Rick Wakeman & the English Rock Ensemble: A Gallery of the Imagination
Álbum de Rick Wakeman
2022
CD/LP
Desde que passei a entender que Wakeman não precisa necessariamente regressar a fórmulas de discos, como, por exemplo, The Six Wives Of Henry VIII ou Journey To The Centre Of The Earth para continuar a ser relevante, entendi melhor o que muitos críticos da sua música parecem não entender, o fato de que ele não tem interesse algum de querer permanecer dentro de um universo musical que o limite a criar algo apenas dentro das ideias que o fizeram ficar popular há 50 anos. Claro que dentro de uma carreira tão prolífica, vai existir materiais completamente descartáveis, porém, o que muita gente até mesmo por preguiça não sabe, é que seu legado vai além dos clássicos já conhecidos pela maioria.
Se comparado com o seu disco anterior, aqui Wakeman criou um trabalho mais acessível e divertido, além de menos progressivo ou sinfônico. Se em The Red Planet, o músico quis se aproximar um pouco mais da sua música dos anos de 1970, em A Gallery of the Imagination, a entrega é de uma sonoridade mais simples e menos aventureira, porém, ainda interessante para qualquer ouvinte menos radical em relação à obra de Rick. Segundo palavras do próprio Wakeman, A Gallery of the Imagination é um disco conceitual, onde ele o trata como uma galeria e arte, porém, representada por músicas, onde doze pinturas musicais adornam as paredes dessa coleção de obras. Como o nome do álbum sugere, Wakeman é acompanhado pela The English Rock Ensemble, uma informação que não é bem novidade, já que falamos de uma parceria de longa data.
“Hidden Depths” começa por meio de um piano solo em tom apaixonado. Quando a banda entra logo em seguida, as teclas são alteradas para uma outra variedade. Um começo de disco diligente e elegante. Wakeman parece querer apenas se divertir em seus sintetizadores, deixando claro o quanto ele gosta de criar boas melodias nesse instrumento. “The Man in the Moon” também começa através de teclas isoladas, então que os vocais adocicados da vocalista Hayley Sanderson entram na peça, aos poucos os demais instrumentos vão surgindo, uma guitarra melódica prepara a faixa para a entrada da bateria que vai definir o ritmo inicial da música. Basicamente, em sua metade, o ritmo fica mais acelerado e Wakeman entrega um solo bem ao seu estilo, até regressar para a batida mais lenta, com vocais harmoniosos e um coro ao fundo feito pelo teclado.
“A Mirage in the Clouds”, um único acorde de violão é ouvido antes que os teclados assumam a peça criando uma harmonia que serve de preparativo até que os demais instrumentos entrarem em um ritmo lento. A música é uma balada com ótimos vocais e alguns arranjos que trazem com eles até um pouco de feitiço evocativo. Apesar de possuir algumas mudanças, se mantem sempre dentro de uma linha suave que a povoa por toda a parte. “The Creek” é uma peça solo de piano. Acho que uma música dessa linha, sendo tocada por Wakeman, não se tem muito a ser dito. Belíssima e simplesmente clássica por natureza. “My Moonlight Dream”, alguns teclados iniciam a música, então os vocais aparecem pela primeira vez, pouco depois, uma seção rítmica marca a música inicialmente em um ritmo lento. Um dos destaques da peça com certeza é o solo de Wakeman por volta dos 2:30. Queria aproveitar para deixar registrado que, Dave Colquhoun, que deixa um ótimo solo de guitarra aqui, faz um excelente trabalho em todo o álbum, assim como a dupla Ash Soan (bateria) e Lee Pomeroy (baixo) que formam uma cozinha muito sólida.
