SOFT / CLASSIC ROCK - SUNDANCE - Chuffer - 1974
Álbum: Chuffer
Países: Inglaterra
Músicos:


Diogo Bizotto me deu a missão de concluir a discografia do Bon Jovi. Fiquei muito feliz com o pedido. Bon Jovi é um grupo que sempre admirei, é um grupo que cresci ouvindo. Descobri a banda pelos LPS New Jersey e Bon Jovi In Brazil (uma coletânea brasileira), isso ainda lá nos anos 80, durante minha infância. Desde então, venho acompanhando de perto cada lançamento que fazem. Obrigado, Diogo, pela oportunidade. Nessa terceira – e última – parte será abordado o período pós-Sambora. Fase que divide a opinião de seus admiradores mais antigos, mas que ainda possui bastante coisa bacana. Boa leitura!
Durante a tour de Because They Can, eis que surge uma bomba. O guitarrista Richie Sambora abandona a turnê sem grandes explicações. Houve muita especulação. A toda hora chegavam notícias, muitas vezes desencontradas. No início, diziam que estava dando um tempo e retornaria em breve. Depois, chegaram as notícias de que o talentoso guitarrista não retornaria mais. Houve quem dissesse que havia sido despedido por Jon Bon Jovi. Houve troca de farpas dignas de estamparem chamadas do Fofocalizando ou de algum programa da Sônia Abrão. As últimas novidades, em relação ao assunto, é de que o guitarrista se afastou por vontade própria para se dedicar à família, que enfrentava problemas. Independente do motivo, sua saída foi um baque para seus admiradores. Seus backings rasgados e sua pegada bluesy eram parte da assinatura da banda. E aí? Seria o grupo capaz de sobreviver sem uma figura tão marcante?
A situação era complexa. A turnê estava rolando. Vários shows já haviam sido vendidos. Não tinha como dar um tempo. Phil X foi escolhido para assumir o posto. Para o público, não havia nada muito esclarecido. Ninguém sabia se o rapaz estava ali apenas para cumprir as datas já agendadas ou se seria, de fato, o novo membro da banda. Tudo muito nebuloso. Muitos mantinham a esperança de que, em algum momento, Richie retornaria. Como se não bastasse toda essa confusão, Tico Torres teve uma crise de apendicite no meio da gira e também teve que se afastar de alguns shows (inclusive, aqui no Brasil). E para colocar uma pimentinha mais, a renovação do contrato com a Mercury não estava indo para frente. A banda e os executivos não conseguiam chegar a um acordo. De todo modo, a banda ainda devia mais um trabalho.
Antes do novo material chegar às lojas, o clássico New Jersey foi relançado em uma edição comemorativa. Conforme já esperado, diversos formatos chegaram às prateleiras. A mais completa trazia o álbum devidamente remasterizado, as demos do disco e um DVD com os home videos que haviam sido lançados em VHS, na época. Para os fãs, um prato cheio, sem dúvidas. E o tal novo álbum? Também colocaria um brilho nos olhos de seus admiradores? Vamos à ele…
Burning Bridges (2015)
Em suas entrevistas para promover o álbum, Jon Bon Jovi declarou: “são algumas músicas que não estavam terminadas, e agora estão. E também algumas novas”. Ele deu a dica e a situação estava mais do que clara. Esse não era um trabalho onde a banda cairia de cabeça, com uma estética bem definida. Esse era um disco para cumprir contrato. Ou melhor, para encerrar contrato. Dez músicas, poucas faixas realmente fortes e, mais do que isso, uma qualidade gráfica nula. Conhecido por sempre caprichar nos lançamentos, esse disco não tinha encarte nenhum. Uma folha frente e verso. Sem foto da banda, sem nomes dos músicos, nada. Aquele lance de “coloca logo no mercado, encerra essa história e bola pra frente”.
Sabendo dessa realidade, não dava para esperar um trabalho divisor de águas. Isso aqui era apenas um aperitivo. Não seria aqui que saberíamos como a banda iria soar sem a presença de Sambora. O álbum é predominado por baladas. Ainda que Jon Bon Jovi saiba escrever baladas como poucos (ele já nos provou isso em These Days), aqui a maior parte soa sem sal. “A Teardrop To The Sea” inicia o álbum de maneira enfadonha. O baixo pulsante fica apenas na marcação. A melodia não emociona. “We All Fall Down” já é mais bem resolvida, porém sem nenhuma inovação e sem um momento realmente marcante. “Blind Love” não vai pra frente. O destaque acaba sendo o trabalho vocal de Jon. Outra que ameaça ir, mas não sai do lugar é “Fingerprints”.
