quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Writing on the Wall - Power of the Picts (1969)

 


E tudo era escuro, nada existia, até que se fez a explosão e tudo se criou, nasceu, a vida surgiu. Parece algo que já foi lido em algum lugar, uma cópia ou ainda algo relacionado à ciência do universo, a teoria do big bang. Bem, não nego que a lembrança veio da grande explosão. 

Foi o que imediatamente lembrei para falar de uma banda que, embora tenha surgido em épocas por mim não vividas, certamente, com o seu avassalador som, a sua música vanguardista nos longínquos anos 1960 para 1970, pode ser comparada a uma explosão que poderia ter varrido do mapa, se não fosse o seu auge, em pleno 1969, a cena do “paz e amor”, do “Flower Power”. 

É inacreditável como uma banda pudesse ser tão arrojada, corajosa e densamente perigosa o bastante para ameaçar, com toda a sua virilidade sonora, o status quo musical vigente à época, edificando um estilo, construindo um gênero, uma nova concepção sonora, uma nova perspectiva de encarar e ouvir o rock n’ roll. 

Falo da excelente banda escosesa WRITING ON THE WALL, que lançou um verdadeiro petardo sonoro, uma ode ao peso, aos primórdios da música pesada, a gênese do hard rock se fez presente, o heavy metal de vanguarda ditou a inspiração, a referência, independente se é ou não conhecida, obscura ou consagrada. 


O álbum “Power of the Picts”, de 1969, sintetiza, em notas musicais, tudo isso. Uma música que se comunica facilmente com qualquer época, qualquer geração, é atemporal, mesmo que denote algumas típicas características do ano a qual fora lançado, mas que certamente, em uma audição livre de pré-conceitos, fará com que balance freneticamente as cabeças ao som agressivo e denso do Writing on the Wall. 


A banda, como disse, surgiu na cidade de Edimburgo, na Escócia, em 1966 e foi fundada pela vocalista Linnie Paterson, o guitarrista Willy Finlayson, o baixista Jake Scott, o baterista Jimmy Hush e o tecladista Bill Scott, mas para ganhar mais popularidade, ter uma oportunidade, foi para Londres. 


Tinha o nome “The Jury” e tinha como base sonora a soul music, mas logo mudou o nome para “Writing on the Wall”, em 1968, bem como a sua vertente musical, talvez pela pequena, mas substanciosa cena pesada que existia em Londres a começar pelo Black Sabbath, Led Zeppelin, Cream, Deep Purple entre outras mais obscuras. 

A banda logo ganhou alguma notoriedade principalmente pelo seu estilo teatral e sonoridade pesada e agressiva. Ainda não tinha gravado o seu álbum oficialmente, mas continuava a fazer seus shows, sendo uma atração bem popular em um clube londrino chamado “London's Middle Earth Club”. 

O gerente do local e que passou a ser o gerente da banda, Brian Waldman, além de ter sido o responsável pela mudança do nome da banda, também foi responsável pela sua residência no clube onde frequentemente tocavam. 

A banda ganhou a reputação infame de assustadora e que tocava pesado e também violentamente, beligerante. Porém, em 1968, o famoso DJ, radialista, crítico musical e jornalista John Peel ficou impressionado com o som da banda quando esta gravou algumas músicas na BBC de Londres. 

Foi a catapulta que o Writing on the Wall necessitava para que o gerente do Middle Earth Club, Brian Waldman, que também tinha um pequeno selo também chamado Middle Earth, gravar o primeiro álbum da banda, “Power of the Picts”, no ano seguinte, em 1969.


Logo o Writing on the Wall se tornaria a banda principal do clube ganhando asas e ganhando relativa fama na Inglaterra, abrindo shows para Ten Years After e estreando no lendário Marquee Club, abrindo shows para o Wisbone Ash. 

A banda tinha a seguinte formação quando lançou “Power of the Picts”: Willy Finlayson na guitarra e vocal, Alby Greenhalg nos instrumentos de sopro, Jimmy Hush na bateria, Billy T. Scott nos teclados e Jake Scott no baixo e vocal. 

O Writing on the Wall, com o seu álbum debaixo dos braços, intensificou o seu apelo visual, com muita teatralidade, com os integrantes vestidos de sumo sacerdotes, caçadores de bruxas etc, mas não conseguia ter as suas músicas tocadas nas rádios e o argumento era óbvio: som pesado e pouco acessível. Ganhou um mundo marginalizado. “Power of the Picts” conta com um avassalador hard rock, com pitadas generosas de blues, psych, muita lisergia, um verdadeiro acid rock

O álbum começa com “It Came on a Sunday” com um duelo sensacional de teclado e riffs poderosos de guitarra com uma levada meio blues rock e um vocal sombrio e imperioso que lembra, bem como a faixa, um pouco o baixista e vocalista Jack Bruce e o seu Cream.
 
