sexta-feira, 2 de maio de 2025

NILTON RABELLO

 


A música de Nilton Rabello


De entrada

“Ninguém olha pro centro do país
E a gente vai tentando ser feliz
Cantando de Pixinguinha a Paralamas
Também a gente escuta muita lama [...]”

(Rabello. Centro-Oeste. In 2014 - 30 Anos de Música.)

É comum pensar-se que no Goiás só existe duplas de cantores e que, por isso, só se toca a música rotulada de sertaneja. De cara, um preconceito e um paradoxo. O ledo engano é preconceito, porque quem assim pensa não conhece o Goiás e muito desconhece a cultura musical goiana.


“No fundo eu sou goiano [...]
Mas o melhor é que sou brasileiro
[...]
Sou do samba, funk, rock, pop
Bom moleque, olha o breque
Ninguém olha pro Centro-Oeste do país
E a gente vai cantando como quis”
[...]
(idem)

Eis o paradoxo. No Goiás não há sertões! E se não há, não se pode classificar sua cultura musical como sertaneja, muito menos unificá-la  com um rótulo, como se lá apenas se cantassem em duplas.
As duplas existem lá, mas lá não existe apenas duplas.  Além do que as tais duplas cantam qualquer coisa, menos o sertão:

“E pra saber do nosso paradeiro
É aqui no Centro-Oeste brasileiro
[...]
E a gente vai bolando um plano xis
Pensando gravar de novo um LP
Pra provar que aqui tem a pura MPB.
No fundo tem mais som nesse celeiro.”
(ibidem)
E tem mesmo... Assuntem!

Quem é Nilton Rabello?

Nilton Rabello nasceu em Anápolis, município que se situa no sudoeste goiano e que se constitui o segundo mais importante município do estado. Bom de bola, ainda menino, com 10 anos de idade foi morar em Goiânia com o intuito de estudar e de se tornar jogador de futebol. Mas a música estava enraizada.

A vida fez Nilton Rabello cumprir seu destino. Jogou no Atlético Goianiense, no Clube Jaó e no Goiás Esporte Clube, formou-se em Ciências Econômicas e se tornou cantor/compositor. E, posso garantir, dos bons.

A música na Vida de Nilton Rabello

Nilton Rabello nasceu em uma família musical. Seu pai era violonista e sua mãe cantora, seus irmãos mais velhos eram músicos não profissionais, mas também tocavam, cantavam e acompanhavam o pai nas cantorias familiares. O repertório passeava de Dilermando Reis a Cartola e de Dalva de Oliveira a Elizeth Cardoso.

O cantor e Compositor

A carreira de jogador de futebol é curta. A de cientista econômico não foi avante. Restou-lhe a música e Nilton Rabello fez dela sua vida. São quase 500 composições registradas.  O início da carreira teve impulso quando, ainda estudante secundário, participou com destaque do FICO – Festival Interno do Colégio Objetivo.

Hoje ele detém uma discografia invejável. Ao todo são 01 compacto simples, 10 CD e 02 DVD, todos autorais.

Profissional da música desde 1980, firmou-se cantando nos bares da cidade e participando de festivais.  Em 1990, representou o Estado de Goiás no Festival de Música do Wyoming – EUA, juntamente com Marcelo Barra, outro cantor goiano. Por lá, fizeram mais de 10 apresentações.

Um dos seus álbuns (2005 – Sol a Sol) foi patrocinado por um empresário holandês e teve o lançamento oficial em Rotterdam, no Teatro Evennar, em 2006, sendo lançado no Brasil apenas no ano seguinte.

O espaço

Nilton Rabello não encontra espaço na mídia nem toca no Rádio fora da cidade de Goiânia. É mais um dos muitos artistas brasileiros que produz música de qualidade e não ultrapassa fronteiras, apesar de fazer música brasileira e universal.

Lamentamos nós, que tanto gostamos da boa música e perdemos todos nesse processo. As emissoras de rádio e de televisão, que perdem audiência, nós porque nos é negado o acesso à boa arte, e o artista que tanto carece do espaço para que sua música e sua arte alcancem o público.


