quarta-feira, 12 de março de 2025

Madonna, “Madam X – Music From The Theatre Experience”

 “Os artistas estão aqui para perturbar a paz”… A frase, de James Baldwin, era citada mais do que uma vez durante os espetáculos que Madonna apresentou na digressão que levou a cena os conceitos explorados no então recente “Madam X” e que passou, numa série de noites, apesar de dois cancelamentos, pelo Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a sua “segunda casa” como ela mesma ali nos contou. O mais abertamente político dos discos de Madonna e o mais exploratório de todos eles dava o mote para um concerto diferente, mais teatral, menos gigante na dimensão (em vez de arenas, visitava salas de dimensão como a do Coliseu), com residências de mais de uma noite em cada uma das (poucas) cidades pelas quais passou, tendo na Europa conhecido a reta final (encurtada mesmo no fim pela explosão da pandemia) em Lisboa, Londres e Paris. Marcada por vivências lisboetas, a criação de “Madame X” levou ao disco ecos de culturas de espaços lusófonos, de Portugal e Brasil até Cabo Verde que caminharam depois rumo ao palco. Pelo que faz todo o sentido, na hora de fixar estas memórias, que tanto o filme (que bem que podia conhecer edição em suporte físico) e o disco ao vivo tenham resultado de gravações no Coliseu dos Recreios. Assim nasceu, por um lado, “Madame X”, filme assinado por Ricardo Gomes e a dupla SKNX (ou seja Sasha Kasiuha e Nuno Xico), estreando na plataforma Paramount + em 2021 e, depois, o live album “Madam X – Music For The Theatre Experience”, que começou por ter edição digital também nesse ano e que, agora, surge em suporte físico através de um lançamento em triplo LP em vinil com dois temas extra (inéditos até aqui), um deles sendo “Crave”, o outro, “Sodade”, clássico de Cesária Évora que Madonna apresenta em dueto com Dino d’Santiago.

Se a dimensão política era já uma das forças motrizes tanto do álbum “Madame X” como do espetáculo que então o transformou numa realidade física, a história pessoal da própria Madonna foi outra das narrativas que habitaram as entranhas do ganhou ressonância de reencontro com episódios de descoberta que ela mesmo vivera na cidade poucos anos antes. Não só cantou o “Fado Pechincha” ao lado de Gaspar Varela (que a acompanhou em toda a digressão) como, a dada altura, o palco surge transformado numa casa de fados na qual Madonna concentrou algumas das canções em que usou a língua portuguesa como “Killers Who Are Partying” e “Crazy”, alargando o universo de referências à música latina em geral juntando citações a “La Isla Bonita” ao tema “Welcome To My Fado Club” e acabando por cantar “Medellín”, o cartão de visita de “Madame X”. Antes, na aproximação a esta sequência focada em Lisboa  já se tinha escutado um grupo de batukadeiras de Cabo Verde em “Batuka”, um dos momentos maiores tanto do álbum como dos concertos, tendo em Lisboa o palco recebido ainda a presença de Dino d’Santiago que foi apresentado como o “rei do funaná”, dando início a outro dos episódios mais emotivos do alinhamento, entoando, com a sala a cantar, o já acima referido “Sodade”. Os sabores portugueses, da amarguinha ao vinho do porto (branco) e ao bacalhau não faltaram na noite em que por lá passei… Assim como o único palavrão que contou que sabe em português, que começa com a letra “c” e rima com alho… E que agora fixa fixado no vinil.

Apesar do tom sombrio da cenografia de algumas sequências nas quais o espetáculo traduzia o estado do mundo, a luz não faltou a esta visão cénica de “Madame X”. A sequência lisboeta foi disso um exemplo. Todavia, ao contrário de muitas outras digressões de Madonna, o espetáculo “Madame X” não cedia no seu objetivo de vincar combate e identidade, pelo que não fez apelos para fugas em tom festa e nostalgia com velhos êxitos. Pelo contrário, não só foi curta a presença de temas antigos num alinhamento que valorizou claramente a presença do álbum “Madame X” como muitas vezes – como nos casos de “American Life”, “Express Yourself” ou “Like a Prayer” – justificava a presença de velhos clássicos mostrando como os alicerces das ideias que explorou neste disco na verdade estavam já lançados por canções de outros tempos. O espetáculo fugiu assim das lógicas mais habituais de diálogo do novo com uma seleção “best of”. O passado de Madonna serviu ali a narrativa, levando a cena outras expressões da multiplicação de si mesma em várias personagens… E bastava olhar para a sua história de canções e imagens para notar que, na verdade, esta ideia já a acompanha há muito. O álbum ao vivo ajuda agora a guardar esses momentos numa história que, agora, vai conhecer uma expressão de palco certamente bem diferente na digressão de celebração de 40 anos de atividade. Mas, para fechar o capítulo “Madam X” falta ainda um acesso mais fácil ao filme-concerto… E no ar continua uma dúvida: o que de novo virá depois de “Madam X”?

