quarta-feira, 10 de julho de 2024

Chico Cesar, Blanca e Rojobarcelo - Belezas Pra Nós (2024)

 

"Belezas pra nós” é o nome do novo álbum do Chico César. O trabalho é fruto da união do cantor e compositor paraibano com o duo argentino formado pela cantora Rojobarcelo e o pianista e baterista Esteban Blanca.

Essa reunião aconteceu durante os quatro meses que os artistas permaneceram confinados no Uruguai em 2020 por conta do isolamento social imposto pela pandemia de covid-19.

Faixas do álbum:
01. É preciso navegar
02. ⁠I don't say goodbye
03. Primavera Nasce
04. Longe do Rio
05. Lo que tengo hoy
06. Belezas pra nós
07. I'm The Wolf
08. Estado de Poesía
09. Vive Livre
10. Entrando a La Juanita
11. Tamo en la Juanita
12. El Reino de Urón




Review: Stereo Nasty – Nasty by Nature (2015)

 


Natural da Irlanda, este quarteto vem ganhando força entre os fãs de metal tradicional com acentuado sabor oitentista. O Stereo Nasty conta com Mick Mahon (vocal), Adrian Foley (guitarra), Rud Holohan (baixo) e Fran Moran (bateria), e apesar de ser uma banda relativamente nova, não traz nenhum elemento contemporâneo em sua sonoridade. O negócio aqui é o metal dos anos 1980, tanto musical quanto esteticamente.

Nasty by Nature, estreia dos caras, saiu lá fora em 2015 e acaba de chegar ao Brasil pelas mãos sempre competentes da Hellion Records. O disco traz dez músicas feitas com um único objetivo: trazer de volta a aura da década mais clássica do metal. Isso se dá tanto pela estrutura das canções quanto pela própria produção do álbum, que soa propositalmente datado e com timbres cortantes que espetam os ouvidos.

Evidentemente, um grupo com uma proposta tão saudosista como o Stereo Nasty não tem a originalidade entre as suas maiores prioridades. Apesar disso, os caras sabem como fazer boas e divertidas músicas. As referências passam por bandas como Saxon, Accept e outros ícones dos anos 1980, e o quarteto acaba ganhando o ouvinte pelo bom trabalho de composição e por compartilhar referências em comum com quem está aqui do outro lado. Em suma: os heróis, tanto dos músicos quanto dos fãs, são os mesmos.

Não há muito requinte instrumental na proposta da banda, porém esse aspecto não compromete em nada o trabalho. A energia, paixão e autenticidade que sai das caixas de som é tamanha que compensa esse detalhe.

Entre as músicas, destaque para a abertura bem cartas na mesa de “Black Widow” (apresentando as credenciais e a proposta da banda sem meias palavras), os ecos de NWOBHM em “Holy Terror”, a germânica “Interstellar”, o riff clássico de “Death Machine” (que logo se transforma em um speed metal empolgante e em uma das melhores músicas do disco), “Under Her Spell”, a ótima “The Warriors” e o encerramento com a cativante “Demon Halo”.

Um lançamento certeiro da Hellion e que tem tudo para cair no gosto do fã brasileiro de metal, tradicionalmente saudosista e avesso às sonoridades mais atuais e modernas do som pesado.



Review: Paul McCartney – Ram (1971)

 


Quando um relacionamento acaba muita coisa vem à tona, e o mesmo acontece quando uma banda encerra as suas atividades ou muda de formação. Agora, imagine o que acontece quando uma banda que era praticamente uma família desmorona. Foi isso o que aconteceu com os Beatles.

John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr viveram juntos durante praticamente toda a década de 1960, do suado início até o sucesso e super estrelato, passando por muitas loucuras juntos, para bem e para o mal. Quando a banda acabou, uma série de rancores ganhou a luz do dia, resultando em acusações diretas e indiretas além de uma longa batalha nos tribunais pelos direitos do legado do grupo.

A ruptura mais visível aconteceu entre Lennon e McCartney, responsáveis pela maioria esmagadora das composições e ideias de discos, filmes e tudo mais. Quando Paul gravou o álbum Ram, a quantidade de alfinetadas do baixista destinadas a Lennon e sua esposa Yoko Ono foram tantas que acabaram ajudando na promoção do disco e despertando a ira do ex-companheiro, que deu a resposta com o álbum Imagine (1971), que veremos mais adiante. “Dear Boy”, “Too Many People”, “The Back Seat of My Car”: você pode escolher qual provocação quer escutar.