As 10 melhores músicas de Aaron Neville de todos os tempos

 Aaron Neville

Aaron Neville nasceu em Nova Orleans, Louisiana, em 24 de janeiro de 1941. Ele nasceu em uma família musical. Sua mãe queria que ele estudasse um instrumento, e seu tio, George "Big Chief Jolly" Landry, era cantor da tribo indígena do Mardi Gras, os Wild Tchoupitoulas. O irmão de Aaron, Art, formou o grupo Hawkettes e convidou o irmão para se juntar à banda. No entanto, a carreira musical de Aaron ficou em hiato por seis meses enquanto ele estava na prisão, condenado por roubo de carro em 1958.

Após a recuperação, ele retornou a Nova Orleans e gravou vários singles pelo selo Minit. Seu single mais famoso na época foi produzido por Allen Toussaint e alcançou a vigésima primeira posição. Embora outro single seu devesse tê-lo catapultado para o estrelato, vários fatores impediram que isso acontecesse. Sua gravadora o pagava mal. Além disso, Aaron começou a ter problemas com drogas. Finalmente, em 1978, ele voltou a trabalhar com seus irmãos.

A banda de seu tio, a Wild Tchoupitoulas, fechou um contrato com uma gravadora, e Aaron, juntamente com seus três irmãos, foi convidado para ser o instrumentista de apoio. Posteriormente, os Neville Brothers gravaram vários outros álbuns que apresentaram um som único e foram aclamados pela crítica e pelos fãs

Em 1986, Aaron gravou seu primeiro EP solo, "Orchid in the Storm", com cinco clássicos dos anos 50. Até o final dos anos 80, Aaron continuou se apresentando com seus irmãos. No entanto, com a aproximação dos anos 90, ele começou a seguir carreira solo e a tocar com seus irmãos. Em 1993, Aaron lançou o álbum solo "The Grand Tour", bem como o álbum de Natal. Ele também emprestou sua voz para "Rhythm, Country, and Blues", um álbum colaborativo com duetos intergêneros com cantores country.

Gravações adicionais

No álbum, Aaron cantou a música I Fall To Pieces de Patsy Cline com Trisha Yearwood. Além disso, Aaron gravou Even If My Heart Would Break para a trilha sonora de The Bodyguard . Em 1996, o trabalho de Aaron com seus irmãos desacelerou, mas sua carreira solo estava a todo vapor. Ele lançou The Tattooed Heart em 1995. Então, em 1997, ele lançou seu último álbum solo pela A&M, …To Make Me Who I Am. Três anos depois, ele começou a gravar em sua própria gravadora. Aaron tirou vários anos de folga após a separação dos The Neville Brothers em 2006. Após o hiato, Aaron lançou uma coleção de músicas gospel no álbum de 2010 I Know I've Been Changed.

Três anos depois, ele gravou My True Story pelo selo Blue Note, um projeto muito parecido com seu primeiro álbum, Orchid In The Storm, uma coleção de do-wop reimaginado e padrões clássicos dos anos 50 reimaginados. O músico dos Rolling Stones, Keith Richards, foi um dos produtores. No álbum de Aaron de 2016, Apache, ele escreveu quase todas as faixas. Ele tinha 75 anos quando foi lançado. O show promovendo o álbum contou com Dr. John, Ivan Neville e George Porter Jr. Além disso, a banda de funk de Nova Orleans Dumpstaphunk fez uma aparição. A celebração de 75 anos de Aaron Neville ao vivo no Brooklyn Bowl foi lançada em áudio e vídeo em 2019. Com tantas músicas para escolher, é difícil escolher a melhor. No entanto, estas são as dez melhores músicas de Aaron Neville de todos os tempos.

10. You Never Can Tell

Esta música é a quintessência dos anos 50. A letra remete a uma lanchonete ou a um show de sock hop. A voz de Neville é suave, com notas de piano e bateria. A adição do saxofone completa a música.

9. Don’t Take Away My Heaven

Esta música começa com um interlúdio etéreo de coral, acompanhado pela voz cadenciada de Neville. A letra da música é uma clássica canção de amor. À medida que a música avança, ela se mantém constante, com interlúdios de sinos.

8. Summertime


A música abre com um interlúdio de reggae que se transforma em instrumentação mais clássica. A letra lembra bastante a infância de Neville em Nova Orleans, embora a música tenha sido escrita originalmente por George Gershwin para a ópera Porgy and Bess, de 1935.