“Madam X – Music From The Theatre Experience”, de Madonna, está disponível em 3LP numa edição da Rhino.



Rodrigo Cuevas “Manual de Romeria”

 Pode parecer uma alvorada algo tardia, já que o cartão de identidade aponta como data nascimento o ano de 1986. Mas na verdade o percurso de Rodrigo Cuevas, natural de Olviedo (nas Astúrias) passou por etapas de formação que ora passaram pelo conservatório na sua cidade natal (sobretudo focado no piano e tuba) e, depois, a Escola Superior de Música da Catalunha para ali estudar som. Ao percurso académico juntou experiências vivenciais, entre as quais uma marcante mudança para a Galiza, aos poucos encaminhado o seu espaço de vida para a placidez e distância que caracterizam o dia a dia numa aldeia. Começou o seu percurso integrando o coletivo La Dolorosa Compañía, depois com um primeiro EP em 2012 onde reinterpretava, à sua maneira, canções tradicionais galegas. Entre a ruralidade e as experiências da cultura global, entre as raízes do folclore e as eletrónicas, entre os ecos da terra e os palcos, assim foi desenhando um caminho que, firme na expressão de uma visão e uma identidade, o levaram, depois de mais dois EP (entre 2016 e 2018), ao álbum de estreia “Manual de Cortejo” (2019), disco produzido por Raül Refree, ao qual se seguiu a digressão Trópico de Covadonga que nos visitou em 2021 na Womex (Porto) e, em 2022, no MED, em Loulé. 2023, que o devolveu uma vez mais a palcos nacionais no FMM Sines, e o apresentará brevemente no cartaz do Misty Fest, propõe um passo seguinte e determinante, na forma de “Manual de Romeria”, um disco que de certa forma traduz a síntese do que até aqui acontecera mas, sobretudo, abre definitivamente possibilidades maiores de comunicação para a sua música.

Contando desta vez com Eduardo Cabra (ex-Calle 13) como parceiro na produção, Rodrigo Cuevas retoma em “Manual de Romeria” uma série de pistas já antes ensaiadas, porém com maior confiança, mais arrojo e um sentido pop claramente mais vincado. Esta dimensão luminosa, festiva até (o próprio título do álbum nota a ideia de uma romaria), contemporânea e pop não apaga contudo a alma de um músico que há muito encontra nas raízes os pontos de partida para a sua música. O alinhamento do disco inicia o percurso e, depois, abre frestas entre canções a momentos nos quais há vozes que nos encaminham ao reencontro de velhas tradições orais. Depois, é entre temas como “Más Animal”, “Casares” ou “Como Yé?!” que se desenham os novos caminhos pop que investem até pela pista de dança com DNA eletrónico no empolgante “Matinada”. Expressão de uma personalidade com discurso político bem claro, tanto que em tempos se falava sobretudo da sua música como sendo um caso de “agitação folclórica”, a música de Rodrigo Cuevas não celebra o hedonismo como fuga à realidade, mas antes como um modo de sublinhar a tenacidade de uma personalidade. O disco não foge por isso às nuances e até mesmo contradições que habitam em todos nós, alargando os planos cénicos para além das heranças naturais daquilo que em tempos teria conhecido como rótulo a expressão world music e destes episódios de “romaria” pop a instantes onde alguma introspecção e melancolia geram instantes de contraste que se escutam em canções como “Allá Arribita” ou “Valse”. Exuberante, mas sóbrio, moderno, mas atento às raízes, focado numa geografia cultural mas capaz de comunicar mais adiante, “Manual de Romeria” tem tudo para levar a música de Rodrigo Cuevas ainda mais longe. 

“Manual de Romeria” de Rodrigo Cuevas está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Sony Music.



