domingo, 21 de maio de 2023

Discografias Comentadas: Boston

 

Discografias Comentadas: Boston
Barry, Tom, Sib, Brad e Fran. Boston no auge da fama

Este artigo pretende analisar a discografia de estúdio da banda Boston. Antes, faremos um breve histórico sobre as origens do grupo.

A formação do Boston gira em torno de seu líder. Tom Scholz começou a compor música por volta de 1969, enquanto ele estudava no Massachussetts Institute of Technology (MIT), onde escreveu uma canção instrumental intitulada “Foreplay”. Enquanto frequentava a MIT, Scholz se juntou à banda Freehold, onde conheceu o guitarrista Barry Goudreau e o baterista Jim Masdea, que viriam a se tornar membros do Boston. O vocalista Brad Delp foi adicionado ao grupo em 1970. Depois de se formar (com um grau de mestre), Scholz trabalhou para a Polaroid, onde usou o seu salário para construir um estúdio de gravação no seu porão e para financiar ‘fitas demo’ gravadas em estúdios profissionais

Estas ‘fitas demo’ foram gravadas (em vários momentos) com Brad Delp nos vocais, Barry Goudreau na guitarra, Jim Masdea na bateria, e Scholz na guitarra, baixo e teclados. As mesmas eram enviadas para as gravadoras, mas recebiam rejeições consistentes. Em 1973, Scholz formou a banda Mother’s Milk com Delp, Goudreau, e Masdea. Esse grupo se desfez em 1974, mas Scholz, posteriormente, trabalhou com Masdea e Delp para produzir seis novas demos, incluindo “More Than a Feeling”, “Peace of Mind”, “Rock and Roll Band”, “Something About You” (em seguida, intitulada “Life Isn’t Easy”), “Hitch A Ride” (em seguida, intitulada “San Francisco Day”), e “Don’t Be Afraid”.

Tom Scholz

Scholz afirma que eles terminaram quatro das seis canções até o final de 1974 e finalizaram “More Than a Feeling” e “Something About You”, em 1975. Scholz tocou todos os instrumentos nas demos, exceto a bateria, a qual foi tocada por Masdea, além de usar pedaleiras que foram concebidas por ele mesmo para criar o som da guitarra desejado. Esta última fita demo atraiu a atenção dos promotores Paul Ahern e Charlie McKenzie. Masdea deixou a banda quase ao mesmo tempo. Segundo Scholz, os gestores insistiram para que Masdea fosse substituído antes da banda obter um contrato de gravação. Scholz e Delp assinaram um contrato com a Epic Records logo após a partida de Masdea, graças a Ahern & McKenzie.

Antes que o acordo fosse finalizado, a banda teve que fazer uma audição ao vivo para os executivos da gravadora. A dupla rapidamente recrutou Goudreau na guitarra, o baixista Fran Sheehan e o baterista Sib Hashian para criar uma unidade executora que fosse capaz de replicar no palco as ricas gravações em camadas de Scholz. A apresentação foi um sucesso e a banda concordou em lançar 10 álbuns ao longo dos próximos seis anos – que, como se verá, não ocorreria. Além da demissão de Masdea, a gravadora também insistiu para que Scholz regravasse as fitas demo em um estúdio profissional. No entanto, Scholz queria que o registro fosse gravado em seu estúdio particular, no próprio porão, a fim de que ele trabalhasse em seu próprio ritmo.

Brad Delps

A pedido de Tom Scholz, Masdea tocou bateria na faixa “Rock and Roll Band” e a instrumentação foi gravada em seu estúdio. Assim, o resultado da gravação foi então levado para Los Angeles, onde Brad Delp acrescentou vocais, sendo o álbum mixado por John Boylan. Foi neste momento que o grupo foi batizado de Boston, por sugestão de Boylan e do engenheiro de som Warren Dewey.

Durante a mixagem do álbum, Tom Scholz foi para Los Angeles e se encontrou novamente com Boylan e Delp. Scholz afirmou ter ficado intimidado, inicialmente, com os engenheiros profissionais, já que ele havia gravado as faixas em seu porão. Mas, posteriormente, Scholz percebeu que, na realidade, eles possuíam um rico arsenal de possibilidades nas mãos, mas não possuíam as habilidades que Scholz adquiriu com sua experiência em seu próprio estúdio. Boylan encontrou seu único real confronto com um Scholz autocrático durante a fase de mixagem, em que Scholz cuidava de guitarra e bateria; e Boylan Dewey dos vocais, com Steve Hodge como auxiliar. Scholz colocou as guitarras muito altas na mixagem, tornando os vocais de renderização inaudíveis por algumas vezes.

Boston in the act

Toda a operação foi descrita como “uma das ações corporativas mais complexas da história do mundo da música.” Com exceção de “Let Me Take You Home Tonight”, o álbum foi uma cópia virtual das fitas demo. O álbum foi gravado por um custo de alguns milhares de dólares, uma quantia irrisória em um setor acostumado a gastar centenas de milhares de dólares em uma única gravação. O disco Boston foi composto principalmente de canções escritas muitos anos antes de suas aparições no álbum. Scholz escreveu ou co-escreveu todas as músicas do álbum, tocou praticamente todos os instrumentos e gravou (participando da engenharia) de todas as faixas.

Para Scholz, a idéia de belas harmonias vocais foi inspirada no grupo The Left Banke, e o aspecto das guitarras foi influenciado pelos Kinks, o Yardbirds e pelo Blue Cheer. Outro elemento de assinatura do “som do Boston”, em termos de produção, envolve o equilíbrio entre guitarras acústicas e elétricas. Para este fim, Scholz inspirou-se em sua audição de infância de música clássica, observando que o “conceito básico” era fixar o ouvinte em uma mudança que está chegando durante uma canção, sendo que tal efeito havia sido explorado por centenas de anos naquelas composições.


