Standing On A Beach - The Singles, a coletânea com o célebre velhinho na capa e que reúne os compactos (singles) lançados pelo Cure entre 1979 e 1985, serviu para a grande maioria dos jovens em todo o mundo daquela época, inclusive brasileiros, de iniciação no universo musical da banda inglesa. Eu era um daqueles jovens, um adolescente com pouco mais de 16 anos.
O cabelo desgrenhado e o batom borrado na boca do vocalista Robert Smith, mais o visual negro de toda a banda, chamaram a atenção do público jovem. Aqui no Brasil, Standing On A Beach - The Singles apresentou para o grande público a sonoridade pós-punk e o rock gótico, abrindo a possibilidade pra que esse público pudesse conhecer outras bandas do gênero como Siouxsie & The Banshees, Sisters Of Mercy, Bauhaus, The Mission entre outras. A crítica brasileira chegou a batizar as bandas góticas, de "darks".
Naquela a época eu não tinha toca-discos em casa, só ouvia música no rádio ou em fita cassete. Um amigo meu que tinha o LP de Standing On A Beach egravou uma fita pra mim do disco. Ouvia em casa sem parar, não sei como a fita não partiu. Adorava a sonoridade fria de "A Forest", a urgência pós-punk de "Jumping Someone Else's Train" e de "Primary", a inclinação synthpop "a la New Order" de "The Walk", o clima folk de "The Caterpillar", e claro, o lado pop e acessível dos megahits "Boys Don't Cry" e "In Between Days", esta última, uma música com vaga garantida na trilha sonora de quem era adolescente nos anos 1980.
The Cure nos áureos tempos
Standing On A Beach - The Singles foi um tremendo sucesso de vendas no Brasil, vendeu mais de 120 mil cópias. "Boys Don't Cry" e "In Between Days" tocaram bastante do rádio. "In Between Days chegou a entrar na trilha sonora do remake da novela "Selva de Pedra", da Globo, em 1986. O sucesso da coletânea garantiu a passagem da turnê do Cure pelo Brasil, em 1987, tocando em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre.
O sucesso de Standing On A Beach - The Singles não se resumiu ao Brasil. A coletânea, mais o bom êxito do álbum The Head On The Door (1985), abriram as portas do mercado norte-americano para o Cure, bem como o do resto do planeta.
Faixas:
Lado A
"Killing An Arab" (Robert Smith - Laurence Tolhurst - Michael Dempsey)
"Boys Don't Cry" (Robert Smith - Laurence Tolhurst - Michael Dempsey)
"Jumping Someone Else's Train" (Robert Smith - Laurence Tolhurst - Michael Dempsey)
"A Forest" (Robert Smith - Laurence Tolhurst - Simon Gallup - Matthieu Hartley)
"Primary" (Robert Smith - Laurence Tolhurst - Simon Gallup - Matthieu Hartley)
"Charlotte Sometimes" (Robert Smith - Laurence Tolhurst - Simon Gallup)
"The Hanging Garden" (Robert Smith)
Lado B
"Let's Go To Bed" (Robert Smith - Laurence Tolhurst)
"The Walk" (Robert Smith - Laurence Tolhurst)
"The Lovecats" (Robert Smith)
"The Caterpillar" (Robert Smith - Laurence Tolhurst)
O Ira! havia causado uma boa impressão com o seu álbum de estreia, o Mudança de Comportamento, lançado em maio de 1985. Puxado pelo hit “Núcleo Base”, Mudança de Comportamento chegou à casa das 60 mil cópias vendidas. Se não era um número tão expressivo comparado às 450 mil cópias de Nós Vamos Invadir A Sua Praia, do Ultraje A Rigor ou às 300 mil de Revoluções Por Minuto, do RPM, também lançados em 1985, por outro ajudou juntamente com esses álbuns, ao rock paulista fazer frente ao rock carioca que até aquele momento, dominavam o mainstream do cenário roqueiro nacional que vivia um momento de renovação nos anos 1980 desde o estouro da Blitz em 1982.
E maio de 1986, o Ira! foi para o Rio de Janeiro onde começou a gravar o seu segundo álbum, o Vivendo E Não Aprendendo, no estúdio Nas Nuvens, de propriedade de Liminha, ex-baixista dos Mutantes e que se tornou um renomado produtor de discos. Liminha tinha até aquele momento produzido discos de artistas como Gilberto Gil, Lulu Santos, Kid Abelha, Frenéticas e Banda Black Rio. O ex-mutante havia acabado de produzir o antológico Cabeça Dinossauro, dos Titãs, que seria lançado em junho daquele ano.