7. Over You


De acordo com a WBSS Media , Over You foi o primeiro single de Neville a ser tocado fora de Nova Orleans. A música tem um belo groove jazzístico. Uma das ausências perceptíveis são os vocais mais suaves de Neville. A música tem ótimos ganchos e uma batida contagiante. A primeira faixa de Neville é fortemente influenciada pelo funk e soul de Nova Orleans.

6. Earth Angel

Neville faz um cover quase nota por nota nesta música. No entanto, a profundidade adicional em sua voz cria uma sonoridade mais completa que não estava presente na versão original. Além disso, partes da instrumentação são mais sintetizadas, o que também adiciona frescor à faixa.

5. Ain’t No Sunshine

É difícil adicionar algo a um clássico como esta música. No entanto, Aaron Neville adiciona o suficiente do seu estilo para criar uma reviravolta inovadora. As batidas de bateria parecem mais assombrosas. Além disso, Neville adiciona alguns acordes de piano que estavam ausentes na versão original.

4. Louisiana 1927

As vozes de Randy Newman e Aaron Neville têm características comparáveis. No entanto, a voz de Neville adiciona um toque de melancolia a esta música. Tudo na letra e na instrumentação transporta você para as profundezas do pântano.

3. Everbody Plays The Fool



A música começa com um intrincado interlúdio de bateria e percussão e uma leve amostragem de guitarras slide. Os preenchimentos de bateria são mais leves e arejados ao longo da música, permitindo que a voz de Neville brilhe em primeiro plano.

2. Hercules

"Hércules" abre com uma instrumentação intensa, movida pelo funk. Além disso, há uma pegada reggae . A voz de Neville tem um quê de agudeza e um tom de fumaça ausentes em muitas de suas outras músicas. Há muitos elementos nesta música que funcionam bem juntos, resultando em uma melodia cativante.

1. Tell It Like It Is

O primeiro sucesso significativo de Neville foi lançado pela gravadora Par-Lo, de Nova Orleans, copropriedade de George Davis. Liderou as paradas de R&B da Billboard e alcançou a segunda posição na Billboard Hot 100 em 1967.

As 10 melhores músicas de Aaron Lewis de todos os tempos

 

Aaron Lewis nasceu em 13 de abril de 1972, em Rutland, Vermont. Ele era o vocalista do grupo Staind, um grupo que envergonhou o som hard rock pós-grunge do início dos anos 2000; foram suas composições que ajudaram o grupo a se manter firme.

A banda se separou em 2011, e Lewis embarcou em carreira solo. No entanto, em vez de seguir o mesmo gênero musical como muitos outros artistas fazem em suas carreiras solo, ele seguiu uma direção totalmente diferente: a música country.

Embora parecesse uma mudança empolgante, a música country fazia parte de sua vida muito antes de outros gêneros musicais. Durante as férias de verão, visitando seu avô, eles passaram um tempo ouvindo muitas lendas da música country, como Merle Haggard e Hank Williams Jr.

Busca pela música country

Seu desejo de seguir carreira na música country começou quando ele ainda integrava o grupo Staind. Em entrevista à revista Rolling Stone , Lewis relembra noites no ônibus da turnê em que nenhum dos integrantes da banda conseguia dormir. Durante esse tempo, ele ouvia álbuns de artistas country clássicos. Como ele mesmo explicou: "Eu realmente não conseguia escapar do inevitável, que é onde estamos agora".

Além disso, ele passou um tempo com quem considera "o rebelde supremo", Kid Rock, que mais tarde também migrou para o outro lado do Atlântico. Até agora, a mudança de gênero tem funcionado bem para ele. Em 2011, lançou seu primeiro álbum, "Town Line", e foi aí que ele começou a moldar seu próprio estilo, um que soava muito mais parecido com o country de uma época passada do que alguns outros artistas country emergentes.

O álbum alcançou a sétima posição na parada country da Billboard. Cinco anos depois, ele gravou "Sinner", que alcançou a quarta posição na Billboard Top 200. Ele lançou um single, "Folded Flag", em 2017, mas esperou mais dois anos antes de lançar "State I'm" em seu álbum mais recente. Estas são as 10 melhores músicas de Aaron Lewis de todos os tempos.