"It Came on a Sunday"

“Mrs Coopers Pie” vem pesada e alternando entre o sombrio patrocinado pelo teclado e solos animados de guitarra, uma música versátil. “Ladybird” é praticamente a sequência e tem o destaque frenético dos teclados e um hard bem cadenciado.

"Ladybird"

Até que surge uma das melhores e maiores, com oito minutos de duração, faixas do álbum: “Aries”. Um som sombrio, envolto em uma atmosfera densa com bateria batendo forte, teclado alto e altivo, riffs de guitarra pegajosos trazendo à tona um heavy metal vanguardista e muito, muito peso e agressividade. 

"Aries"

“Bogeyman” começa engraçada com a gaita de fole, instrumento típico de seu país, a Escócia, mas logo irrompe em um hard rock pesado e sem piedade! “Shadow of Man” começa introspectiva, ameaçadora, com um teclado sombrio e bateria leve, mas depois vem o riff metálico de guitarra, digno de qualquer aprovação de headbanger, com um hard mais psicodélico. 

"Shadow of Man" (Live)

“Taskers Successor” traz um pouco do beat e psicodelismo lisérgico dos anos 1960, mas não se enganem da ausência da batida forte também. “Hill of Dreams” traz uma balada meio folk, ao estilo Bob Dylan, mas com força, intensidade. 

"Hill of Dreams"

E fecha com “Virginia Waters” com mais um duelo entre guitarra e teclado, que, além do peso, traz velocidade, um típico heavy metal oitentista, com um vocal meio desleixado e debochado bem interessante, diria engraçado. 

“Power of the Picts” não teve sucesso fora da Escócia, a ida à Inglaterra não ajudou muito nesse sentido. Mas enquanto faziam suas apresentações, gravava músicas novas ocasionalmente, unindo, até 1973, material suficiente para gravar um novo álbum o que aconteceu, um ano antes, 1972, mas não foi lançado à época, bem como um terceiro também, mas que teve o mesmo triste fim. 

A banda se desiludiu e com o roubo de seus equipamentos causou o fim das suas atividades em 1973. Algumas compilações e reedições aconteceram desse material não lançado, mas carecem de legitimidade. 

O debut, “Power of the Picts” foi relançado em 2007 pela Orc Records com material bônus, incluindo boa parte do material de estúdio não lançado anteriormente. A vocalista Linnie Paterson foi para o Beggar's Opera, o guitarrista Willy Finlayson passou a trabalhar com as bandas Meal Ticket, Bees Make Honey e a sua própria banda, Hunters, além de uma aparição no Manfred Mann. Robert 'Smiggy' Smith juntou-se ao Blue, Alby Greenhalgh juntou-se à banda de rockabilly Flying Saucers e o baixista Jake Scott formou o obscuro grupo de jazz Xu-Xu Plesa.





A banda:

Willy Finlayson na guitarra e vocal
Alby Greenhalg  nos instrumentos de sopro
Jimmy Hush na bateria
Billy T. Scott – nos teclados
Jake Scott – no baixo e vocal


Faixas:

1 - It Came On Sunday
2 - Mrs. Coopers Pie
3 - Ladybird
4 - Aries
5 - Bogeyman
6 - Shadow Of Man
7 - Taskers Successor
8 - Hill Of Dreams
9 - Virginia Water



Para audição de "Power of the Picts" 


Blues Creation - The Blues Creation (1969)

 


O rock tem vivido nessas últimas décadas em uma espécie de oligopólio. Explico. Para muitos a cena se limita a poucos países: Inglaterra e EUA são os centros do rock n' roll mundial. Se a banda não tem as suas bases fincadas nesses países o futuro é incerto ou, para atingir êxito em sua carreira é preciso atingir esses mercados, onde a indústria fonográfica determina como a “meca” da música. 

É inegável a importância desses países para a música, o rock e a cultura em geral, mas em tempos contemporâneos de globalização esse cenário deveria mudar. Mas a mudança está ocorrendo, mesmo que a passos lentos graças a verdadeiros abnegados que difundem a todo custo a música sem fronteiras e muros. 