Os grandes destaques acabam ficando com os singles “We Don´t Run” – um rock de arena com uma roupagem mais contemporânea, uns vocalizes meio Coldplay, mas com uma boa melodia – e “Saturday Night Gave Me Sunday Morning”. Essa última, escrita em parceria com o antigo guitarrista. Na verdade, ela é uma sobra do The Circle que acabou sendo finalizada para esse trabalho. A faixa mais Bon Jovi de todas. No final do álbum, temos mais dois dois momentos dignos de nota com “Life Is Beautiful”, que remete um pouco aos tempos de Lost Highway nos trabalhos de violão e guitarra, e “I´m Your Man”, um rock n roll basicão que se não nos empolga da mesma forma que um “I´ll Sleep When I´m Dead, ao menos nos coloca um sorriso no rosto.
O álbum se encerra com a faixa-título com um clima meio salloon, deixando um ar de fim de festa. O que, na realidade, é o que disco representa. A letra é uma provocação com o pessoal da Mercury. “Depois de 30 anos de lealdade, eles cavam sua cova. Vocês bem que poderiam aprender a cantar ou dedilhar. De todo modo, lhes darei metade dos direitos autorais. Vocês são a razão de ter escrito essa canção”. No refrão, também não esconde seu desgosto: “Adeus. Até logo, boa noite. Aqui está uma última canção para vocês venderem (…) Vocês podem tocar para seus amigos no inferno”. É, parece que a parceria não terminou com um clima muito agradável, não…
O disco, por não ser muito longo, acaba tendo uma audição ok. Aquela velha história… O álbum não te empolga, mas não causa raiva também. Contudo, um trabalho com um nível bem abaixo daquilo que vinham realizando. A banda sabia que não poderia errar em seu próximo álbum. Precisavam demonstrar que ainda tinham lenha para queimar e que a nova formação tinha luz própria. Seria uma espécie de prova de fogo. E assim foi…

This House Is Not 4 Sale (2016)
Esse trabalho marca o início de uma nova era. Além de ser o primeiro trabalho realizado em parceria com a Island, também marca o início de um novo lineup. Agora, não tinha mais volta. Richie Sambora estava definitivamente fora. Phil X e Hugh McDonald, baixista que os acompanhava em shows desde 1994, foram promovidos à integrantes oficiais. Quando ninguém dava mais nada para os caras, deram a volta por cima. This House Is Not 4 Sale é, provavelmente, seu trabalho mais forte desde Have a Nice Day.
Entretanto, é bom deixar algumas coisas esclarecidas. Quando saiu para promover o álbum, Jon Bon Jovi declarou que esse disco era “definitivamente, uma volta ao início”. Isso fez com que algumas pessoas esperassem um disco retomando à sonoridade hard dos anos 80. Isso não poderia estar mais distante. Eles continuam apostando na fórmula de rock de arena com melodias pop, algo que já vem explorando há um bom tempo. Diria que se você é um fã de Have a Nice Day ou The Circle, você tem grandes chances de curtir o disco. Se você espera o Bon Jovi dos anos 80 ou 90, esquece. Acredito que o depoimento de Jon tivesse mais a ver no modo de encarar a nova etapa, de começar algo que você não sabe o que vai acabar desenrolando, das novas parcerias, do que ao fato de recriar uma estética.
O CD inicia com a faixa-título trazendo uma linha de guitarra meia “Because We Can”, um refrão que fica na sua cabeça. Na letra, Jon dispara: “Essas 4 paredes tem história para contar”, ele se refere aos seus companheiros de banda. A canção fala sobre integridade. “Living In a Ghost Town” é outra faixa de destaque apostando naquele rock de arena com influências de U2. Poderia ter aparecido em um álbum como The Circle, facilmente. “Knockout” é bem bacaninha, mas funciona melhor nos shows do que no disco. Nessa, teria aumentado o volume das guitarras e da bateria para deixá-la mais impactante.
O Bon Jovi é uma banda que está sempre buscando renovar seu som, dialogar com a juventude e é isso que representa “Born Again Tomorrow”. O arranjo faz um mix entre o rock e o pop eletrônico, influência perceptível na construção de teclados e dos efeitos criados por trás do refrão. Embora no papel tal mistura possa parecer absurda, o resultado ficou bacana. Outro momento jovem do disco é a linha vocal do refrão de “Roller Coaster” que parece ter saído de alguma velha canção da Taylor Swift.
“God Bless This Mess” me lembra um pouco a faixa-título. A canção não é ruim, mas não teria incluído por ter o mesmo tipo de construção. “The Devils In The Temple” é a mais pesada do álbum. A letra volta a falar dos problemas que tiveram com sua antiga gravadora. Os licks de guitarra, no início da música, tem um q de Zeppelin. Certamente, um dos grandes momentos desse trabalho.
