domingo, 15 de junho de 2025

A discografia da Banda do Casaco

 Entre os nomes maiores da história da música portuguesa há uma banda impossível de rotular. Pelos seus discos passaram referências diversas, das escolas folk que cativavam atenções em finais dos anos 60 e inícios da década de 70 às próprias músicas de raiz tradicional e rural, a ecos de universos de culturas urbanas, desde terrenos mais próximos de linguagens da música elétrica ao jazz. Cada disco foi diferente do anterior e do seguinte. E, logo na sua estreia, do single de apresentação em finais de 1974 ao primeiro álbum, editado em 1975, ousaram algo que parecia fora do quotidiano do Portugal de então: revelavam-se subversivos, mas politicamente não alinhados. 

A ideia de pluralidade habita a música da Banda do Casaco desde o início, desde logo dadas as raízes e pré-histórias dos seus elementos. Nuno Rodrigues tinha integrado o quarteto Musica Novarum. Daphne também passara pelo mesmo grupo grupo, com etapa seguinte a bordo dos A Family Fair, por onde se cruzavam ainda  Carlos Zíngaro e Celso de Carvalho. António Pinho, por sua vez, fizera parte da Filarmónica Fraude, cujo álbum único, editado em 1969, representa um dos  episódios mais ousados de uma etapa de emergência de uma linguagem pop/rock portuguesa já despida dos mimetismo mais evidentes nos dias do ié ié.

Desde cedo ficou claro que a uma demanda musical desafiante o grupo juntava uma visão muito própria na gestão da palavra. Do lirismo poético ao nonsense, passando por uma capacidade em refletir sobre o presente de um país a descobrir a vida em liberdade mas sem recorrer a panfletarismos, asa canções da Banda do Casaco propunham rotas tão diferentes como estranhamente familiares, ou não houvesse aqui, logo nos alicerces, uma assimilação de ecos da própria cultura popular portuguesa e, também, evidentes sinais dos tempos num país em rota de evolução política, social e cultural. Eram uma banda, como em tempos escrevi, soube ser plural” vivendo sem “compromissos com nada, nem com dinheiro, nem com ideologias, com modas, com editoras ou os palcos”. E vale a pena juntar ainda mais um detalhe: o som. Daí a importância de um sólido relacionamento que, ao longo dos anos, foram desenvolvendo com o técnico José Fortes, que foi gravando os seus discos. 

Em tempos, numa entrevista à revista “Música & Som”, o próprio Nuno Rodrigues descreveu a Banda do Casaco como uma “banda de catálogo”, ou seja, que viva para além das eventuais “preocupações de estar à la page, de vender espetacularmente e depois ser esquecidos”. E assim trilhou um caminho diferente entre o dos diferentes. De facto único, definindo uma das obras mais cativantes da história da música popular portuguesa. 

Em 2025 assinala-se a passagem de 50 anos sobre a edição do álbum de estreia da Banda do Casaco. E por isso mesmo, por aqui, vamos, ao longo dos próximos meses, “escutar” os seus discos, um a um.

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ÁLBUNS

1975. “Dos Benefícios Dum Vendido No Reino Dos Bonifácios”

Antecedido ainda em finais de 1974 por um single que revelava duas canções do seu alinhamento (“Lavados Lavados Sim” no lado A e “A Ladainha das Comadres” na outra face), o álbum “Dos Benefícios Dum Vendido No Reino dos Bonifácios” chegou já em 1975 e logo destoou de todo o universo discográfico ao seu redor. Primeiro pelo invulgar cruzamento de referências (da folk ao jazz, das periferias da nova música urbana a olhares sobre o país profundo), pela profusão de elementos cénicos em jogo e, num ano politicamente “quente”, pelo facto de se apresentar como uma proposta não alinhada. Mais do que criar e moldar canções como um manifesto político ou expressões dos ecos de um quotidiano altamente politizado, a Banda do Casaco procurou antes fixar em disco uma expressão da sua forma de estar no mundo, no país, naquele tempo. Este foi o disco que inscreveu uma noção de produção com peso maior no mapa discográfico português. 