O advento das ferramentas de comunicação também, tais como as redes sociais, tem encurtado as fronteiras, os seus muros vem ruindo e algumas bandas vêm ganhando luz após décadas de obscuridade, graças também as alternativas gravadoras que revisitam materiais antigos esquecidos, vilipendiados pelo tempo. 

Mas há um país muito peculiar que, além de ser um mercado consumidor muito grande e interessado está em constante expansão: Falo do Japão. Apesar de seu povo ser disciplinado, calcado em antigas tradições, gozam de uma extrema paixão e avidez pelo rock n’ roll, o rock n' roll faz parte de suas manifestações comportamentais desde sempre.

Muitas das bandas, sejam elas conhecidas, consagradas ou obscuras, de todas as vertentes tem espaço entre os jovens japoneses que seguem e respiram intensamente as suas prediletas bandas. A realidade mercadológica se faz forte pela forma democrática pela qual inúmeras bandas registram seus shows ao vivo naquele país e reservam dias e mais dias em suas agendas para extensas turnês. 

E, não se enganem que há além dos interessados fãs, uma proeminente cena de bandas, de mais diversa gama de estilos, mas infelizmente muitas delas não ganham o mundo, não fazem tão sucesso, a não ser em seu país de origem. Uma dessas bandas é o BLUES CREATION. A banda foi formada no fim dos anos 1960 pelo guitarrista Kazuo Takeda que ganhou alguma notoriedade e edificou uma boa história na cena rock underground.

Blues Creation com Takeda na ponta direita

Takeda nasceu em 1952 e foi criado em Tóquio. A música sempre esteve presente em sua vida por intermédio de sua irmã e sua mãe, ávidas ouvintes de música pop e rock n' roll americano do início dos anos 1950. Ganhou um Ukulele aos nove anos, mas se rendeu a guitarra graças a uma onda de surf music que "contaminou" o país naquela época, principalmente o guitarrista do The Ventures, Nokie Edwards que era um ídolo da guitarra para os estudantes japoneses. 

Takeda logo formou a sua primeira banda, de surf music, claro, chamada "The Falcons", tocando com eles por um ano. Depois disso começou a ouvir R&B e outras bandas britânicas de sucesso como The Rolling Stones, The Kinks, The Yardbirds etc. E isso de alguma forma o atraiu para o blues.

No início de 1968 a sua banda começou, graças a sua influência, a tocar blues, blues rock. Começou a fezer covers de Paul Butterfield Blues Band, John Mayall, Electric Flag e outros. Foi difícil agendar shows por conta dessa nova vertente porque simplesmente era complicado dançar blues, principalmente diante de músicas psicodélicas e de surf music que ainda reinavam nas casas de shows japonesas. O blues não era popular no Japão, pelo menos ainda, porque o Blues Creation foi sem dúvida aqueles que introduziram a vertente em seu país.


No verão de 1968, o jovem Takeda foi convidado por um amigo de sua irmã a tocar em uma banda que estava se apresentando em Tóquio como profissionais. Se chamavam "The Bikkies" e tocavam em clubes "go-go" e bases militares americanas em Tóquio e Yokohama e tocavam primordialmente rock n' roll, blues rock. Então para o jovem Takeda foi extremamente importante para o seu crescimento como músico e guitarrista de blues.

Foram longos e intensos seis meses com o The Bikkies, decidindo deixar a banda e formar uma nova banda para tocar apenas blues, blues rock e foi assim que nasceu a primeira banda japonesa de blues: o Blues Creation. 

No dia primeiro de janeiro de 1969, Takeda e sua trupe estavam no trem para a cidade de Hachinohe, província de Aomori, rumo a sua primeira turnê como Blues Creation. Estavam tão animados e cheios de energia que carregaram todos os seus equipamentos como amplificadores, bateria, guitarras, tudo no trem, porque ninguém na banda tinha carteira de motorista, afinal todos eram muito jovens, na faixa dos dezesseis e dezessete anos de idade!

Ficaram um mês em Hachinohe e logo se mudaram para Nagoya por um mês inteiro e lá que o Blues Creation nasceu e foi construindo a sua identidade sonora. O nome "Blues Creation" foi concebido porque à época muitas bandas tinham o "s" nos seus nomes, então para se destacar decidiram nomear sua banda sem o "s". E por ser uma banda com viés do blues deveria ostentar a palavra "blues" em seu nome, afinal, também eram a primeira banda do estilo no Japão e precisavam difundir isso. Por isso que em tradução livre "Blues Creation" significa "Criação do Blues". Muito significativo!

