, penso. É realmente um álbum cheio de vida. A cada audição, os sons que dele emanam tornam-se cada vez mais inspiradores e reveladores das verdades do mundo. Apesar de os media estarem a focar (merecidamente, note-se) na performance de Pharoah (dominar um saxofone aos 81 anos é uma tarefa hercúlea), afigura-se importante atentar no contributo de Floating Points. Para isso, importa olhar para a sua carreira e, em especial, para o seu último álbum a solo, Crush (2019).

Nesse LP, podemos identificar muitas das propriedades de Promises – sobretudo no tema iniciático, “Falaise”. Claro que, em 2019, esse exercício de identificação e associação era bastante mais complicado, visto que a existência de Promises não era conhecida por ninguém. Apesar de seguir um padrão tipicamente eletrónico, Crush liberta, em vários momentos, impressionantes passagens de cordas e de alguns instrumentos de sopro. Aliás, nesse álbum vive até uma música cujo título é “Requiem For CS70 & Strings”. O nome não podia ser mais claro. Deixa-me descansado – e feliz – o facto desta colaboração com Pharoah fazer com que a arte de Floating Points possa chegar a mais ouvidos. Por tudo aquilo que tem criado ao longo da carreira, Sam merece essa oportunidade (tal como todos os bons artistas). Para além de ser músico, Sam Shepherd é cientista. Tem dois PhD’s: um em neurociência e outro em epigenética. Este facto surpreende qualquer pessoa, no entanto, o que fascina na vida de Sam é a forma como ele conseguiu integrar na sua expressão musical os elementos físicos, biológicos e científicos das suas áreas de estudo. É verdade que esta realidade manifesta-se com mais claridade nos trabalhos a solo do artista britânico, mas ficamos com a ideia de que também está presente em Promises. Afinal, o som é o mais bonito fenómeno físico. Trabalhos como Promises justificam essa afirmação. Ao todo, somos presenteados com nove movements, mas é como se fosse apenas um. Enquanto escutamos as notas respiradas por Pharoah, os apontamentos eletrónicos de Floating Points e o trabalho de cordas discreto, mas assertivo, da London Symphony Orchestra, não sentimos a passagem do tempo. É inegável que, a cada audição, ficamos sempre um pouco mais velhos, contudo, o efeito das horas, dos minutos e dos segundos esbarra na porta de Promises.

Aos meus olhos, este álbum conta a história de um velho e de um jovem. O velho quer sentir-se vivo. O jovem pretende ganhar experiência e tornar-se mais astuto nos confrontos com a vida. Por isso, o jovem ajuda o velho e o velho ajuda o jovem. O velho é Pharoah Sanders e o jovem é Sam Shepherd, que aparece  escondido atrás da capa mágica de Floating Points. Em conjunto, os dois, que formam a antítese mais intensa da vida, criaram uma obra-prima que, em apenas nove movimentos, reflete a totalidade das emoções humanas, comuns a todos nós, agora, no passado e no futuro.

Apesar de ter apenas uma semana de vida, esta criação parece existir desde o início do tempo. Algo divino diz-nos que Promises vai ficar para a posterioridade.


O Melhor do Rock em 1989 Playlist

 

Neste post, continuo a série playlists abordando vários anos do rock and roll separadamente. E aqui chegamos ao ano de 1989. Nesse ano foram lançados alguns álbuns importantes para o rock como os primeiros de Nirvana, Skid Row e Lenny Kravitz, o "Doolittle" do Pixies, o "The Real Thing" do Faith No More, que conta com alguns de seus maiores sucessos, o "Pump" do Aerosmith, o melhor da banda nos anos 80, entre outros. Veja abaixo uma lista de músicas e álbuns que foram destaque na época. 



Músicas contidas na playlist:

Faith No More - Epic
Faith No More - Falling To Pieces
Aerosmith - Janie's Got A Gun
Aerosmith - Love In A Elevator
Skid Row - 18 and Life
Skid Row - I Remember You
Pixies - Here Comes Your Man
Pixies - Monkey Gone To Heaven
Nirvana - About A Girl
Nirvana - Blew
Mötley Crue - Dr. Feelgood
Mötley Crue - Kickstart My Heart
The Cult - Edie (Ciao Baby)
The Cult - Sweet Soul Sister
Alice Cooper - Poison
Eric Clapton - Bad Love
Eric Clapton - Old Love
Phil Collins - I Wish It Would Rain Down
Phil Collins - Another Day In Paradise
Badlands - Winter's Call
Badlands - High Wire
Ramones - Pet Sematary
Ramones - I Believe In Miracles
Red Hot Chili Peppers - Higher Ground
Red Hot Chili Peppers - Fire
Queen - I Want It All
Queen - Breakthru
Lenny Kravitz - Let Love Rule
Lenny Kravitz - Mr. Cab Driver
Tears For Fears - Sowing The Seeds of  Love
Tears For Fears - Woman In Chains
The Cure - Pictures of You
The Cure - Lovesong
Tom Petty - Free Fallin'
Tom Petty - I Won't Back Down
Neil Young - Rockin' In The Free World
Whitesnake - The Deeper The Love
Whitesnake - Fool For Your Loving
Rush - Show Don't Tell
Dream Theater - The Ytse Jam
Soundgarden - Get On The Snake
Soundgarden - Big Dumb Sex
Michael Monroe - Dead, Jail or Rock N Roll
Michael Monroe - She's No Angel
Chris Isaak - Wicked Game
Tina Turner - The Best
Elton John - Sacrifice
Martika - Toy Soldiers
The Rolling Stones - Mixed Emotions
The Rolling Stones - Rock And A Hard Place
Joe Satriani - Flying In A Blue Dream
Joe Satriani - The Mystical Potato Head Groove Thing
Mudhoney - This Gift
The Jesus and Mary Chain - Head On
The Replacements - I'll Be You
The The - Kingdom of Rain
The Stone Roses - I Wanna Be Adored
The Stone Roses - Fool's Gold
Gary Moore - After The War
Gary Moore - Led Clones
Don Henley - The End of The Innocence
Stevie Ray Vaughan - Crossfire
Bonnie Raitt - Nick of Time
Nine Inch Nails - Down In It
Aerosmith - Monkey On My Back
Skid Row - Youth Gone Wild
Skid Row - Piece of Me
Nirvana - School
Nirvana - Negative Creep
Mötley Crue - Same Ol' Situation (S.O.S)
Tears For Fears - Advice For The Young At Heart
The Cult - Fire Woman
Eric Clapton - Before You Accuse Me
Phil Collins - Colours
The Stone Roses - Waterfall
Sepultura - Beneath The Remains
Sepultura - Inner Self
Cazuza - Burguesia
Legião Urbana - Há Tempos
Legião Urbana - Pais E Filhos
Legião Urbana - Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto
Legião Urbana - Eu Era Um Lobisomen Juvenil
Titãs - Flores
Titãs - Palavras
Titãs - O Pulso
Titãs - 32 Dentes
Inimigos do Rei - Uma Barata Chamada Kafka
Os Paralamas do Sucesso - Lanterna dos Afogados
Os Paralamas do Sucesso - Perplexo
Kid Abelha - De Quem é o Poder
Lobão - Panamericana (Sob o Sol de Parador)


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