1976. “Coisas Do Arco da Velha”

1977. “Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos”

1979. “Contos da Barbearia”

1980. “No Jardim da Celeste”

1982. “Também Eu”

Presente no coletivo desde o início da aventura, António Avelar Pinho fora o responsável pela criação das palavras que acentuavam o caráter desalinhado e um muito peculiar sentido de humor que cruzara as canções do grupo nos seus primeiros cinco álbuns. Depois de “No Jardim Na Celeste” afastou-se do projeto, deixando um dilema por resolver: e agora, que palavras para as novas canções? A resposta chegou num voo de avião de Londres para Lisboa, quando o técnico de som José Fortes sugeriu a Nuno Rodrigues que encarasse a voz como som. Nasceram então as “ilustrações fonéticas” que, com pontuais episódios de exceção, se tornaram assim uma das marcas distintivas deste disco de 1982 no qual se destaca, igualmente, a presença de Né Ladeiras, cuja voz marcou “Salve Maravilha”, que se afirmaria como um dos maiores êxitos do grupo.

1984. “Banda do Casaco com Ti Chitas”

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SINGLES

1974. “Lavad os Lavados Sim” / “Ladainha das Comadres”

1975. “Ao Cabo D’Um Ano”

1976. “É Triste Não Saber Ler”

1980. “Natação Obrigatória”

1984. “Dono da Noite”

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COMPILAÇÕES

1982. “A Arte e a Música da Banda do Casaco”

1988. “Banda do Casaco”

2013. “Banda do Casaco” (Caixa 1)

2013. “Banda do Casaco” (Caixa 2)

2013. “40 Anos de Som”

A discografia da Banda do Casaco inclui dois títulos em séries budget. Um deles é “Natação Obrigatória”, da série Caravela, em 1996. O outro, com alinhamento partilhado com a Filarmónica Fraude, surgiu em 2001 na série O Melhor de 2.



ROCK ART


 

Wicked Maraya - Cycles (1994)

 



Style: Heavy/Groove Metal
Origin: United States
Location: Long Island, NY
Label: Mausoleum Record
Bitrate: 320
Host: MegaTracklist:
1.Another Day
2.Jacob's Dance
3.Resurrection
4.Face The Mirror
5.Johnny
6.Watching Over
7.Alone
8.Winter's Garden
9.Forever
10.Sign Of Heaven
11.The Legacy





God Module - False Face (2014)

 



Style: EBM/Industrial
Origin: US
Location: Seattle, Washington
Label: Metropolis Records
Bitrate: 320
Host: MegaTracklist:
01. A Good Night To Die
02. Black And Blue
03. Nothing But Mine
04. False Face
05. Hating How We Love
06. Through The Noise
07. Destroy The Day
08. Faith Is Fragile
09. Sky Shut Down
10. The Mark 








Vengeance - Vengeance (1984)



Reedição de 2019 (com faixas bônus) deste clássico álbum de estreia com Arjen Anthony Lucassen nas guitarras

Tracklist:

1. Down and Out

2. Tonight, Tonight

3. Get Out

4. You Took Me by Surprise

5. Metal Days

6. Destroyer

7. Prisoners of the Night

8. On the Run

9. Vengeance


Bonus Tracks:

10. Deathride to Glory   

11. Only the Wind (special remix)   

12. Deathride to Glory (live)   

13. Down and Out (live)   

14. Tonight, Tonight (live) 

MUSICA&SOM ☝

VENGEANCE





Trauma - Suffocated In Slumber(2000)

 



 Segundo álbum desta banda de Death Metal da Polônia


Tracklist:

1. A Gruesome Display

2. Unable To React

3. Suffocated In Slumber

4. A Deep Scar

5. Swallow The Murder

6. Words Of Hate

7. Tools Of Mutual Harm

8. Dust (Kill Me)

9. ...Bloodshot Eyes


MUSICA&SOM ☝

TRAUMA





The Black League - Ichor (2000)



Álbum de estreia desta banda nascida das cinzas do Sentenced ... uma agradável mistura de Dark Metal e Goth'N Roll

Tracklist:

1. Doomwatcher

2. One Colour Black

3. Deep Waters

4. Goin' to Hell

5. Avalon

6. We Die Alone

7. The Everlasting part II

8. Ozymandias

9. Blood of the Gods

10. Bunker King

11. Winter Winds Sing

12. Ecce Homo!

13. Night on Earth

MUSICA&SOM ☝


THE BLACK LEAGUE




Mountain - Climbing!