Ram é o segundo álbum de Paul e o primeiro e único creditado a ele e sua esposa Linda, nos mesmos moldes que Lennon e Yoko faziam - aliás, seis canções (“Dear Boy”, “Uncle Albert/Admiral Halsey”,” Heart of the Country”, “Monkberry Moon Delight”, “Eat at Home” e “Long Haired Lady”) tiveram Linda nos créditos ao lado do esposo.

As provocações a John e Yoko já começam na arte do disco. Enquanto na parte da frente da capa Paul segura os chifres de um carneiro (animal que dá o nome ao álbum em uma clara referência à fazenda do artista na Escócia, onde as músicas nasceram), na parte de trás existe uma foto com dois besouros (“Beatles”) tendo relações. Se Lennon já ficou bem furioso com esta foto, imagine então o momento em que ele escutou o LP pra valer.

A
 bolacha já começa com a primeira provocação, “Too Many People”, que aparentemente desce a lenha em pessoas que tentam fazer alguma lavagem cerebral ou doutrinação nas demais. McCartney declarou mais tarde que Lennon estava em uma espécie de pregação constante, motivando a letra da canção, que em um trecho com tradução livre ficaria desta maneira:

“Muita gente está esperando por uma boa oportunidade
Esse foi o seu primeiro erro
Você pegou a sua oportunidade a partiu ao meio
E agora, o que pode ser feito por você?”

Musicalmente é uma faixa agradável, cheia de entusiasmo e com passagens bem animadas com uma clara pegada Beatle - e não era para menos, pois, McCartney era um dos responsáveis pelo som do Fab Four - com solos de guitarra de Hugh McCracken, precisos, curtos e despretensiosos.  Uma boa abertura com a cara de Sir Paul, sem dúvida alguma.


Já em “3 Legs”, Paul deixa as ofensas de lado em um blues simples que funciona muito bem e tem um refrão grudento, enquanto “Ram On” é uma deliciosa composição, uma homenagem escondida aos  Beach Boys (antigos “rivais” dos Beatles nos anos 1960) guiada por um ukelele  melódico e agradável de se ouvir (influência de George Harrison?) e que vai evoluindo no decorrer da música, com direito a assovios. Bem curtinha, mas marcante.

O disco ganha cores com “Dear Boy”, com camadas de vocais entrelaçados no melhor estilo Beatles (novamente) e harmonia impecável guiada pelo piano. A música, um dos destaques do álbum, foi descrita pelo próprio Paul como um relato sobre o primeiro casamento de Linda, porém, Lennon tinha certeza absolutas de que esta canção era mais uma provocação direta. Mesmo com Macca negando, a letra deixa interpretações duvidosas:

“Espero que nunca saibas, querido rapaz
O quanto você perdeu
E mesmo quando você se apaixona, querido rapaz
Não será tão bom como este
Espero que você nunca saiba o quanto você perdeu”

E você, o que acha?

Dando continuidade chegamos a “Uncle Albert / Admiral Halsey”. Que música fantástica, com a pegada McCartney em todos os detalhes: efeitos de chuva, orquestração impecável da Orquestra Filarmônica de Nova York, uma melodia que muda completamente do nada de andamento e linhas vocais que só Paul poderia imaginar. Vale dar uma olhada no clipe divertido disponível lá no YouTube.

“Smile Away” tem um clima mais rock and roll raiz, com direito a vocais acompanhando a música toda e uma guitarra calcada nos anos 1950. Se para muitos Paul ainda não havia encontrado o seu som definitivo pós-Beatles, “Smile Away” consegue manter o clima alto com uma pegada impressionantemente animadora. “Heart of the Country” é uma linda canção acústica, um dos pontos altos do disco e que remete muito às composições de Paul nos tempos do famoso duplo White Album, de 1968.

“Monkberry Moon Delight” traz um Macca cantando de maneira rasgada em uma faixa intensa e com diversos elementos interessantes, enquanto “Eat at Home” tem uma melodia pegajosa bem simples e que, apesar do grande sucesso na época, soa um pouco abaixo do restante do disco - mas como mencionei anteriormente, McCartney ainda estava em busca de uma identidade neste início da década, e que só encontraria em 1973 com o clássico Band on the Run. A mesma situação acontece com “Long Haired Lady”, uma canção que apenas complementa o disco e não acrescenta muito musicalmente ao trabalho. Aliás, “Long Haired Lady” poderia ter sido substituída tranquilamente por “Another Day”, um grande sucesso e de qualidade bem superior lançada como single na mesma época e que acabou entrando anos depois nas versões do álbum como bônus. Concorda comigo?