Para o segundo álbum, Ira! quis manter os mesmos referenciais que ajudaram a moldar o seu som: The Who, The Kinks e The Jam, sendo este último a maior influência do quarteto paulista.
Ira!
Mas o que poderia ser um processo de gravação cercado de tranquilidade, acabou virando um campo de batalha. As gravações de Vivendo E Não Aprendendo não foram nada tranquilas. Para manter o que queriam para o álbum, os integrantes do Ira! adotaram uma postura muito radical, intransigente e até mesmo arrogante, frente ao experiente Liminha. Houve aí uma espécie de choque de gerações. De um lado, quatro caras que vinham do underground paulistano e com a ideologia punk na cabeça. Do outro, um produtor vindo da escola do rock progressivo onde o perfeccionismo era a lei.
A banda paulista queria seguir uma linha próxima ao do The Jam, sua grande referência. Liminha achava o Jam desafinado e propunha algo melhor. Os choques entre banda e produtor se tornaram constantes e insustentáveis a tal pondo de Liminha chegar a passar o comando da produção do álbum para Pena Schimidt. Este sugeriu que o álbum fosse finalizado em São Paulo. O produtor português Paulo Junqueiro finalizou o álbum. No final das contas, para preencher a ficha técnica, o álbum acabou tendo cinco produtores: Liminha, Pena Schimidt, Paulo Junqueiro, Vítor Farias (técnico de som de Liminha) e o próprio Ira!
Anos mais tarde, o Ira! reconheceu que o destrato dado a Liminha foi um erro e desperdício. Poderia ter aprendido muita coisa com ele.
Após uma produção cercada de muitas turbulências, Vivendo E Não Aprendendo chegou às lojas em agosto de 1986. Em outubro, o Ira! fez um show de lançamento na Praça do Relógio, no campus da USP, em São Paulo para um público de 40 mil pessoas. Renato Russo, da Legião Urbana, e Paul Toller, do Kid Abelha, estavam presentes para prestigiar o show de lançamento.
Os temas girando em torno das descobertas e dilemas da juventude presentes no primeiro álbum estavam presentes nas canções de Vivendo E Não Aprendendo, através letras carregadas de muito lirismo poético sob uma base musical que unia urgência juvenil e a beleza melódica. Edgar Scandurra, além de músico talentoso, se revelava um compositor de mão cheia.
“Envelheço Na Cidade” foi a primeira a faixa a estourar, e seu riff de guitarra se tornou um dos mais marcantes do rock nacional. “Dias de Luta” foi a segunda a cair no gosto do público nas rádios. Com “Flores Em Você” como tema de abertura da novela O Outro, da Globo, em 1987, as vendas de Vivendo E Não Aprendendo impulsionaram chegando a pouco mais de 250 mil cópias vendidas. A massa descobria enfim o Ira!. O que chamava a atenção em “Flores Em Você” era o quarteto de cordas que trazia de volta, o pop barroco, um gênero do rock que teve o seu auge em meados dos anos 1960.
Vivendo E Não Aprendendo ainda trouxe outras canções interessantes e muito bem construídas, mas que também falavam sobre coisas comuns ao universo do jovem como inexperiência e petulância em “XV Anos” e inconsequência em “Tanto Quanto Eu”. A faixa “Pobre Paulista”, que havia sido gravada num compacto em 1984 junto com “Gritos Na Multidão” (também incluída no disco) gerou polêmica por supostamente ser uma contra os migrantes nordestinos. Edgard Scandurra sempre ter negado. É uma dúvida que persiste até hoje, e que volta e meia, a polêmica volta à tona. Para o álbum, ambas foram gravadas ao vivo durante um show em São Paulo numa casa de espetáculos.
Polêmicas à parte, o fato é que Vivendo E Não Aprendendo se tornou o mais importante trabalho da carreira do Ira! e um dos mais importantes álbuns da história do rock brasileiro.
Faixas:
Lado A
“Envelheço Na Cidade"
"Casa De Papel"
"Dias de Luta"
"Tanto Quanto Eu" (Edgard Scandurra - Ricardo Gasparini)
"Vitrine Viva" (Edgard Scandurra - Luis Arnaldo Braga)
Lado B
"Flores Em Você"
"Quinze Anos (Vivendo E Não Aprendendo)" (Edgard Scandurra - Ricardo Gasparini)
"Nas Ruas"
"Gritos Na Multidão"
"Pobre Paulista"
Todas as faixas são de autoria de Edgard Scandurra, exceto as indicadas.