 



Se você sabe o que quero dizer com
Climbing!, a estreia da banda de hard rock Mountain é uma fatia épica de fúria de explosão de guitarra e batidas de metal dinossaurianas dos anos 70, cortesia do prodígio da guitarra homem-montanha Leslie West. Climbing! tem a música (Mississippi Queen) que tornou Mountain famosa, é uma explosão pura de acordes poderosos e mordazes e foi uma das músicas mais pesadas do planeta na época de seu lançamento. Assim como Climbing!, foi um dos álbuns mais pesados ​​já feitos naquela época. Sua importância para o Heavy Metal e o Hard Rock realmente não pode ser superestimada. E o álbum certamente cimentou o lugar de Leslie West no panteão dos deuses da guitarra. Há muitos outros destaques em Climbing!, no entanto. Como o expansivo épico Theme for an Imaginary Western. A pausa estrondosa Never In My Life. O cintilante e adorável Silver Paper. E o tributo proto-metal a Woodstock For Yasgur's Farm.

Todos sabemos que eles são os Cremora originais — o que isso deixa mais claro é que são a terceira dose de Jack Bruce. Em "For Yasgur's Farm", Felix Pappalardi emula a propriedade vocal autodramatizante de JB, bem como suas linhas de baixo, mas quando Leslie West executa um solo de violão acústico, do raga ao flamenco, sem nunca tocar no blues, você sabe que ele não está fazendo um tributo a Eric Clapton. Não consigo encaixar a gigantesca "Mississippi Queen" nessa teoria, mas posso dizer quem escreveu "Theme for an Imaginary Western": Jack Bruce e Pete Brown.
Robert Christgau

Mountain: O rugido da América em vinil: puro e sem filtros.

À Mountain, por nos ensinar que as alturas também podem rugir lá de baixo. Por aquele som de botas sujas escalando o céu elétrico do rock americano. Porque antes do metal aprender a rugir, vocês já gritavam.

Nem todas as noites têm cheiro de eletricidade antiga. Algumas simplesmente te acordam.

Foi recentemente, durante uma daquelas sessões em que o tempo se evapora em meio à luz quente do pôr do sol, que decidi colocar Climbing! de volta no toca-discos. Peguei-o como quem abre uma garrafa de vinho que espera seu momento há décadas. Limpei-o com um gesto lento, quase ritualístico. Não me lembrava bem do que estava prestes a encontrar, mas assim que o disco começou a girar e o equipamento disparou furiosamente, com um murmúrio antigo, soube que havia retornado a um lugar familiar, embora não totalmente explorado.

Montanha. O nome já carrega peso. Montanha. Elevação. Rugido. Mas o que eu encontrei foi mais do que apenas volume: foi direção. O álbum de estreia desta banda, lançado no final dos anos 1960, é um trabalho de força concentrada. Suas músicas não têm apenas força: elas têm intenção. Há um molde do Cream, sim, ninguém nega isso. Mas há também uma tentativa consciente de romper com ele, de chutar o molde e moldar algo mais americano, mais terreno, mais disposto a sujar as mãos nas minas do hard rock. E não digo isso apenas por causa da energia, mas por causa da cor de suas guitarras. Há um sopro de Cream, é claro, como uma rajada passageira, mas eles não param por aí. Climbing! abre caminho através de riffs cortantes, linhas vocais que acariciam e mordem ao mesmo tempo, e uma produção que cheira a válvulas fervendo. O álbum é compacto, sólido, e sua voz não treme. Eles sabem o que querem dizer. Embora — e aqui a honestidade prevalece — haja momentos em que o açúcar transborda um pouco. Há trechos doces que são um pouco enjoativos, admito. Músicas que, embora não mal construídas, me desviam um pouco da jornada. Mas isso não diminui seu mérito. São apenas solavancos em uma estrada de pedras fundamentais. Porque Climbing! não é apenas uma estreia. É uma espécie de elo evolutivo. 