Boston [1976]

Lançado em 25 de agosto de 1976, pela Epic Records, com a produção sob responsabilidade de John Boylan e do próprio Tom Scholz, Boston foi um gigantesco sucesso comercial. Dispensando maiores apresentações, uma bela melodia embala os momentos iniciais de um dos clássicos da música pop internacional: “More Than A Feeling”. Em “Peace of Mind”, o Boston aposta em um riff o qual possui maior peso e intensidade da guitarra, embora desenvolva uma melodia cativante e maliciosa, leve e impressiva na mesma certeira tonalidade. “Foreplay” é uma canção com óbvias e determinantes orientações progressivas, sendo de extremo bom gosto e, após 2 minutos e meio, um inspirado solo de guitarra introduz “Long Time”, um rock com melodia suave e encantadora, com vocais que se casam perfeitamente com a parte instrumental. “Rock & Roll Band” é a menor canção de todo o álbum e vai direto ao ponto: um rock simples e direto, que flerta deliberadamente com o Hard, mas dosando de maneira equilibrada sua melodia envolvente e o peso da guitarra. Um riff muito bom, pesado e intenso, é a base para a ótima “Smokin'”, que bebe fartamente no Hard Rock com influência Bluesy. “Hitch a Ride” se inicia de maneira leve, suave e envolvente, com os vocais se casando de maneira perfeita com a melodia instrumental. Em “Something About You”, o ouvinte estará diante de um Hard Rock com guitarra proeminente e pesada, com um espírito alegre e festivo. “Let Me Take You Home Tonight”, a derradeira faixa do álbum, aposta em uma melodia muito suave e leve, com doses quase homeopáticas de peso. “More Than a Feeling”, “Long Time” e “Peace of Mind” foram lançadas como singles e, respectivamente, alcançaram os 5º, 22º e 38º lugares na principal parada norte-americana desta natureza. Catapultado especialmente pelo sucesso de “More Than a Feeling”, o álbum Boston conquistou a 3ª posição da Billboard 200 e a 11ª colocação na principal parada britânica de discos. O trabalho também supera a casa de 17 milhões de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos. Em resumo: o álbum de estreia do Boston, um gigantesco sucesso comercial, é o registro inicial do talento inegável de Tom Scholz não apenas como músico e compositor, mas também como homem de estúdio, já que suas inovações na gravação do disco seriam seguidas dali para a frente, sendo que o mais impressionante no álbum Boston é que todos os detalhes são minuciosamente pensados de modo a que contribuam para o resultado final das canções. É tudo feito com extremo bom gosto e com muita precisão.

Tom Scholz, então com 29 anos, planejava abandonar seu sonho de rock and roll; ele ainda trabalhava na Polaroid durante as primeiras semanas após o lançamento do registro. Scholz sentia-se pessimista sobre o sucesso até que o álbum vendeu 200 mil cópias. Já em janeiro de 1977, o disco de estreia havia vendido dois milhões de cópias, tornando-se um dos álbuns estreantes que mais rapidamente vendeu tantas cópias da história do rock. O álbum acabou por receber vários prêmios, incluindo uma indicação ao Grammy de Melhor Artista Novo. Com uma popularidade maciça, o Boston chegou a ser colocado no patamar de estrelas estabelecidas, como Peter Frampton, Fleetwood Mac, e Stevie Wonder.

De uma pequena turnê de 6 semanas, prevista anteriormente ao lançamento do disco, o Boston acabou fazendo outra que duraria 10 meses. Scholz se recorda de ficar extasiado quando via que as pessoas já conheciam as canções do grupo. O Boston finalmente começou a ser Headliner em shows a partir de 1977 e esgotando quatro shows no sul da Califórnia, com um intervalo de uma semana. Bob Seger and The Siver Bullet Band fez a abertura para o grupo em Detroit. O sucesso era tanto que a banda esgotou os ingressos para 3 apresentações em New York City, no famoso Madison Square Garden. Apesar de ter problemas com o empresário Paul Ahern, sendo envolvido no meio de uma briga entre Ahern e seu parceiro de negócios Charles McKenzie, e fazendo a maior parte do trabalho de gravação sozinho, Scholz completou o segundo álbum do Boston dois anos após o lançamento do álbum de estreia.


Don’t Look Back [1978]

Segundo álbum de estúdio do grupo, Don’t Look Back foi lançado em 2 de agosto de 1978, através do selo Epic Records e com produção de Tom Scholz. A faixa-título abre o disco com as maiores características do Boston: a mescla entre guitarras marcantes e pesadas com passagens mais suaves, com teclados bem presentes. “The Journey” é uma faixa com pouco mais de 1 minuto e que serve de abertura para “It’s Easy”, uma canção bem animada e com ótimos vocais. “A Man I’ll Never Be” possui uma incrível atuação de Brad Delp nos vocais e é uma música mais introspectiva, contando com uma bela melodia. “Feelin’ Satisfied” é uma canção contagiante, com guitarras fortes e seção rítmica muito presente. “Party” é um Hard Rock intenso que lembra, em partes, o Kiss dos anos 1970. Mais belos vocais de Brad Delp são os principais destaques da suave “Used to Bad News”. O disco é encerrado com a vibrante “Don’t Be Afraid”, uma canção com a presença bem forte das guitarras. “Don’t Look Back”, “A Man I’ll Never Be” e “Feelin’ Satisfied” foram os singles para a promoção do trabalho e ficaram, respectivamente, com as 4ª, 31ª e 46ª posições na principal parada norte-americana desta natureza. Don’t Look Back ficou com a excelente 1ª colocação da Billboard 200, obtendo o 9º lugar em sua correspondente britânica, além de ter superado a casa de 7 milhões de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos. Don’t Look Back tinha a difícil missão de suceder um sucesso grandioso como a estreia do Boston e se pode dizer que conseguiu exitosamente fazê-lo: é um álbum que consolidou a qualidade musical do conjunto, mantendo o nível das composições – e de sucesso comercial.

Na época, os 2 anos entre a estreia e o segundo disco do conjunto foi considerado um longo intervalo entre os álbuns, mas Scholz ainda considerou Don’t Look Back um trabalho apressado e ficou insatisfeito com o segundo lado do LP em particular. Outra turnê se seguiu (tocando com nomes como AC/DC, Black Sabbath, Van Halen, Sammy Hagar e The Doobie Brothers), e a faixa-título do álbum se tornou um hit. Apesar do sucesso, o relacionamento de Scholz com Ahern se deteriorou completamente. Atrasado por renovações técnicas em seu estúdio, Scholz finalmente começou o processo de trabalho no terceiro álbum do Boston, determinado a concluí-lo em seu próprio ritmo e de acordo com seu padrão exigente.

Durante os próximos anos, Tom Scholz se envolveu em problemas com o empresário do Boston, Paul Arhen, além de enfrentar um processo contra a gravadora CBS. A qual alegava atrasos para a entrega de um novo disco do grupo. Scholz acabou levando o Boston para a MCA Records e vencendo o processo, mas um novo disco do Boston só sairia em 1986. Neste então novo trabalho, além de Tom Scholz, Brad Delp e Jim Masdea, o baterista Sib Hashian e o guitarrista Gary Pihl também participariam das gravações.