Sufjan Stevens “Javelin”

 O yin e o yang. O côncavo e o convexo. O mundo à nossa volta. A vida… Ideias e palavras que, somadas a uma mão cheia de magníficas canções, geram momentos tão pessoais como partilháveis… Lembro-me de levantar esta reflexão na manhã seguinte ao inesquecível concerto que Sufjan Stevens trouxe, há uma dúzia de anos, ao Coliseu dos Recreios (Lisboa). Esta coisa dos contrastes faz de facto parte da caracterização de uma obra que nunca que quis fechar numa rota única, num caminho de um só sentido. Pelo contrário, de projetos experimentais a incursões pelo cinema (e respetivas músicas, como escutámos no seu documentário “The BQE”, de 2009, ou nas canções que deu a “Call Me By Your Name” de Luca Guadagnino), de aventuras coletivas (como a que o juntou a Nico Muhly, Bryce Dessner e James McAlistair em “Planetarium” (2017) ou a Timo Andres em “The Decalogue” (2019) ou a Lowell Brams em “Aporia” (2020) aos seus deliciosos EP de Natal, os mundos pelos quais a música de Sufjan Stevens são tão vastos que, por vezes, pode ser difícil mantê-los sob os radares das nossas atenções. 

Recordo, com nitidez, o impacte da chegada de “Illinois”, o disco de 2005 que, somando então um novo conjunto de olhares ao anterior “Michigan” (2003), levantou, da parte do próprio músico, uma ideia de grande escala que notava que ambos os discos eram parte de um ciclo que retrataria todos os estados dos EUA, cada qual através de um conjunto de canções… Felizmente a coisa ficou por ali e o retrato maior foi deixado incompleto, dando a Sufjan Stevens a liberdade para tanto para desafiar a placidez das suas raízes folk no sofisticado e complexo “The Age do Adz” (2010) como para reencontrar a simplicidade direta da escrita para voz e instrumentação minimalista em “Carrie and Lowell” (2015), que até aqui representara o mais pessoal e emotivo dos seus discos… 

Todos estes caminhos desaguam em “Javelin”, disco que assinala, depois de arcos desenhados rumo a diversos rumos dispersos, um reencontro de Sufjan Stevens com alma primordial do cantautor (que nunca deixou de ser), num conjunto de canções que ele mesmo revelou já serem um ciclo dedicado ao seu companheiro entretanto desaparecido no passado mês de abril. Intenso e delicado, tal como era “Carrie and Lowell” (outro disco no qual as fronteiras próximas da intimidade se esbateram perante canções profundamente pessoais), “Javelin” reflete sobre a dor e a perda, num ciclo que não se esgota contudo na relativa simplicidade de arranjos do álbum que dedicara à mãe e ao padrasto. Mais próximo de um cruzamento entre a dimensão emocional e a intimidade de “Carrie and Lowell”, mas refletindo também o gosto pela composição de cenografias que o conduziu a “The Age do Adz”, “Javelin” representa a expressão de mais um episódio maior na obra de Sufjan Stevens, no qual junta à sua escrita uma versão de “There’s a World” de Neil Young. Se por um lado dá razão àquela visão (que não é lei) sobre a forma como a dor pode motivar a criação, por outro pode representar uma vontade em segurar uma âncora segura depois de uma tempestade emocional. Certo é que “Javelin” é mesmo um dos melhores dos seus discos. 

“Javelin”, de Sufjan Stevens, está disponível em LP, CD e nas plataformas de streaming numa edição da Asthmatic Kitty Records.



Rolling Stones “Hackney Diamonds”

 O desaparecimento de Charlie Watts, em agosto de 2021, lançou inevitavelmente dúvidas sobre o que poderia ser o futuro dos Rolling Stones. Não que houvesse um fim inevitável em vista, mas era natural que se questionasse qual poderia ser a agenda criativa do grupo agora reduzido a um trio… Ao longo do percurso da banda, já tinha havido mais episódios de perda, da saída (e, depois, trágica morte) do fundador Brian Jones na reta final dos sessentas ao adeus precoce do baixista original Bill Wymann em 1993, sem esquecer, naturalmente, a chegada e partida do guitarrista Mick Taylor, que esteve a bordo entre 1969 e 1974, da sua saída resultando a entrada em cena de Ronnie Wood, guitarrista que hoje completa, com Mick Jagger e Keith Richards, a formação, em trio, dos atuais Rolling Stones. A primeira resposta às dúvidas chegou no palco, em plena digressão de celebração dos 60 anos de atividade. com o baterista Steve Jordan (recomendado pelo próprio Chralie Watts), a manter-se firme na formação ao vivo. A segunda resposta, sobre eventuais novas canções, começou a desenhar-se quando, há algumas semanas, e num webcast a partir de Londres, revelaram não só a existência de um novo disco mas também aquele que foi o seu cartão de visita, “Angry”, talvez o melhor single de avanço para um novo álbum dos Rolling Stones desde “Start Me Up” (1981). Poucos dias depois, um dueto arrebatador com Lady Gaga, “Sweet Sounds of Heaven”, sublinhou positivamente as expectativas que “Angry” havia sugerido… E agora, para manter a “narrativa” no mesmo plano, “Hackney Diamonds” confirma que o que aquelas duas canções tinham mostrado, se manifesta na totalidade daquele que é talvez o mais sólido alinhamento de um álbum dos Rolling Stones em maios de 40 anos.