O Kid Abelha começou o ano de 1985 muito bem. Vinha de um sucesso estrondoso do álbum de estreia Seu Espião, lançado em 1984 em que quase todas as faixas tocaram no rádio, o que credenciou a banda carioca a sua participar da primeira edição do Rock in Rio, em janeiro de 1985, ainda que a apresentação naquele megafestival tivesse sido bem insossa.
Em maio de 1985, chegava às lojas a segunda "bolacha" do Kid Abelha, Educação Sentimental. Uma "bolacha", diga-se de passagem, bem palatável: rocks dançantes com forte acentuação pop, baladas românticas e tudo pronto e bem embalado pra virarem hits. Assim como o primeiro álbum, Educação Sentimental vendeu feito banana na feira.
Gosto de Educação Sentimental. Tenho tanto em LP como em CD. Acho um bom disco, pra mim um dos melhores trabalhos do Kid Abelha. O álbum ratifica o talento da banda em fabricar hits assim com em Seu Espião. A inclinação do Kid para o pop já se revela na faixa que abre o álbum, "Lágrimas e Chuva", o primeiro grande hit do disco, é rock com uma levada funk, trazendo uma bateria pesada e carregando na distorção de guitarra. "Educação Sentimental", "Os Outros", "Educação Sentimental II" e "Garotos", foram outros hits do disco. Por outro lado, outras faixas menos conhecidas como "Conspiração Internacional”, "Amor Por Retribuição" e "Uniformes" eram hits em potencial, mas infelizmente não rolaram. A última faixa, "Fórmula do Amor" é até “boazinha”, mas a versão gravada por Léo Jaime no seu ótimo álbum Sessão da Tarde (1985) é bem melhor. O hilário é que Léo gravou com o Kid Abelha, e a música foi composta por ele e Leoni. Falando em Leoni, baixista da banda, ele cantou em duas faixas: "Educação Sentimental II" e "Conspiração Internacional".
A marca das 200 mil cópias vendidas de Educação Sentimental não sensibilizou a crítica na época. Esta caiu de pau no Kid Abelha por achar que a banda carioca produzia música muito juvenil e descartável. Na verdade, essa "indisposição" com o Kid Abelha vinha da imprensa musical paulista que estava com o rock carioca "entalado" na garganta. Os paulistas não engoliram a presença majoritária do rock carioca no Rock in Rio daquele ano. A presença paulista foi praticamente nula. Só que a realidade é que o rock carioca até aquele momento tinha mais popularidade e repertório para encarar o festival que o paulista. Concordo, porém que o festival poderia ter escalado os paulistas do Rádio Táxi que já tinham três álbuns no currículo e uma coleção de hits. Por que não foram convocados? Quem souber morre.
Educação Sentimental foi o último álbum de Leoni como integrante do Kid Abelha. Membro fundador da banda, Leoni deixou o grupo após um quebra-pau num show de Léo Jaime, no comecinho de 1986. Léo havia chamado para o palco todo o Kid Abelha para cantar com ele o hit “A Fórmula do Amor”. Porém, Léo havia se esquecido de chamar Leoni. Isso teria deixado Leoni muito furioso não só pela gafe de Léo com também pelo fato das atenções sobre a banda estarem centralizadas em Paula Toller já faziam algum tempo. Houve então um bate-boca entre Leoni e Paula, e que envolveu Léo e Herbert Viana, este último, namorado de Paula na época. Vale destacar que Leoni e Paula haviam sido namorados, o que leva a crer que algumas “feridas” do relacionamento que os dois tiveram não haviam “cicatrizadas”. A confusão acabou culminando com a saída de Leoni do Kid Abelha que logo montou uma nova banda, os Heróis da Resistência. O tempo passou, a poeira baixou, e Leoni mantém a amizade com Léo Jaime e Herbert Viana.
Passados mais de 30 anos, a crítica vê Educação Sentimental de outra maneira. O álbum é considerado um clássico do rock brasileiro pela mesma imprensa que o desprezou na época do seu lançamento.