10. Burnt the Sawmill Down


Keith Whitley escreveu esta música, mas nunca a gravou. Em vez disso, ela fez parte do álbum de Lewis de 2019, State I'm In. Os acordes iniciais da música soam mais como o country de décadas anteriores do que como a época em que Lewis iniciou sua jornada. Ao longo da música, ele canaliza perfeitamente o tom do falecido cantor country. A letra remete a um homem que teve que fugir da cidade onde cresceu porque cometeu um ato de vandalismo em retribuição por ter sido informado de que não poderia namorá-la.

9. Stuck In These Shoes


Ao ouvir essa música, é difícil não pensar no auge do honkey tonk. No entanto, Lewis a pega do palco e adiciona um toque mais acústico, tornando-a exclusivamente sua.

8. Folded Flag (acoustic version)


Uma das coisas que Lewis respeita são as Forças Armadas dos Estados Unidos e os sacrifícios que fazem pelo nosso país. Esta música foi escrita para homenageá-los. Fez parte do Home & Family Show de 2017, na rede Hallmark. Quando Lewis toca a música, é só ele e um violão. É uma homenagem tocante aos soldados e ao amor que eles deixam para trás para defender o nosso país.

7. State I'm In (com Alison Krauss)

A letra desta música contém a perda da fé em algo que o guia, devido a tantos altos e baixos na estrada da vida e ao trabalho árduo sem resultados. A melancolia dos instrumentos e a voz de Lewis contribuem para a mensagem melancólica. O eco da voz de Allison Krauss ao fundo é um belo complemento para uma música tocante.

6. Sinner

Ao ouvir a mistura de guitarras e bateria no início da música, é fácil perceber os primeiros compassos do gênero country rebelde. Quando a voz de Lewis entra em cena, há elementos distintos de Hank Williams Jr. Mais uma vez, ele leva a música country de volta às suas raízes nesta música.

5. The Road

Sempre que você ouve uma introdução como a desta música, parece uma música que você ouviria enquanto dirige. A letra não decepciona. A letra fala sobre homens e mulheres que passam a vida na estrada tentando ganhar a vida. Também fala sobre as lutas que essas pessoas enfrentam e como pode ser difícil viver como motorista de caminhão.

4. The Story Never Ends

Embora muitas das músicas de Lewis façam parte da cultura country, com letras sobre armas, Deus e outros elementos básicos do gênero, esta música soa muito mais pessoal. Como Lewis é casado e tem filhos, você pode ouvir como é difícil para ele estar na estrada, perdendo os marcos. É também sobre como voltar para o lugar que você chama de lar tem um efeito de aterramento diferente de qualquer outro lugar.

3. Lost and Lonely

Embora parecesse improvável que um cantor que estreou na cena musical como vocalista de uma banda de hard rock pós-grunge pudesse ter uma segunda encarnação como cantor country, o estilo country de Lewis mostra que é possível não apenas fazer isso, mas também brilhar. A letra desta música aborda os rebeldes da vida que seguem suas próprias regras, mas ainda assim alcançam o sucesso graças ao amor de uma boa mulher.

2. Country Boy (com Chris Young, George Jones e Charlie Daniels)

O contato precoce de Lewis com a música country e o respeito que ele nutre pelo avô são destacados nesta música. Lewis também admitiu que esta canção também faz referência à canção "A Country Boy Can Survive", de Hank Williams Jr. A inclusão de outros cantores de música country, do clássico ao contemporâneo, faz desta canção um destaque na nova música country.

1. Am I The Only One


Ao longo de sua carreira solo, Lewis tem sido um conservador muito franco. Essa música o colocou em uma posição mais alta nas paradas da Billboard do que qualquer outra que ele já tenha lançado. Graças à forte promoção da mídia conservadora, estreou na 14ª posição na Hot 100. Como a letra era tão crucial para Lewis, é natural que ele mantenha a instrumentação simples, usando apenas sua voz e um violão. A letra fala sobre a desilusão ao ver o noticiário se desenrolar e a mudança no país.