Para a reta final surge do nada “Ram On” em uma reprise bem rapidinha (deslocada, diga-se) antes de dar passagem para um dos pontos altos, “The Back Seat of My Car”, que fecha o trabalho. Na letra, Paul diz “acreditamos que não podemos estar errados”, e esse trecho foi compreendido por John como uma provocação novamente. Lennon, aliás, encontrou diversas outras alfinetadas diretas, mas vamos ficar com estas três que citei por serem as mais evidentes, tudo bem? Provocações deixadas de lado, a música é extremamente emotiva com lindas orquestrações (novamente cortesia da New York Philharmonic) e passagens de sopros que dão um clima erudito ao estilo pop da composição. 





Review: Paladin – Ascension (2019)



Ascension, disco de estreia da banda norte-americana Paladin, foi lançado em meados de maio. E se você é fã de heavy metal, é bom dar uma parada e conferir o trabalho do quarteto formado por Taylor Washington (vocal e guitarra), Alex Parra (guitarra), Ian Flürrance (vocal e baixo) e Nathan McKinney (bateria).

O motivo para isso é simples. A banda pega características do que de melhor o metal produziu nas últimas décadas – elementos da NWOBHM, a melodia do power metal e a rifferama do thrash, além da energia, agressividade e peso inerentes ao próprio gênero -, coloca tudo em um mesmo caldeirão e sai com uma sonoridade cativante, cheia de personalidade e com potencial para conquistar legiões de fãs.

Ascension é apenas o primeiro disco dos caras, traz onze músicas espalhadas por cinquenta minutos e é desde já um dos grandes eventos do universo do metal em 2019. A voz de Washington varia entre os tons altos a la Michael Kiske e a dramaticidade de Fabio Lione – aliás, o timbre é semelhante ao do italiano. As guitarras são uma mistura muito bem desenvolvida entre a abordagem do metal melódico e do thrash metal. Os duetos de seis cordas são abundantes, as melodias transbordam, e os momentos mais pesados poderiam muito bem estar em um álbum do Exodus ou do Overkill. A cozinha bebe na exuberância técnica do power metal, com andamentos geralmente velozes e uma interação profunda entre baixo e bateria.

Há de se destacar as vozes guturais, a cargo de Flürrance, que geralmente apenas complementam o vocal principal de Washington, inserindo ainda mais agressividade ao som do Paladin. Mas, quanto assumem a linha de frente em “Bury the Light”, por exemplo, bebem fundo nos melhores momentos de nomes como Children of Bodom e o In Flames dos primeiros anos. Aliás, essa música em particular possui longas passagens instrumentais que irão levar ao delírio quem curte o lado mais clássico da New Wave of British Heavy Metal.

Do outro lado da moeda, a banda possui também uma faceta mais alinhada com os anos dourados do thrash metal da Bay Area, como “Shoot for the Sun” não se furta em mostrar. Sem exagero, trata-se uma música que poderia figurar tranquilamente em um álbum do Megadeth ou do Death Angel e não faria feio. Em certos momentos, não é estranho imaginar que o Paladin soa como se o Dream Theater, ao invés de ter sido formado em Long Island, tivesse surgido nas praias de San Francisco durante o boom do thrash.

Destaques são fartos: a empática “Divine Providence”, a proximidade com o death melódico sueco em “Carpe Diem”, o power thrash melódico de “Fall from Grace”, a ótima “Bury the Light” (a minha preferida), o megadethiana “Shoot for the Sun”, a pegada Helloween de “Vagrant” e o impressionante encerramento com “Genesis”, com mudanças de climas e lindas melodias de guitarra, única música do disco a ultrapassar a barreira dos seis minutos.

Ao final da audição de Ascension, fica a agradável sensação de ter ouvido um disco que ficará para a história. Se você é fã de metal, não deixe passar!