Se no álbum anterior, a banda havia ficado a dever nas baladas, aqui voltam a acertar a mão. “Labour of Love” traz um clima mais sombrio. O efeito de guitarra me remeteu um pouco aquele velho hit de Chris Isaak, “Wicked Game”. Entretanto, as grandes baladas do disco são “Reunion” e, principalmente, “Come On Up To Our House”. Em outra época, essas 2 iriam para o topo das paradas. Comprei o CD assim que saiu, acabei pegando a versão deluxe norte-americana. O disquinho trazia 3 bônus: “We Don´t Run” (de seu álbum anterior), a fraca balada “Real Love” e a boa “All Hail The King”. Depois de tanta bola fora, foi bacana ver os caras voltarem ao topo.

No finalzinho de 2016, o Bon Jovi lançou o álbum This House Is Not 4 Sale – Live From The London Palladium. Não se trata de um registro da turnê, mas sim dos músicos executando o álbum na íntegra. O disco é bom. Está bem tocado, bem gravado. Contudo, é um trabalho dispensável. Por mais que eu goste do disco, não se trata de um álbum clássico dos rapazes, nem de um trabalho que figura entre os favoritos dos fãs. Não sei se isso teve alguma coisa a ver com a briga com a Mercury (afinal, a Mercury detém direito em cima da obra), mas a verdade é que a banda continua a dever um registro ao vivo digno para seus fãs.
2020 (2020)
Quatro anos se passaram e eis que surge a notícia de que teríamos mais um CD do Bon Jovi chegando por aí. O álbum que seria lançado inicialmente em Maio acabou adiado por 5 meses. Jon aproveitou esse meio tempo para mexer no disco. Substituiu 2 canções, alterou a ordem das faixas, deu uma atualizada… O novo trabalho não traz muitas novidades nos arranjos. O grande diferencial está no conteúdo das letras. Dessa vez, mais politizadas.
Uma das canções que deixa isso explícito é “American Reckoning”. A letra fala sobre o assassinato de George Floyd. “Aqueles malditos 8 longos minutos, deitado algemado com o rosto colado no chão. Espectadores gritavam por misericórdia. Desde quando o tribunal se tornou um distintivo e um joelho nas ruas?”. O arranjo da música é bem denso marcado por um sutil dedilhado de guitarra, uma levada arrastada e Jon cantando em uma região bem grave, cantando com calma cada sílaba da canção, como se pretendesse fazer com que a mensagem chegasse da maneira mais clara possível aos ouvintes.
Aliás, se existe algo que mudou em relação à sonoridade foi justamente o trabalho vocal de Jon Bon Jovi. Quem acompanha a banda de perto, sabe que já tem um tempo que ele tem encontrado dificuldade para cantar as notas altas nos shows. Talvez pensando nisso, ele criou linhas vocais em uma região mais confortável, está cantando mais para baixo. Outra coisa que tenho notado é que, cada vez mais, os discos tem apresentado menos e menos solos de guitarra. Algo que lamento profundamente, diga-se de passagem. Nos momentos em que se arrisca, Phil X se sai bem. Tanto o solo de “Story of Love”, quanto o de “Blood In The Water” são solos bonitos e bem resolvidos. “Blood In The Water”, aliás, é outra que se destaca pela mensagem embutida. Trata aqui sobre a angustia dos imigrantes que são deportados dos EUA.
“Do What You Can” aposta naquele pop/rock com influências de country, bem na linha Lost Highway, enquanto “Limitless” traz aquele rock de arena com bateria marcando surdo e caixa e uns vocalizes meio U2, meio Thirty Seconds To Mars por trás. Nenhuma novidade na discografia do grupo, mas são inevitavelmente boas canções. Os grandes momentos, contudo, acabam ficando com os momentos mais rock. “Brothers In Arms” traz aquela canção com arranjo rock bem cru, bem direto e é uma das poucas que deve agradar aos fãs dos anos 90, já “Beautiful Drug” é aquela faixa construída na dose certa para tocar na rádio e, dentro dessa ótica, acredito que seja a mais forte por aqui. Teria lançado ela como primeiro single.
Em “Do What You Can”, o cantor narra os dias atuais de pandemia. A letra menciona sobre a nova realidade em que vivemos, com comércio fechado, escolas fechadas, dificuldade financeira, mas pede para que as pessoas mantenham a serenidade e a esperança. “Embora eu vá manter o distanciamento social, o que o mundo mais precisa agora é de um abraço. Até que se encontre a vacina, nada pode substituir o amor. Ame a si mesmo e à sua família, seu vizinho, seus amigos”. No refrão, ele traz um conselho aos seus seguidores: “Quando você não pode fazer o que sabe, você faz o que dá para fazer. Isso não é uma oração. É apenas um pensamento que quero que chegue à você”.