Third Stage [1986]

Após um hiato de 8 anos, Third Stage foi lançado em 23 de setembro de 1986, através do selo MCA Records e com produção de Tom Scholz (novamente). Um dos clássicos do grupo, a balada “Amanda” abre o disco com suavidade e um refrão bem grudento! “We’re Ready” é mais pesada que sua antecessora, contando com uma guitarra mais forte e bons solos. Apesar de ter menos de 3 minutos, “The Launch” é formada por 3 trechos diferentes: “Countdown”, “Ignition” e “Third Stage Separation”; sendo completamente instrumental e pouco memorável. “Cool the Engines” é bem mais agressiva que suas predecessoras, especialmente por conta das guitarras. “My Destination” é outra balada, com menos de 3 minutos e totalmente dispensável. A também dispensável e curtíssima instrumental “A New World” antecede outra balada descartável, “To Be a Man”. “I Think I Like It” tem a cara do ‘AOR’ dos anos 1980s, sendo bastante ‘açucarada’. A sequência não melhora muito, pois traz a não muito inspirada “Can’tcha Say (You Believe in Me)/Still in Love”. O disco termina com “Hollyann”, mais uma balada, mas, desta feita, com um pouco mais de potência. O álbum trouxe 5 singles: “Amanda”, “Cool the Engines”, “We’re Ready”, “Can’tcha Say (You Believe in Me)” e “Hollyann”. “Amanda” atingiu o topo da principal parada norte-americana de singles e “We’re Ready” conquistou o 9º lugar da mesma parada. Third Stage também alcançou a 1ª posição da Billboard 200, ficando com a 37ª colocação de sua correspondente britânica, além de suplantar a casa de 4 milhões de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos. Third Stage reflete todo o processo conturbado de sua construção, sendo um disco pouco homogêneo, com bons momentos convivendo com outros dispensáveis, sendo seu maior mérito a atuação do vocalista Brad Delp.

Fran Cosmo

O grupo saiu em turnê para promover Third Stage em 1987 e 1988. O disco foi tocado em sequência em sua totalidade durante os shows, com arranjos expandidos em algumas faixas. Para a turnê, o grupo foi acompanhado por Doug Huffman e David Sikes, os quais estiveram com a banda em meados da década de 1990. Brad Delp acabou deixando o grupo em 1990, sendo substituído por Fran Cosmo, e fazendo com que apenas Tom Scholz ficasse remanescente como membro fundador do conjunto. Pelo segundo álbum consecutivo e pela segunda vez em uma década, o trabalho de Scholz foi atrasado por reformas em seu estúdio. No final, oito anos se passaram entre Third Stage e Walk On, o próximo disco do Boston. Para este, o conjunto contava com Fran Cosmo nos vocais, Gary Pihl na guitarra, David Sikes no baixo, Doug Huffman na bateria, além de, claro, Tom Scholz.


Walk On [1994]

Walk On foi lançado em 7 de junho de 1994, pela MCA Records, com produção do próprio Tom Scholz. As gravações se esparsaram entre novembro de 1990 e dezembro de 1993, em um longo processo. O disco é aberto com “I Need Your Love”, uma balada bem suave, com os vocais de Fran Cosmo e um belo solo de guitarra. “Surrender to Me” é mais rápida e mais direta, com um bom trabalho de guitarras. “Livin’ for You” é uma balada sofrível, com teclados clichês e uma melodia “qualquer coisa”. Da faixa 4 a 7, há uma espécie de medley chamado ‘Walk On Medley’. Começa com a instrumental “Walkin’ at Night”, na qual a guitarra é o ponto central. Depois aparece “Walk On”, uma faixa divertida, mas uma cópia básica do Mötley Crüe fase “Girls, Girls, Girls”. Depois surge “Get Organ-ized”/”Get Reorgan-ized”, também instrumental, uma espécie de continuação da canção anterior, mas completamente baseada nos teclados. Por fim, “Walk On (Some More)” retoma a música título “Walk On”. “What’s Your Name” segue a linha de Rock mais suave do disco, com as guitarras dando as caras de forma mais eventual. A versão para “Magdalene”, da banda Hybrid Ice, é mais uma baladinha, mas, infelizmente, que também soa genérica. Para encerrar o disco, “We Can Make It” traz um AOR animado. “I Need Your Love” e “Walk On” foram os singles, com apenas a primeira atingindo a 51ª colocação na principal parada norte-americana desta natureza. O álbum atingiu o 7º lugar na Billboard 200, ficando com a 56ª posição na correspondente britânica. Na realidade, Walk On soa como uma cópia cansada dos melhores momentos do próprio Boston e Fran Cosmo não possuía os mesmos atributos vocais de Brad Delp, contribuindo, desta maneira, para que o disco soasse como um esforço menos inspirado do conjunto.

O grupo, com Delp agora de volta à banda, fez uma turnê no verão de 1995 com Cosmo e Delp combinando vocais. Naquela época, o baterista Huffman havia sido substituído por Curly Smith, que estava anteriormente no Jo Jo Gunne. Após a conclusão da turnê “Livin’ For You” em 1995, Scholz anunciou que um álbum de grandes sucessos seria lançado. Inicialmente planejado para agosto de 1996, o álbum foi adiado para lançamento em 1997. Scholz voltou ao estúdio em 1998 para começar a trabalhar em um quinto álbum, que acabou se tornando Corporate America. O grupo conta com Tom Scholz, os vocalistas Brad Delp e Fran Cosmo, os guitarristas Gary Pihl, Anthony Cosmo; os baixistas David Sikes e Bill Carman, os bateristas Curly Smith e Tom Moonan, além de várias outras participações.


Corporate America [2002]

Em 5 de dezembro de 2002 foi lançado Corporate America, o quinto álbum de estúdio do Boston. As gravações duraram de 1998 a 2002 e o disco foi lançado pelo selo independente Artemis Records, com produção dos músicos Tom Scholz, Gary Pihl, Fran Cosmo e Anton Cosmo. O disco começa com a terrível “I Had a Good Time”. As coisas não melhoram muito com a excessivamente açucarada “Stare Out Your Window”, em outro esforço sem nenhuma vibração. O flerte com a música eletrônica traz a simplesmente pavorosa faixa-título, “Corporate America”. O álbum tem um respiro com “With You”, uma balada acústica simples, mas eficiente. “Someone” é totalmente insípida enquanto “Turn It Off” opta por uma pegada mais pesada e baseada nas guitarras. “Cryin’” oscila em momentos acústicos e suaves e entre passagens que remetem aos anos iniciais do Boston. Em “Didn’t Mean to Fall in Love”, os teclados estão ainda mais evidentes e os vocais de Delp são bons, mas a faixa parece não deslanchar. Para fechar o trabalho, “You Gave Up on Love”, uma cópia rasa de tudo que o grupo fez no passado. A crítica especializada odiou o álbum em sua maioria – não sem razão, diga-se. Ainda assim, o álbum conquistou a 42ª posição da principal parada norte-americana, a Billboard 200. Entretanto, carecendo de composições mais inspiradas, também de execução mais vibrante – e com algumas faixas bem próximas do constrangimento – Corporate America é, com sobras, o pior disco do Boston.

