sexta-feira, 11 de outubro de 2024
RUFUS ZUPHALL ● Weiß der Teufel... ● 1970 ● Alemanha [Krautrock/Prog Folk]
STRAWBS ● Dragonfly ● 1970 ● Reino Unido [Prog Folk]
SUPERSISTER ● Present from Nancy ● 1970 ● Holanda [Eclectic Prog/Canterbury Sound]
THE BLUE EFFECT ● Meditace ● 1970 ● Republica Tcheca [Jazz Rock/Fusion]
Gang Gang Dance – Kazuashita (2018)

Sete anos depois, os Gang Gang Dance renascem, assumidamente políticos e mais livres que nunca a nível criativo. Uma potencial banda sonora para um futuro utópico.
No último ano, começaram a surgir rumores do regresso dos Gang Gang Dance. A banda foi uma das principais bandas da cena noise nova-iorquina no início da década passada, ao lado de nomes como Black Dice, Excepter e Animal Collective. Sete anos depois do seu último disco Eye Contact de 2011, Brian DeGraw e os seus companheiros lançam Kazuashita (palavra japonesa cuja tradução livre é “paz amanhã”) a banda sonora para uma visão do mundo livre dos problemas que atualmente o corrompem.
Depois de uma breve introdução, o ouvinte é introduzido a “J-TREE”, uma música feita para a pista de dança, assumidamente influenciada pela cultura japonesa sem soar a J-Pop. Durante uma secção instrumental, ouve-se um manifestante a falar sobre as grandes questões da atualidade nos Estados Unidos como o racismo e o acesso às armas. Esta parte antecede um crescendo que funde eletrónica e post-rock, um desenvolvimento notável para uma banda cujos trabalhos anteriores enfatizavam a repetição e o ritmo.
O primeiro single do disco, “Lotus”, é uma canção que lembra o som mais tradicional desta fase mais tardia da banda, exemplificado em Eye Contact. Linhas de sintetizador, ora lânguidas e enevoadas, ora espaciais e concretas, elevam-se por cima de um beat minimalista e a voz de Lizzi Bougatsos, outrora uma possível herdeira das experimentações vocais de Yoko Ono, adquire desta vez uma tonalidade fantasmagórica e nebulosa. A distância entre discos permitiu que a banda, refinasse o seu som, afastando-o do brutalismo experimental noise dos primeiros discos, para algo mais detalhado e consistente. A faixa-título, no entanto, parece conter vestígios dessa fase com a sua bateria tribal e linha de baixo intermitente. Depois de uma secção puramente eletrónica, um breve solo de piano altera abruptamente a atmosfera da música como o acordar depois do sonho.
“Young Boy (Marika in Amerika)” lembra a pop alien de Grimes mas mais pesada. Este contraste entre pop melodramática e noise eletrónico torna “Young Boy” numa das músicas mais interessantes do disco e é um excelente exemplo da evolução da banda ao longo da sua carreira. “Snake Dub”, mais uma vez, remete para o experimentalismo tribal dos primeiros discos do grupo mas insere-o num contexto mais moderno com os vocais de Bougatsos chopped & screwed até perderem qualquer vestígio de humanidade. “Too Much, Too Soon” e “Salve on the Sorrow”, que termina o disco, assim como a própria “Kazuashita” demonstram uma nova faceta mais ambient que deveria mais explorada em lançamentos futuros do grupo. “Salve on the Sorrow”, em particular, debaixo do seu reverb, quase que consegue esconder o facto de ser uma canção pop letárgica e uma das melhores do álbum, proporcionando-lhe um final mais que apropriado.
Com sorte, não teremos de esperar outros sete anos pelo novo capítulo na história dos Gang Gang Dance. Se Kazuashita é um indício do que está por vir, podemos especular que a banda acabou de entrar na sua era dourada.
Johnny Marr – Call the Comet (2018)

O eterno guitarrista dos Smiths regressa com o seu terceiro trabalho a solo, um disco inventivo, ambicioso e que traz como bónus a que poderá ser a grande canção do ano.
Não deve ser fácil para um artista que continua a produzir material novo estar sempre a ser lembrado de um projecto que, no grande arco da vida, já está lá muito para trás. É assim, naturalmente, com Johnny Marr, mais ainda do que com Morrissey. Se este último arrancou rapidamente e em força uma carreira a solo após o fim dos Smiths, e se manteve no radar via grandes músicas e grandes polémicas, o mesmo não sucedeu com Marr.