Faixas
Lado A
"Lágrimas e Chuva" (Leoni - Bruno Fortunato - George Israel)
"Educação Sentimental II" (Leoni - Paula Toller - Herbert Vianna)
"Conspiração Internacional" (Leoni - Paula Toller)
"Os Outros" (Leoni)
"Amor por Retribuição" (Leoni - George Israel)
Lado B
"Educação Sentimental" (Leoni)
"Garotos" (Leoni - Paula Toller)
"Um Dia em Cem" (Leoni - Paula Toller)
"Uniformes" (Leoni - Leo Jaime)
"A Fórmula do Amor" (Leoni - Leo Jaime)
Kid Abelha: Paula Toller (vocal), George Israel (saxofone, flauta e violão), Bruno Fortunato (guitarras), Leoni ( vocal, vocal de apoio, baixo e violão) e Cláudio Infante (bateria).
Cinquenta anos é uma idade que merece respeito, sobretudo quando essas cinco décadas acabam por sedimentar um tempo posterior e infinito, o tempo da imortalidade. Uma imortalidade em eterna construção.
Pois é verdade: há efemérides que não podem passar por nós envoltas no véu do esquecimento. Comemorar cinquenta anos de vida sem que o tempo tenha deixado marcas de desgaste e de padecimento, não é para todos. É, aliás, para poucos. Um dos escolhidos, aquele que lhe reservámos para hoje, é um disco de 1971 (pois claro) gravado pelo nosso grande e próximo amigo, apesar das “léguas a nos separar”. Trata-se de Construção, de Chico Buarque de Hollanda.
Uns anos antes da gravação desse disco histórico da música popular brasileira, um poeta que também deixou percurso feito na canção do nosso país irmão escreveu O Operário em Construção. Pouco une objetivamente as duas obras, o poema e o disco. No entanto, somos livres de acreditar que a palavra que se repete no título de ambas pode suscitar algumas concordâncias de significado, algumas pontes de contacto e de concórdia. Essa aproximação não é trabalho dos artistas, antes de quem os ouve, os lê e os entende. No poema de Vinícius de Moraes há um excerto que diz “Ah, homens de pensamento / Não sabereis nunca o quanto / Aquele humilde operário / Soube naquele momento! / Naquela casa vazia / Que ele mesmo levantara / Um mundo novo nascia / De que sequer suspeitava.” Postas em causa essas duas matérias-primas, foi este o ângulo que escolhemos para abordar um álbum que nunca parou de nos surpreender, que parece ser felino ao ponto das muitas vidas que teve e tem. Volta e meia faz sentido voltarmos a ouvir o que o construtor Chico operou naquele tempo difícil de além mar.
Chico Buarque, um dos porta-estandartes da Música brasileira continua por aí, a fazer belos discos.
O disco começa num tom de urgência inesperado. Em “Deus Lhe Pague”, o ritmo parece perseguir-nos (a perseguição criminosa ditava a lei, como sabemos, naquele tempo não tão distante assim), inquieta-nos, e na canção há um grito que quer libertar-se, dando uma ambiência inusitada a um novo disco do menino Chico Buarque, mais habituado a ver a banda passar do que a passar engajado contra ela. O momento era sério e exigia seriedade. Era melhor e mais própria a adoção de outra atitude. Menos samba, e mais chinelo no pé. Menos festa inconsequente, e mais combate. Um novo Chico erguia-se e “Um mundo novo nascia” na criação artística do conhecido carioca. O que escrevera o poeta, cumpria-se agora na carreira do músico.
Por muito que os tons sambistas de algumas composições continuem plenas de vigor no repertório do álbum, há um esgar de desespero transversal a todas elas, assim como às demais que o completam. Era hora de trocar a pena, aguçando-a ao ponto da crítica mordaz e pouco velada dos dez temas de Construção serem punhais em riste apontados à carne do poder. Em consequência, o regime militar sangrou algumas gotas de sangue. O propósito estava cumprido sem que a arte musical e poética de Chico Buarque fossem substituídas por mera propaganda panfletária. Trata-se, se assim quisermos entender o disco, de um comício travestido em obra musical. Intenso, forte e belo, mergulhado “na noite da solidão”, com a promessa de que “Enquanto eu puder cantar / Alguém vai ter que me ouvir”.