C Duncan “It’s Only a Love Song”

 Quando se fala no esbatimento das antigas fronteiras entre as tradições da música clássica e os espaços da música popular não devemos escutar apenas exemplos como os que, através de nomes como os de Bryce Dessner (dos The National), Richard Reed Parry (dos Arcade Fire), Rufus Wainwright ou Johnny Greenwood (dos Radiohead), revelaram já exemplos de criação diferentes daqueles a que habituaram parte dos seus seguidores através de obras suas em programas de música orquestral, ensaiando passos na música coral ou até mesmo a ópera. O passar dos anos foi assistindo também, com nomes que vão de um John Cale a um Owen Pallett, a percursos feitos num outro sentido desse mesmo vasto canal de troca de ideias e experiências. E C Duncan (n. 1989), filho de pais com trabalho feito nos universos da música clássica, com educação feita na Royal Scottish Academy of Music (que hoje se apresenta como Royal Conservatoire of Scotland), onde estudou composição, e um início de carreira que viu peças por si compostas a ser interpretadas por vários ensembles em salas de concerto do Reino Unido, estreou-se nos discos, há dez anos, com um álbum de canções pop que revelava um saber cuidado na construção das canções e fazia de “Architect o disco-surpresa do verão de 2015 e deu a Christopher Duncan (o seu nome real) uma nomeação para o Mercury Prize.

Um ano depois (ritmo pouco vulgar nos nossos tempos) apresentava no sucessor “The Midnight Sun” um disco mais sombrio, mais pessoal (ou seja, mais íntimo), e ainda mais atento aos diálogos entre a o trabalho de composição e o detalhe na produção. “Health”, em 2019, se por um lado retomava aquela melancolia luminosa dos finais de tarde de verão do disco de estreia, por outro lançava as ideias para um espaço de horizontes mais largos. E colocava-nos perante um agradável confronto decididamente mais frontal consigo mesmo. O caminho para chegarmos a “It’s Only a Love Song”, que inclui ainda uma paragem, em 2022, em “Alluvium” (disco no qual, em algumas canções, piscou pontualmente o olhar a uma pop eletrónica), segue os trilhos de descoberta e assimilação de formas e ideias que este percurso foi alicerçando. Sem sinais de rutura, o álbum volta a colocar-nos numa zona de conforto que retoma os espaços dos seus primeiros álbuns, desenhado em linhas de uma pop com alma orquestral que procura referências e tonalidades noutros tempos que não o presente. Um clima romântico, que se fosse cinema seria coisa para um Douglas Sirk, reconhecendo o próprio C Duncan que nomes como os de Jacques Demy ou Leonard Bernstein são figuras que o inspiram. O aparentemente tranquilo mundo emocional de C Duncan expressa-se numa nova, bela e pacata coleção de canções. Não está aqui um disco para marcar o ano. Mas acrescenta mais um seguro passo numa carreira que continua a saber bem acompanhar com a placidez com que se segue por um caminho sereno e seguro.


Sharon Von Etten “Sharon Van Etten & The Attachment Theory”

 Numa cultura tantas vezes marcada pelo primado do “eu” não deixa de ser interessante observar momentos em que músicos, já com obra gravada (e aclamada) optam por ceder protagonismo, apresentando-se a bordo de uma banda. Um exemplo maior aconteceu com David Bowie quando, na reta final dos anos 80, o músico resolveu encerrar a década de maior sucesso comercial da sua vida surgindo em 1989 como elemento dos Tin Machine. Ou quando a brasileira Tulipa Ruiz se juntou a três amigos (entre os quais o irmão Gustavo) para criar o coletivo Trago com o qual gravou um (belo) álbum em 2024. Estes são casos algo diferentes do momento que viu Bob Dylan ou George Harrisson (juntamente com Tom Petty, Roy Orbison e Jeff Lynne) a formar os Travelling Wilburys, na verdade, mais próximos do conceito da “superbanda”. Isto para não falar de bandas que nasceram com músicos que vinham de bandas anteriores. E aí, dos Erasure aos Foo Fighters, dos Big Audio Dynamite às Breeders, dos Luna aos Pluto, a história é bem mais vasta. Tudo isto para chegarmos a Sharon Van Etten que, ao cabo de seis álbuns, lança agora um sétimo disco partilhando a sua comunicação com a banda que a acompanha, assim se justificando o título: “Sharon Van Etten & The Attachment Theory”.