Depois do fim da banda da vida de muita gente, o guitarrista e escultor do som Smiths foi trabalhar undercover. Possivelmente o maior guitarrista da sua geração no Reino Unido dedicou-se a ser músico de estúdio e emprestou a sua guitarra, e apenas isso, aos Pretenders, aos Modest Mouse, aos The The e a vários outros projectos. Após a loucura dos Smiths e a forma conflituosa como estes terminaram, Marr parecia estar contente – e até desejar – em ser apenas mais um músico contratado. Isso mudou nesta década, com o guitarrista a editar três discos em nome próprio e a escrever – tal como o mais dramático Morrissey – a sua autobiografia, Set the Boy Free, de 2016.
A vida de Marr estará sempre ligad aos Smiths, e é também por isso que os seus discos são escutados quando saem, não vale a pena negar. Mas a verdade é que os Smiths duraram cinco anos, e acabaram há…mais de 30. É altura de olhar para a frente.
Este Call the Comet é o terceiro registo a solo de Marr, e é o seu trabalho mais ambicioso. É vagamente conceptual, uma distopia que serve de manifesto político e de refúgio para um homem de esquerda de Manchester, filho de pais ingleses da classe trabalhadora. Marr nunca foi tipo de grande rasgo nas letras – nem grande vocalista, diga-se – pelo que é na música que a ambição se revela.
Call the Comet é um óptimo disco de guitarras, que dispara em várias direcções, mostrando o arsenal estilístico de alguém que será sempre identificado pelos riffs e pelos rendilhados pop dos anos 80.
Na verdade, depois de se ter atirado à sua autobiografia, algo se desbloqueou dentro de Marr, que já não está a fugir dos Smiths. Alguns dos momentos mais altos deste disco são, efectivamente, temas que vêm exactamente dessa matriz. Às vezes de forma descaradíssima, como em “Hi Hello”, decalcado de hinos como o inesquecível “There is a light that never goes out”; outras, de forma um pouco mais discreta, como em “Day in Day out”.
A aventura não está aqui, mas sim o prazer e finalmente a libertação de voltar onde já sei foi muito feliz. Mais, “Hi Hello” é coisa para ser a maior canção do ano (e sim, não conseguimos deixar de imaginar o que seria este portento na voz de Morrissey).
A exploração está, por exemplo, no industrial quase kraut de “New Dominions” e de “Actor Attractor”, com direito a sintetizadores e tudo; na longa “Walk into the sea”, que se vai desenrolando, crescendo e mudando de direcção sem nunca perder o norte; na acelerada e negra “My eternal”; e na tensão de “The Tracers”; entre vários outros exemplos.
É claro que há também aqui a pop escorreita que em Marr é tão natural como beber água, sendo disso prova a boa malha que é “Hey Angel”.
Call the Comet é um disco ambicioso, intenso e profundo, que se vai revelando com cada nova escuta. Uma última palavra para a produção: absolutamente impecável, com todos os pormenores no sítio, cortesia do próprio Marr, que anda há muitas décadas a virar frangos.
Voltando (tem de ser) aos Smiths, Morrissey chamará sempre mais a atenção. Mas Marr, com este álbum, mostra que, do duo criativo dessa saudosa banda, é ele quem arrisca, quem soa confiante, quem tem mais truques para mostrar, hoje em dia. Demorou a soltar-se, mas os próximos capítulos da sua carreira vão certamente merecer a nossa atenção.
Gorillaz – The Now Now (2018)

Onde Humanz era histeria e dispersão, The Now Now é melancolia e concisão.
Com poucos convivas, e ainda menos hip-hop, o novo disco sabe mais a Albarn a solo do que a colectivo Gorillaz. Pouco importa: as melodias são belas e tristes, e isso basta para nos encher a alma.
As canções falam de terras e estradas americanas, percorridas, talvez, numa recente tour. O tema é a solidão e a saudade, tanto quanto é possível a um bárbaro que não fala o português entender a solidão e a saudade. Pode não ser Amália mas os seus sintetizadores revivalistas e chorosos não deixam indiferente o nosso coração fadista. Pode não ser Paredes mas o seu baixo líquido tem qualquer coisa de suicídio no Mondego.
Damon parece tão deprimido que mal consegue levantar a voz. Mas a sua infelicidade soa tão elegante que ao pé dela toda a alegria parece grosseira.
Acabaram os Gorillaz plebeus para consumo de massas.