Canções como “Deus Lhe Pague”, “Cotidiano”, “Desalento”, “Construção” (que tema, que canção, que letra maravilhosa!), “Valsinha” ou “Minha História (Gesubambino)” são apenas múltiplas maneiras de se idealizar a perfeição, seja ela melódica ou lírica. E depois, há ainda uma outra que se destaca por ser crua e muito reveladora do sofrimento sentido na primeira pessoa e, portanto, na própria pele. “Samba de Orly”, tema que com a sua estranha beleza perturbadora nos dá conta do tempo vivido no exílio (a letra acabou por ser parcialmente cortada), foi composto por Chico, Toquinho e Vinícius de Moraes (de novo o poeta!) e diz coisas que desarmam qualquer pessoa, numa espécie de conversa triste com um seu irmão: “Mas não diga nada / Que me viu chorando / E pros da pesada / Diz que eu vou levando / E vê como é que anda / Aquela vida à toa / E se puder me manda / Uma notícia boa.” A notícia do fim da ditadura militar, como sabemos, demorou a chegar, mas também foi ela a fazer nascer um novo Chico, um novo artista em construção. Por muito que tenha sentido o desprazer da dor em que viveu mergulhado, ele e o seu país, a obra que daí nasceu, para o ouvinte atento, valeu bem a pena. Por vezes, como sabemos, é preciso atravessar o deserto para se reconhecer o encanto do mar.
Por tudo isto, ainda hoje te ouvimos, caro Chico! E estamos (estaremos sempre) gratos a este e a outros momentos que foste sabendo escrever, cantar e gravar. Uns do lado certo da barricada, e por isso saíste vitorioso. Outros, também é bom dizer, no fio de uma navalha artística menos interessante, contrária à inovação do som que tropicalisticamente acabou por reinar na MPB futura. Mas essa é uma outra história, que por agora não urge contar.
O segundo álbum de Aphex Twin, Selected Ambient Works Volume II, é um clássico da música ambiente. Austero, assombroso e sublime.
No início dos anos 90, em Inglaterra, muitas raves tinham salas chill out onde a malta extenuada por maratonas de dança (movidas a ecstasy) poderia finalmente sossegar ao som de música ambiente (aninhados num pufe, bebericando um chazinho de menta). No início, os DJs destes portos de abrigo tocavam discos de ambiente da velha guarda – Brian Eno e afins – mas depressa surgiu uma nova electrónica, o chill out, desenhada com este propósito quase terapêutico. Se alguma desta música conseguia ser esteticamente interessante, o grosso dela era preguiçosa, demasiado funcional, serenidade a metro.
A reacção a esta pasmaceira pós-new age não tardou, sob a forma de uma música ambiente angustiante e sombria. É neste contexto que surge o segundo álbum de Aphex Twin, Selected Ambient Works Volume II, onde a evocação de paisagens desoladas e arrepiantes é o tom dominante. Lembram-se do planeta inóspito onde a tenente Ripley encontra o Alien? Daquela aridez estranha e tensa e inumana? É isso o disco.
Quantas notas são precisas para desenhar esse terror gélido e absoluto? Pouquíssimas, diz-nos Aphex Twin; quantas menos, melhor. Essa radical depuração – onde uma melodia se pode cingir a duas ou três notas – deixa-nos estarrecidos: como é possível exprimir tanto com tão pouco? O segredo está nas texturas assombrosas, no reverb fantasmagórico, na deformação dos timbres originais até tudo ser um lastro dolente, um eco longínquo de uma alma a quebrar. Os sintetizadores movem-se com uma frágil delicadeza, como se a mais leve brisa fosse o suficiente para tudo se desfazer em pó. As batidas ausentes ou discretas (há algumas excepções) ajudam ao silêncio entrar. A repetição hipnótica, com ínfimas variações a cada ciclo, embala-nos e dissolve-nos num nebuloso sonho acordado. A atmosfera é aqui absolutamente tudo, cinema para os ouvidos, pintura para a mente.
Em Selected Ambient Works Volume II a evocação de paisagens desoladas e arrepiantes é o tom dominante.
Os temas são instrumentais (a voz, quando aparece, é apenas mais uma textura) e nem título têm. Na ausência de pistas verbais, cada um faz a sua viagem unipessoal, projectando as suas próprias referências. Na trôpega mas espectral “#7” imaginámos um carrocel em ruínas assombrado por memórias longínquas; mas outros desenharão outros cenários, outras emoções.