O grupo embarcou em uma turnê nacional para divulgar o álbum em 2003 e 2004. Em 9 de março de 2007, o vocalista Brad Delp morreu por suicídio em sua casa em Atkinson, no Estado norte-americano de New Hampshire. A polícia o encontrou morto em seu banheiro principal. No banheiro onde ele morreu, duas churrasqueiras a carvão foram encontradas nas louças sanitárias, e a porta foi selada com fita adesiva e uma toalha por baixo. A polícia disse que nenhum crime foi indicado. Delp estava sozinho no momento de sua morte, de acordo com o relatório policial. Ele foi encontrado por sua noiva, que viu uma mangueira presa em seu carro. De acordo com o médico legista de New Hampshire, sua morte foi o resultado de suicídio por envenenamento por monóxido de carbono. O último show de Delp com o Boston foi realizado no Boston Symphony Hall, em 13 de novembro de 2006.

Em 2008, Scholz e Michael Sweet (Stryper) introduziram uma nova formação do Boston, que posteriormente fez uma turnê de verão na América do Norte, tocando em 53 datas em 12 semanas (em um projeto duplo com o Styx). Scholz foi o único membro fundador do Boston a tocar na turnê, embora o membro de longa data Gary Pihl também fizesse parte da banda, e Dahme e Neal voltaram no baixo e bateria, respectivamente. Tommy DeCarlo e Sweet compartilharam os vocais principais. Sweet deixaria o grupo em 2011 e o guitarrista/vocalista David Victor seria contratado. O Boston sairia em turnê durante o ano seguinte. Para seu sexto disco de estúdio, além de Tom Scholz, o Boston contaria com o guitarrista Gary Pihl, Kimberley Dahme no baixo, Curly Smith na Harmonica e os vocalistas Tommy DeCarlo, David Victor, Louis St. August, Jeff Neal, Jude Nejmanowski, Beth Colen, além do falecido Brad Delp, este, obviamente, em faixas gravadas anteriormente a sua morte.

 


Life, Love & Hope [2013]

Em 3 de dezembro de 2013, saiu Life, Love & Hope, o sexto (e até agora) o último álbum de estúdio do Boston. O selo responsável foi o Frontiers Records e Tom Scholz foi o produtor. Como o leitor irá perceber, o disco traz várias releituras de músicas lançadas anteriormente pelo próprio grupo. “Heaven on Earth” começa o trabalho de forma interessante, com boa intensidade. “Didn’t Mean to Fall in Love” é uma releitura da faixa lançada no álbum anterior, mas segue sendo pouco convidativa. A curtinha e instrumental “Last Day of School” antecede a estranha, mas interessante “Sail Away”. “Life Love and Hope” relembra os melhores momentos do Boston, embora os vocais de DeCarlo fiquem abaixo das exigências. A balada “If You Were in Love” é razoável e precede a inofensiva “Someday”. Pela primeira vez na história da banda, Tom Scholz se arrisca nos vocais de “Love Got Away”. A banda volta a insistir na terrível “Someone (2.0)”, outra tragédia ressuscitada de Corporate America, bem como o grupo investe novamente em “You Gave Up on Love (2.0)”, com resultados semelhantes. O álbum se fecha com “The Way You Look Tonight”, uma canção baseada nos teclados e com os vocais insossos de DeCarlo. Life, Love & Hope atingiu a 37ª colocação da Billboard 200 e recebeu críticas mistas da imprensa especializada. Na realidade, o grande pecado do disco é insistir em repaginar as fracas composições de Corporate America e não investir em material novo.

Em 2014, o Boston embarcou na “Heaven on Earth Tour” nos Estados Unidos e no Japão com uma formação incluindo Scholz, Pihl, DeCarlo, Victor e Ferrie. Dahme voltou, desta vez tocando guitarra base e vocais, e as tarefas de bateria foram divididas entre Neal e Smith, com Neal cuidando da primeira parte da turnê. Victor deixou o grupo no meio da turnê por razões não especificadas, pouco antes de um show em 8 de julho em Nova York. Não houve nenhuma explicação oficial para sua saída.

Boston in Concert – Dec 14, 1988

Em 2015, o Boston lançou outra turnê com uma formação composta por Scholz, Pihl, DeCarlo, Ferrie, Neal, Smith e a nova integrante Beth Cohen, que tocou teclado, guitarra base e vocais. Cohen já havia gravado com o grupo em Corporate America e em Life, Love & Hope como vocalista e flautista. A turnê de 2016 marcou o 40º aniversário do grupo e incluiu shows no Wang Theatre de Boston, suas primeiras apresentações completas em sua cidade homônima desde 1994. Em 22 de março de 2017, o ex-baterista Sib Hashian morreu após desmaiar em um navio de cruzeiro Legends of Rock. Alguns rumores chegaram a surgir sobre um novo álbum de estúdio, mas não passaram disto. A discografia do Boston conta com 6 álbuns de estúdio, 2 coletâneas e 22 singles.


Discografias Comentadas: The Sisters of Mercy

 

Discografias Comentadas: The Sisters of Mercy

Surgido no meio do movimento punk britânico, na cidade inglesa de Leeds, em 1977, o Sisters Of Mercy (nome tirado de uma composição de Leonard Cohen) era no início uma dupla formada por Andrew Eldritch (vocais e bateria, único membro presente em todas as formações da banda) e Gary Marx (guitarra, vocais). Após o lançamento do primeiro single, Craig Adams assumiu o baixo, e Eldritch passou a se concentrar apenas nos vocais e letras do grupo, com a percussão sendo executada por uma bateria eletrônica, que recebeu o nome de Doktor Avalanche (a qual, apesar dos upgrades tecnológicos ao longo dos anos, seria, ao lado de Andrew, o único “membro” permanente do grupo dali em diante). As “irmãs” lançariam outros singles e EPs após a chegada de Ben Gunn para a segunda guitarra, mas este saiu antes da gravação do primeiro álbum, sendo então substituído por Wayne Hussey.