Snobes melancólicos de todo o mundo, é a hora…
Rolling Blackouts Coastal Fever – Hope Downs (2018)

Álbum de estreia da banda australiana é mais um brilhante, no que está a ser um ano incrível para o rock.
Começo o artigo por uma pergunta a que nunca saberemos a verdadeira resposta – será que, se aparecesse agora, no ano da graça de dois mil e dezoito, um álbum chamado Is This It? de uns tais The Strokes teria o impacto que teve em 2001 (há quase 20 anos, porra como é possível…)? Ou ficaria submerso no mar do hip-hop, queer punk, traps e afins? Isto para dizer que o ano em que vivemos está a ser incrível em termos de música rock lançada e não vejo muita gente a perceber isso, não vejo um hype a ser formado, vejo só um encolher de ombros e a Terra a girar como se nada fosse. Parquet Courts, Ought, Malkmus & The Jicks, Shame, Breeders, Car Seat Headrest, Nap Eyes, Preoccupations, Eels, Jack White, Courtney Barnett, e também, porque não, o divisivo Tranquility Base Hotel & Casino. Todos com discos novos muito bons, numa mistura entre primeiros álbuns, bandas recentes e outras intemporais a mostrarem por A+B que não senhor o rock não está morto, está vivo e de boa saúde, apenas não capta a atenção que antes captava.
E agora, incluir na lista acima, os Rolling Blackouts Coastal Fever, mais uma banda nova a lançar um magnífico primeiro álbum que faz tudo parecer tão simples, 10 músicas, 35 minutos, siga para bingo. A herança australiana dos Go-Betweens está lá, uns R.E.M. de começo de carreira estão lá, não inventam a roda mas dão-lhe um aspecto lavadinho e deixam-na pronta para continuar a andar mais uns quarenta mil kms.
“An Air Conditioned Man” é a música de arranque e que nos suga logo, com a sua guitarra periclitante, bateria a marcar o ritmo, música sem linha de progresso clara, ziguezagueando, sem nos permitir saber para onde vai na próxima curva. “Talking Straight” mantém o ritmo abrasivo, mesmo trocando de vocalista (até em termos de voz a banda mostra a sua versatilidade, já que os três guitarristas, Fran Keaney, Tom Russo e Joe White são também vocalistas), “Mainland” debruça-se sobre a dificuldade de viver num mundo onde numa praia da Sicilia se podem cruzar banhistas a aproveitarem o sol e pessoas a quererem salvar-se de uma vida de miséria em África. Porque tal como afirma Tom Russo no vídeo abaixo, “a banda não se toma como abertamente política, mas vive o mundo e é inevitável não passar para as músicas o que lhes vai na cabeça no momento”.
Poderíamos discorrer um pouco mais sobre a mais reservada “Cappuccino City”, sobre a mais dream pop à la Real Estate “Exclusive Grave”, mas não vamos ocupar mais tempo, importa é ouvir o disco.
Roger Daltrey – As long as I have you (2018)

No seu primeiro disco a solo em mais de 25 anos, o eterno vocalista dos The Who traz-nos um conjunto de versões influenciado pelas suas referências R&B do início da sua carreira.
É difícil aceitar, mas Roger Daltrey, o deus louro à frente dos históricos The Who, tem agora 74 anos. Esta informação não é de somenos no momento em que edita o seu décimo disco a solo, e o primeiro em mais de 25 anos.
Daltrey sempre foi um bom cantor rock e um enormíssimo frontman, dando a expressão vocal e visual à música de Pete Townshend, o guitarrista que foi sempre a grande força criativa da banda de Quadrophenia.
A solo, Daltrey sempre se defrontou com a mesma dificuldade, o facto de não ser exactamente um compositor de grande qualidade, ou sequer quantidade (contam-se pelos dedos de uma mão as canções dos The Who por si criadas). Além disso, usou muitas vezes os seus discos para fugir do que considerava o espartilho rock da sua banda de sempre, o que o levou a terrenos pouco recomendáveis (chegou a gravar canções dos Eurythmics, o que não faz bem a ninguém).
Neste novo As Long as I Have You, o assunto é despachado com destreza. Dos 11 temas, só dois são da sua autoria, com Daltrey a escolher a dedo músicas que o influenciaram ao longo dos anos, para lhes dar a sua versão. E com um bónus: o seu velho companheiro Pete Townshend trouxe a sua guitarra para dar uma mãozinha em estúdio, acabando por tocar em sete das canções.
