terça-feira, 3 de dezembro de 2024
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David Byrne – American Utopia (2018)

Catorze anos depois de Grown Backwords, David Byrne traz-nos uma utópica fatia de esperança e contentamento. É fácil e bom gostar desta América pintada de fresco, que apetece colar na testa “I wellcome you to my house” e depois sair para a rua a cantarolar “Every Day Is a Miracle”.
David Byrne é um dos magos da música das últimas décadas. Quando começou, com os muito saudosos Talking Heads, era o que ainda hoje é, um nome incontornável do bom gosto, um autêntico porta-voz da música como arte sem cedências, nem facilitismos. A sua obra fala por sim, e serão poucos os momentos em que o seu trabalho possa ser olhado com alguma desconfiança. Aliás, nenhuns. Com a banda que criou nos anos setenta lançou, por exemplo, os míticos Fear of Music (1979), Remain In Light (1980) ou ainda Speaking in Tongues (1983). A solo, como se apresenta desde 1989, lançou outras tantas obras-primas: Rei Momo (1989), Feelings (1997) e Look Into the Eyeball (2001). Tendo em conta o génio criador desta meia-dúzia de pérolas, não há como não amar o escocês tornado americano e cidadão do mundo!
David Byrne já não gravava exclusivamente em nome próprio há algum tempo. Sempre atarefado com variados projetos (música, escrita, fotografia, entre tantas outras atividades), a verdade é que era sentida a sua ausência, coisa que American Utopia veio dissipar. Saído para o mundo a nove de março, este décimo primeiro disco a solo de David Byrne traz novidades e sorrisos largos, ou não fosse ele parte do projeto “Reasons To Be Cheerful”, ideia criada com o objetivo maior de trazer uma onda de positivismo ao acinzentado planeta azul. Assim, e depois de ouvirmos American Utopia com a atenção que o senhor Byrne nos merece, podemos dizer, para começar, que estamos felizes, e por essa razão lhe fazemos aqui a maior das vénias! Thank you, Sir!
Não falemos das pseudo-polémicas com Brian Eno que parecem ter surgido com este recente trabalho de David Byrne. Já tanto sobre isso se escreveu e tão pouco se disse. Falemos antes da música que ele nos traz. Desde logo, uma ideia principal: o autor de American Utopia continua igual a si mesmo, espécie de Salvador Dali da música com as suas letras surreais, a sua vertente arty incomparável, ritmos infecciosos e inteligência muito acima da média. Há dias, o amigo Caetano Veloso dizia, na sua conta do Instagram a propósito deste novo álbum, que David Byrne “é um dos meus artistas favoritos no mundo”. Faz sentido, até porque em ambos é a genialidade que acaba sempre por imperar. Neste caso particular, começa logo em “I Dance Like This”, tema delicado e tenso (a espaços), mas com um brilhantismo irrepreensível. É com ele que David Byrne ataca o álbum, afirmando, ironicamente, que “this is the best I can do”. “Gasoline and Dirty Sheets”, logo a seguir, insinua-se, dançante e cheia de charme. É, simplesmente, perfeita. Como também é perfeita “Every Day Is a Miracle”, verdadeiro tratado de surrealismo literário de grandíssima pena: “And God is a very old rooster /
And eggs are like Jesus, his son” ou “The Pope don’t mean shit to a dog” são versos que não se esquecem facilmente. No mesmo sentido, ouça-se com atenção a letra de “Dog’s Mind”, outro tratado de bem escrever, para melhor se pensar. Pérolas, atrás de pérolas.
