quarta-feira, 31 de maio de 2023

A árvore genealógica de Guthrie

A história da música folk está repleta de famílias musicalmente talentosas, mas poucas mantiveram um controle tão firme sobre um certo estilo narrativo de composição como a Família Guthrie. Enquanto Woody Guthrie continua sendo um dos antepassados ​​mais inovadores e pioneiros da arte, aqueles que vieram antes e depois dele contribuíram para o cancioneiro americano de maneiras duradouras e arrebatadoras. Saiba mais sobre a família Guthrie - de Jack Guthrie até Sarah Lee e Cathy - com este breve perfil e árvore genealógica.

Jack Guthrie (1915-1948)

Jack Guthrie - Colinas de Oklahoma

Registros da Família do Urso

Jack Guthrie (nascido Leon Jerry Guthrie) era primo de Woody e uma das primeiras pessoas com quem Woody explorou a música. Jack cresceu tocando violão e violino e tinha um profundo fascínio pelo estilo de vida do caubói. Quando era adolescente, Jack e sua família se mudaram para a Califórnia, onde ele começou a modelar sua persona musical após o grande Jimmie Rodgers . Ele começou a praticar seu yodeling e imaginou um futuro como um dos cowboys cantores de Hollywood (na verdade, ele competiu em uma cavalgada por um feitiço). Ele e Woody se apresentaram no rádio como Oke & Woody Show, mas os interesses de Woody não eram os mesmos de Jack e eles se separaram. Ele se juntou ao Exército e se apresentou em outros lugares, e acabou morrendo de tuberculose em 1948.

Woody Guthrie (1912-1967)

guthrie amadeirado

Al Aumuller/Wikimedia Commons/Domínio público

Woody Guthrie foi um dos cantores folk mais viajados e elogiados de seu tempo e continua a ser um dos artistas mais influentes da história do ofício. Nascido em Oklahoma em julho de 1912, Guthrie tentou várias atividades - adivinhação entre elas - antes de dedicar sua vida à arte de compor e contar histórias. Primeiro com uma espécie de banda familiar conhecida como Corn Cobb Trio, depois como um trovador itinerante que abriu caminho cantando em salões sindicais para multidões subversivas, Guthrie rapidamente se tornou um queridinho da cena musical folk de Nova York. Sua influência sobre Bob Dylan o levou ao status de padrinho do movimento "revivalista" em meados dos anos 1950 e 1960 e manteve sua música relevante todos esses anos.

Arlo Guthrie (1947-)

Arlo Guthrie se apresenta no Teatro Saban

Scott Dudelson/Getty Images

Arlo Guthrie nasceu em Coney Island, NY, em 1947, o filho mais velho do casamento de Woody com a dançarina de Martha Graham , Marjorie Mazia. Crescendo em uma casa onde Woody já era uma figura seminal de um crescente movimento de música folclórica popular em Nova York, Arlo foi exposto desde cedo a pessoas como Pete Seeger e Ramblin 'Jack Elliott, que decidiram idolatrar seu pai. Suas primeiras influências musicais também incluíram cantores folk radicais como Lee Hays, Leadbelly e outros, e não demorou muito para que ele tocasse violão e gaita como seu pai. Ele se apresentou pela primeira vez em 1960 aos 13 anos e não parou desde então.

Cathy Guthrie

Folk Uke tocando no Portland Hempstalk Festival

 D. Paul Stanford/Wikimedia Commons/Domínio público

Cathy Guthrie é outra das filhas de Arlo e uma autodescrita "resistência musical" entre os membros de sua família. Reconhecendo o ímpeto musical perpetrado por sua linhagem familiar, no entanto, ela acabou unindo forças com sua amiga Amy Nelson (filha de Willie) para formar uma dupla folk de guitarra e ukulele chamada Folk Uke. Juntos, ela e Nelson apresentam canções tão erradas que dão certo sobre coisas difíceis como mágoa, solidão e abuso. Não para os facilmente ofendidos, mas perversamente divertido para aqueles que não são.