As maiores decepções, para mim, ficaram por conta de “Lower The Flag” e “Unbroken” que, embora, retratem temas importantes (massacre nas ruas e os traumas que os veteranos de guerra carregam, respectivamente) mereciam arranjos mais impactantes. As canções soam morna, sem vida, o que é uma pena, já que as letras são boas.
O disco, como um todo, é bom. É um trabalho sem riscos em termos de arranjos, como já mencionado, mas bem resolvido, com boas melodias e letras bonitas. This House Is Not 4 Sale ainda acho mais impactante, mas certamente 2020 irá agradar seus fiéis seguidores. Não é um disco que mudará a história da banda, mas ao menos mantém o (bom) nível que o grupo costuma apresentar. CD bacana, inclusive, para ouvirmos nesses dias de pandemia. E aí? Vamos nessa?

Após o término da turnê que promoveu These Days (1995), em 1996, o Bon Jovi entrou em mais um hiato. Dessa vez, ao contrário do tempo que a banda deu entre New Jersey (1988) e Keep the Faith (1992), a questão foi tranquila e bem planejada, permitindo que os integrantes pudessem se dedicar a trabalhos individuais. Jon Bon Jovi lançou Destination Anywhere (1997), bastante diferente de seu primeiro álbum solo, Blaze of Glory (1990), e investiu fortemente em sua carreira como ator. Richie Sambora também editou mais um disco, o ótimo Undiscovered Soul (1998). O hiato foi interrompido no início de 1999, quando o grupo, sem contar com o tecladista David Bryan, que havia lesionado um dedo, compôs a música “Real Life” para a trilha sonora do filme “EDtv” e gravou um videoclipe para a faixa. Em seguida, foi a vez de retomar a carreira de vez e preparar um novo álbum, que reservaria mais uma adaptação aos novos tempos.
Crush [2000]
Os anos 90 ficaram marcados pela conquista de um público mais adulto e pela aquisição de uma boa dose de respeito proveniente da crítica, que enxergou em Keep the Faith e These Days álbuns de conteúdo mais maduro e uma banda consciente das mudanças do mercado fonográfico, mas que não se deixou levar por tendências momentâneas. Em Crush, o grupo demonstrou que continuava antenado com o que se passava ao redor e operou mais uma importante ruptura em sua carreira. Ao invés de apenas satisfazer seus fãs conquistados nos anos 80 e 90, que estavam envelhecendo, o Bon Jovi também mirou a juventude, buscando renovar sua base de admiradores e conquistar pessoas que nunca haviam ouvido falar na banda.
O resultado foi aquele que é possivelmente o mais variado disco de sua carreira, mas mesmo assim coeso, demonstrando que o tino para boas composições continuava intacto. O sucesso foi imediato, puxado pelo hit mundial e primeiro single “It’s My Life”, que, guardadas as devidas proporções, pode ser encarada como a “Livin’ on a Prayer” do ano 2000, incluindo o uso do talk box por Richie e uma citação ao casal Tommy e Gina, protagonistas do sucesso de Slippery When Wet (1986). No geral, Crush trouxe um Bon Jovi cada vez menos hard e mais pop rock, mas isso não representou uma verdadeira surpresa, afinal, a formação sempre foi guiada primordialmente por boas melodias, e não essencialmente por riffs de guitarra. Prova disso são diversas músicas que permeiam o track list, a começar pela canção mais “beatles” da carreira do grupo, a divertida “Say It Isn’t So”.
Outras faixas repletas de melodias agradáveis são “Captain Crash and the Beauty Queen From Mars”, com um pé na década de 70, incluindo citações ao personagem Ziggy Stardust, criado por David Bowie; a balada “Save the World”, remetendo a momentos mais ingenuamente passionais de épocas anteriores; e uma de minhas favoritas, a suave “Mystery Train”, dona de um ótimo refrão e de uma letra inspirada. Também estão entre minhas favoritas “Two Story Town”, outra a trilhar um caminho mais voltado ao pop rock, e “Next 100 Years”, mais próxima ao estilo adotado em These Days, e que também conta com um solo à moda antiga de Sambora, executado sobre uma base carregada por sopros, bastante diferente do restante da faixa. Ainda melhor do que essas é uma música que não apenas é o grande destaque de Crush e um clássico instantâneo, mas sintomática da consciência do grupo para com sua própria situação e do conforto em ser quem são: “Just Older”.