Este é o primeiro álbum de estúdio dos Rolling Stones desde 2016 (quando lançaram o disco de versões “Blue and Lonesome”) e o primeiro essencialmente feito com originais que apresentam em 18 anos, já que o anterior “A Bigger Bang” data do ano 2005. Pelo caminho não houve um plano de férias. E nem só do palco viveram já que, mesmo sem terem entretanto apresentado originais na forma de álbuns, nestes 18 anos de hiato  lançaram três singles novos: “Doom and Gloom” (2012) e “One More Shot” (2013) incluídos no ‘best of’ “GRRR!” e, depois, “Living in a Ghost Town” (2020), lançado em plena pandemia, acompanhado por um vídeo que nos mostrava nada antes visto e que foi o nosso quotidiano a dada altura: cidades com ruas vazias. A ideia para criar um novo álbum começou a ganhar forma em sessões em 2019 (por alturas de primeiras etapas da gravação de “Living in a Ghost Town”) nas quais ainda participou Charlie Watts, o que lhe garantiu a presença em “Hackney Diamonds”, onde o escutamos em “Mess It Up” e “Live By The Sword”, nesta última canção tendo também colaborado o antigo baixista Bill Wymann, o que assinala assim a reunião da secção rítmica original do grupo e, também, o reencontro da formação clássica que conhecemos entre 1974 e 1993. Estes são apenas dois entre os convidados de um álbum que, além de Lady Gaga, também chamou a colaboração de Stevie Wonder (nas teclas) em “Sweet Sounds of Heaven”, a de Elton John (ao piano) a “Get Close” e “Live By The Sword” e a de Paul McCartney, que levou o seu baixo ao momento de alma punk em “Bite My Head Off”, canção que assim assinala um reencontro dos Stones com a família Beatles, 60 anos depois de “I Wanna Be Your Man” (foi o segundo 45 rotações dos Rolling Stones e era, na verdade, uma canção de Lennon e McCartney que os próprios fab four gravariam no seu segundo álbum). 

O disco, com um título que traduz uma expressão do calão londrino que refere a ideia de vidros estilhaçados, está longe de ser uma proposta de revolução (nem ninguém, convenhamos, o esperaria). É, contudo, o mais sólido conjunto de canções que o grupo edita em longos anos, mostrando um alinhamento que começou por procurar traduzir o mood sugerido pelo single “Angry” mas acabou por seguir caminhos de maior diversidade, de certa forma espelhando um mapa da identidade clássica dos próprios Rolling Stones, juntando ao dominante músculo rock’n’roll (inevitavelmente com riffs contagiantes) alguns pontos de fuga que envolvem baladas (“Depending on You” ou “Sweet Sounds of Heaven”, esta com algum travo gospel), paisagens Country (em “Deram Skies”), fechando o alinhamento, como quem diz “missão cumprida”, ao som de um reencontro com Muddy Waters numa versão de “Rolling Stone Blues”, supostamente a canção que motivou o nome de batismo da banda. E vale a pena lembrar que foram os discos de Muddy Waters e Chuck Berry que Mick Jagger levava debaixo do braço que chamaram a atenção de Keith Richards no dia em que se conheceram, em 1961, na plataforma de uma estação ferroviária em Dartford. 