“Only When I Cry” começa por meio de um piano bastante melancólico. Os primeiros vocais então aparecem e se juntam as teclas, mantendo a melancolia. Mais à frente, os demais instrumentos vão sendo adicionados, porém, a aura taciturna é o que domina a peça do começo ao fim. “Cuban Carnival”, a tradução do nome dessa música está bem explícita, então falar que aqui há uma entrega de uma vibração de jazz com tendencias latinas não seria surpresa. No geral, eu a considero um som bem divertido, contendo alguns toques de um rock mais puro, enquanto em outros momentos se apoia em algumas ideias mais clássicas de Wakeman. “Just a Memory”, mais uma música que é apenas piano solo. Como falei anteriormente, uma música desse tipo de natureza tocada por Wakeman dispensa muitos comentários. Estilo e charme, além de emoção, tudo na medida certa.
“The Dinner Party”, contém alguns sons clássicos de Wakeman e boas reviravoltas. Os sintetizadores estão excelentes e entregam alguns solos muito bons. A guitarra tem um swing bem interessante e a seção rítmica é adequada. “A Day Spent on the Pier”, um piano solo inicia a peça, mas logo ganha a companhia dos demais instrumentos criando uma música de sonoridade elegante, além de algumas tangentes jazzísticas muito oportunas. “The Visitation”, não sei exatamente se tenho alguma peça favorita no disco, mas se caso isso exista, provavelmente seja essa aqui. O trabalho instrumental é muito preponderante em uma música que exala encanto. Vale destacar também, a contraposição entre uma linha suave e outra mais rock. “The Eyes of a Child” é a faixa que encerra o disco. Possui o andamento mais vagaroso do álbum. É possível notar imbuído aqui uma clara influência da música clássica, além de bastante delicadeza, ainda que também possua um poder evocativo evidente.
A Gallery of the Imagination, é um disco de um gigante da música, mas que também pode muito bem criar um disco em que está mais interessado em se divertir por meio de uma criação de melodias agradáveis e sinceras, do que soar eufuístico ou pomposo. Não é a primeira vez que Wakeman faz isso e acerta, muito pelo contrário, em uma discografia com mais de 80 discos de estúdio, há mais material interessante do que quem parou na década de 70 pode imaginar.
O Archon Angel surgiu como uma parceria de Zak Stevens e Aldo Lonobile, que é parceiro da gravadora italiana Frontiers e compositor de diversos projetos do selo. Com a proposta de trazer de volta a sonoridade do Savatage da década de noventa, o projeto lançou um ótimo trabalho de estreia, contendo boas referências à antiga banda de Zak e sem soar como uma cópia. E é basicamente o que temos aqui, em "II", segunda empreitada.
Como tive acesso ao álbum através das mídias digitais, não consegui identificar se a esposa de Zak foi novamente autora do conceito e das letras. Então, vou ficar devendo esta parte. Basicamente e novamente, tudo foi criado por Aldo e cantado por Zak, que provavelmente sugeriu algo aqui e ali nas linhas vocais. A arte de capa, obra de Oleg "Voodoo" Shcherbakov, também é fiel ao disco de estreia e um grande diferencial. Belíssima arte.
"II" é um ótimo disco de heavy metal com pequenas nuances de prog e hard rock. As músicas são mais densas e poucas melodias são acessíveis a ponto de grudarem na primeira audição. Em contrapartida, a produção é excelente, as guitarras são evidentes e os vocais de Zak são precisos e extremamente competentes, tendo recebido a projeção merecida. A minha versão possui dez faixas, mas há uma opção com 11, do qual há a faixa "Bulletproof" no lugar número 9. O disco flui bem e o lado que nos lembra o Savatage está mais nos vocais de Zak e nas referências ao saudoso Criss Oliva, já que os pianos que nos fazem lembrar de Jon Oliva só aparecem em evidência na ótima faixa de encerramento "Lake Of Fire". Ademais, destacam-se "Wake Of Emptiness", a pesada "Avenging The Dragon", a melódica "Fortress" e "Away From The Sun", que traz referências ao Black Sabbath da era Tony Martin.