Sem perder marcas de personalidade, que no anterior (e magnífico) “We’ve Been Going About This All Wrong” (2022) a viam a refletir sobre a vulnerabilidade e a dúvida (ecoando os ainda nada distantes tempos de pandemia), eis que junta a essa faceta assombrada da sua alma novas evidências de heranças new wave numa espantosa coleção de canções nas quais os sintetizadores moldam arranjos que transpiram essa ideia de sonoridade de banda. Uma vez mais marcada por observações e reflexões sobre o mundo que a rodeia e os nossos comportamentos como sociedade, a música de Sharon Van Etten ganha neste disco um maior fôlego na composição cénica dos espaços, traduzindo o trabalho em banda uma capacidade em dar à voz (a do canto e também a criativa) de Sharon uma dimensão ainda mais sedutora. Os ambientes não perdem o tom tenso de outrora, mas ganham novas cores e músculo pop (com vitaminas que ecoam os oitentas), como se escuta em “Live Forever”, “Afterlife” ou “Idiot Box”. Mais adiante, ao som de “Fading Beauty”, voltamos a entender porque David Lynch em tempos levou a sua música a “Twin Peaks”. 


Marinero “La La La”

 Filho de pais com raízes mexicanas e irlandesas, com primeira etapa de vida na sua São Francisco natal, Jess Sylvester, ou Marinero se olharmos para as capas dos seus discos, é um bom exemplo de como a geografia do local onde a música desponta pode influenciar as ideias. Desde cedo deixou os ecos da identidade latina bem evidentes entre canções ora cantadas em inglês ora em espanhol. Ao evoluir de “Topico de Cancer” (2019) para “Hella Love” (2021) curiosamente lançou mais olhares e sonhos mais a sul, juntando a uma linguagem indie com afinidades ao soft rock e a terrenos dream pop alguns condimentos mais “tropicais”, como por exemplo o travo bossa de “Trough The Fog”. Mas entretanto a sua vida levou-o a mudar de casa. E uns quilómetros mais a Sul, em Los Angeles, encontrou novos estímulos, referências e afinidades que, agora, fazem de “La La La” o mais cativante dos títulos de uma discografia ainda em construção.

Os elementos que demarcaram a identidade de Marinero entre os seus dois primeiros álbuns mantém-se presentes e evidentes. Porém, na terra dos Beach Boys, as heranças do mítico grupo que nasceu em Hawthorne (na região suburbana de Los Angeles) juntam-se à paleta de cores com as quais aqui nascem as canções de perfil mais doce e suave, onde a costela soft rock e um apelo por uma certa pop barroca (afinal Van Dyke Parks andou também por ali) como se sente, discretamente, em “The Mistery of Mari Jane” ou “Sea Changes”. Porém, os ares de Los Angeles estão longe de mostrar um caminho único na direção dos manos Wilson, primo e amigos. E, desde a proximidade de Hollywood (em “Cinema Lover”, que sugere ecos mexicanos ou no episódio de sabor lounge, em “Hollywood Ten”)  ou de uma ainda mais visível presença das raízes latinas (ora na salsa que invade “Taquero” ou na vinheta “Cha Cha Cha”), às teclas à la Manzarek (Doors, portanto) em “Die Again Yesterday” (canção que traduz de forma magistral os desejos, bem concretizados, de uma cenografia mais elaborada que marca o disco), o terceiro álbum de Marinero respira os ares e a luz da cidade, assim como os cruzamentos de culturas que ali moram.

O disco cujo título vinca desde logo o novo mapa em volta de Marinero, sublinha mais do que nunca as ambições cénicas de canções que já se adivinhavam nos discos anteriores mas que só agora, sob os contrastes entre músculo e filigrana de arranjos de dimensão orquestral, atingem um patamar capaz de lhe proporcionar outra visibilidade. Claramente um disco a descobrir.


O regresso em grande forma de Lady Gaga num álbum carregado de (boas) referências

 Num tempo em que o panorama da canção pop se mostra dominado por canções criadas para afagar aos ímpetos dos algoritmos, servindo fartas doses de mais do mesmo, as exceções (raras, mas valentes) mostram que este pode ainda ser um terreno onde, como a história sempre demonstrou, o melhor pode acontecer. Da excelência da afirmação de visão e personalidade de um “Hit Me Hard and Soft” de Billie Eilish à ousadia que Madonna convocou para o seu mais recente “Madame X”, isto sem desmerecer o brilho polido mas eficaz com que Kylie Minogue nos deu uma canção irresistível como “Padam Padam”,  Beyoncé convocou heranças da cultura house em “Renaissence” ou a veterania sagaz dos Pet Shop Boys chamou grandes canções a “Nonetheless”, a pop dos (novos) anos 20 já colheu suficientes episódios claramente acima da mediania reinante. E eis senão quando, após uma sucessão de experiências noutros trilhos (do jazz ao cinema), eis que a figura maior que a pop viu nascer na primeira década do século regressa com um disco a inscrever no panteão onde moram os demais acima citados. E com aquele que é o seu melhor álbum em largos anos. 