Sob a condução da produção, não apenas pelos Glimmer Twins (ou seja, Jagger e Richards), mas também por Don Was e o signitivamente mais jovem Andrew Watt, “Hackney Diamonds” transporta toda uma carga de memórias e referências para um presente que não quer ser feito de nostalgia (nem mesmo sugerir uma elegia em memória de um amigo desaparecido), mas que prefere antes celebrar, de forma viva, o presente. Esperam-se agora cenas dos próximos capítulos não só em palco (e o álbum está claramente talhado para poder conhecer vida na estrada) mas num eventual segundo momento de revelação de novidades já que nas sessões de trabalho entre dezembro de 2022 e fevereiro de 2023 surgiram 23 canções… Ou seja, 60 anos depois do single de estreia (lançado em junho de 1963), há 11 novas canções na gaveta dos Rolling Stones… 

“Hackney Diamonds”, dos Rolling Stones, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Polydor.



Duran Duran “Danse Macabre”

 A última vez que um tão curto intervalo de tempo separou dois álbuns de estúdio dos Duran Duran foi quando, dois anos depois de “Thank You” (1995), um álbum feito com versões, chegou a cena “Medazzaland” (1997), disco que sobrou na pele um momento de relacionamento difícil com o público e, sobretudo, a editora de então, que inclusivamente acabou por lançar o disco apenas nos EUA, Canadá e Japão, obrigando aquele que foi talvez o melhor momento criativo da banda nos anos 90 a uma espera de longos anos até que, finalmente em 2022, conheceu um lançamento global. Dois anos depois de “Future Past”, álbum através dos qual os Duran Duran celebraram o seu 40º aniversário com um episódio de grande vitalidade em vez de uma operação de memória e nostalgia, as versões voltam a entrar em cena num disco que nasceu com uma velocidade invulgar por estes lados. Tudo começou num concerto especial (e temático) de Halloween que apresentaram a 31 de outubro de 2022. Ali recriaram velhas canções suas com temáticas relacionadas com as sombras, os fantasmas e outras marcas e figuras habituais nas noites das bruxas (uma delas oclássico “Nightboat” do álbum de estreia, para o qual foi criado um teledisco com zombies, antes ainda do “Thriller” de Michael Jackson), juntando à festa – e atenção que esta noção de coisa festiva é mesmo central a toda esta ideia – algumas versões de canções de nomes como Siouxsie & The Banshees, Rolling Stones, Cerrone ou Specials… Agora, um ano depois, o que a plateia de Las Vegas viveu naquela noite está reimaginado num álbum de estúdio, gravado a bom ritmo, no qual se assinala o reencontro com antigos companheiros (Andy Taylor, Warren Cuccurullo e Nile Rodgers), celebrando, em “família” um espaço com lastro na cultura popular anglo-saxónica mas que, apesar das tradições já inscritas no cinema, não tinha uma tradição na música. E assim nasceu o “disco de Halloween”…

O melhor de “Danse Macabre” (nome que evoca um tradição medieval e, na música, uma a peça orquestral de 1875 de Camille Saint Saëns mas sem qualquer ligação com o compositor francês) são as três canções originais que o grupo acabou por criar durante as sessões de gravação do álbum, uma delas (a melhor do disco) recebendo o seu título, nela refletindo-se, além de um cuidado labor cénico que sublinha os ambientes assombrados que o disco quer sugerir, mais um momento de assimilação vocal de ecos da cultura hip hop (o que não é inédito na obra do grupo), representando este uma das duas contribuições de Warren Cuccurullo neste álbum. “Black Moonlight”, por sua vez, relativa a pulsação pop com travo funk que atravessou já vários outros discos dos Duran Duran, reunindo aqui Andy Taylor e Nile Rodgers. “Confessions in the Afterlife” (onde se escuta Dom Brown, o guitarrista que nos últimos anos tem acompanhado a banda em palco) é uma canção mais sombria, mais lenta, na tradição das grandes baladas dos Duran Duran. 