Conheça agora a curta, mas muito influente, discografia de uma das principais bandas do chamado gothic rock (embora o próprio Eldritch rejeite este termo): as “Irmãs da Piedade”!


 

First and Last and AlwaysFirst and Last and Always [1985]

Único lançamento daquela que é considerada a “formação clássica” do Sisters of Mercy (Eldritch / Hussey / Marx / Adams / Avalanche), o primeiro álbum das “irmãs” é tido como o melhor por muitos dos fãs. Com todas as letras compostas por Andrew, os dois lados do vinil original são bem distintos entre si, embora o disco encaixe-se perfeitamente no estilo pós-punk da época (também chamado de gothic rock). O lado A, com todas as faixas compostas por Hussey (sendo apenas “No Time to Cry” em parceira com os outros membros), apresenta faixas mais “dançantes”, embora ainda tristonhas e melancólicas, tendo, para mim, os maiores destaques do disco, as clássicas “Black Planet” e “Walk Away“, além da linda “Marian (version)” (de bateria mais marcada, e que possui trechos em alemão) e “A Rock and a Hard Place” (que não tem nada a ver com a faixa de nome parecido gravada pelo Aerosmith). Já o Lado B, onde predominam as composições de Marx (apenas “Possession”, que lembra bastante as músicas da fase mais gótica do The Cure, não foi escrita pelo guitarrista), segue a linha tradicional do pós-punk inglês, com baixo bem destacado, bateria marcada e riffs esparsos de guitarra, além de um certo sentimento de melancolia em seus arranjos. São assim “Nine While Nine”, “Amphetamine Logic” (listada apenas como “Logic” na capa, e um pouco mais “agitada” que suas companheiras de lado), “Some Kind of Stranger” (a mais melancólica) e a faixa título, curiosamente talvez a que mais se aproxime da sonoridade do segundo álbum. A edição remasterizada e expandida de 2006 trouxe outras seis faixas, retiradas de singles, e que, no geral, não fogem do estilo do track list original, com destaque para as tristonhas “Bury Me Deep” (a mais melancólica delas) e “Some Kind of Stranger”, sendo as demais “On the Wire, “Poison Door”, “Blood Money” e “Long Train”.

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Gary Marx, Craig Adams, Andrew Eldritch e Wayne Hussey

No final da turnê de divulgação, Gary Marx deixou o grupo, devido a divergências musicais com Eldritch. O último show da turnê (que seria também o último de Adams e Hussey com o grupo) foi filmado e foi lançado em 1985 na forma do VHS Wake. O baixista e o guitarrista deixaram o grupo durante o processo de composição do segundo disco por desavenças musicais com Eldritch, indo depois formar o Mission. Como havia um acordo entre as duas partes (a dupla dissidente e Andrew) para que nenhuma usasse o nome Sisters of Mercy, o vocalista gravou um single (“Giving Ground”) e um álbum (Gift, 1985) como Sisterhood, na tentativa de impedir que a dupla Adams-Hussey utilizasse este nome, ligado a um fã-clube do Sisters. Os dois registros tiveram pouca repercussão em termos de vendas, sendo que, por problemas contratuais, Eldritch foi impedido de cantar (!) em ambos os lançamentos. No álbum, já aparece a baixista e vocalista Patricia Morrison, que, após o fracasso comercial de Gift, seria a parceira de Andrew na volta do Sisters of Mercy, decidida em meio ao processo de gravação do que deveria ser o segundo single do Sisterhood.


sisters_FloodlandFloodland [1987] 

 

O disco de maior sucesso do grupo (e, para mim, o melhor), que a esta altura, além de Eldritch e Doktor Avalanche, contava com Patricia Morrison no baixo, embora o próprio cantor tenha afirmado que sua participação musical no álbum tenha sido mínima. Três faixas se tornaram singles, e referências quando pensamos no nome Sisters Of Mercy: “This Corrosion” (que inicialmente deveria ser um lançamento do Sisterhood), “Dominion/Mother Russia” (cujas duas partes têm a mesma melodia, com letras e temáticas diferentes, sendo possivelmente a minha canção favorita do grupo) e “Lucretia My Reflection” (de temática mais sombria, embora seu ritmo “dançável”). Das outras cinco, destaco “Driven Like the Snow“, com melodia conduzida pelo baixo e teclados gélidos, e que lembra bastante as faixas mais “góticas” do The Cure, e “Flood I”, bastante sombria, com muitos sintetizadores em sua melodia. “Flood II” é menos soturna que a primeira parte, chegando a soar quase dançante, “1959″ é uma faixa acústica somente com piano e voz, sem bateria (de clima bastante tristonho, mas muito bela), e “Neverland (a Fragment)” é uma canção curta e que também apresenta características melancólicas em seu andamento lento. O relançamento de 2008 incluiu outras quatro faixas retiradas dos “lados B” dos singles do álbum: “Torch” (uma canção de melodia bastante triste, com o uso de violões reforçando esta característica, e a voz de Eldritch soando mais “chorosa”, ao invés do seu vocal grave usual), “Colours” (excelente composição, com bateria mais “marcada” e muitos sintetizadores garantindo um clima musical bastante opressivo e angustiante, sendo a melhor das faixas bônus), “Emma” (cover do grupo Hot Chocolate, e uma faixa mais “rocker”, apesar do andamento arrastado, com participação destacada do baixo na condução da melodia, além de interessantes riffs de guitarras ao longo de sua duração) e a versão “completa” de “Neverland”, com mais de doze minutos.

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Patricia Morrison e Andrew Eldritch

 

The Sisters Of Mercy - Vision ThingVision Thing [1990]