Sequência natural do trabalho realizado nos anos 90, a faixa demonstra maturidade e empolga do início ao fim, não à toa tornando-se uma das preferidas para serem executadas ao vivo. O track list ainda apresenta a bem sucedida balada “Thank You For Loving Me”, boa, mas não tão recomendada para aqueles que não gostam muito do Bon Jovi apresentando-se nesse formato; “She’s a Mistery”, que, apesar de mais reflexiva, representa um ponto baixo no disco; “I Got the Girl”, também sem tantos atrativos; e finaliza com “One Wild Night”, a mais hard e festeira do álbum, fechando um disco marcante, que pode não ser tão bom quanto seu predecessor, mas foi tão bem sucedido quanto (ou mais, dependendo do mercado) e obteve êxito em apresentar o Bon Jovi a uma nova geração de fãs, mantendo as apresentações lotadas e marcando mais uma turnê bem sucedida.
De todos os discos lançados após Crush, Bounce talvez seja o que mais remete ao passado do Bon Jovi. Apesar de não fugir tanto assim à linha mais pop rock de seu antecessor, é notável a presença de guitarras mais pesadas, algo que fica evidente tão logo é dado o play na primeira faixa, “Undivided”. Com um peso inicial que chega a assustar os desavisados, a música é ganchuda e baseia-se fortemente nas guitarras musculosas de Sambora.
Muito desse tom mais agressivo deve-se ao fato de grande parte de Bounce ter sido composto logo em seguida aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, fato ilustrado nas letras de algumas canções, mas que não chega a transformar o registro em um álbum conceitual.“Everyday”, outra que traz a guitarra em destaque, soa como uma sequência natural de “It’s My Life” e também faz parte do grupo de músicas relacionadas à tragédia norte-americana.
Além disso, evidencia o forte uso de efeitos eletrônicos ao longo do disco, mas que não se sobressaem em excesso, apenas emprestando um lustro de modernidade a faixas escritas em moldes mais tradicionais. Uma delas é a ótima e subestimada “The Distance”, que facilmente encontraria lugar em Keep the Faith eThese Days. Outra criminosamente ignorada (inclusive pela banda) é a balada “Joey”, que é lindamente conduzida pelo piano de David Bryan. Longe de ser uma canção de sentimentalismo exacerbado, é cheia de potencial para ter se transformado em single, fato que infelizmente não ocorreu. Editada nesse formato e especialmente bem sucedida no Brasil foi “Misunderstood”, que fez parte da trilha sonora da novela “Mulheres Apaixonadas”.
Particularmente, não tenho grande apreço pela faixa, que até é boa, mas come poeira em relação a tantas outras que seguem uma linha mais pop rock, tanto em Bounce quanto em Crush. Uma dessas músicas é “Love Me Back to Life”, que traz arranjos de cordas ao lado da guitarra classuda de Sambora, e outra é a balada “Right Side of Wrong” que retoma o tom épico urbano estilo classe trabalhadora, destacando-se em relação às outras baladas restantes no track list, caso da suave “You Had Me From Hello”, de “All About Lovin’ You”, dona de um ótimo refrão, e daquela que fecha o disco, “Open All Night”, cuja letra relaciona-se ao personagem interpretado por Jon na série norte-americana de televisão “Ally McBeal”.
O track list ainda é completo pela moderna “Hook Me Up”, carregada de distorção e provavelmente a mais hard do disco, e pela faixa-título, mais uma a trazer uma boa dose de peso e refletir os ataques de 11 de setembro. Bounce pode não trazer um clássico da estirpe de “Just Older”, mas é, em geral, um álbum tão bem resolvido quanto seu antecessor, e tem mais chances de agradar tanto aqueles que preferem o Bon Jovi mais hardeiro dos anos 80 quanto o caminho mais adulto que o grupo traçou durante os anos 90. Pouco após o término da turnê promocional, o grupo lançou a coletânea This Left Feels Right (2003). Inicialmente projetado como um disco de versões acústicas, o registro acabou tornando-se um álbum que, sim, trouxe novos e antigos clássicos com instrumentos desplugados, mas também incluiu uma série de overdubs e arranjos que descaracterizaram totalmente as versões originais, emprestando às faixas uma certa pecha alternativa, algo que nunca combinou bem com o Bon Jovi. Em geral, o disco é um erro, mas felizmente esse deslize seria compensado com o ótimo registro seguinte.
Crush e Bounce abriram a nova década com classe, mostrando que, mesmo sem a relevância do passado, o Bon Jovi ainda era capaz de satisfazer a maior parte de seus antigos admiradores, angariar novos fãs e manter seu sucesso nos palcos ao redor do mundo.