A estes episódios maiores – que confirmam o bom momento criativo que a banda vive já com mais de 40 anos de estrada – o álbum junta bons momentos nas novas visões criadas para “Psycho Killer” dos Talking Heads (com a colaboração da baixista Victoria DeAngelis, dos Maneskin), “Spellbound” de Siouxie and the Banshees, “Supernature” de Cerrone ou na inesperada leitura para “Burk a Friend”, de Billie Eilish (a única das versões de “Danse Macabre” que não integrava o concerto de Las Vegas). Está longe do fulgor destas a versão menor “Paint It Black” dos Rolling Stones, assim como parece algo equívoca a inclusão de “Ghost Town” dos Specials, que na origem não era exatamente coisa sobre fantasmas, mas antes um retrato realista e crítico de tempos de crise profunda que a sociedade britânica vivera na reta final dos anos 70, falando na verdade de desemprego, violência e do quotidiano nas franjas suburbanas das grandes cidades. Quanto às novas leituras, se o mashup de “Lonely In Your Nightmare” com “Super Freak” de Rick James sublinha a eficácia do tom festivo que têm apresentado regularmente em palco, já as novas abordagens a “Nightboat” (mais ambiental e fantasmática, mas menos musculada nas vitaminas pós-punk da canção de 1981), a “Love Voudou” (com nova grafia) e “Secret Oktober 31st” (com o mais belo lado B dos Duran Duran a perder as filigranas do trabalho para sintetizadores, apostando numa visão cénica diferente, mais pomposa e orquestral) não envergonham ninguém, mas em nenhum dos casos supera as propostas originais. De fora acabou “Shadows on Your Side”, canção do álbum de 1983 que passou pelo concerto em Las Vegas mas não chegou a “Danse Macabre”…

Convenhamos que o que aqui se partilha é um momento de festa e não o que um novo álbum de estúdio habitualmente desenha como forma de fixar mais uma etapa numa obra. E, mesmo aquém dos recentes “Future Past”, “Paper Gods” ou “All You Need Is Now” (discos que voltaram a elevar e manter alta a fasquia criativa do grupo), “Danse Macabre” não só responde ao desafio que nos coloca, como está uns valentes furos acima do muito mais desigual “Thank You”.

“Danse Macabre” dos Duran Duran está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição da Tape Modern/BMG.



OMD “Bauhaus Staircase”

 Nada como as exceções para baralhar quem acredita que tudo acontece sempre segundo os mesmos princípios… E de facto não é difícil torcermos o nariz quando se fala de discos novos por parte de bandas com algumas décadas de existência que, após longos hiatos, tocam a reunir e, para lá dos palcos, em modo nostalgia, resolvem gravar novos álbuns com material inédito… E basta citar nomes notáveis como os Bauhaus, Culture Club ou Visage (para ficar entre figuras da mesma geração) para que um eventual ceticismo sobre a sugestão acima lançada encontre confirmação nos títulos bem marinhos de ideias através dos quais juntaram novas canções às suas discografias. Mas todas as “regras” comportam exceções. E, entre esta mesma geração britânica com berço entre finais dos anos 70 e inícios dos 80, o nome dos Orchestral Manouevers In The Dark (OMD) cada vez mais parece ser o de uma digníssima fuga ao modelo… É que, a cada novo disco que lançam, desde a sua reunião há 17 anos, cada vez mais parecem se aproximar do patamar dos melhores momentos da sua discografia – que corresponde aos álbuns “Architecture & Morality” de 1981, “Dazzle Ships”, de 1983 e, uns ligeiros patamarzitos abaixo, “Junk Culture”, de 1984.

Depois de uma ausência de 11 anos, maior ainda se tivermos em conta que Paul Humphries se havia afastado da banda em 1989 (apesar de manter uma colaboração autoral até 1996 salvo no álbum “Sugar Tax” de 1991), os OMD voltaram a juntar a sua dupla original, por um lado trabalhando um regresso aos palcos a partir de 2006, três anos depois acrescentando à sua discografia o inesperadamente bem nascido “History of Modern” (2010). Em 2013 fizeram de “English Electric” mais um passo seguro, juntando a bordo sinais da sua genética kraftwerkiana a ecos da obra que haviam gravado em meados dos anos 80. Quatro anos depois “The Punishment of Luxury” retomou precisamente essas duas linhas centrais de ação sem, contudo, procurar fazer das janelas abertas para com a memória uma declaração de nostalgia. E agora, como que a culminar todo este percurso de regresso “sustentado”, eis que entra em cena “Bauhaus Staircase”, álbum que entra diretamente para terceiro lugar do pódio dos melhores discos do grupo.