Sem Patricia Morrison, que foi expulsa pouco antes do início das gravações, e com John Perry (que havia assumido as guitarras na turnê de promoção do álbum anterior, mas também não participou de todas as gravações, sendo creditado apenas como músico convidado em “Detonation Boulevard”), Eldritch uniu-se aos guitarristas Andreas Bruhn e Tim Bricheno (que entrou quase no final do processo de gravações) e ao baixista Tony James (ex-Generation X e Sigue Sigue Sputnik) – além, claro, do sempre presente Doktor Avalanche – para registrar aquele que é considerado frequentemente como o álbum mais fraco da banda. Vision Thing representa uma ruptura com o estilo do registro anterior, visto que, se naquele os teclados dominavam as composições, aqui eles possuem destaque apenas na agitada “Doctor Jeep” (um dos destaques do track list, apresentando um riff de guitarra que lembra o estilo das bandas grunge como Soundgarden ou Alice in Chains) e em “More” (outro destaque, de começo soturno, mas depois se tornando um rockzão bastante agitado), duas das cinco composições a contarem com os vocais da convidada Maggie Reilly. A melancolia e os tons soturnos de Floodland também foram deixados de lado na maior parte do tempo (exceção para “Something Fast“, que, apesar do nome, é a mais lenta do play, e “I Was Wrong”, faixa com melodia conduzida por guitarra dedilhada, violão e baixo), substituídas por faixas agitadas e até certo ponto pesadas se comparadas a outras da carreira do grupo, com a guitarra dominando as composições e Doktor Avalanche mantendo um ritmo rápido na maior parte do tempo, como ocorre na faixa título, na citada “Detonation Boulevard” (outro destaque) e “When You Don’t See Me” (com um excelente refrão). O track list é completado por “Ribbons”, outra faixa onde as guitarras pesadas comandam, porém aqui com uma atmosfera mais sombria do que no restante do álbum. A edição de 2006 acresceu as faixas bônus “You Could Be the One” (bastante agitada, e até meio dançante), versões alternativas para “When You Don’t See Me” e “Doctor Jeep”, além de versões ao vivo para “Ribbons” e “Something Fast”. Este é, até aqui, o último registro de inéditas do grupo.

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Foto do encarte de Vision Thing

 


sister1Some Girls Wander by Mistake [1992] 

Coletânea que reúne os seis primeiros registros do Sisters, feitos entre 1980 e 1983 (portanto, antes do primeiro álbum), sendo eles, por ordem de lançamento: o single The Damage Done (de 1980), estreia em vinil das “irmãs”, à época uma dupla formada por Andrew na bateria e Gary Marx na guitarra, com duas músicas que fogem bastante ao estilo posteriormente adotado pelo grupo (a faixa título, cantada por Eldritch, com sua voz não soando tão grave quanto anos depois, e “Watch”, cantada por Gary), apresentando um andamento mais rápido que o usual em se tratando dos ingleses, e onde o baixo tem papel de destaque, sendo o lançamento completado pela vinheta “Home of the Hit-Men”; o single Body Electric (1982), que marcou a estreia de Craig Adams no baixo e Ben Gunn na segunda guitarra (além de ser o primeiro registro oficial de Doktor Avalanche), e cujas duas faixas (a título e “Adrenochrome”) soam como uma continuação do registro anterior, embora com uma evidência maior das guitarras, e um pouco mais “dançantes”; o EP Alice (1983), que contém a soturna faixa título (com uma batida meio dançante e boas linhas de guitarra), a “tribal” “Floorshow” (cujo ritmo é repetido e expandido na instrumental “Phantom”), e um cover para “1969“, dos Stooges (que, apesar da bateria eletrônica e da falta de “sujeira” nas guitarras, não ficou descaracterizado) – sendo que as duas primeiras formaram o terceiro single do grupo, em 1982; o quarto single do Sisters, Anaconda (de 1983), do qual foi incluído o lado A, justamente a faixa título, um pouco menos sombria do que o usual, em se tratando de Sisters of Mercy; O EP The Reptile House (1983), provavelmente a coisa mais soturna já gravada pelo grupo, onde todas as faixas se caracterizam pela lentidão e um sentimento meio mórbido e macabro, como em “Lights” (que, apesar do título, é uma das músicas mais depressivas e funestas da carreira da banda, encaixando-se perfeitamente no padrão do que se convencionou chamar de gothic rock), “Valentine” (onde o baixo tem destaque com uma linha bastante marcada) ou “Fix”, sendo que “Kiss the Carpet” (que possui uma reprise ao final) é um pouco mais animadinha, assim como “Burn”, mas não se pode dizer que as duas sejam “divertidas”, mantendo um sentimento mais tristonho ao longo de sua duração, com uma bateria marcada e lenta; e, para finalizar, a versão 12″ do single Temple of Love (1983, que marcou a despedida de Ben Gunn), com uma versão estendida da faixa título (uma das melhores composições da carreira do grupo), aqui aparecendo com quase oito minutos, contra os pouco mais de três da faixa original, presente na versão de 7″ do single, que também conta com “Heartland” (sendo que as duas já mostram uma direção mais próxima à sonoridade do primeiro disco), faixa que também foi incluída nesta coletânea, sendo exclusiva da versão 12″ escolhida para este disco a boa cover para “Gimme Shelter“, dos Rolling Stones, um dos destaques desta compilação. Uma mostra do início do grupo, com estilos e orientações diferentes, mas, ainda assim, capaz de agradar aos verdadeiros fãs da Irmãs.

Sisters of Mercy Live
Cartaz de promoção de um show de 2010

Em 1993, foi lançada a compilação A Slight Case of Overbombing, a qual possui, além dos “sucessos” do grupo, duas faixas inéditas, “Under the Gun” (que apresenta Andrew e Avalanche ao lado do guitarrista Adam Pearson, visto que os outros membros haviam deixado o grupo, e da vocalista convidada Terri Nunn, da banda Berlin) e uma versão regravada de “Temple of Love”, que ganhou backing vocals da cantora Ofra Haza, e o título “Temple of Love (1992)“. Até o lançamento, neste 2021, do disco com as BBC Sessions registradas pelo grupo entre 1982 e 1984 (sobre o qual já tratei aqui no site), esta compilação seria o último lançamento comercial das “irmãs”, visto que Eldritch entrou em conflito com a gravadora EastWest a respeito do lançamento de um novo álbum. O vocalista chegou a gravar um disco inteiro com o projeto SSV, o qual nunca recebeu um lançamento oficial, e manteve desde então o Sisters of Mercy excursionando quase que constantemente (com muitas variações dos músicos que completavam o line up), porém sem nenhum lançamento inédito. Várias canções novas foram sendo apresentadas ao vivo ao longo destes quase vinte anos, sendo possível encontrar versões para muitas delas no youtube, mas um novo álbum de estúdio das “irmãs da piedade” parece bastante improvável. Mesmo assim, o legado do grupo está assegurado, e seu papel como um dos mais influentes grupos do pós-punk britânico, garantido para a posteridade.