Abe Guthrie

Abe Guthrie

Xavier

Abe Guthrie é filho de Arlo Guthrie e neto de Woody, cujo interesse e habilidade pela música começaram cedo. De acordo com sua biografia oficial, ele trocou um chute da vizinhança por um teclado quando tinha apenas três anos de idade. Na adolescência, ele trabalhava para David Bromberg como técnico de guitarra. Logo depois, ele começou a tocar na banda de apoio de Arlo como tecladista. Mas foi como tecladista da banda de rock dos anos 80 Xavier que ele realmente abriu suas asas, usando o instrumento para cobrir grande parte da seção rítmica. Mas, apesar de seu envolvimento com Xavier (que finalmente lançou seu primeiro álbum em 2000 pela Rising Son Records - a gravadora de seu pai), Abe faz turnês com Arlo e ocupou o cargo de produtor em outros álbuns de família.

Sarah Lee Guthrie (1979-)

Sarah Lee Guthrie se apresenta no Saban Theatre

Scott Dudelson/Getty Images

Sarah Lee Guthrie nasceu em Massachusettes em 1979 e é a filha mais nova de Arlo Guthrie. Embora soubesse desde cedo que havia herdado uma história familiar de música, Sarah Lee cresceu mais atraída pelo teatro e pela dança. Foi só quando ela assumiu o cargo de gerente de turnê de seu pai (quando ela tinha 18 anos) que ela desenvolveu um interesse em tocar música. Logo depois, ela se juntou a Johnny Irion (cujo irmão do avô era John Steinbeck ) e Tao Rodriguez-Seeger (neto de Pete) para formar um trio chamado RIG. Não foi até 2002, porém, que Guthrie lançou seu primeiro álbum solo, depois lançando uma série de álbuns em dupla com seu marido, Irion (começando com Entirely Live em 2004). A dupla lançou seis álbuns juntos.



Alanis Morissette, zangada e lúcida ao mesmo tempo?

 

“Do I stress you out”, canta Alanis em “All I really want”, no primeiro verso do seu álbum de 1995 todo platinado, um tal de Jagged Little Pill. O seu sentimento não é de raiva, ao contrário das inúmeras reviews que empurraram aquelas 12 ricas e complexas músicas para o reino do “ai que rainhas do drama”.

Reino fabuloso e mentiroso, esse. Ao contrário, Alanis provoca com discrição, com um travozito de ‘sacanice’, leve o suficiente que quase parece tímido e um bocadinho… ironic.

Quase parecia uma pergunta retórica. Afinal, Alanis Nadine Morissette (sempre tive esta dúvida dos dois Rs e Ss, algo incomum num nome real que também é de palco), então com 21 anos e que tinha andado pelos top of the pops lá da terrinha (Canadá), sabia perfeitamente que irritava quase toda a gente – no sentido em que as mulheres que andam de peito feito e confiantes sabem que… “irritam” (absurdo escrever isto hoje; era soup du jour em 1995).

Para as moças que já tinham tentado partir mercado no rock macho-cêntrico e, especificamente, no rejuvenescido (again… era uma vez em 1995) mercado do grunge, Alanis era uma diletante que cumpria este papel, rotulado de ‘infantil’ por osmose… para o mundo pop mais não era do que uma idiossincrasia, destilável num modelo básico de ninfomania, irracionalidade e bruxaria. Para muitos imbecis que por aí andam ela tinha demasiado sucesso para ser, sequer, boa. No sentido de boa artista musical, não levar para o campo botânico-javardolas se faz favor.

A ‘porrada’ que ela levou foi apenas natural, apesar de malta como Tori AmosSarah McLachlan Sheryl Crow (acrescentaria aqui p.e. No Doubt Hole, mais ou menos da mesma altura) já tivessem percorrido o caminho das compositoras femininas no panorama pop dos anos 90. Cada uma tinha que lutar uma e outra vez nas batalhas que não existiam para os homens, e, como umas vendiam e tocavam mais que outras, Alanis era a menos menos da minoria neste mini-campeonato de ‘Achas que sabes tocar e cantar rock sendo Moça’.

“Ouvir o novo album de Alanis é como ouvir a tua mana a insultar-te pela primeira vez”, escrevia o jornal local The Ottawa Citizen, no mesmo tom paternalista tão típico da maior parte das ‘resenhas’ que ela recebeu. Porque Alanis era nova e mulher, qualquer hipótese de ser levada a sério já era próxima de zero; porque a sua voz era um misto de nervos de fim de relação e ela cantava (muitas vezes com uma seriedade irrepreensível) cenas que ela tinha experienciado enquanto adolescente o que… a condenou, basicamente.

Mas Alanis sempre soube – misteriosamente, enquanto escrevia o álbum – exactamente o tipo de feedback que receberia. O seu dom de observação, que usou para processar todas as experiências traumáticas e irresponsáveis que viu enquanto ‘pita’ (usando linguagem dos anos 90, vá) que rapidamente passou a ser tratada como mulher, foi extremamente incisivo.