Para uma América tão ansiosa e receosa de si mesma, o exercício de ouvir American Utopia pode trazer alguma tranquilidade, até porque “we’re only tourists in this life”, como nos diz David Byrne no funky “Everybody’s Coming To My House”. O álbum parece pensado para retirar algum peso ao estado do mundo, para lhe retirar parte da espada de ponta afiada e dramática cuja ponta todos os dias nos toca, atrevidamente, no pescoço. É sempre oportuno aliviar o stress, o que aqui se faz com alguma acuidade, embora não de forma pateta, tola ou ingénua. E assim, quem nos guia o raciocínio fá-lo com a perceção de que um olhar sereno e útopico sobre o mundo é, provavelmente, o melhor dos antídotos, uma vez que somos todos, desde sempre, filhos de Anteu e de Sísifo, e o peso dos séculos de existência que trazemos às costas torna-se cada vez mais insuportável. É preciso ar fresco, ar mental, ar que nos sufoque de esperança, de alegria, de vida.
American Utopia é um excelente álbum e um marco na carreira de David Byrne. Vamos descobrindo, à medida que o ouvimos uma e outra vez, tratar-se de um disco que vai ficar connosco meses a fio. Um sério candidato a lugares de grande destaque quando 2018 estiver a dar os últimos suspiros.
The Wombats – Beautiful People Will Ruin Your Life (2018)

Os Wombats regressam com um disco indie rock clássico e talvez seja esse o maior problema: soa bem, mas também não surpreende e corre o risco de ser esquecido.
Quase uma década depois de nos terem surpreendido com temas como “Let’s Dance to Joy Division” ou “Kill The Director”, os Wombats estão de regresso com o quarto álbum de estúdio.
Beautiful People Will Ruin Your Life é um seguimento dos vários discos que os Wombats têm editado. A abrir, o single, “Cheetah Tongue”, que soa exactamente a Wombats, sem tirar nem pôr. Ritmo simpático, a voz reconhecível de Matthew Murphy, a mesma guitarra dos álbuns anteriores mas um maior cuidado na produção e composição.
“Lemon to a Knife Fight” surge imediatamente a seguir, uma canção orelhuda mas sem grandes laivos surpreendentes. De destacar ainda “Black Flamingo”, que tem potencial para nos abanarmos numa pista de dança ou “I Only Wear Black”, de ritmo veraneante e batida feliz e ainda “Ice Cream”, onde a guitarra faz a diferença.
Este novo trabalho pode ser considerado como estando no registo de indie pop clássico e pode ser esse precisamente o que o torna menos interessante: soa exactamente a tantos outros discos que já ouvimos, não só de Wombats como de muitas outras bandas, de Strokes (no começo de “Lemon to a Knife Fight”) ou Two Door Cinema Club (em “Turn”) ou até “Ice Cream” e “I Only Wear Black”, com toques de Bastille e The Killers (o que faz sentido, já que trabalharam com os produtores destas duas bandas).
Não surpreendendo também não podemos considerar que este é um mau disco: o trio cumpre, apresenta-nos um leque de canções sólidas, algumas até dançáveis, mas que não ficarão na nossa memória daqui a uns anos. Editado uns meses mais tarde talvez se tornasse um bom álbum de verão, alegre e risonho. Assim, não lhe faltando qualidade, falta-lhe originalidade e corre o sério risco de ser esquecido.
Tracey Thorn – Record (2018)

A voz dos Everything but the girl regressa com o seu melhor disco a solo, um manifesto pessoal e feminista movido a sintetizadores e que é coração e cabeça em partes iguais.
Tracey Thorn cantou com Paul Weller e com os Massive Attack. Escreveu uma excelente autobiografia. Fez música para filme e peças. É colunista de jornais de referência. Mas, na verdade, Thorn sempre será conhecida como a rapariga dos Everything but the Girl.
Desde o fim da banda, no final da década de 90, a cantora não tem estado parada. Tem cuidados dos filhos, escrito livros e artigos, editou três discos a solo que foram recebidos com simpatia mas com pouco mais. Até agora.
Agora, acima dos 50 anos, os filhos estão criados e saíram de casa. Familiares e amigos começam a adoecer e alguns a morrer, numa aterradora normalidade biológica. Londres é cada vez mais um resort exclusivo para os ricos do Oriente. O Brexit foi uma chapada na cara de todos que, ingenuamente, acreditavam que o Reino Unido era aberto e progressista. E Thorn, uma mulher que sempre soube aliar sensibilidade e inteligência, faz, em 2018, o melhor disco da sua carreira.