Se a maior parte deste disco-duplo tem essa ambiência de ansiedade e horror, alguns temas são inesperadamente plácidos, como que denunciando a origem de todo este empreendimento: o chill out enquanto complemento da euforia do techno, as duas faces da mesma cultura rave. É o que sucede na lindíssima “#3”, que com apenas 5 notas repetidas como um mantra consegue ser doce e suave como um raio de sol de outono. Claro que estes ocasionais intervalos de calmaria só acentuam, por contraste, o negrume das demais faixas.
Aphex Twin sempre foi o menino bonito da electrónica gourmet, devido à sua elegância e extremo bom gosto. De tal maneira que até a malta do indie, sempre tão desconfiada em relação à música programada em máquinas, se rendeu ao seu encanto. Selected Ambient Works Volume II vai, porém, mais longe. Não é electrónica, nem música ambiente, é pura, puríssima poesia.
Em 1973, os Roxy Music estavam à frente de Bowie em termos de inovação e experimentalismo. O elegante For Your Pleasure não deixa dúvidas a esse respeito.
Há quem prefira os Roxy Music da recta final (soft rock romântico e sofisticado) mas nós preferimos os Roxy da casa de partida (glam rock experimental e futurista). As canções foram sempre escritas por Bryan Ferry mas no fulgor inicial a estética era concebida por toda a banda (cujos valiosos contributos nem sempre foram devidamente reconhecidos). Nos dois primeiros discos havia um bónus adicional, um mago da electrónica chamado Brian Eno. Fala-se muito da tensão criativa entre Ferry e Eno – o primeiro com inclinações mais pop e o segundo mais vanguardista – mas na verdade o conflito era de outra ordem: um choque de egos e uma ciumeira de Ferry, receoso de dividir a atenção com alguém tão carismático. Depois da perfeição do segundo álbum, Bryan expulsa Brian. É a vida…
Fica o legado: For Your Pleasure é a quinta-essência do art rock britânico e um dos melhores discos de sempre. A icónica capa – uma mulher elegante e intangível passeando uma pantera na noite de néon – anuncia ao que vamos: glamour, perversidade, escuridão. Na gótica “In Every Dream Home a Heartache”, a casa moderna perfeita é, afinal, um espaço de fria solidão, onde até o amor é um objecto de consumo: uma boneca insuflável que chega pelo correio. Ferry vai recitando devagar a sua descida em direcção à loucura – “I blew up your body / but you blew my mind” -, acumulando uma tensão exasperante que transborda no final do tema (a guitarra de Phil Manzanera extravasando numa violenta erupção). A nota de suicídio de “Strictly Confidential” recorre à mesma dinâmica de tensão/ catarse. Um fã chamado Peter Murphy ouviria tudo com muita atenção…
“The Bogus Man” também tem um tema levezinho: as aventuras e desventuras de um predador sexual. É a canção mais vanguardista de For Your Pleasure, nove minutos de um groove hipnótico à Can, sólido tal maneira que nem as investidas atonais do saxofone de Andy Mackay o conseguem desmoronar. A duração desmedida desta faixa confirma as nossas suspeitas: para além do glam (o brilho, a cor) há também muito rock progressivo em For Your Pleasure (os solos virtuosos, o anti-minimalismo).
For Your Pleasure é a quinta-essência do art rock britânico e um dos melhores discos de sempre.
Na apunkalhada “Editions of You” Ferry revela o seu fascínio pela aristocracia: “old money’s better than new”. Algo curioso se atentarmos nas suas origens working class, nascido e criado numa paupérrima cidade mineira. Não é por acaso que a maior base de fãs dos Roxy Music se situava, justamente, nas cidades industriais do norte de Inglaterra (onde muitos fãs com backgrounds similares se apresentavam de gravata nos concertos): quem conhece em primeira mão o desconforto da pobreza refugia-se, muitas vezes, num glamour imaginado, uma aristocracia do gosto.
Sublinhe-se a ruptura do glam com a contracultura hippie: a última rejeitando os valores do velho star system – a elegância, o luxo, o artifício – e o primeiro reavivando-os. Não se pode, porém, tomar duas vezes banho no mesmo rio. Bryan Ferry sabe bem que o mundo anterior ao rock’n’roll desapareceu para sempre. Se o revisita é com um distanciamento camp, a meio caminho entre a ironia e a sincera devoção. Se hoje, no século XXI, esta reciclagem kitsch de referências do passado é relativamente trivial, o gesto era subversivo em 1973, uma lufada de ar fresco. A voz afectada de Ferry, quase vaudeville, tem esse delicioso travo retro.