Discografias Comentadas: Gentle Giant – Parte II

 

Discografias Comentadas: Gentle Giant – Parte II
John Weathers, Gary Green, Ray Shulman, Kerry Minnear e Derek Shulman


A primeira metade dos anos 70 propiciou os grandes discos da carreira do Gentle Giant. Mas o que aconteceu com o grupo a partir de 1975? Vamos então apresentar os discos que encerram a carreira do grupo. Começamos pelo fato de que após o período de contrato com a Vertigo/WWA, o grupo estava insatisfeito com o mesmo. Lembrando que a formação na época era Gary Green (guitarras, violões, vocais), Kerry Minnear (teclados, mellotron, vibrafone, vocais), Derek Shulman (vocais, saxofone), Ray Shulman (baixo, violino, violões, trompete, vocais) e John Weathers (bateria, percussão).

O time então resolveu fazer um contrato com a gravadora Chrysalis, e assim, entrando no período chamado The Chrysalis Years, que culminou com os cinco último discos dos britânicos.


Free Hand [1975]

Free Hand foi lançado em 22 de agosto de 75. Ele traz resquícios do que fôra feito anteriormente aparecem aqui e acolá, como a brilhante “His Last Voyage”, de grandes inspirações jazzísticas e um trabalho vocal esplêndido, e a também no trabalho instrumental da faixa-título. Porém, há um som mais acessível em Free Hand logo na primeira faixa, “Just the Same”. A mesma fórmula é repetida em “Time to Kill” e “Mobile”, que apesar de apresentarem alguns momentos mais trabalhados, estão longe do que poderíamos esperar das ousadias e complexidades já construídas pelo grupo. Por outro lado, é venerável o sorriso que o arranjo vocal polifônico e de lindas harmonias da sensacional “On Reflection” leva ao fã do grupo. Certamente uma das melhores canções do quinteto, com um brilho extra de Minnear nos mais diversos instrumentos e também nos vocais centrais, em uma peça que remete bastante músicas renascentistas. Essa lembrança renascentista também está forte na instrumental “Talybont”, lindíssima e de nuances brilhantes através da repetição da melodia central em diversos instrumentos. No geral, a mudança na sonoridade não foi tão gritante, mas acabou facilitando os ouvintes americanos a adquirirem o gosto pelo grupo, alavancando as vendas nos Estados Unidos, e fazendo este o álbum da banda que conquistou a melhor posição nas paradas daquele país, no quase, a quadragésima oitava.


Interview [1976]

Este álbum é conceitual, lançado em 23 de abril de 1976, foi concebido para ser uma espécie de entrevista imaginária para rádio, onde as respostas ironizam com a indústria musical e também com a imprensa em geral. Porém não funciona como conceitual. Os trechos da suposta “entrevista” não conseguem fazer com que aja uma fluidez que um álbum conceitual exige. Há momentos interessantes na faixa-título e em “Timing”, onde a mistura de diversos instrumentos é um atrativo a parte, assim como a parte acústica novamente é encantadora, aqui na linda “Empty City”. Gary Green estava soberano nas seis cordas, seja na guitarra, com ótimos solos, seja no violão, como na introdução trabalhadíssima de “I Lost My Head”. Falando em violões, o melhor de Interview fica para o arranjo vocal e percussivo de “Design”, apesar da canção em si não funcionar como por exemplo em “On Reflection” e para a veloz “Another Show”, faixa bastante surpreendente pela pancadaria que come solta em pouco mais de três minutos. São desnecessárias as invenções de “Give it Back”, que flerta com o reggae, e que acabou sendo o único (e fracassado) single do álbum. É um belo disco, e que apesar não funcionar como conceitual, continuou mantendo o nível dos lançamentos do grupo. Mesmo assim, foi apenas posição 137 nos Estados Unidos.

A turnê de Interview propiciou o primeiro ao vivo da banda, lançado em 18 de janeiro de 1977. Playing the Fool é para mim um dos melhores discos ao vivo de todos os tempos. Registrando shows pela Europa no ano de 1976, aqui os fãs que não tiveram a oportunidade de ver um show do grupo, conseguiu comprovar que os caras eram realmente sobrenaturais, levando para os palcos toda a complexidade que já estava sendo empregada nos estúdios, e as vezes até ampliando a mesma. Vários são os destaques nesse disco, mas me atenho a três faixas: o complicadíssimo medley “Excerpts from Octopus”, que como o nome diz faz um resgate das canções de Octopus, a estonteante “So Sincere”, com uma magnífica sessão percussiva, e a mais que emocionante versão de “Funny Ways”, onde Kerry Minnear se vira nos 30 entre teclados, violoncelo e mandando ver em um arrepiante solo de vibrafone. A versão britânica traz um belo livreto de doze páginas, que infelizmente não chegou ao mercado nacional. Disco essencial para qualquer amante de rock progressivo.

Infelizmente, o desconforto interno já era grande, e isso seria sentido nos próximos álbuns do grupo. O impacto de Interview pode ser conferido nas palavras de Derek: “Penso que Interview foi o início da erosão da banda. A criatividade estava começando a diminuir, e ali, passamos a nos preocupar muito mais com o negócio da banda, e quem gerenciava isso era eu. O negócio da música se tornou um grande negócio para nós“.


The Missing Piece [1977]

Após o fim da turnê de Interview, o quinteto viajou para a Holanda decidido novamente a mudar o som, ampliando os caminhos em busca desse “grande negócio”, e claro, isso também exigiria o lançamento de singles. Lançado em 26 de agosto de 1977, The Missing Piece é um álbum chocante para o fã mais conservador do Gentle Giant, porém com ótimas faixas para aquele que tem a cabeça mais aberta. É dividido em dois lados bem distintos. Pela primeira vez, Derek assumiu o vocal em praticamente todas as canções, com exceção apenas de “As Old as You’re Young”, cantada por Minnear. O lado A tem a predominância de um som mais acessível, como no punk (?!) de “Betcha Thought We Couldn’t Do It” , ou faixas do estilo soft rock, que iria vir a dar o tom do disco seguinte, Giant for a Day. Claro, esse pop não é um pop simples, vide as boas passagens de “Mountain Time”, “Two Weeks in Spain” e “Who Do You Think You Are?”. Gosto da balada “I’m Turning Around”, que lembra o Genesis dessa época, principalmente no refrão. Claro, não é nada próximo do que a banda já fez, mas são boas músicas ao meu ver. Já o lado B traz o brilho e talento que qualquer admirador dos britânicos sabem apreciar, principalmente na obra “Memories of Old Days”, fácil a melhor do álbum, e por que não, uma das melhores desse período, com sua hipnotizante introdução aos violões, a linha de baixo seguindo os violões, o vozeirão de Derek estourando as caixas de som e claro, Minnear fazendo uma participação precisa com seus teclados. Outro bom trecho progressivo é o riff intrincado de “For Nobody”, uma faixa mais pesada, mas com belo trabalho vocal e instrumental, trazendo experimentações principalmente nas harmonias vocais. Experimentações, agora instrumentais, também aparecem na introdução de “Winning” e no solo de “As Old as You’re Young”, mas essas faixas estão aquém das demais do lado B, e até mesmo do disco em si. “Two Weeks in Spain”, “Mountain Time” e “I’m Turning Around” saíram como singles, mas tiveram vendas abaixo do que poderia ser considerado terrível. O álbum até conseguiu uma posição melhor que seu antecessor, atingindo a octagésima primeira, mas nada que justificasse a mudança sonora para atingir o sucesso no tal “grande negócio”, que estava naufragando. Porém, a banda acreditou que essa mudança ia trazer resultados positivos, e seguiu na mesma linha no fraquíssimo Giant for a Day!.