A rara adaptabilidade de Lady Gaga a territórios tão distintos como os que percorreu depois do trio inicial de álbuns – “The Fame” (2008), o complemento direto “The Fame Monster” (2009) e “Born This Way” (2011) – deu conta de uma capacidade em cruzar desafios, juntando ora ímpetos mais exploratórios (“Art Pop”, 2013) ora mergulhos por memórias clássicas (“Cheek to Cheek”, ao lado de Tony Benett, em 2014, tal como em “Love For Sale”, de 2021). Nos últimos anos, e depois do mais discreto “Joanne” (2016) o cinema assumiu um papel com algum protagonismo, chegando até a ofuscar “Chromatica” (2020). Porém, apesar do sucesso considerável de “The Star Is Born” (2018) e de ter entregue uma canção ao segundo “Top Gun” em 2022, foi com uma experiência desastrosa nas bilheteiras que emergiram premeiros sinais de saudável inquietude que, não imaginávamos ainda, preparavam caminho para “Mayhem”. Se por um lado a crítica e as salas sovaram “Joker – Folie à Deux”, por outro o filme deu a Lady Gaga uma nova oportunidade para trabalhar um repertório clássico, mostrando o belo “Harlequin” (2024) que, ao classicismo de “Cheek To Cheek”, o seu novo episódio de reencontro com velhos songbooks se fazia num laboratório em maior ebulição de ideias, cheio de contrastes e surpresas. Se tivermos em conta que as canções de “Mayhem” começaram a ganhar forma já na reta final da “Chromatica Ball Tour”, ou seja, contemporâneas da criação das versões que depois ficaram fixadas em “Harlequin”, então podemos supor que um mesmo adubo criativo estava a animar uma autora a atravessar uma etapa de reencontro com um pico de forma. E se houvesse dúvidas basta uma simples primeira audição do novo disco para ter respostas. Sim. Está de volta ao seu melhor. E à melhor pop do presente.

Se entre “The Fame” e “The Fame Monster” Lady Gaga definiu as bases de uma linguagem criativa e uma identidade autoral (firmada num corpo sólido de temáticas e causas), já em “Born This Way” mostrou que a construção do seu presente assentava sobre alicerces conhecedores da história da cultura pop, algo que, depois do mais experimental “Art Pop”, retomaria em “Joanne”. O novo “Mayhem” junta esses mundos. Ou seja, retoma a visão pop (baseada numa escrita cuidada e numa entrega vocal poderosa) dos tempos de “Poker Face”, “Love Games” ou “Bad Romance” e assimila temperos que vincam vivências atuais (luminosas e felizes) e memórias colhidas entre ícones maiores da cultura pop. E aqui tanto podemos falar da presença de um funk de músculo eletrónico que evoca Prince em “Killah” ao electro disco de “Zombieboy”, do apelo pop dançável de um Michael Jackson (anos 80) no refrão de “Shadow of a Man” ao sabor dos teclados analógicos que lembram os Yazoo em “How Bad Do You Want Me”. Em “Love Drug” Lady Gaga retoma os trilhos AOR (de Adult Orientated Rock) dos dias de “Joanne”. “Don’t Call The Night” transpira a ecos electro. Podemos juntar ainda pistas colhidas no grande livro pop/rock alternativo como os Siouxsie & The Banshees (samplados no soberbo “Abracadabra”) ou The Cure (a fonte de inspiração para “Perfect Celebrity”). E anda por aqui, por todo o disco, uma discípula de Bowie…

A todo este cocktail de referências responde a solidez da escrita, uma produção exigente e a voz que no fim tudo une em canções que retomam temáticas que vão do plano das emoções a reflexões sobre a celebridade. Com aperitivo no promissor “Disease” e, depois, o assombroso “Abracadabra” (canção para somar ao Top 5 das melhores de Lady Gaga), o álbum tem tudo para devolver a sua autora à linha da frente do panorama da música pop. Pode ser verdade que o sucesso global do dueto com Bruno Mars “Die With a Smile” ajudou a lançar boas fundações para este renascimento. Mas, mesmo colocado no final do alinhamento, a canção destoa. Os Duran Duran deixaram “Is There Something I Should Know?” (1983) fora do alinhamento do álbum quer editaram nesse mesmo ano. Os New Order nunca pensaram “Blue Monday” senão como single. E estas eram pistas igualmente clássicas que “Mayhem” também poderia ter seguido.