Apesar dos bons resultados obtidos com esses lançamentos, o equilíbrio entre referências do passado com a modernidade foi ainda melhor sucedido, na opinião deste fã, em Have a Nice Day. Apesar de algumas inconsistências, o álbum tem como trunfo uma sequência inicial de tirar o fôlego, que só não é perfeita por poucos detalhes, empolgando os fãs como havia muito tempo o grupo não empolgava. Se em Crush tivemos “It’s My Life” e emBounce há “Everyday”, em Have a Nice Day a faixa-título deu sequência à saga com qualidade ainda maior, abrindo o disco com os ânimos em alta e apresentando um Bon Jovi ainda com muito fôlego, soando tão hard quanto no predecessor e sem esquecer de carimbar mais um refrão pronto para angariar o público nos estádios e arenas.
Lembra dos poucos detalhes que fazem com que a sequência inicial de faixas não seja perfeita? Pois bem, esses detalhes referem-se a “I Want to Be Loved”, que certamente é uma boa canção (melhor do que grande parte do material que a banda apresentaria no futuro), mas não faz jus à anterior e às quatro seguintes. A primeira delas é “Welcome to Wherever You Are”, que, apesar de fazer o Bon Jovi parecer uma banda de rock cristão, é uma das mais empolgantes músicas criadas pelo grupo em muito tempo, mas que vergonhosamente não se tornou um hit mundial, apesar de ter desempenhado um bom papel em alguns países europeus.
Melhor sucedida foi “Who Says You Can’t Go Home”, um pop rock agradável que versa sobre as raízes do grupo em New Jersey, mas que obteve ainda mais êxito quando lançada como single em sua versão country, contando com os vocais divididos com a cantora Jennifer Nettles (da dupla Sugarland) e atingindo a primeira posição na parada da Billboard voltada ao mercado country. “Last Man Standing” honra com dignidade o lado mais hard rock e voltado a riffs de guitarra da banda, além de refletir a opinião de Jon a respeito do mercado fonográfico atual e contar com Richie em ótima performance, solando com brilho e segurança.
A ótima sequência inicial é fechada com a fantástica e ambiciosa “Bells of Freedom”, demonstrando que o Bon Jovi ainda tinha segurança para compor e executar canções de caráter mais épico. “Wildflower” e “Last Cigarette” dão uma esfriada nos ânimos, apesar da bela letra da primeira e de algumas guitarras mais empolgantes da segunda. O nível mais elevado é retomado com “I Am”, dotada de um refrão de tirar o fôlego e certamente digna de fazer parte da citada sequência inicial. O mesmo não pode ser dito da explicitamente pop “Complicated”, que parece tentar soar moderna mas acaba sendo frustrante.
O nível se eleva um pouco com “Novocaine”, mas que ainda assim fica deslocada em um disco que conta com músicas tão boas quanto “Welcome to Wherever You Are”, “Bells of Freedom” e a faixa-título. Em seu track list original, o álbum encerra-se com a pop rock “Story of My Life”, que, apesar de ser superior às duas antecessoras, não difere muito de tantas outras bandas de rock que passeavam pelo mainstream nos idos de 2005. Apesar de uma nítida queda de qualidade em sua segunda metade, Have a Nice Day compensa os ouvintes através das faixas aqui efusivamente elogiadas, e, para mim, constitui o melhor álbum abordado nesta segunda parte da discografia comentada do grupo. Não posso deixar de citar também que, desde 2005, a banda é acompanhada ao vivo pelo guitarrista Bobby Bandiera, que já havia tocado com Jon em Destination Anywhere e também é conhecido por integrar o Southside Johnny and The Asbury Jukes, banda do Estado de New Jersey.
O êxito obtido com a versão country de “Who Says You Can’t Go Home” pareceu ter provocado uma reação em especial no quarteto. O passo seguinte foi capitalizar nesse sucesso e criar um álbum inteiro que supostamente apontaria nessa direção, adotando a música country como inspiração. Disse “supostamente” pois, na verdade, Lost Highway não se diferencia tanto assim do que o Bon Jovi vinha apresentando em seus últimos lançamentos.
É claro que o uso de instrumentos e a criação de arranjos mais evidentemente ligados ao estilo tradicional norte-americano dá as caras em diversas faixas, assim como a veia mais hard do grupo foi atenuada, mas o material não chega a destoar a ponto de desagradar os fãs conquistados ao longo do tempo. Prova disso foi o sucesso mundial do disco, que estreou na primeira posição na parada de álbuns da Billboard e de diversos outros países.
Apesar desse lado positivo, o direcionamento estilístico proposital seguido no registro acabou desagradando algumas pessoas, entre as quais me incluo. Mais do que isso, a força das composições, em geral, não se mostrou tão poderosa quanto nos discos antecessores. Em geral, as músicas não chegam a agredir, apenas não são tão cativantes quanto se esperava do Bon Jovi. A faixa-título inicia o track list com um bom momento e representa bem o que explanei a respeito de Lost Highway: os arranjos até podem ter sido influenciados pela música country, mas, essencialmente, trata-se de uma canção com a marca registrada da banda.