 

Review: Elomar - ... Das Barrancas do Rio Gavião (1972)

 


Elomar Figueira Mello gravou seu primeiro álbum aos trinta e poucos anos, em 1972, um pouco tarde para um artista, mas no tempo ideal de maturação para um cantador. Ele nunca fez questão dos palcos, pelo contrário, sempre preferiu a pacatez da sua fazenda no semiárido baiano, tangendo caprinos e compondo sob a luz das estrelas.

Este álbum é fruto desse meio, um choque reacionário pós-tropicalista. Na contramão de outros baianos que desde os anos 1960 modernizavam a música brasileira, Elomar apresenta uma cultura popular em sua essência, pois não compõe para as massas. Sua música é reflexo da vida no sertão e seus habitantes: o jagunço, o vaqueiro, o capiau e, especialmente, o violeiro que canta versos sobre todos os anteriores.

Gravado apenas com voz e violão, ... Das Barrancas do Rio Gavião traz uma coleção de cantigas, incelenças e martelos que pintam paisagens extraídas dos livros de Guimarães Rosa, um sertão cheio de vida, com costumes e dialeto próprios, sintetizando as idiossincrasias de um povo intocado pela mão modernizadora da sociedade.

Na abertura com “O Violeiro” ele passa seu recado (“Ah, pois pro cantado e violero / Só há treis coisa nesse mundo vão / Amor, furria, viola, nunca dinheiro / Viola, furria, amor, dinheiro não”):  não é cantor, é cantador.

Mas não é só. Nas próximas faixas surgem outras pérolas do seu cancioneiro. Nelas o cantador primeiro murmura tristeza e saudade, como no tema de amor fúnebre de “Incelença do Amor Retirante” e no relato do êxodo nordestino de “Retirada”, pra logo depois cantar a beleza e a alegria, como na exaltação à natureza em “Joana Flor das Alagoas”, ou na carregada de influência do trovadorismo ibérico “Cantiga do Amigo”.

...Das Barrancas do Rio Gavião é muito mais que um disco: é um manifesto de exaltação ao passado. Enquanto o Brasil dos anos 1970 seguia em direção ao futuro na constância da marcha militar, Elomar fazia o caminho contrário a passos de Conselheiro que se recusa a mudar.



The Lemon Twigs – Go To School (2018)

 

The Kinks – Are The Village Green Preservation Society (1968)


Glockenwise – Plástico (2018)

 


Apesar do título, nada na vida nova dos Glockenwise é de plástico. Não é fingido nem é descartável. É uma nova forma de estar, a cantar na língua materna, a fazer uma música mais suave, mas guardando sempre e acima de tudo a identidade já claramente definida. E este é um álbum que vamos querer mostrar aos nossos netos.

Primeiro, chama-nos a atenção pelas letras em português. Depois notamos que a vertigem e urgência estão a começar a dar lugar a um passo mais calmo, mas firme e seguro. Depois ouvimos guitarras acústicas e saxofones, tememos que o rock tenha ficado lá atrás, mas afinal não. Somos encantados pelas melodias viciantes. Chegamos ao fim e demoramos algum tempo a perceber o que nos aconteceu. Mas rapidamente damos conta que este é um grandioso disco, um excelente álbum de rock sem medo de ser pop.

É o quarto disco de estúdio dos Glockenwise, que começaram ainda garotos, em Barcelos, trazendo toda essa energia da garotagem, num rock’n’roll despreocupado mas já com intenção de fazer uma coisa séria. Foi assim quando se estrearam em 2011, aprofundaram em Leeches – que canta sobre serem jovens vagamente desocupados longe de um grande pólo urbano – e em 2015, com Heat, já começaram a encaminhar-se mais para um rock ligeiramente mais escuro. Na garagem ou no mais fino estúdio, os Glockenwise ostentaram sempre uma enorme riqueza melódica, mas esta pérola nunca foi tão evidente como agora, em Plástico. Baixaram (um pouco, não demasiado) as batidas por minuto e esse abrandamento faz sobressair ainda mais as linhas que ficamos a trautear o dia inteiro. Ajuda, por certo, a presença mais frequente de guitarras acústicas, acompanhadas em algumas canções por um charmosíssimo saxofone (ouça-se “Dia Feliz” e tente depois tirar-se essa música da cabeça).