Com os dois sobreviventes dos The Who a trabalharem juntos, poderíamos estar aqui perante um novo e derradeiro disco desse conjunto. Na verdade, não é isso que sucede. Este é, efectivamente, um disco de Daltrey, e Townshend teve a grandeza e a humildade de vir tocar, sim, mas sem querer tomar conta das operações.
A abertura do disco é bem boa, com o tema-título, que é um cover ritmado e energético de uma canção celebrizada há muitas décadas por Garnet Mimms. É um bem conseguido regresso aos tempos, no início dos anos 60, em que os The Who ainda se chamavam The High Numbers e prometiam, nos seus concertos, “maximum R&B”.
Este registo reaparece ao longo do disco, ainda que sem a energia deste primeiro tema: a banda é naturalmente competente, com uma forte secção de metais e um bom coro feminino que vai facilmente do doo-wop à soul.
O problema é que o disco vai perdendo coerência e foco à medida que vai apresentando outras propostas. A versão de “Into My Arms”, de Nick Cave, por exemplo, não tem nada de errado, mas também não acrescenta nada de novo, nem nos arranjos, que são tão simples e minimais como no original.
Outro tiro numa direcção diferente é a energética “How Far”, de Stephen Stills, ou as sentidas baladas “Certified Rose” (dedicada à filha de Daltrey) e “We’re Always Heading Home”, que são as duas únicas músicas originais do cantor e pontos altos e pungentes.
Talvez seja a falta de unidade entre os temas aquilo que impede As Long as I Have You de ser um grande disco. A voz de Daltrey continua em forma e, a tempos, é comovente vê-lo a regressar a esses registos R&B que tanto a apaixonaram no início da carreira. Mas falta qualquer coisa, um rasgo, uma fome final, talvez.
Não sendo um álbum estrondoso é, ainda assim, um disco digno, honesto e a espaços profundo, de um senhor de 74 anos que será para sempre um Deus do Rock.
Norberto Lobo – Estrela (2018)

Norberto Lobo e Bruno Pernadas são os dois geniozinhos da sua geração. Norberto subiu a parada com este comovente disco de jazz.
Sabemos que Norberto é irrequieto, que não gosta de ficar muito tempo no mesmo poiso estético. Começou pelo trigo dos dedilhados acústicos, livres e imprevisíveis como searas ao vento (Mudar de Bina, Pata Lenta e Fala Mansa). Depois, namoriscou com o blues do Mississippi, no deslizar rude e metálico da sua slide guitar (Mel Azul). Por fim, cometeu a blasfémia de introduzir uma guitarra eléctrica, em explorações cada vez mais vanguardistas (Fornalha e Muxama).
Mas, apesar da fama de saltimbanco, nada nos tinha preparado para algo tão radicalmente diferente como um disco de jazz. Estrela rompe também com o individualismo e virtuosismo que até hoje o definiam. Onde antes Norberto era lobo solitário, agora anda em alcateia de quatro: trompete, bateria, violoncelo e guitarra eléctrica. Onde antes era rapidez e esbanjamento, agora é simplicidade e contenção.
Trompete delicado à Chet Baker? Bateria doce e arrastada? Violoncelo saltitante que quer ser um contrabaixo quando for grande? Os sintomas de cool jazz estão todos lá, esteja ou não Estrela assim arrumado nos escaparates da Fnac. Um cool jazz tropical, bossanovento, metade whiskey, metade rum, com muitas pedras de gelo para nos refrescar numa noite tórrida no Leblon.
A guitarra é aquática e nostálgica, ensopando-nos de infância e maresia. As melodias são lindas de morrer, doces e tristes ao mesmo tempo, como a terna melancolia do passar dos dias. Há qualquer coisa de caixa de música partida, de tias-avós que morreram há muito a oferecerem-nos um saco de berlindes no Natal. Algo de belo e de profundo, que nos faz rir e chorar.
Não nos interessa que o ano esteja ainda a meio. Estrela é o melhor disco de 2018, venha o que vier a seguir.
Destaque
-
Em 11/02/1985: Leonard Cohen lança no (EUA, Europa) o álbum Various Postions Various Positions é o sétimo álbum de estúdio do cantor canad...
-
Quem teve a oportunidade de assistir ao incrível documentário “Get Back” , de Peter Jackson , lançado em serviços de streaming no fina...
-
Blizzard (2025) Dove Ellis Todos os anos, as primeiras listas de melhores do ano começam a aparecer no início de dezembro. Seja porque as ...