Uma obra proto-metal, por assim dizer, um marco onde o hard rock e o que mais tarde se tornaria o heavy metal se encontram de passagem. E eles não se limitam a teorias: executam-nas com maestria, com equilíbrio, com aquela atitude de "vamos fazer soar bem" que tão raramente aparece num álbum de estreia.


Contracapa onde podemos ver Leslie West e Felix Pappalardi

Retornar a este álbum foi como revisitar uma velha conversa. Daquelas que você não entendia direito na época, mas que, com o passar dos anos, faz sentido. Ele restaurou minha fé em certas guitarras, me lembrou por que colecionar discos é mais do que um hobby. Climbing! não escala apenas: ele te agarra pela lapela e não te solta. A voz, por sua vez, se mistura perfeitamente ao som geral. Ela se mistura perfeitamente — como dizem os técnicos de antigamente — e cria aquela harmonia de garagem bem afinada que é tão apreciada. É um álbum que merece ser revivido, não apenas por seu valor histórico, mas por quão bom ainda soa. Outra joia que emergiu do exílio para reinar suprema nos decks de discos por um tempo. Até mais.


01.Mississippi Queen
02.Theme from an imaginary western
03.Never in my life
04.Silver Paper
05.For Yasgur's farm
06.To my friend
07.The Laird
08.Sittin' on a rainbow
09.Boys in the band

 CODIGO: H-38


MUSICA&SOM ☝





Mountain - Nantucket Sleighride

 


Nantucket Sleighride é uma das maiores conquistas de Leslie West e Mountain. É um clássico do heavy metal dos anos 70 e o sonho de qualquer guitarrista. E a faixa-título do proggy é facilmente a melhor música individual de Mountain. O Mountain se inspirou no Cream, mas transformou-o em um dos melhores hard rock com guitarra já gravados. E se alguém não acha que Leslie West merece ser listada como uma das maiores guitarristas de todos os tempos, então sugiro que ouça.

Nantucket Sleighride continua com o mesmo tipo de som do LP mais famoso do Mountain, Climbing!. O álbum é uma mistura de hard blues rock e heavy psych. O trabalho de guitarra de Leslie West é muito bom, mas, na minha opinião, ele fez um trabalho melhor no álbum de estreia. O material também é um pouco mais fraco no segundo disco de estúdio. Minhas músicas favoritas são a poderosa abertura "Don't Look Around", a faixa-título "Nantucket Sleighride" e aquela fantástica "Travellin' in the Dark". A maior parte desse material é muito boa, mas já ouvi muitas bandas com sonoridade semelhante melhor do que o Mountain ao longo dos anos.

Montanha e sua subida temperada: um passeio de trenó em Nantucket direto ao coração do elegante hard rock

Mal se passou um ano, e ainda assim algo mudou. Mountain, aquela fera elétrica que nos atinge com força desde sua estreia, Climbing!, retorna com um terceiro álbum que não só consolida sua oferta, como também a redefine com um toque mais refinado. Nantucket Sleighride (1971) é o testemunho de uma banda que começou a prestar atenção aos novos mapas sonoros que emergiam na cena, mas sem abandonar a alma pesada e blueseira que os moldou.

Este álbum não apresenta uma ruptura radical, mas sim uma mudança. Uma mudança suave, como um navio corrigindo seu curso sem perder o rumo. A banda amadureceu, absorveu o murmúrio progressivo que começa a circular como seiva entre as árvores do rock e, embora não se aprofunde completamente na vanguarda, flerta com suas formas. O resultado: um álbum que exala hard rock vigoroso, mas é perfumado com aquela "fragrância" progressiva que se infiltra nas estruturas, nos silêncios e no drama de algumas passagens.