O que significa que, 25 anos depois, resta pouco para dizer sobre a forma como os críticos receberam Jagged. Não há nada que eles tenham dito que não seja cantado em Jagged.

“You must wonder why I’m relentless and all strung out”, ela diz, também em All I Really Want – antevendo-se aos olhos de outros depois de transformar-se no ouvinte: “I like to reel it in and then spit it out/ I’m frustrated by your apathy.” Este manifesto acaba com o pedido de justiça, pontuado por gemidos. É um pedido, um grito, que ela quis que fosse distante, paranóico e angustiante – tudo ao mesmo tempo – e a malta só tinha de comer e calar.

“I confessed my darkest deeds to an envious man / My brothers never went blind for what they did / But I may as well have,” ela canta em Forgiven, uma chanson sobre como é crescer com educação Católica, mas uma que poderia facilmente ser sobre o cliché de falar sobre sexo nas músicas de compositoras femininas.

Ela não cegou mas depois do monstruoso sucesso de You Oughta KnowAlanis foi catalogada como… ‘pega’ por causa de “Is she perverted like me / Would she go down on you in a theater?”, o que é manifestamente absurdo, típico e, se ninguém pensou/passou por estes lados na adolescência (anos 90 incluídos, mas não só) então que vá ouvir mas é André Indiana ou o raio que o/a parta…

“I don’t want to be adored for what I merely represent to you”, ela exclama em Not the Doctor, induzindo uma adoração sincera e discreta de outro chavão, esse universal e não sazonal, o das “mulheres de armas”.

Mesmo assim, apesar de Alanis ter previsto a porrada que ia levar, ela continuou a partir pedra. O sexismo, a injustiça e o ressentimento que provocou através de versos tão catchy quanto peculiares revelaram-se: era inevitável.

Só que consta que a dor verdadeira e a honestidade encontraram a sua audiência (dois anos mais tarde, em Portugal, sairia um dos álbums ‘pedra no charco’ do nosso portugalete, um tal de Cão, de uns gajos lá de cima, que alinhava também por esta cena mais íntima e tal) e foi um êxito explosivo, quase sem paralelo, que mostrou imensas mulheres que, tal como Nadine, sabiam bem como é que o mundo olhava para elas. E as menosprezava. Mulheres que, quando confrontadas com várias formas de estarem ‘erradas’, respondiam com um leque de sinceridade e vulnerabilidade – mesmo que isso as tornasse patetas.

Parafraseando a colunista Heather Havrilesky, “zangada é um nome que os homens maus chamam às mulheres que não os veem bem”. Talvez Alanis fosse ‘ressabiada’ mas o que ela queria era lucidez, o que foi determinante na forma dela ligar-se, intimamente, a milhões de pessoas.

Segue Alanis, primeira pessoa: “Acho que o que aconteceu foi que, sem saber, enquanto escrevia sobre a minha experiência, permiti que os ouvintes tivessem a sua [experiência], sem ter que pedir desculpas por nada, sem raiva ou tristeza ou depressão ou cenas mentais ou o que quer que seja”, disse a cantautora numa aparição pública recente, “acho que disse apenas… hei, não há problema nenhum em sermos humanos”.

Aqui devolvemos Alanis, num registo de paródia, uns anos mais tarde num filme de Kevin Smith. Humana ou deusa?…

 


O que eu acho de Jagged:

Um álbum do caraças, ponto final.

   

O que eu acho de Supposed:

Igualmente. Digam o que quiserem. É o Jagged ao contrário, menos ironicAlanis tinha 25 anos quando isto saiu e a maturidade musical que levam algumas letras aqui é… de loucos. Stuff of collection!

O que eu acho dos hits:

Ironic, 4 (pizza para rádio; fixe mas enjoa depois de ouvires a 251ª vez)

All I Really Want, 4 (excessivamente 90s!)

No Pressure Over Cappuccino, 4.5 (um lado B que só mais tarde se deixou ouvir: puro, genuíno, tenso = Alanis vintage!)

You Oughta Know, 5 (é talvez a melhor expressão dela… toda a escola vocal, yodels e cenas, tudo aqui, partido nas letras que Natalie analisa lá atrás; não é a minha preferida mas anda lá perto!)