Record é um catálogo de temas que interessam a uma mulher madura, inteligente, lúcida e lutadora, que se sente naturalmente assustada com a idade mas cuja resposta é voltar à carga, voltar à luta. Porque, sejamos francos, que outra opção tem ela? Que outra opção satisfatória tem qualquer um de nós?
A própria Thorn assume Record como um disco feminista. Mas não é um disco panfletário, construído em cima de slogans ou de frases-feitas. É um álbum profundamente pessoal, que visita bocados da vida tão importantes e tão duros como a maternidade, e a consequente falta de propósito quando os filhos já não precisam de nós; o passar do tempo, que só acelera; a condição de ser mulher, e como tal oprimida, ainda em 2018; o amor e a desilusão; e a esperança de redenção, que nos faz, ainda assim, avançar.
A matriz sonora vai beber muito aos dois fantásticos últimos discos dos Everything but the Girl, aquela pop electrónica e dançante, com a voz de Thorn, um poster acabado de depressão urbana, a pairar por cima de tudo. A sua voz, na verdade, está diferente. Continua reconhecível de imediato mas perdeu algum daquele toque cristalino, apenas para ganhar uma gravitas e uma autoridade que só a idade traz.
O grande destaque vai para o estrondoso “Queen”, que abre o disco e que se arrisca a ser uma das enormes músicas deste ano. É um single poderoso, encharcado em electrónicas e uma estrutura muito New Order (saudades!). A apresentação faz-se com o verso “Here I go again, down that road again“, com Thorn a questionar-se se vale a pena voltar, quem é, o que teria sido se não tivesse encontrado o amor, que papel tem afinal. “Am I Queen?/A Majesterial has been/I’m on fire/A head full of desire/This is me/I’m someone else entirely“. “Queen” é uma bomba de magnífico synth-pop, e só esta música faria valer o disco.
A chave de Record, no entanto, está em “Sister”, mais de oito minutos de um pessoalíssimo manifesto de condição feminina: “You are the man, but i’m not your baby
I get so scared, I know you own the world/And I fight like a girl/But I am my mother, I am my mother now/I am my sister and I fight like a girl“. Para poucas linha depois, nos lembrar: “Oh what year is it/ still arguing the same shit/What year is it?/Same, same, same old shit“. Um tema lento, maquinal, arrepiante.
Apesar de ter apenas nove temas, o disco acaba por não ser totalmente uniforme, resvalando num par de temas para alguma banalidade synth/disco que prejudica a qualidade global de um álbum, fora isso, muito forte. Record termina, de forma apropriada, com “Dancefloor”, que não é uma música particularmente memorável mas cuja letra encerra o ciclo, ou melhor, o reabre. O desejo de uma mulher que já teve filhos, já travou guerras, já abandonou a música ao vivo devido ao terror do palco, que já perdeu amigos e pais, e que tudo o que deseja, em certos dias, é perder-se numa pista de dança, com algumas bebidas e a música a tocar.
Record é, assim, um disco inteiro, de uma mulher inteira. Um trabalho corajoso, profundo, sensível e inteligente, de uma voz que nos acompanha há uma vida. Bem-haja.
Sr. Chinarro – Asunción (2018)

O novo disco de Sr. Chinarro assume um compromisso. É o próprio que canta “Quiero Hacerlo Mejor”, e não haverá melhor prova de vitalidade do que esta: um dos grandes a querer ser sempre maior!