Podemos apelidar de maturidade, esta coisa de abrandar o passo e transferir o foco da urgência rockeira para o luxo melódico e semântico. Mas maturidade, só por si, não quer dizer nada. O bom gosto que trazem para as canções e a simplicidade com que o executam, certificam que houve de facto um salto qualitativo. Então os Glockenwise mostram que cresceram 10 anos, só entre o disco de 2015 e hoje. Mas este câmbio não é de plástico, nada aqui soa a abrupto nem a guinada forçada nem a falso. O alinhamento do disco é certeiro, as primeiras três canções arrancam do lugar onde Heat parou e as restantes seis músicas são o encadeamento lógico que vai mostrando os novos caminhos da música do grupo (a canção que fecha o disco, “Bom Rapaz”, acaba com um solo de saxofone de quase 2 minutos). Um disco que é a mais perfeita manhã de sol.

O último trabalho a solo do vocalista Nuno Rodrigues terá decerto ajudado a enformar este novo som dos Glockenwise. Em Duquesa, foi mostrando um lado mais delicado e no último EP, Norte Litoral (2017), lançou as suas primeiras canções em português.

Ora, Plástico é o primeiro disco dos Glockenwise todo cantado na língua materna mas também aqui não há guinada nenhuma, não é postiça – de forma nenhuma – a transição do inglês para o português. É uma evolução natural de quem quer ser ouvido e entendido à primeira, sem mediação e expondo-se um pouco mais. E se em alguns casos recentes temos assistido a um tratamento leviano da língua (houve ali uma altura em que só usavam a nossa língua dois tipos de cantores – os pirosos ou os muito bons), os Glockenwise entram directamente para o patamar mais alto.

Sem grande pretensão críptica, de escrita simples e mordaz, Nuno Rodrigues adaptou-se lindamente à nova forma de cantar os ditongos. Canta agora sobre os desassossegos da chegada da idade adulta, num mundo que precisa de «um tom de voz mais terno». Canta um belíssimo amor moderno: « Prometemos mas não damos nós/nem compramos casa/juntamos trapos» (em “Sempre Assim”). Canta as alegrias de não deixar tarefas por cumprir: «Tratei o que tinha a tratar/voltei de onde tinha de vir», em “Dia Feliz”, pode ser muito mais, mas pode também sobre ir às Finanças e ao supermercado. E se pela música não conseguimos datar este álbum, pelas letras cheira a 2018. Desde logo pelos apontamentos de ironia com que se desmonta os irónicos. Ironia verdadeira, figura de estilo e recurso linguístico, não o “movimento” vigente que transforma coisas hediondas em peças valiosíssimas. «Sou tão moderno que deixei de comer/sou tão moderno que não respiro ar». Prossegue assim ao longo do disco, brincando aqui e ali com este mundo de consumo imediato mas sem ser moralista nem panfletário.

Outra nota a salientar neste disco é o tributo ao Norte. Quando cantavam em inglês, as referências e inspirações eram dispersas. Ao ouvir cantar com sotaque, não podemos deixar de pensar nos melhores trabalhos dos GNR (Alexandre Soares é guitarrista convidado em 3 músicas), Táxi ou Ornatos Violeta. Felizmente, Portugal não é só Lisboa.

Em suma, estamos perante um dos mais belos discos desta geração do rock nacional desta geração. São apenas nove canções e cada uma é melhor que a anterior, não há altos e baixos – começa, decorre e acaba sempre no nível mais alto. E não deixa de ser curioso que o álbum é lançado em Dezembro, altura em que nos babamos por listas de melhores do ano, mas um lançamento nesta altura complica um bocado essas contas. Só que os Glockenwise não estão a apontar a 2018, estão a deixar um carimbo forte que não é de mastigar e deitar fora, daqui a 20 anos vamos continuar a achar que este é um disco essencial.



Sonic Youth – Evol (1986)

 

O terceiro álbum dos Sonic Youth, EVOL, é a primeira obra-prima dos nova-iorquinos. Um corte com os devaneios anti-pop dos dois primeiros discos. Uma síntese, bem mais interessante, entre imaginação melódica e dissonância experimentalista.

Os Sonic Youth nasceram das cinzas da no wave nova-iorquina, e levaram bem a sério essas credenciais nos inacessíveis dois primeiros álbuns (Confusion is SexBad Moon Rising). A banda em todo o seu esplendor aparece só ao terceiro disco, quando se libertam do preconceito contra a melodia e começam a escrever canções. EVOL mantém, contudo, as afinações alternativas dissonantes e o gosto pelo ruído e pela experimentação. Esta mistura de corrosão vanguardista com acessibilidade pop foi fundamental no nascimento do alternative rock. A sua influência é incalculável: desde Hendrix que não tinha havido uma reinvenção tão radical das possibilidades da guitarra eléctrica.