Em suma, "II" é bem coeso e segue bastante a linha do disco de estreia. Mas, se o Archon Angel quiser explodir e ganhar ainda mais destaque, precisará ir um pouco além do que foi feito aqui. Ainda tem cara de projeto e não de banda, soando como apenas mais um item da longa fila de produções de Aldo Lonobile.
Tracklisting:
1. Wake Of Emptiness
2. Avenging The Dragon
3. Fortress
4. Quicksand
5. Away From The Sun
6. Afterburn
7. I Will Return
8. One Last Reflection
9. Bulletproof
10. Shattered
11. Lake Of Fire
Line-Up:
Vocals: Zak Stevens
Guitars: Aldo Lonobile
Bass: Nik Mazzucconi
Drums: Marco Lazzarini
Keyboards & Piano: Alessandro Del Vecchio
Synth & Orchestral Arrangements: Antonio Agate
Iron Maiden: a divergência com Bruce que fez Derek Riggs não desenhar mais as capas do grupo
Ah, as capas dos discos do IRON MAIDEN...
Me lembro quando era pequeno de ficar paralisado em frente as vitrines do centro de Belo Horizonte, então repletas de discos de vinil do grupo, sem saber do que se tratava (só iria descobrir dali uns anos), mas já impressionado com aqueles desenhos assustadores e ao mesmo tempo tão bem-feitos.
Desde meados da década de 80 que a cada novo lançamento anunciado pelo IRON MAIDEN, os fãs ficavam ansiosos imaginando como diabólico Eddie viria dessa vez: flutuando sobre um lago de gelo, descabelado empunhando uma espada samurai, venerado no Egito, trancado em um sanatório, em algum lugar do futuro empunhando uma arma...certeza de que a medida que você lia, foi se lembrando dos referidos discos, não é?
Eddie é obra do talentoso artista Derek Riggs. O mascote mais famoso do mundo da música era para ter sido usado por outra banda, mas foi capturado pelo sagaz empresário do grupo e tornou-se símbolo de tudo que envolve a banda até hoje.
A medida que a banda crescia, o ritmo de trabalho de Derek ficava cada mais intenso: além das capas dos discos, EPs, singles, etc., ele ainda tinha que bolar parte do merchandising, desenhos exclusivos para camisas, pôsteres (eu mesmo tenho três) e qualquer coisa com a cara do Eddie que pudesse ser vendida.
Depois de duas décadas trabalhando juntos veio a ruptura entre Derek e banda, mais precisamente por conta da arte proposta para “Brave New World” (2000), disco que marcou o retorno de Bruce Dickinson e Adrian Smith à banda.
A história, nas palavras do próprio Derek, foi abordada no livro “Empire Of The Clouds - IRON MAIDEN nos anos 2000” (2023) escrito por Martin Popoff e lançado no Brasil pela Editora Denfire, confira:
“Este rosto estava nas nuvens; estava na fumaça. “Wicker Man”, onde eles queimam o sujeito, eu desenhei esta coisa que parece um pouco com uma igreja, com pessoas dentro dela, todas sendo queimadas. Mas a banda não curtiu. O agente gostou; ele sacou. A banda não gostou. Bruce começou a falar merda. E eu me virei e disse a Bruce que ele estava falando merda. ‘Não é sobre isso e não é sobre aquilo’, e falei, ‘Com licença, eu sei um pouco mais sobre religião antiga do que você, cara’ (nota: a música “Wicker Man” foi feita em referência ao filme de terror homônimo de 1973, dirigido por Robin Hardy e batizado no Brasil como “O Homem de Palha”).
“O agente disse que queria ver uma versão todos os dias, e eu não trabalho assim. E então ele começa a dizer, ‘Ah, eu não gosto disso, e não gosto da grama e não gosto do céu’. Eu apenas me virei e disse: ‘Olha, esquece, não vou fazer isso’. Então, eles pagaram pela obra de arte e usaram o Eddie no céu naquela coisa. E essa foi minha contribuição para a capa. Eu simplesmente não trabalho assim. Não está acabada, sabe? É uma imagem inacabada. É uma imagem em processo de acabamento. Que parte disso você não entende? ‘Ah, eu não gosto da grama’. Sim, mas há trezentas figuras para ir por cima da grama. Acorda!”