A performance aqui é sólida. A banda soa poderosa, focada, com uma instrumentação que não busca excessos gratuitos, mas sim uma força bem colocada. E isso transparece: há elegância. Há brio. Há atitude.

É perfeito? Não. Às vezes, a fórmula parece repetitiva. Há trechos ocasionais em que a instabilidade ou a falta de surpresa obscurecem um pouco o panorama geral. Mountain, apesar de toda a sua potência, ainda recai em certos clichês. Mas não há como negar que Nantucket Sleighride é construído com mais razão do que coração, e aí reside parte do seu charme. Há um conceito mais elaborado, uma intenção clara não de repetir a estreia a carvão, mas de elevar-se ao próximo nível.

E esse passo é perceptível. Se você colocar o explosivo Climbing! e este Sleighride lado a lado , você sente a maturidade composicional, a tentativa de esculpir cada riff, cada melodia com mais detalhes. Este álbum não só soa melhor, mas também cheira a evolução. Em um nível pessoal, este foi o álbum que me fez repensar minha relação com o Mountain. Eu o ouvi sem grandes expectativas, mas ele acabou criando expectativas. A partir daí, comecei a vê-los com outros olhos, a perceber em sua história um brilho particular, o tipo que só as bandas possuem que, sem estar no topo do Olimpo, às vezes alcançam os éteres da grandeza. As guitarras pesam, sim. Mas o fazem com estilo. As vozes entregam com alma. E o som americano que eles propõem aqui é vestido com uma sofisticação inesperada. No meu dicionário pessoal, este é um de seus melhores trabalhos. Um must-have. Um clássico de ouro, se preferir. Um álbum que vai além do status cult para beirar a categoria de obra maior.

Se a escalada te fisgou, o passeio de trenó em Nantucket vai te prender ainda mais. Porque a pegada da montanha aqui não só permanece, como se intensifica. Altamente recomendado. Até mais.

01.Don't Look Around
02.Taunta (Sammy's Tune)
03.Nantucket Sleighride
04.You Can't Get Away!
05.Tired Angels
06.The Animal Trainer And The Toad
07.My Lady
08.Travelin' In The Dark (To E.M.P.)
09.The Great Train Robbery

CODIGO: H-3

MUSICA&SOM ☝





Arachoind - Same

 




Tendências sinfônicas delicadas, sombrias, porém oníricas, flutuando contra um fundo espacial; sem influências avassaladoras, mas nomes como King Crimson e Pulsar devem vir à mente, com toques de Canterbury e Magma, e uma ou duas pitadas de proto-RIO francês experimental.

Estou chocado que isso não soe mais datado do que realmente soa. A produção é de primeira qualidade. É mais acessível do que a maioria do avant-prog, e talvez até mesmo do rock progressivo, devido à forma como as composições derivam sem se tornarem violentas/psicóticas/frenéticas. Se o The Mars Volta tivesse feito um álbum acústico "relaxado" influenciado por Zeuhl nos anos 80, poderia soar assim.

Arachnoid: Quando o Mellotron Tece Sombras

1979. O sol se põe lentamente na década de ouro do rock progressivo. Os sintetizadores começam a migrar para os desertos mais frios do synth-pop, e as grandes estruturas sinfônicas, outrora monumentais, parecem dar lugar a fórmulas mais diretas, mais radiofônicas, mais amigáveis ​​à nova ordem. O punk e a new wave avançam com lâminas afiadas, dinamitando as catedrais barrocas que bandas como Genesis, Yes e King Crimson haviam erguido nos anos anteriores. Na França, porém, algo ainda arde nas sombras. Longe dos holofotes londrinos ou dos laboratórios de som alemães, um punhado de músicos resiste ao esquecimento do esplendor progressivo. O Magma já havia deixado uma marca indelével com seu universo Zeuhl, e o Clearlight navegava por suas próprias galáxias de fusão lisérgica. Nessa intersecção espectral, nasce o Arachnoïd, um grupo com o nome de uma criatura noturna, de instinto ancestral, que decide tecer sua ópera singular em meio ao crepúsculo.