Assinou o seu primeiro contrato com a Polydor Records e o que estimulou esse contrato foi quando o Blues Creation começou a tocar na área de Shinjuku e a banda estava se tornando popular naquelas áreas e o público estava procurando por bandas mais pesadas que estavam surgindo e as gravadoras estavam atentas a essa tendência.

As principais gravadoras também estavam em busca de bandas novas e a Polydor era uma delas. E muitas bandas pesadas estavam surgindo e o Blues Creation estava na hora certa e no lugar certo e apesar de alguma reticência a Polydor resolveu contratá-los, mas o que definiu essa contratação foi quando alguns representantes da gravadora os viram tocar e gostaram.

O primeiro álbum da banda, chamado de "Blues Creation", alvo de minha resenha de hoje, foi gravado no estúdio Polydor em Tóquio. O estilo de gravação foi feito principalmente ao vivo no estúdio e ele foi concebido em apenas dezesseis horas no total, passando dois dias no estúdio completando as outras etapas de gravação. Um recorde!

O Blues Creation pouco promoveu o seu debut, nenhuma atividade promocional foi realizada, exceto tocar em alguns programas de TV, poucos na realidade e algumas entrevistas para revistas de músicas, mas a banda manteve a sua regularidade de shows em clubes na área metropolitana de Tóquio.

Blues Creation tocando em festival em 1970

A formação do Blues Creation quando gravou o seu primeiro álbum, em 1969, tinha: Fumio Nunoya no vocal, Kazuo Takeda na guitarra, harmônica e vocal, Yoshiyuki Noji no baixo, Shinichi Tashiro na bateria e Hugh Cutler na harmônica. O álbum é primordialmente calcado no blues rock com pitadas de psych rock e um hard rock de vanguarda e contava cm clássicos do blues.

É inaugurado com um clássico de Sonny Boy Williamson “Checkin’ Up On My Baby” encorpada pelo classic rock dos japoneses, mas que não foge, claro, muito a sua essência blueseira. Destaque para a bateria marcadinha e a gaita nervosa e solos de guitarra animados e diretos.

"Checkin' Up on my Baby"

Segue com "Steppin' Out" de Memphis Slim, uma faixa instrumental cheia de energia que traz um Blues Creation mais agressivo, mais hard rock, com solos longos e arrebatadores de guitarra e uma "cozinha" afiadíssima dando uma camada mais solar à música.


"Smoke Stack Lightning'", de Howlin Wolf, traz um blues mesclado a psicodelia, algo mais lisérgico se ouve nessa faixa com o destaque para a gaita que "chora" entregando ao ouvinte o "Delta do Mississipi. Uma excelente versão, repleta de alternâncias rítmicas.

"Smoke Stack Lightning'"

A sequência tem "Double Crossing Time" gravada originalmente pelo John Mayall & The Bluesbreakers com Clapton e traz a essência dos blues sem fugir da essência da gravação original, mas traz nuances mais pesadas e indulgentes, com pitadas psych e lisérgicas.



“I Can’t Keep From Crying”, do Ten Years After, ganha uma versão basicamente parecida com a sua original, com uma levada psicodélica, guitarras ácidas, um som mais acessível e radiofônico, mas de muita qualidade, claro. 

"I Can't Keep from Crying"

A seguinte é a clássica “Spoonful” de Charley Patton, que também fora gravado pelo Cream, traz o blues dançante, com base e destaque, mais uma vez, da gaita, diria ser mais animada que a versão do Cream. 

“Rollin’ And Tumblin’”, clássico magnânimo de Muddy Waters, tem a introdução marcada da bateria e solos de guitarra curtos e diretos, cheio de mudanças de tempo, um trabalho sensacional rítmico, instrumental. 

"Rollin' and Tumblin'"

O álbum finaliza com “All your Love”, também do John Mayall & the Bluesbreakers com Eric Clapton, um blues rock fincado nas bases primordiais do rock n’ roll mais rebelde, despretensioso, outra grande versão para fechar um álbum dos moleques japoneses.

"All your Love"

Depois do lançamento do primeiro álbum o Blues Creation passou por mudanças em sua formação. O baterista original Shinichi Tashiro deixou a banda, mas apresentou ao jovem e talentoso baterista Masayuki Higuchi que estimulou a banda a tocar mais hard rock, mais blues rock, nascendo o segundo trabalho chamado "Demon & Eleven Children", de 1971.