Se em finais dos anos 70, quando eram um oásis de atenção pelas emergentes eletrónicas entre as novas bandas que se apresentavam no mítico Eric’s em Liverpool, desenhavam sobretudo uma visão plástica rumo a uma nova forma de entender a canção pop, já em 1983, no então quase ignorado “Dazzle Ships” (entretanto transformado em clássico de referência), traduziram ecos dos sinais dos tempos, refletindo sobre o clima de guerra fria em que a Europa vivia numa época em que a pop mainstream britânica oferecia, sobretudo, rotas de luz, festa e escape. A necessidade de responder, com êxitos, ao fracasso comercial de “Dazzle Ships” levou o grupo a mudar as linhas das suas rotas. Porém, nos caminhos (já sem essa carga nos ombros) que têm trilhado desde a sua reunião, os sinais dos tempos têm começado a ganhar expressão nas suas canções. E, após seis anos de pausa criativa, em “Bauhaus Staircase” levam ainda mais longe essa vontade em refletir sobre o nosso tempo político e social que passava já por “The Punishment of Luxury”, apresentando no novo álbum quer olhares críticos sobre a classe política, a ascensão do populismo e os riscos que a nossa casa comum corre perante as evidências das alterações climáticas.

Contudo, e mesmo com uma carga política bem mais vincada (que de resto Andy McCluskey tem sublinhado nas recentes entrevistas), “Bauhaus Staircase” não perde a alma feita de luz pop que sempre marcou a obra dos OMD. Este é, de todos os discos desta série pós-reunião, aquele em que de forma mais bem assimilada se confrontam as marcas de novidade e desafio com as genéticas de referência que desde cedo definiram a sua linguagem. Canções como “Slow Train” (que evoca o mood abrasivo da pop de Goldfrapp por alturas do seu segundo álbum) ou o tema-título traduzem a abertura do som dos OMD a estímulos recentes. Depois, por vários momentos do álbum, escutamos ecos das suas fontes de inspiração e da sua própria maneira de desenhar canções pop, reencontrando em alguns momentos o gosto em trabalhar a voz falada (piscando aqui o olho, agora com outro conforto, sobre a memória do belíssimo “Dazzle Ships”). Num disco viçoso que nasce em tempos assombrados, os OMD não fecham a porta nem à dimensão mais pessoal que as emoções podem moldar (como em “Aphrodite’s Favourite Child”, que na verdade estava na gaveta há alguns anos), nem à festa (escute-se “Don’t Go”, nascida por alturas de uma recente antologia), encerrando o alinhamento com um convite sereno à redenção, sugerindo em “Healing” o desejo em ultrapassar algumas das feridas que faixas como o alarmante “Antrophocene” ou o crítico “Kleptocracy” antes colocam em cena. Escutado de fio a pavio “Bauhaus Staircase” (com uma capa que evoca os tempos em que Peter Saville desenhou grafismos icónicos para os seus discos), sentimos, apesar dos rumores de eventual despedida na linha do horizonte, que os OMD, aos 45 anos de carreira, estão num pico de forma… Pela frente têm, em 2024, uma digressão de arenas no Reino Unido. Será para selar em festa o adeus? Ou para medir o pulso à coisa antes de um novo episódio?… Por aqui, assim sendo, nada como seguir com atenção as cenas dos próximos capítulos.

“Bauhaus Staircase”, dos OMD, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição White Noise.






ROCK ART


 

BANDAS RARRAS DE UM SÓ DISCO - Omnibus (1970)

 



Banda obscura com poucas informações na internet, porem possui um ótimo som, com uma mistura de heavy rock, hard rock e rock psicodélico.

O álbum foi gravado em Nova York e produzido por Steve Nathanson e Eric, que também produziu colegas da gravadora Boffalongo. (Max Collodie)










Colosseum - 2003 - Tomorrow's Blues

 



Come Right Back 4:29
In The Heat Of The Night 5:34
Hard Times Rising 6:38
Arena In The Sun 3:22
Thief In The Night 5:44
Take The Dark Times With The Sun 5:09
The Net Man 5:36
Leisure Complex Blues 5:09
No Demons 4:31




Colosseum - 2007 - Live05

 



Showtime 0:34
Come Right Back 5:00
Theme For An Imaginary Western 6:35
Lights 0:32
Rope Ladder To The Moon 8:35
The Valentyne Suite 23:04
January's Search 6:46
February's Valentyne 5:09
The Grass Is Always Greener 11:09
Those About To Die 5:00
Stormy Monday Blues 10:14
No Pleasin' 7:50
Tomorrows Blues 12:10
Drum Intro To LA 2:57
Lost Angeles 16:24





Destaque

Franco Battiato – Un Soffio Al Cuore Di Natura Elettrica (CD+DVD) (2005)

Hoje, 23 de março de 2011, o grande  Franco Battiato  completa 66 anos, e pensei que seria uma boa maneira de comemorar compartilhando esta ...