O tema-título, que encerra o álbum, é quase um manifesto glam: “part false, part true / like anything / we present ourselves”. É o próprio ideal de autenticidade dos anos 60 que agora é questionado, a música já não como verdade mas como teatro e artifício. Ao segundo minuto de “For Your Pleasure” Ferry deixa de cantar e Eno começa a brincar com os botões do estúdio, desdobrando as notas do piano num estranho eco, pássaros impossíveis a esvoaçar. Só mais tarde Brian Eno inventaria a música ambiente mas o germe já está aqui, pincelando ambiências, pintando com sons. Sem Eno os Roxy fariam discos deliciosos, ninguém o pode negar; mas nunca tão prenhes de futuro como o brilhante For Your Pleasure.
É sempre um prazer ouvir Moon Safari e relembrar o ano de 1998, quando a electrónica deu um passo de gigante para chegar a uma nova audiência.
Começo esta crónica por questionar um conceito muito utilizado em meandros melómanos para definir o espaço por onde deambulam os Air – o easy listening. Que raio de nome é este para um género de música? Será de criar também um medium listening e um hard listening, para as pessoas saberem antecipadamente o grau de dificuldade de audição que os espera? Diz a wikipedia que o mesmo foi concebido nos anos 50 para colocar composições que “formariam um papel de parede musical, nunca intrusivo”. Nos anos 60 até foi criado um top Billboard específico para este género, que depois evoluiu para o que hoje é o Adult Contemporary Chart (que, se formos a ver o actual, nada tem de adulto…). O que é certo é que sim, de facto a sonoridade criada pelos Air é fácil de ouvir, mas é também e ao mesmo tempo muito mais que isso, e este Moon Safari comprova isto mesmo.
Arrancamos a nossa viagem com “La Femme d’argent”, sete minutos que nos levam para um planeta distante, do qual não se prevê que voltemos tão cedo. Passamos para um “Sexy Boy” tão, mas tão rodado e fútil, que de sexy já tem muito pouco. Com a terceira faixa vem voz, a de Beth Hirsch na deliciosa “All I Need”, o mais próximo que temos de uma canção pop e cujo videoclip ficou também marcado na cabeça de uma geração inteira (está mais abaixo). Segue-se “Kelly watch the stars”, sintetizadores anos 80 a bombar com nome da canção repetido ao infinito e “Talisman”, onde prosseguimos a viagem iniciada para lá da barreira de Kuiper. “Remember” são os Air a brincar com o vocoder e eis que entramos nas que são para mim as duas canções mais marcantes do álbum: “You make it easy”, novamente com a elegante voz de Beth Hirsch, a comandar uma melodia melancólica que termina com um “So watch me fall in love”; e “Ce Matin-Là”, instrumental, trombone e saxofone combinando com os sintetizadores, ouro puro. Termina-se com “New star in the sky” e “Le Voyage de Pénélope” que mais não servem do que para cimentar a beleza da viagem que foi.
Com Moon Safari, os Air criaram um universo sonoro imaculado, conjugando contribuições que vão desde um Gainsbourg a um Burt Bacharach, metendo-lhe electrónicas duma Electric Light Orchestra e aspirando a criar algo que só Brian Wilson almejou – o fazer canções com tudo isto. Fazê-lo com uma amálgama instrumental que vai desde sintetizadores Fender Rhodes e Moog a violoncelos e harpas, e assim dar à electrónica uma roupagem pop foi um marco em 1998, e isso ninguém tira à dupla Nicholas Godin e Jean Benoit Dunckel, mesmo que se possa alegar algum cansaço que ouvir o disco hoje nos traga.
A formação desta nova banda finlandesa de rock progressivo tem como pano de fundo uma banda tributo ao URIAH HEEP. Portanto, não é muito inesperado ouvir influências de heavy rock/prog vintage, além do prog sinfônico de, por exemplo, Focus, Kansas e os clássicos finlandeses do prog, como Wigwam, Tabula Rasa e Fantasia. Aamunkoite foi fundada em 2020 com o objetivo de executar as composições originais do tecladista Tomi Korpela. O nome da banda é uma forma poética de "o amanhecer". A maioria dos vocais é cantada pela baixista Pia Korpela. O guitarrista Jukka Suominen faz vocais masculinos aqui e ali, e o baterista Juha Hämäläinen adiciona alguns backing vocals. A estreia de 35 minutos contém apenas quatro faixas de duração variada.