Giant for a Day! [1978]

No dia 11 de setembro de 1978 chegou às lojas o contestado Giant for a Day!. Poucas bandas tem aquele disco preferido para ser considerado o pior de sua discografia, e o Gentle Giant é uma dessas, com este sendo o tal disco. O grupo fugiu de qualquer lembrança das inspirações renascentistas, construções intrincadas, multi-instrumentos entre outro, e preferível tentar criar um som totalmente comercial. O resultado é tão constrangedor quanto péssimo. O arranjo vocal de “Words from the Wise”, faixa que abre o disco, até dá uma esperança, mas ao longo dos 35 minutos de Giant for a Day!, pouco se escapa. Faixas comuns e radiofônicas, como o rock de “Little Brown Bag”, a dançante “Rock Climber” ou a emotiva “Thank You” e sua levada acústica, têm alguns pontos positivos, mas nada marcante ou que se dê para ficar ouvindo por muito tempo. Ruim e constrangedora é o que consigo dizer para “It’s Only Goodbye”, sem palavras mais para descrever. Por outro lado, esses adjetivos e no mínimo ridícula são adjetivos para a faixa-título, certamente a canção mais fora da curva em toda a discografia do grupo, brigando cabeça-cabeça com “Take Me”, ambas cheias de eletrônicos e muito, mas muito ruins. Se bem que “No Stranger” é muito ridícula, ruim e constrangedora, seja pelas vocalizações a la Beach Boys ou pela música mesmo. Enfim, difícil dizer qual a pior canção deste disco, mas fácil eleger as melhores. Elas são “Friends”, cantada surpreendentemente por John Weathers, acompanhado apenas pelo violão e baixo, e a instrumental “Spooky Boogie”, uma canção simples, levada pelo riff de baixo e bateria, mas com um certo ar de frescor perto das demais canções. Giant for a Day! é tão fraco que não conseguiu entrar nos charts de vendas, assim como nenhum dos dois singles (“Thank You” e “Words from the Wise”, ambos com “Spooky Boogie” no lado B). A capa e o encarte podem ser recortados para se obter uma máscara de gigante, e ser então um Gigante por um Dia. Talvez se tivesse sido lançado com outro nome de banda, poderia ter seus méritos, o que também atesta que não é o pior disco de todos os tempos, quiçá do progressivo (Focus e Russian Roulette, do Triumvirat, ainda estão anos-luz à frente ocupando este posto). Mas como Gentle Giant, é um disco bem decepcionante, e foi o único a não ser promovido nos palcos.


Civilian [1980]

Mudando-se agora para os Estados Unidos, o grupo grava entre agosto e novembro de 1979, lançando em 3 de março de 1980, seu décimo primeiro e último álbum. Civilian apresenta uma grande influência da New Wave, e apesar de muitos fãs torcerem o nariz para o resultado final, eu confesso que gosto bastante do que foi registrado aqui. O álbum já começa com a pesadíssima “Convenience (Clean and Easy)”, uma ótima faixa para colocar o quinteto nos anos 80. A guitarra é o instrumento mais marcante ao longo do disco, com destaque para o riff de “Number One” e o dedilhado enigmático de “Inside Out” Para quem quer viajar em um progressivo oitentista, vibre com o piano e os teclados de “Shadows in the Street”, cantada por Minnear e forte candidata a melhor do álbum. Brigando por essa posição, “Underground”, com sua levada disco, mas ao mesmo tempo trazendo um arranjo vocal e um peso muito bons. Aliás, há influências modernas em todo o álbum, mas com um tempero progressivo bem empregado, como o AOR de “All Through the Night”, o pop de “I Am A Camera”. Outra canção que chama a atenção pelo seu bom trabalho instrumental é “It’s Not Imagination”, onde teclados e guitarras fazem uma excelente condução. É um belo disco, que supera muito seu antecessor, e encerra digninamente uma obra fantástica. Vale lembrar que na América do Norte, Civilian saiu pela Columbia, onde alcançou somente a posição 203, sendo lançado pela Chrysalis no Reino Unido. Daqui saiu o single com “All Through The Night” / “Convenience (Clean And Easy)”, que também foi um fracasso comercial.

Ainda em 1980, após uma breve turnê de divulgação de Civilian, o grupo se desfez. O último show do grupo foi em 16 de junho de 1980. A razão central da separação foi não conseguir mais encontrar a criatividade para sobreviver. Enquanto Kerry e Gary queriam voltar aos passos progressivos, os irmãos Shulman desejavam o sucesso a qualquer preço, acabando então com uma das maiores bandas da história. Derek entrou para o mundo da produção musical, onde chegou ao posto de presidente de empresas como Atco Records e Roadrunner Records. Ray compôs trilhas e também se tornou produtor musical, com destaque para os trabalhos com Echo & the Bunnymen, Genesis, Queen e Sugarcubes. John Weathers fez parte de grupo como o Man e o Wild Turkey, enquanto Gary foi o mais ativo como músico, participando de diversos álbuns desde então. Kerry entrou para o mundo da música gospel, e hoje é responsável pela Alucard Music, organização responsável pelos royalties do Gentle Giant. Martin Smith estabeleceu-se na Inglaterra, tocando bateria por diversas bandas, vindo a falecer em 2 de março de 1997, enquanto Malcolm Mortimore toca bateria em grupos de jazz até hoje.Por fim, Phil abandonou a música, e virou professor e comerciante, tendo trabalhado raramente com música após sua saída da banda.

Para os completistas, recomendo os boxes Scrapping the Barrel e Memories of Old Days, ambos com muitas preciosidades relacionadas ao grupo, e também o DVD Giant on the Box, onde pode ser conferido como era o exaustante e encantador trabalho de palco dessa formação, uma das melhores de todos os tempos não só para o progressivo, mas para a história da música.


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