"Demon & Eleven Children" (1971)

Estimulou Takeda a escrever suas próprias músicas, suas músicas originais. A sua intenção, com essa transição sonora da banda, era explorar novas camadas sonoras, novas experiências e transformar o Blues Creation em uma banda de rock, de hard rock. E conseguiu!

No mesmo ano a banda se reuniu com a cantora excelente de música pesada e heavy metal Carmen Maki. Na segunda semana após a concepção de "Demon & Eleven Children" eles se juntaram a Carmen Maki para gravar "Carmen Maki & Blues Creation".

"Carmen Maki & Blues Creation" (1971)

Carmen era uma cantora muito popular à época e o seu contrato com a CBS Sony havia finalizado e muitas gravadoras passaram a disputá-la a tapas, mas Maki, muito teimosa e arrojada, decidiu seguir em sua nova vertente musical: o rock! E o Blues Creation a ajudou a mudar, acreditando em seu potencial. Takeda e Carmen se conheceram em 1971 e ela passou a frequentar as gravações e ensaios do Blues Creation e assim desenvolveram a sua relação musical.

Carmen Maki

No final de 1971 o Blues Creation estava se sentindo desgastado, a banda não tinha mais a mesma intensidade em palco, que os tornou conhecidos em vários clubes e casas de shows em Tóquio. Uma nova necessidade de mudança estava em evidência e Takeda se viu em mais um desafio pela frente. Mas a banda, essa formação que gravou dois álbuns em 1971 se desfaz. Takeda então forma um "power trio" chamado "Bloody Circus" mas não durou mais do que seis meses.

Takeda então decide se mudar para Londres, na Inglaterra. Lá viu muitas bandas ótimas tocarem. Tocou também com muitas bandas locais e pouco conhecidas. Também fez alguns testes. Ficou por lá cerca de seis meses e retornou ao Japão para formar uma nova banda: o Creation. Isso foi em 1972.

Nos próximos três ou quatro anos trabalhou duro com a nova formação para polir a sua banda, escrevendo novas músicas, fazendo muitos ensaios, shows ao vivo, turnês etc. Chegou a abrir shows de bandas internacionais que tocavam no Japão. Tocaram com o Faces e o Mountain, por exemplo e foi assim que conheceu o baixista e produtor dessa última banda chamado Felix Pappalardi.

Felix Pappalardi

Pappalardi veio, juntamente com o Mountain, ao Japão em 1973. Em 1975 aconteceu um grande festival de rock no Japão, chamado carinhosamente pelos japoneses de "Festival Mundial de Rock". Felix veio ao Japão para aquela turnê e convidou Takeda para entrar na banda do festival e foi assim que começaram a desenvolver um relacionamento musical. Além disso o Creation estava prestes a fazer o segundo álbum e de alguma forma Felix se envolveu como produtor.

Passaram três meses na casa do produtor e baixista do Mountain em Nova York, na Ilha de Nantucket. Durante esse processo de gravação se divertiram muito e no fim Felix acabou se tornando também o vocalista do Creation No ano seguinte fizeram uma grande turnê pelos Estados Unidos.

No final dos anos 1960 Takeda queria focar no blues novamente e construiu, dessa forma, fundindo o blues com o jazz, conhecido com jazz swing antigo ou jazz bebop antigo, o que difere do fusion ou jazz contemporâneo.

Uma banda memorável, excelente e que deixou uma indelével marca na história do blues rock japonês, sendo pioneira, desbravando o estilo quando nada tinha no Japão relacionado ao blues, apenas rejeição e pouco caso por parte da indústria. "Blues Creation", de 1969, pode não ter sido o primeiro no mundo, mas certamente ostenta essa condição em qualidade sonora. Clássico mais do que recomendado!





A banda:

Fumio Nunoya no vocal
Kazuo Takeda na guitarra, harmônica, vocal
Yoshiyuki Noji no baixo
Shinichi Tashiro na bateria
Hugh Cutler na harmônica

Faixas:

1 - Checkin’ Up On My Baby
2 - Steppin’ Out
3 - Smoke Stack Lightnin’
4 - Double Crossing Time
5 - I Can’t Keep From Crying
6 - Spoonful
7 - Rollin’ And Tumblin’
8 - All Your Love


Blues Creation - "Blues Creation" (1969)



Atomic Rooster - Live At The Marquee (1980)

 