“Mas sim, o álbum propriamente ia se chamar ‘Wicker Man’. Aí eles começaram a bagunçar novamente. Eu estava tentando dizer: ‘Será que posso terminar isso?’ Eu estava muito puto àquela altura. Eles estavam simplesmente sendo estúpidos. Como eu falei, Bruce estava falando besteiras e Steve foi um pouco no embalo, e então decidiram que não gostaram do Eddie, aí eu só disse: ‘Esqueça, não vou terminá-lo’. E eles fizeram um modelo em 3D de uma cidade.”
Desde a ruptura, o IRON MAIDEN lançou mais cinco discos, todos com uma arte mais voltada ao digital do que desenhada a mão, como eram as feitas por Derek - e sem o mesmo impacto, diga-se. É de Derek, por exemplo, a fenomenal capa de “Somewhere In Time” (1986), obra-prima sua que contém dezenas de detalhes que o mesmo revelou em outro livro escrito também por Martin Popoff, "Where Eagles Dare - IRON MAIDEN nos Anos 80".
Formada em 2017 na cidade de Aparecida de Goiânia (Goiás), é uma banda com diversas influências do Metal, a fim de criar uma sonoridade própria. Desde sua criação, a banda conta com uma vocalista feminina e atualmente está com duas mulheres na formação para afirmar a força das mulheres no Metal Extremo. Recentemente, a banda divulgou o primeiro single com videoclipe para um EP ou disco que possivelmente será lançado ainda no de 2023. A faixa “A New Life To Destroy”, fala sobre como devemos aproveitar a nossa vida e não desperdiça-la, pois não haverá outra vida, então devemos aproveitar todos os nossos momentos.
Formação: Tony Carvalho (guitarra), Jéssica da Mata (vocal), Paulo Carvalho (guitarra), Eduardo Fonceca (bateria) e Rhydia Dionísio (baixo).
Fruto de um passado violento!
Nascidos e criados em cortiços, os componentes, conviveram desde a infância com violência social, tráfico de drogas, vícios, violência policial, delegacias e presídios... Transformado em fonte de inspiração, propagando em versos, estilo, e batidas...
Versos Sangrentos é o 3° disco do Facção!
É neste disco, o 2° da formação clássica
(Eduardo, Dum-Dum, e Dj Erick 12) de um
total de 5 discos dos 8 de toda discografia
da banda, que o som e estilo "Facção"
explodem em sua forma original mais "assustadoramente bela" ao mundo!
Ótimas Letras "de poesia concreta (rs)" contundentes, agressivas, cruas, diretas e "aterrorizantes" (em quase sua totalidade, compostas por Eduardo) em meio à Ótimas batidas delicadamente pesadas (Plac-Plac-Booom) e o lírico das músicas de modo muito característico, daqui para os álbuns posteriores...
Mercedes SosaOMC (São Miguel de Tucumã, 9 de julho de 1935 – Buenos Aires, 4 de outubro de 2009) foi uma cantoraargentina, uma das mais famosas na América Latina. A sua música tem raízes na música folclórica argentina. Ela se tornou uma das expoentes do movimento conhecido como Nueva canción. Apelidada de La Negra pelos fãs, devido à ascendência ameríndia (no exterior acreditava-se erroneamente que era devido a seus longos cabelos negros), ficou conhecida como a voz dos "sem voz".
Biografia
Mercedes Sosa nasceu em São Miguel de Tucumã, na província de Tucumã, no noroeste da Argentina, cidade onde foi assinada a declaração de Independência da Argentina em 9 de julho de 1816, na casa de propriedade de Francisca Bazán de Laguna, que foi declarada Monumento Histórico Nacional em 1941.