'Lasinen laulu' (poderia ser traduzido como A Song Made of Glass) é uma canção bastante direta com sabor de blues com letras sobre um alcoólatra. A protagonista feminina dá conselhos duros para este homem: ou ele deve encontrar uma saída para seu vício ou uma sepultura precoce o espera. A música tem raízes no heavy rock old-school, mas o som da banda tem um toque de blues levemente jazzístico, finalizado por um delicioso solo de sintetizador no meio.
Na minha opinião, a melhor peça é 'Varjot' (= Sombras) de 10 minutos. O órgão solitário no início, acompanhado logo pelo resto da banda e os vocais de Pia, dão fortes associações ao já mencionado vintage prog finlandês. Também NOVA e NIMBUS podem ser referidos. A melodia melancólica tem uma paixão impressionante, e a seção intermediária instrumental com um sintetizador que lembra uma flauta soa muito bem.
Além da recitação em alemão, 'Tabernakel' é um rock instrumental apertado, estrelado por Uriah Heepish Hammond. A voz dramaticamente profunda e tratada sublinha a natureza irónica desta composição que irá divertir os ouvintes do heavy rock vintage dominado pelo órgão.
E, finalmente, a peça mais longa do álbum, aproximadamente 13 minutos 'Turhaan' (= In Vain). É o outro destaque prog óbvio além de 'Varjot'. Desta vez, Pia e Jukka compartilham os vocais em um dueto. A atmosfera muda da melancolia do rock pesado para uma breve seção elegante com os vocais femininos solitários, seguida por uma seção mais esotérica e psicodélica que mostra Pia citando um poema influenciado pelo Kalevala de Eino Leino. A parte final da peça retorna ao poderoso prog pesado dominado pelo órgão. Pessoalmente prefiro 'Varjot' como composição, por ter um impacto emocional mais sincero.
Este é um álbum de estreia muito promissor do final vintage do espectro do prog, e estou feliz em recomendá-lo para qualquer um que esteja mais aprofundado no prog finlandês dos anos 70 e também goste de sons vintage de heavy rock. Esperançosamente, será um benefício para a música se o grupo tiver mais variedade nos créditos de composição em seus álbuns futuros.
biografia ADN Esta pouco conhecida banda francesa de Paris foi formada em 1994 pelo baixista S. Fred, o baterista Didier Pegues e o tecladista Philippe Benabes. Em Setembro do mesmo ano entra Pascal Mocaer no baixo e Fred muda definitivamente na voz e teclados, enquanto Eric Savarino completa a primeira formação nas guitarras. No ano seguinte, o ADN teve uma boa atividade ao vivo, tocando ao lado de Galaad, Arkham e Cafeine, enquanto em 1996 um sexto membro foi adicionado, a violinista Elise Bruckert. Nessa época, os membros da banda estavam se sentindo maduros o suficiente para compor material para seu álbum de estreia, que foi adiado várias vezes devido às inúmeras mudanças na formação. Eric Savarino saiu e muitas partes da guitarra foram gravadas por músicos de estúdio: o primo de Benabe, Patrice Aili, o líder do SENS, Vynce Leff, e Franck Dehaut. Entre esses abalos a banda também teve que enfrentar a saída de Pascal Mocaer, que foi substituído por Thierry Le Nezet, e algumas sérias dificuldades técnicas. Eventualmente o álbum foi finalizado com Bruno Vercelli nas guitarras e viu a luz de forma independente em 1999 sob o título ''Prelude'', tendo um som próximo aos compatriotas SAQQARAH, CAFEINE e HALLOWEEN. Infelizmente, o ADN se dissolveu logo após o lançamento, enquanto Didier Pegues e Philippe Benabes seguiram em uma linha semelhante, formando o Eye 2 Eye alguns anos depois. tendo um som próximo dos compatriotas SAQQARAH, CAFEINE e HALLOWEEN. Infelizmente, o ADN se dissolveu logo após o lançamento, enquanto Didier Pegues e Philippe Benabes seguiram em uma linha semelhante, formando o Eye 2 Eye alguns anos depois. tendo um som próximo dos compatriotas SAQQARAH, CAFEINE e HALLOWEEN. Infelizmente, o ADN se dissolveu logo após o lançamento, enquanto Didier Pegues e Philippe Benabes seguiram em uma linha semelhante, formando o Eye 2 Eye alguns anos depois.