Antonio Luque está de volta! O mesmo é dizer (coisa que acontece há já mais de vinte e cinco anos), que de regresso temos Sr. Chinarro, um dos fundadores da indie-pop-rock do nosso país vizinho e músico de grande respeito na sua Espanha natal. Asunción, é assim que se chama o seu décimo sétimo longa duração, sai numa casa que já havia acolhido Sr. Chinarro durante algum tempo, a importante Mushroom Pillow, e isso é mais um dado de interesse na carreira do músico de Sevilha. Depois de nos ter dado a ouvir El Progresso, disco lançado em 2016, chegou agora a vez de mais uma nova fatia sonora do universo chinarro ver a luz do dia. Afinado que está com o trio de músicos que o acompanha desde o seu anterior trabalho (Jaime Beltrán, Mario Fernández “Mafo” e Mario Rodríguez, todos membros da banda Pájaro Jack), Antonio Luque continua a dar provas de uma extraordinária vitalidade. Os seus discos vão saindo a muito bom ritmo e a qualidade desses trabalhos permanece intacta e inquietante como sempre. Asunción é, portanto, mais um álbum a somar aos importantes El Mundo Según (2006), Ronroneando (2008), Presidente (2011) e ¡Menos samba! (2012), isto para nos referirmos apenas a alguns dos trabalhos que lançou com a etiqueta que agora o alberga de novo.
Asunción mostra-nos um músico cada vez mais maduro na arte de fazer canções. Os temas de adelanto que começaram a surgir há já algumas semanas, não nos levaram ao engano. Todo o disco é muito coeso, toda a sonoridade é muito compacta, todos os temas podem ser escutados com imenso agrado. Não há um único que pareça ser menor, ou mesmo sem ponta de interesse. E há, como também sempre acontece, algumas canções que merecem ser hits, mesmo sabendo nós que isso dificilmente acontecerá num país que tem, como público maioritário, gente mais interessada em cantarolar os agoniantes despacitos desta vida. Pouco importa. Há disco novo de Sr. Chinarro, e isso é o bastante para nos sentirmos satisfeitos.
As primeiras guitarras de “Supersticiones” transportam-nos para o imaginário dos The Cure, banda que sabemos ter sido importante na história musical de Antonio Luque. A canção é bonita, sonhadora, ótima para início de conversa. Mais ritmada e roqueira é “Las Pruebas”, destinada a ser mais um clássico de Sr. Chinarro. Não há forma de fugir ao ímpeto do seu refrão, até porque “la única salida es continuar”. E assim, continuando sem a preocupação de nos determos ao pormenor sobre cada uma das dez canções de Asunción, passamos pela igualmente orelhuda “Quiero Hacerlo Mejor”, em que a guitarra de Jaime Beltrán é simplesmente fantástica. Três clássicos nas três primeiras faixas, portanto.
Cheio de pulso e de ritmo, o disco avança pelas enérgicas “Hasta La Saciedad” e “Angel Azul” até se resguardar um pouco mais na tranquila “De Piedra”, canção mais delicada mas com um fortíssimo refrão. E as guitarras, sempre as guitarras sonhadoras e incisivas a percorrerem todo o disco… Talvez seja mesmo esse o maior dos trunfos de Asunción, o destaque dado às guitarras a enquadrar as belas e elegantes canções de Antonio Luque.
Depois de passarmos por “Las Trompetas del Apocalipsis”, “No Soy Para Ti” e “Mi Utopia”, Asunción termina com a muito bonita “Por Vanidad”, colocando-lhe um ponto final tão delicado como a igualmente delicada canção de início. Pelos entremeios do disco, encontramos mais uma prova cabal de vitalidade de Sr. Chinarro. Talvez estejamos mesmo na presença de um dos mais sólidos discos do músico sevilhano. Antonio Luque não nos ilude quando canta “Quiero Hacerlo Mejor”. É mesmo verdade, é mesmo esse o seu desejo, uma vez mais confirmado. E os versos “pruébame que hay vida / se trata de probar / la única salida es continuar” (da canção “Las Pruebas”) são a mais perfeita metáfora da voz que impele o artista a seguir o seu caminho, seja ele qual for, demonstrando a essência, a origem e o fundamento da sua existência.
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