Dos discos anteriores, EVOL herdara a melancolia mas descartara a raiva. A sua desolação é doce e sonhadora, entorpecendo-nos com o seu langor, como quem lê um conto gótico no aconchego de uma cadeira de balouço. A voz sussurada de Kim Gordon está carregada de erotismo noir, sedutora mas amaldiçoada. Sister e Daydream Nation serão mais afamados mas, na verdade, nada bate o negrume misterioso e atmosférico deste álbum.

A entrada do baterista Steve Shelley é decisiva. O rigor com que marca o ritmo dá um novo ingrediente à banda: estrutura. Num colectivo com tanto caos e imprevisibilidade sónica, é reconfortante haver alguém como Shelley: o desgraçado que não bebe para poder levar os amigos bêbados a casa.

noise pop de EVOL traz uma invenção estética que se tornaria imagem de marca dos Sonic Youth: o interlúdio intrumental que interrompe radicalmente a melodia da canção para um devaneio de ruído e assombração. É o espaço, por excelência, para a banda expressar as suas inclinações mais experimentalistas e avant garde.

EVOL é um daqueles discos que nos faz gostarmos de gostar dos Sonic Youth. São tão urbanos e noctívagos e arty e sofisticados, que nos apetece comprar o vinil só para que toda a gente na loja saiba que somos tão cool. Termos ou não um gira-discos em casa é, para o caso, irrelevante.



Adrianne Lenker – abysskiss (2018)

 

Uma preciosidade de disco, para deixar a tranquilidade tornar-se o rainha e senhora do nosso corpo enquanto o discorremos.

Ninguém diria que isto é um disco de estreia de uma rapariga de 27 anos, pela maturidade que demonstra, pela capacidade de nos envolver. Pois, é que, na verdade, não o é – Lenker já leva nas costas uns quantos anos com a música dentro dela, a querer explodir cá para fora. A mesma maturidade que mostra agora, já a tinha aos 13 anos, quando o pai Lenker, músico de cartilha, queria dela fazer uma cantora pop e Adrianne recusou a alimentar a coisa. Mas a experiência de fazer músicas, cantar e tocar em noites de open mic em bares Estados Unidos fora, lá ficou e a garota soube aproveitar tudo isso para conseguir uma bolsa em Berklee, uma das mais prestigiadas escolas de música norte-americana e assim seguir o seu sonho. Logo após terminar o curso conheceu Buck Meek, em Nova Iorque, e assim nasceram os Big Thief, banda que nos visitou em Coura este ano. Mas Adrianne quis algo mais, e daí aparecer agora em nome próprio, com este docinho abysskiss.

É um disco que se ouve de uma penada. A bem dizer, não é bem ouvir, é mais um rebuçado que se vai derretendo na boca, e que nos mantém entretidos durante 33 minutos, enquanto fazemos outras coisas, sem nos apercebermos do adocicar de boca que vamos ganhando. Chega ao fim e a necessidade de novo rebuçado é premente, voltemos portanto a carregar no play e degustemos novamente este mundo que nos criou Lenker com a sua voz e guitarra. Mundo onde se fala de vida e morte, de infância e idade adulta, das vivências próprias, de religião, da relação dos humanos com a natureza. Mundo que parece saboroso e tranquilo, mas que após uma audições se transforma num crescente desconforto, qual biblioteca cheia de livros mas depois vai-se ver melhor e são só capas para encher prateleiras – é assim que Lenker nos quer mostrar que é mais uma questionadora do que a rodeia, com poucas certezas sobre quem ser e como encaixar no meio que a (nos) rodeia.

Desde que escreveu a sua primeira música, aos 8 anos, Adrianne Lenker soube incorporar em si, no seu dedilhar de cordas e voz suave, na sua arte de fazer música, excelentes influências – a própria cita Elliot Smith, Iron & Wine, mas nós tomamos a liberdade de ir até uma Joni Mitchell para melhor situar quem nos lê. Venham connosco descobrir este excelente abysskiss.



Destaque

CAPTAIN BEYOND - Texas - 1973

  Outro dia reclamaram que ando boicotando bandas americanas aqui no PRV. Para acabar com a polêmica posto aqui uma das melhores bandas das ...