Nascida no dia da Declaração da Independência, e na mesma cidade onde foi assinada, Mercedes sempre foi patriota. Afirmou inúmeras vezes que "pátria só temos uma". Foi também uma árdua defensora do Pan-americanismo e da integração dos povos da América Latina.
Ela mesma conta como começou a cantar, num dia de outubro de 1950:
"Eu tinha cerca de 15 anos. Meu pai e minha mãe, que eram muito peronistas, aproveitaram um trem gratuito para a Buenos Aires para celebrar o "17 de Outubro" [Dia da Lealdade Peronista]. Eu fiquei, aos cuidados dos meus irmãos, mais solta… Na escola, a professora de canto faltou, e a diretora me disse que íamos cantar o Himno nacional, e que eu tinha que ficar na frente e cantar bem forte, para que todos me acompanhassem. Fiquei com vergonha mas cantei: aí debutei. Nesse dia também faltou a professora de trabalhos manuais, e então, com minhas colegas, fugi para a LV12 [uma emissora de rádio de Tucumã], onde havia um concurso. Minhas colegas me empurraram para que eu cantasse. Com medo de que meu pai soubesse, adotei o nome de "Gladys Osorio". Cantei Triste estoy, de Margarita Palacios. Quando terminei, o dono da rádio me disse: 'Você ganhou o concurso'. Então continuei cantando na rádio. Até que um dia eu pai descobriu, me chamou e me disse as palavras que escuto até hoje: 'Acha bonito isso de andar metida na rádio? É isso o que faz uma moça criada para ser decente? Gladys Osorio, venha cá, chegue mais perto… Devo cumprimentá-la? Olhe nos meus olhos! Estou dizendo para olhar nos meus olhos!'."
Em 1965, Mercedes Sosa e Oscar Matus separaram-se, o que, para ela, foi um grande abalo emocional.
"Eu não deixei esse casamento. Ele me deixou. Abandonou-me com Fabián, com meu pequenino [...] Uma moça tucumana se casa para toda a vida. Isso me destruiu."
Em 1961, grava seu primeiro álbum, intitulado La voz de la zafra[8] (lançado em 1962). Em seguida, uma performance no Festival Folclórico Nacional faz com que se torne conhecida entre os povos indígenas de seu país.
Em 1965, lançou o aclamado Canciones con fundamiento, uma compilação de músicas folclóricas da Argentina. Em 1967, faz uma turnê pelos Estados Unidos e pela Europa e obtém êxito internacional. Em 1970, grava Cantata Sudamericana e Mujeres Argentinas com o compositor Ariel Ramirez e o letrista Felix Luna. Em 1971, grava um tributo à cantora e compositora chilenaVioleta Parra, ajudando a popularizar a canção "Gracias a la vida". Mais tarde grava um álbum em homenagem a Atahualpa Yupanqui.
Após a ascensão da junta militar do general Jorge Videla, que depôs a presidente Isabelita Perón em 1976, a atmosfera na Argentina tornou-se cada vez mais opressiva. Sosa, que era uma conhecida ativista do peronismo de esquerda, foi revistada e presa no palco durante um concerto em La Plata em 1979, assim como seu público. Banida em seu próprio país, ela se refugiou em Paris e depois em Madri. Seu segundo marido morreu um pouco antes do exílio, em 1978.
Sosa retornou à Argentina em 1982, vários meses antes do colapso do regime ditatorial como resultado da fracassada guerra das Malvinas, e deu uma série de shows no Teatro Colón em Buenos Aires, onde convidou muitos colegas jovens para dividir o palco com ela. Um álbum duplo com as gravações dessas performances logo se tornou um sucesso de vendas. Nos anos seguintes, Sosa continuou a fazer turnês pela Argentina e pelo exterior, cantando em lugares como o Lincoln Center, o Carnegie Hall e o Teatro Mogador.