“Summertime” confirma ainda mais minha tese e evidentemente teria lugar nos álbuns anteriores, assim como “(You Want to) Make a Memory”, tentativa frustrada de fazer jus às boas baladas de caráter mais suave gravadas pelo grupo. “Whole Lot of Leavin’” segue mantendo a mistura de country pop contemporâneo com o pop rock que o Bon Jovi já vinha fazendo com competência nos lançamentos anteriores e agrada, tal qual “We Got It Going On”, que conta com a participação da dupla country Big & Rich tanto na gravação quanto na composição, resultando em uma das músicas mais sacolejantes do disco. Apesar de nenhuma das músicas já citadas chegarem a incomodar os fãs mais compreensivos, a primeira verdadeira dose de empolgação aparece apenas na sexta faixa, a fantástica “Any Other Day”, certamente uma das melhores canções criadas pelo Bon Jovi desde o retorno com Crush, e, para mim, único verdadeiro clássico cunhado em Lost Highway, mostrando um Richie Sambora em ótima forma.
É uma pena que não seja executada ao vivo com muita frequência, pois funciona muito bem nesse formato. A seguinte, “Seat Next to You”, é mais uma balada sem a marca registrada das grandes músicas dessa estirpe cunhadas pela banda no passado, e, apesar de passar longe de ser ruim, não empolga. É possível citar, ao menos, os bons backing vocals de Hillary Lindsay, que também é coescritora da faixa. Outra que conta com uma participação especial é “Till We Ain’t Strangers Anymore”, balada que traz a cantora country pop LeAnn Rimes e certamente é a melhor canção desse gênero no disco. Mais duas do ramo das que nem fedem nem cheiram são “Everybody’s Broken”, melhorzinha, e “One Step Closer”. Boas músicas, mas pouco comparado ao que se espera do Bon Jovi. O panorama é bem melhor nas duas faixas que ainda não citei, “The Last Night” e “I Love This Town”.
A primeira lembra um tanto “I Am”, de Have a Nice Day, e, como ela, destaca-se entre o restante do track list, ficando abaixo apenas de “Any Other Day”. “I Love This Town” parece ter sido cunhada para finalizar apresentações ao vivo, dada sua possibilidade de interação com o público e até mesmo sua letra. Se em Lost Highwayo Bon Jovi teve a intenção de criar um álbum com sua marca registrada, mas salientando uma veia country contemporânea, é em “I Love This Town” que o resultado foi mais exitoso. No geral, o disco ainda agrada, mas, apesar da boa recepção comercial, pode ser citado como um deslize no âmbito musical.
Apesar de Lost Highway ter sido bem recebido, em The Circle o Bon Jovi deixou de lado quaisquer inspirações country e registrou um álbum em uma veia mais tradicional. Para aqueles que não haviam gostado muito do disco anterior, isso pareceu uma boa notícia, mas, na verdade, não é bem assim que as coisas ocorreram.
Apesar do bom início com “We Weren’t Born to Follow”, mais roqueira do que praticamente tudo o que está presente em Lost Highway, a situação degringola logo na segunda faixa, “When We Were Beautiful”, revelando o grande problema que permeia quase todo o track list de The Circle: a impressão de que o quarteto não quis ser o Bon Jovi em diversos momentos, cunhando faixas de evolução lenta e mal resolvidas, sem o impacto esperado do grupo, fator que inclui refrões grudentos, guitarras bem sacadas e, especialmente, a segurança em não ter vergonha alguma de fazer o que gosta, colocando o público sempre à frente da crítica. ‘When We Were Beautiful” não diz onde quer chegar e soa mais preocupada em agradar fãs de Coldplay (!) do que qualquer outra coisa.
“Work For the Working Man”, cuja linha de baixo remete a “Livin’ on a Prayer”, melhora um pouco a situação e deixa bem explícito o tom mais político do álbum, no qual diversas letras abordam a situação da economia norte-americana na época de sua concepção. “Superman Tonight”, apesar de ter um bom refrão, sofre do mesmo mal de “When We Were Beautiful”: dá a impressão de nunca chegar onde deseja, carecendo daquele momento que faz com que a intenção de balançar os punhos no ar seja inevitável. “Bullet” soa na mesma linha das canções mais modernas cunhadas desde Bounce, mas, apesar de um bom solo de Sambora, não consegue muito destaque, assim como “Thorn in My Side”, que não chama a atenção, apesar de também não desagradar.