Head Over Heels, 4 (fixe mas há melhor)

That I Would Be Good, 5 (é tirar Bass e acrescentar Sorrow a Jagged; se Jagged foi overrated, este álbum levou cacetada porque todos queriam ir à party da menina e ela só lá tinha… facas e corda; agora Entendam a referência a Ornatos, que tão bem equilibrava fanfarronice com conversas profundas)

Baba, 5 (How much will this cost, guru /
“How much longer ’til you completely absolve me?”, entre outros versos, aqueles Ave Marias no fim… estrondosa música plena de significado e surpreendentemente actual; nota-se bem Glen Ballard, nos arranjos todos, a pintura perfeita para a caneta de Nadine).

Thank U, 4 (pizza radiofónica só que Marinara: falta-lhe a piadinha de Ironic mas fora isso tem tudo, incluindo um videoclip de puta madre, no?)

Em Portugal, teríamos em 97 o relâmpago de Ornatos e um ano depois Silence 4.

Mais ou menos equivalente a termos uma Alanis.

E depois André Indiana ou Paulo Gonzo ou o raio que os partam.

*o autor do texto original tem as suas opiniões, que não as mesmas do tradutor e revisor, em algumas frases e orações e cenas

*o autor Deste texto recusa-se a traçar um paralelo emocional entre Alanis e Ornatos e já se foi enforcar entretanto…

Saiamos ao som de Nadine

“The moment I let go of it was the moment
I got more than I could handle
The moment I jumped off of it
Was the moment I touched down”

(Thank U, de 1998)

 

ROCK ART


 

Debut Hard-Boiled Asylum de Warren Zevon: Rock Noir

 

Vinte anos após sua morte, o legado de Warren Zevon ainda é dominado por Excitable Boy, de 1978 , impulsionado à platina por “Werewolves of London”, a absurda mashup monstruosa que colocou seu piano forte contra a seção rítmica pomposa de Fleetwood Mac. Não há como discutir com o ataque esguio e faminto desse álbum, mas uma pesquisa mais detalhada das quatro décadas de carreira do californiano nascido em Chicago sugere que seu antecessor, sua estreia na gravadora Asylum, oferece um retrato mais revelador. Esse LP autointitulado de 1976 compartilha o humor negro e o rock de força bruta de sua sequência, mas, no geral, é musicalmente e tematicamente mais variado e ambicioso, reforçado pela ênfase do produtor Jackson Browne nas músicas e letras mais letradas de Zevon.

A música tinha sido o refúgio adolescente de Zevon de uma família disfuncional enquanto ele viajava entre Fresno e Los Angeles. Uma imersão inicial na música clássica foi fortalecida por encontros com seu ídolo, Igor Stravinsky. No primeiro ano na Fairfax High de Hollywood, ele estava conquistando seus primeiros créditos como compositor, lançando singles como a metade principal da presciente dupla pop psicodélica lyme e cybelle (cortesia minúscula de ee cummings) em 1966. Desistindo para uma estada na cidade de Nova York como cantor folk, ele seguiu com o esquecido Wanted Dead or Alive de 1970 antes de encontrar tração como tecladista e líder de banda para os Everly Brothers enquanto criava seu próprio catálogo de canções originais.

Em meados de fevereiro de 1975, a frustração com sua carreira solo paralisada levou Zevon e sua esposa, Crystal, a jogar a toalha. Fugindo no final de maio para a vila costeira espanhola de Sitges e o Dubliner Bar, Zevon tocou solo para clientes até que um cartão postal de Jackson Browne no meio do verão acenou com um contrato de gravação da Asylum. A oferta de Browne foi prematura, com o chefe da gravadora David Geffen inicialmente cético, mas Browne prevaleceu e se tornou produtor quando os Zevons retornaram a Los Angeles em setembro. Browne montou um elenco de estúdio que incluiria vários Eagles e Beach Boys, os colegas de selo do Asylum, JD Souther e Ned Doheny, e Bonnie Raitt, entre outros.

Um ano depois: Jackson Browne, Waddy Wachtel e Warren Zevon, janeiro de 1977 (Foto © Henry Diltz; usado com permissão)

Zevon alavancou seus laços com os Everly Brothers juntos e separados, tendo estado no palco por sua infame separação de 1973 em Knott's Berry Farm. Convocado por Zevon para os Everlys, o guitarrista Waddy Wachtel ancoraria as sessões solo de Zevon ao lado do braço direito de Browne, David Lindley. Outro ex-aluno do Everly recrutado para a banda de Don Everly, Lindsey Buckingham, apareceu com seu parceiro Stevie Nicks, agora o novo casal poderoso do Fleetwood Mac.