Ela permaneceu na Argentina, apesar das proibições e ameaças, até que, em 1978, foi presa durante um recital em La Plata.[10] Não apenas ela foi presa, mas também o público presente. Em 1979, Mercedes decidiu exilar-se, primeiro em Paris e depois em Madrid. Durante a ditadura militar, enquanto esteve censurada, lançou vários álbuns, destacando-se Mercedes Sosa interpreta a Atahualpa Yupanqui (1977) e Serenata para la tierra de uno (1979), adotando como mensagem a canção homônima de María Elena Walsh: "Porque me dói se fico, mas, se me vou, eu morro". Também em 1977 Mercedes gravou duas canções de Milton Nascimento: Cio da terra (com Chico Buarque) e San Vicente (com Fernando Brant). Assim incorporou o hábito de incluir canções brasileiras em seu repertório, algo pouco usual entre os intérpretes da música hispanoamericana de então; algumas delas converter-se-iam em clássicos de seu cancioneiro, como "Maria Maria" (também de Milton Nascimento e Fernando Brant) que lançaria ao voltar à Argentina, em 1982.
Suas preocupações sociais e sua posição política refletiam-se no repertório que interpretava, tendo sido uma das grandes expoentes da Nueva canción, movimento musical com raízes africanas, cubanas, andinas e espanholas marcado por uma ideologia de rechaço ao imperialismo norte-americano, ao consumismo e às desigualdade sociais.
Mercedes Sosa em 1973.
Prêmios e honrarias
Sosa era Embaixadora da Boa Vontade da UNESCO para a América Latina e o Caribe. Em 2000, ela ganhou o Grammy Latino de melhor álbum de música folclórica por Misa Criolla, feito que repetiria em 2003 com Acústico e em 2006 com Corazón Libre. Sua interpretação de "Balderrama", de Horacio Guarany, fez parte da trilha-sonora do filme de 2008 Che, sobre o lendário guerrilheiro argentino Che Guevara. Seu último álbum, Cantora, encontra-se indicado a três prêmios Grammy Latino.
O obituário de Sosa no jornal londrinoThe Daily Telegraph afirmou que ela foi "uma intérprete incomparável de obras de seu compatriota, o argentino Atahualpa Yupanqui, e da chilena Violeta Parra". Helen Poopper da agência Reuters anunciou sua morte dizendo que ela "lutou contra os ditadores da América do Sul com sua voz e tornou-se uma gigante da música latino-americana contemporânea".
Morte
Mercedes Sosa (sentada) e Cristina Fernández de Kirchner, em 2005. Kirchner, para quem Sosa fez campanha, declarou luto oficial pela morte da cantora.
Mercedes Sosa morreu aos 74 anos de idade, em 4 de outubro de 2009, às 5h15min (horário local), em Buenos Aires.[12] Ela fora internada no dia 18 de setembro na Clínica de la Trinidad, no bairro de Palermo, por causa de um problema renal. Seu quadro piorou a partir do momento em que teve complicações hepáticas e pulmonares. Nos últimos dias, manteve-se sedada, respirando com a ajuda de aparelhos. Seu corpo foi velado no Congresso Nacional, em Buenos Aires, e cremado no cemitério da Chacarita, no dia 5 de outubro de 2009. Parte das suas cinzas foi espalhada em sua província natal; parte foi colocada em Mendoza, província pela qual nutria um grande amor; parte permaneceu na capital argentina, cidade onde morava havia décadas.