“Live Before You Die” e “Fast Cars” são as tentativas mais próximas do Bon Jovi em executar baladas, mas certamente passam longe das ótimas canções registradas nesse formato em épocas anteriores, tanto em qualidade como na acepção clássica de uma power ballad. Apesar disso, “Live Before You Die” é uma boa música, certamente a melhor entre as duas. Os momentos realmente empolgantes presentes em The Circle ocupam as faixas 8 e 9 do track list e resumem-se a “Brokenpromiseland” e “Love’s the Only Rule”, únicas canções que provocam o ímpeto de selecionar o botão repeat dos aparelhos de som e que merecem continuar sendo tocadas em turnês posteriores à que promoveu o álbum. Ao contrário das anteriores, essas canções não cometem o erro de não buscar um clímax, satisfazendo aqueles que esperavam sim, um disco de rock atual, mas com a marca registrada do Bon Jovi.
Infelizmente, as duas músicas restantes não mantêm o nível elevado, apesar de, como o restante, não chegarem a agredir os ouvidos dos fãs tolerantes, que é meu caso. “Happy Now” tem mais cara de U2 do que de Bon Jovi (o que não é necessariamente ruim), e “Learn to Love” fecha The Circle de maneira semiacústica, morna como quase todo o track list. Em 2010, o quarteto lançou mais uma coletânea, simplesmente intitulada Greatest Hits, que, além de trazer os óbvios sucessos, inclui duas novas músicas, a balada “What Do You Got” e a pouco memorável “No Apologies”, que encontraria lugar facilmente em The Circle. Também foi lançada uma versão dupla, que contou com mais algumas favoritas dos fãs e trouxe duas novas canções, “This Is Love This Is Life” e “The More Things Change”, pouco dignas de menção.
Esse álbum foi precedido por mais um disco solo de Richie Sambora, o surpreendente Aftermath of the Lowdown (2012), cujas primeiras audições foram decepcionantes, mas, com o tempo e a compreensão da proposta, transformou-se em um pequeno destaque no ano em que foi lançado, especialmente devido à excelente “Seven Years Gone”.
Quanto a What About Now, a impressão que tive a respeito disco é a de que, em comparação com The Circle, as músicas estão, em geral, melhor resolvidas, não parecendo em eterna busca por um clímax que nunca acontece. A abertura e primeiro single, “Because We Can”, assusta negativamente, trazendo um Bon Jovi muito explicitamente pop e se esforçando demais por soar grudento, mas esquecendo de caprichar melhor na composição e nos arranjos. “I’m With You” desfaz a má impressão e soa em conjunção com o lado mais adulto e socialmente consciente aflorado no álbum anterior, assim como a faixa-título, que não ficaria deslocada em The Circle.
A seguinte, “Pictures of You”, fica devendo em relação às duas predecessoras, assim como a arrastada “Amen”, que soa como uma tentativa (frustrada) de Jon criar sua própria “Hallelujah”, clássico de Leonard Cohen seguidamente executado ao vivo pela banda. O nível se eleva com “That’s What the Water Made Me”, que tem uma introdução de bateria que remete a “Just Older” e soa como uma mistura entre o lado mais otimista de Have a Nice Day e a instrumentação de The Circle, constituindo um destaque no track list. A agradável “What’s Left of Me” tem a cara de Lost Highway e arranjos que caberiam nesse álbum, enquanto “Army of One” comete o mesmo erro de várias músicas presentes no predecessor de What About Now: não chegar a lugar algum, constituindo uma eterna progressão que não empolga em nenhum momento.
“Thick as Thieves” explicita o fato de que o Bon Jovi perdeu a mão para cunhar baladas memoráveis, soando inofensiva apesar dos interessantes arranjos de cordas e do bom solo de Sambora. “Beautiful World” vem em uma linha semelhante a “That’s What the Water Made Me”, mas não mantém o mesmo nível de qualidade, questão que não é auxiliada por “Room at the End of the World”, mais uma fadada a ser pouco lembrada pelos fãs em questão de pouco tempo. O track list original encerra-se com a acústica “The Fighter”, boa canção, mas que evidencia como poucas o desejo latente de Jon Bon Jovi em ser levado a sério como artista, afastando-se um pouco dos hinos perfeitos para serem entoados em estádios e arenas lotados.
Posso afirmar que What About Now está em um patamar semelhante ao de The Circle, fato que é negativo e o coloca em posição pouco privilegiada em relação a lançamentos anteriores, especialmente àqueles registrados entre 1986 e 1995. Além disso, o novo disco soa em busca de identidade própria, remetendo a álbuns anteriores mas não estabelecendo uma linha de trabalho bem definida. Em breve, estaremos publicando a terceira, e última parte, dessa matéria onde comentaremos a saída de Richie Sambora e os trabalhos lançados após sua saída.
Continuamos com o melhor do rock peruano e seguimos a discografia do Actitud Modulada, agora com seu segundo álbum completo. Retornamos ao...