Rastreando na Elektra Records e Sunset Sound, Zevon extraiu de um acúmulo sólido de material. Baladas narrativas, canções de amor cansadas do mundo, roqueiros excêntricos e confissões de olhos secos formaram um ciclo de canções solto, mas coerente, ambientado em uma Los Angeles mais sombria e perigosa do que as vistas tranquilas e fáceis de seus colegas de gravadora. Um leitor ávido e autodidata, Zevon extraiu a coragem temática dos romances fervidos de Ross Macdonald e da arrogância gonzo de Hunter S. Thompson.

“Frank and Jesse James” sinaliza as proezas de Zevon como contador de histórias e arranjador por meio de uma fusão magistral de narrativa folk e pop de câmara. Um motivo de piano de abertura imponente e o intrincado arranjo de teclado que se segue evocam Stephen Foster e Aaron Copland enquanto ele oferece uma recontagem concisa do mito fora da lei dos irmãos “na época em que o Ocidente era jovem”. O violino de Lindley e as figuras da guitarra elétrica de Wachtel adicionam um verniz country, com o refrão sublinhando sua cadência galopante com seu refrão de “continue cavalgando, cavalgando, cavalgando”, enquanto as harmonias vocais indeléveis de Phil Everly adicionam uma saudação explícita aos antigos empregadores de Zevon.

Zevon passa do mito popular para a história pessoal com “Mama Couldn't Be Persuaded”, uma lembrança animada do namoro tempestuoso e do casamento tumultuado de seus pais. O pai de Warren, William “Stumpy” Zevon (nascido Zivotofsky em Kiev, Ucrânia), não era apenas um jogador, mas um mafioso de baixo escalão com ligações com Sam Giancana e Mickey Cohen. Ele tinha 40 e poucos anos quando conheceu Beverly Simmons, de 21 anos, criada em uma família mórmon rígida, “que sabia o que queria e queria aquele apostador”. Com o casamento condenado pela química inflamável e o choque cultural entre sua família Fresno e seu estilo de vida rico, o divórcio levou Warren a observar secamente: "preso no meio - eu era o garoto".

Reduzindo o sentimento romântico com humor, fatalismo ou ambos, Zevon trouxe quatro canções de amor nominais para o projeto. Linda Ronstadt respondeu à melancólica “Hasten Down the Wind”, gravando-a como a faixa-título de seu sétimo álbum, o primeiro de vários covers de Zevon. A versão dela chegou três meses depois da leitura do próprio Zevon, uma das três faixas do álbum apresentando seus vívidos arranjos de cordas.

“Poor, Poor Pitiful Me” muda o tom do álbum, um roqueiro jubiloso e auto-zombeteiro que satiriza as armadilhas de seu herói contra o piano de Jai Winding e a guitarra de Waddy Wachtel. Piadas auto-referenciais (“Ela realmente mexeu comigo… assim como Jesse James…”) e checagem de nomes de Hollywood (o Sunset Strip's Rainbow Bar e o Hyatt House Hotel, então sinônimo de excesso de rock) adicionam à sua irreverência alegre. Se o domínio do coração partido de Ronstadt tornava as baladas de Zevon um ajuste fácil, seu gosto pelo rock acelerado a levaria a lançar sua própria versão de “Poor, Poor Pitiful Me” com alguns ajustes líricos sancionados.

Com “The French Inhaler”, Warren Zevon cria uma balada fervente retratando a anti-heroína danificada do título enquanto ela caminha por “esta cidade-dormitório desprezível”. A música mais sombria do álbum, sua letra oferece uma avaliação fulminante de um amante rebelde e seu ambiente compartilhado até que o cantor se volta contra si mesmo, confessando: “Então eu bebi todo o dinheiro… com esses impostores neste bar de Hollywood – esses meus amigos em este bar de Hollywood. Com seu personagem-título inspirado em um ex-amante, o bar é quase certamente o Troubadour de West Hollywood, onde Zevon, aqueles falsos e seus amigos costumavam frequentar:

“Quando as luzes se acenderam às duas horas,
tive um vislumbre de você,
e seu rosto parecia algo que
a morte trouxe com ele em sua mala,
seu lindo rosto, parecia tão perdido...”