A chamada Voz de Latinoamérica, que sobrevivera à censura da ditadura argentina, não deixou de cantar até seus últimos dias - como a cigarra, título da canção de María Elena Walsh a que Mercedes dera uma interpretação definitiva.[13][14]
Sobre a morte de Mercedes Sosa, o Ministério da Cultura do Brasil veiculou um texto, publicado pelo jornal O Globo no dia 5 de outubro de 2009:
"Habitualmente de costas para a música de nuestros hermanos latino-americanos, o Brasil começou a despertar para a riqueza da voz de Mercedes Sosa em 1976, após um dueto da cantora argentina com Milton Nascimento. A faixa "Volver a los 17", da compositora chilena Violeta Parra - de quem Mercedes foi uma das principais intérpretes -, virou um dos maiores destaques do hoje clássico álbum “Geraes”. A partir daí, a barreira da língua não mais impediu que brasileiros se apaixonassem pelo marcante timbre de contralto de Mercedes Sosa e por seu repertório, que incluía desde canções folclóricas a músicas de conteúdo político e social.Os discos de Mercedes passaram a ser lançados regularmente no Brasil, e a cantora gravou novos encontros com artistas da MPB, como Fagner e Chico Buarque. Em outubro do ano passado, aproveitando uma visita ao Rio para receber a ordem do mérito cultural, em cerimônia no teatro Municipal, Mercedes gravou com Caetano Veloso uma faixa que fez parte do disco de duetos dela, lançado este ano, com vários convidados, incluindo a colombiana Shakira, o uruguaio Jorge Drexler e a mexicana Julieta Venegas. (...)Independentemente das posições políticas, Mercedes merece ser ouvida por sua grande voz e seu repertório, em discos como “El grito de la tierra”, “Homenaje a Violeta Parra”, “Cantada sudamericana”, “Interpreta Atahualpa Yupanqui”, “Corazón americano” (com Milton Nascimento e León Gieco) e “Alta fidelidad” (com Charly García). Seu último disco, “Cantora, vol. 1″, teve três indicações ao Grammy Latino deste ano - que será anunciado no mês de novembro.(...)A morte de Mercedes Sosa entristeceu não somente seus amigos e familiares, mas também políticos e intelectuais, além de parceiros musicais.(...)A presidente Cristina Kirchner, que nos últimos anos organizou shows de Mercedes na Casa Rosada, decidiu antecipar seu retorno da província de Santa Cruz, onde costuma descansar com sua família, para participar do velório. A presidente, que também convocou a cantora para o ato de comemoração de sua posse, em dezembro de 2007, decretou luto nacional pela morte de Mercedes Sosa."[23]
"A América Latina inteira reverencia a cantora Mercedes Sosa (1935 – 2009), falecida na madrugada desse domingo, 4 de outubro. Suas cinzas serão repartidas entre Tucumã, Mendonza e Buenos Aires. O Memorial se junta à corrente que homenageia a grande artista argentina, que com seu talento corajoso e voz tonitruante catalisou os ventos de mudança dos anos 60, 70 e 80 e manteve a bandeira da utopia até o fim. Simbolicamente, suas cinzas também ficarão eternamente depositadas no Memorial da América Latina. O Memorial já estava programando - e agora vai apressá-la - uma grande homenagem à cantora, com a participação de intérpretes brasileiras."[24]
Livros
Mercedes Sosa, Uma Lenda por Anette Christensen (Publicados 20.11.2020) (Também em inglês, espanhol e italiano)
Mercedes Sosa, La Voz de la Esperanza por Anette Christensen (Também em inglês)
Mercedes Sosa, La Negra por Rodolfo Braceli (espanhol)
Mercedes Sosa, La Mami por Fabián Matus (espanhol)
Discografia
La voz de la zafra (1959/1962)
Canciones con fundamento (1965)
Yo no canto por cantar (1966)
Hermano (1966)
Para cantarle a mi gente (1967)
Con sabor a Mercedes Sosa (1968)
Mujeres argentinas (1969)
Navidad con Mercedes Sosa (1970)
El grito de la tierra (1970)
Homenaje a Violeta Parra (1971)
Hasta la victoria (1972)
Cantata Sudamericana (1972)
Traigo un pueblo en mi voz (1973)
Niño de mañana (1975)
A que florezca mi pueblo (1975)
La mamancy (1976)
En dirección del viento (1976)
O cio da terra (1977)
Mercedes Sosa interpreta a Atahualpa Yupanqui (1977)