E de um momento emocionalmente frágil nasce um álbum tremendamente belo

 Quantas vezes as carreiras a solo são espaço de exploração ou descompressão para lá do que as obras que os músicos vão criando a bordo de coletivos aos quais estão associados. Se na verdade o percurso discográfico de Panda Bear (ou Noah Lennox se espreitarmos para o passaporte) começou com “Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished” (2000) assinado a meias com Avey Tare e o seguinte “Danse Manatee” (2001) surgiu juntando esses dois nomes ao do Geologist (Brian Ross Weitz), a verdade é que, a partir de “Campfire Songs” (editado em 2003) o percurso destes músicos, juntando ainda a bordo Deakin, se fez com epicentro nos Animal Collective, banda com sede de trabalho em Baltimore (EUA) que definiu não só uma das mais sedutoras e desafiantes obras que o universo indie nos deu a conhecer no início do século como assegurou com o sublime “Merriweather Post Pavilion” (de 2009) um dos títulos de referência da música do nosso tempo. Com vida feita em Lisboa desde 2004, Panda Bear foi desde então criando uma obra em paralelo assinada em nome próprio através da qual ora olhava para além das fronteiras das possibilidades criadas pela banda ora ensaiava até passos que a música do grupo poderia assimilar. De resto as visões hipnóticas criadas com a ajuda de samples que nasceram de “Person Pitch” (um disco de 2007 no qual sinto a presença da luz de Lisboa) pode ter representado o laboratório que permitiu aos Animal Collective evoluir dos promissores “Sun Tongs” e “Feels” (respectivamente de 2004 e 2005) para, com “Strawberry Jam” (2007) pelo caminho, chegar ao já referido álbum de 2009 que definitivamente consagrou o grupo e demarcou a sua linguagem única.

Version 1.0.0

O percurso recente de Panda Bear passou, salvo em “Tangerine Reef” (de 2018) por todos os demais álbuns dos Animal Collective e por uma sucessão de discos e colaborações, entre as quais episódios de uma frutuosa colaboração com Sonic Boom. E eis que chega a 2025 com um álbum onde, depois do ensaio sobre as genéticas do psicadelismo (em “Reset”, de 2022, precisamente um dos momentos de diálogo com o ex-Spacemen3)  se cruzam familiaridade e surpresa naquela que representa talvez a melhor coleção de canções da sua obra em nome próprio. Familiaridade porque não só estão aqui reunidos os quatro elementos dos Animal Collective, com Joshua Dibb (ou seja, Deakin) em particular evidência ao co-assinar a produção, como vocalmente o disco segue uma já clássica abordagem a um trabalho de harmonias que ecoa a velha (e grande) escola de uns Beach Boys. Surpresa pelo facto como, numa obra onde o desafio formal chegou a “desconstruir” (palavra meio gasta, eu sei) a própria estrutura da canção, o disco apresenta uma sucessão de pérolas formalmente herdeiras dos mais clássicos livros de estilo da canção popular. De escrita cuidada, com moldagem criativa, cenicamente rica em timbres e marcas de identidade, plenas de luz na sequência inicial, mergulhando pela melancolia com o avançar do alinhamento, as canções de “Sinister Grift” surgiram num tempo de mudança na vida pessoal do músico.

De certa forma um “break up album”, este novo disco de Panda Bear fixa ecos de um tempo num espaço que, se por um lado fala de perda e separação, por outro nota a existência de alicerces sólidos, detalhe que a presença da filha Nadja Lennox, em português, em “Anywhere But Here” ajuda a desenhar. É um disco que traduz verdade e vulnerabilidade, porém a eventual fragilidade emocional, força motriz por detrás de muitas destas palavras e melodias, ganha forma num edifício delicadamente seguro. É lugar comum dizer que a dor pode ser chama inspiradora. Neste caso deu-nos o mais belo dos discos de Panda Bear.




Destaque

Linda Ronstadt - 1996-07-19 - Homdel, NJ

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