Seu único álbum — também intitulado Arachnoïd — é um documento atemporal, uma peça assombrosa e grandiosa que surge quando o gênero parece estar fechando suas portas. Mas não o faz como uma despedida melancólica, mas sim como um grito elegante, carregado de fúria sutil e fantasmas sinfônicos. Um álbum que parece querer dizer: "O prog não morre. Ele apenas se transforma em silêncio". E o faz a partir de uma sensibilidade profundamente europeia, onde o drama se mistura com o espectral, e o virtuosismo se encerra em tons de mellotron, linhas vocais quase litúrgicas e passagens instrumentais que lembram tanto Crimson quanto Magma ou Ange.

Junte-se a mim enquanto exploro esta criatura linda e rara. Porque na última esquina da década, pouco antes de a luz se apagar... ainda há uma aranha tecendo sinfonias na escuridão.

Impressões Pessoais: A Festa dos Teclados Fantasmagóricos

Uma mistura sublime, assombrosa e incrivelmente bela. Sinfônica, eletrônica, ondas de Zeuhl, encontros old-school e uma visão sombria que, por fim, se unem em progressões comoventes e uma fineza requintada, superexpostas pela exibição das grandes visões sonoras da França.

Arachnoid toma emprestado elementos de suas influências mais próximas — Magma e Clearlight —, mas também adquire uma certa essência refletida em algumas passagens da escola Crimsoniana, elevando esta obra a um status de grandiloquência e arrogância progressiva. Na minha opinião, uma obra magnífica e opulenta; uma orgia de organismos eletrônicos e sintetizadores fundidos com arranjos sombrios à la Zeuhl que a tornam uma iguaria. Ah, sim. A primeira faixa, Le Chamadère, é tudo. Ela reflete o conceito que a banda quer nos mostrar: uma delicadeza espectral, uma atmosfera macabra que não se afasta do brilho lúcido que o progressivo sinfônico nos oferece quando decide se vestir. É um álbum emocionante e único, nascido em uma época difícil, quando já se pensava que o progressivo havia entrado em declínio, destinado a ser salvaguardado pelas gerações futuras. 1979 foi um ano em que poucas bandas progressivas resistiram à queda; as demais permaneceram em silêncio e algumas perderam sua essência. Arachnoid seguiu os passos de uma era em que o rock era considerado música erudita.

Não há dúvida: Arachnoid é um álbum de marcada sensibilidade e visão sombria. Flerta com o avant-prog, embora não abranja completamente esse espectro. No entanto, a vitalidade e a dinâmica da banda elevam o trabalho a um nível especial. Sua visão se expande até os limites permitidos, e o resultado é um trabalho sólido que merece, com razão, o selo Art-Rock. No entanto, sua visão artística não é totalmente previsível. Possui um charme bizarro e mágico que escapa a qualquer rótulo restrito. Sinfonia e escuridão se fundem, e dois pontos-chave se destacam em sua performance: a atmosfera geral do álbum: um cenário perturbador, hipnótico e sombrio. O trabalho de teclado — mellotron, sintetizadores e piano elétrico — cria uma paisagem sonora digna de uma ópera distópica. Essa combinação torna o álbum um verdadeiro deleite sinfônico. E não podemos esquecer a contribuição vocal, bem como a composição e a performance instrumental de toda a banda: seus arranjos são deliciosos, e as atmosferas, um verdadeiro banquete de genialidade progressiva. 

01. Le Chamadere
02. Piano Caveau
03. In the Screen Side Of Your Eyes
04. Toutes Ces Images
05. La Guepe
06. L'Adieu Au Pierrot
07. Final
Bonus
08. L'Hiver
09. Le Pierrot
10. L'Adieu
11. Piano Caveau

CODIGO: B-8

MUSICA&SOM ☝





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