A orquestração de Zevon traz força total ao seu retrato de devastação antes de recuar para apenas voz e piano.

A pausa segue na calma enigmática de “Mohammed's Radio”, uma meditação lenta que evoca o que Van Morrison poderia ter canalizado se tivesse o senso de humor de Zevon. “Todo mundo está inquieto e não tem para onde ir”, lamenta Zevon ao apresentar um elenco de personagens lutando com seus fardos cotidianos, o refrão perguntando: “Isso não faz você querer rock and roll a noite toda.” As harmonias vocais de Buckingham e Nicks aquecem seu devaneio “doce e cheio de alma”, sublinhado pelo sax tenor de Bobby Keys.

Inspirada por um Halloween surreal que Zevon passou em Aspen, a música forneceria a Ronstadt outro afastamento ousado do material mais popular.

Zevon flexiona o músculo brutal do rock em “I'll Sleep When I'm Dead”, impulsionado por um piano britadeira e uma guitarra ameaçadora e farpada. “Estou bebendo óleo de motor de partir o coração e gim Bombay”, gaba-se Zevon, “direto da garrafa, torcido de novo”, encontrando uma piada por trás de um problema que ele estava começando a reconhecer, se não confrontar.

Coberta quatro anos antes pelo cantor e compositor canadense Murray McLauchlan, “Carmelita” estende o vício como tema em sua serenata por uma cantora “toda viciada em heroína na periferia da cidade”. A guitarra espanhola decora uma trajetória de Ensenada ao Echo Park de Los Angeles, onde Zevon encontra seu homem “na Alvarado Street perto do estande da Pioneer Chicken”, sugerindo um aceno sonoro para “El Paso” de Marty Robbins que sustenta o tom tragicômico da música em um fio de navalha entre o pathos e a diversão irônica.

O final do álbum fecha o círculo de Warren Zevon com o motivo instrumental reflexivo que abriu o álbum como uma introdução a “Frank and Jesse James”, transposto aqui do piano para as cordas e para o efeito cinematográfico. “Desperados Under the Eaves” é a obra-prima do álbum, um hino existencial que celebra e ridiculariza a própria Hollywood ao capturar Zevon em um momento escondido. O verso encontra seu cantor preso no Hollywood Hawaiian Hotel enquanto ele olha para sua xícara de café, de ressaca, sem dinheiro:

“E se a Califórnia afundar no oceano,
como dizem os místicos e as estatísticas,
prevejo que este hotel ficará de pé até eu pagar minha conta…”

O arranjo de cordas de Zevon aumenta sob um dossel de exuberantes harmonias vocais, sua proveniência dos Beach Boys certificada pelo arranjo de Carl Wilson para os “Gentlemen Boys”, com Carl e Billy Hinsche se juntando a Browne, Wachtel e outros convidados da sessão em um coral de fundo que culmina com chamadas para “Olhe para baixo na Gower Avenue”, uma rua de Hollywood que atravessava um aglomerado de estúdios de cinema da cidade em seu apogeu de celulóide, agora desaparecendo nos anos 70.

Lançado em 18 de maio de 1976, Warren Zevon foi um sucesso de crítica, mas um vendedor modesto, chegando ao 189º lugar na parada de álbuns dos Estados Unidos. Mais tarde, Browne admitiria que tanto "Werewolves of London" (que o próprio Browne sabia que era um sucesso depois de tocá-lo em seus sets ao vivo) quanto "Roland the Headless Thompson Gunner" (escrito com o proprietário do Zevon's Dubliner Bar David Lindell) foram considerados, mas retidos para dar destaque material mais letrado de Zevon.

A orientação de Browne pode ter prejudicado o álbum comercialmente, mas como lançado, Warren Zevon ainda oferece uma seção transversal mais rica e matizada de seu trabalho. Faixa por faixa, ela permanece mais consistente, embora menos explosiva, do que Excitable Boy , que combinaria seu ataque de conjunto com uma guitarra mais pesada, cortesia de Wachtel, elevado a co-produtor ao lado de Browne.

[Depois de ser elegível por décadas, Zevon foi finalmente nomeado para a indução na Classe de 2023 do Hall da Fama do Rock & Roll . Os eleitores acabaram se recusando a selecioná-lo.]

Vídeos bônus

 Assista Zevon tocar “Poor, Poor Pitiful Me” ao vivo em 1980

Assista Linda Ronstadt tocar “Hasten Down the Wind” de Zevon em 1976

Destaque

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