O ano era 1973. A banda britânica Atomic Rooster gravava o seu último álbum de estúdio, “Nice ‘n’ Greasy”, que tinha na formação a espinha dorsal da banda e seu único fundador, o tecladista Vincent Crane, e o versátil e grandioso vocalista Chris Farlowe

Nesse período, considerada a de ouro da banda, entre 1970 e 1973, o "Galo Atômico" contou com muitas idas e vindas de músicos, um verdadeiro rodízio que, de certa forma, foi interessante para essa curta, mas significativa história discográfica do Atomic Rooster, pois produziu álbuns que flertou do hard rock, prog rock ao soul e blues

Porém, nesse período, do lançamento do “Nice ‘n’ Greasy”, a banda estava um tanto quanto cansada, descaracterizada, inclusive este último trabalho, apesar de razoável, não estava à altura dos álbuns anteriores, embora esta mesma formação tenha sido responsável pela criação do muito bom “Made in England”, de 1972, com exceção do baterista Ric Parnell que participou de “Nice ‘n’ Greasy”. Tanto que a banda parou, finalizou as suas atividades para retornar em 1980, quando Du Cann, o guitarrista, e Vicent Crane, o tecladista, decidem reestruturar a banda, após um hiato de longos sete anos. Convoca o experiente baterista Preston Heyman e grava o sexto álbum de estúdio com o nome “Atomic Rooster”, em 1980. 


Entrando na nova onda do heavy metal britânico, a New Wave of a British Heavy Metal, a banda decide tocar ainda mais pesado, com mais agressividade, mais um ponto de reinvenção da banda, capitaneado por Crane e sem sombra de dúvida o guitarrista John du Cann que traz, em seu DNA, o peso do hard rock e que provou isso no próprio Atomic Rooster, no segundo trabalho da banda: "Death Walks Behind You", de 1970.

Atomic Rooster em 1970

Claro que tais propostas sempre foi o cerne do Atomic Rooster, mas, mais uma vez, em sua inquietude criativa, Crane e Cann não se ancoraram em estereótipos, embora o ano, 1980, tenha caracterizado o "boom" do heavy metal, sobretudo londrino e o trabalho do Atomic Rooster seja fortemente inspirado no peso do heavy metal. 

O álbum também não foi tão bem recebido pela crítica e pelos fãs mais conservadores da banda, mas sim, é um grande e subestimado álbum. Contudo, essa “nova” vertente da banda não se limitou ao estúdio. O Atomic Rooster sempre, apesar dos rodízios, contou com músicos de excelente qualidade e que gozava de grande virtuosidade em suas exibições ao vivo, reproduzindo neles, a proposta concebida no estúdio quando gravou “Atomic Rooster”. 

Ainda em 1980, a banda se apresentou no lendário Marquee Club, em Londres e nele se percebe a agressividade, a nova vertente do Atomic Rooster, com clássicos setentistas de sua áurea fase sendo executada de uma forma avassaladora, poderosa e visceral. Esse registro ao vivo, alvo dessa resenha, definitivamente é um obscuro trabalho da banda e surpreende pela intensidade e força do Atomic Rooster que voltaria a todo o vapor. 

Mas nessa apresentação, como de costume, tem uma nova (velha) formação. O baterista, Preston Heyman, que participou da gravação do até então novo álbum de estúdio, sai da banda e dá lugar ao velho dono do posto, o excelente Paul Hammond

Talvez a intenção de Crane era voltar as origens, trazer as raízes clássicas do Atomic Rooster e que foram responsáveis por entregar ao mundo uma pérola da história do heavy rock chamada “Death Walks Behind You”, de 1970, por exemplo. Claro que com Hammond esse registro ganhou em brilhantismo. 

John du Cann, John Hammond e Vincent Crane

Uma curiosidade sobre esse show é que não existiam gravações conhecidas da mesa de som ao vivo da linha de 1980, as fitas cassetes faziam parte dos arquivos pessoais de John du Cann e foi, de certa forma, com o lançamento, em um formato quase que em bootleg, dado a algumas imperfeições na qualidade da produção, responsável pelo retorno do Paul Hammond. 

E pasmem, amigos leitores, o show foi gravado por intermédio de um único microfone no palco! Inacreditável como conseguiu captar tanta energia de uma banda como o Atomic Rooster. Essas gravações foram as últimas ao vivo dessa formação clássica, com Du Cann, Crane e Hammond feitas no Marquee Club, onde tocavam regularmente. 

Era um Atomic Rooster puro, genuíno, sem filtros, energética, a versão power trio de outrora, com a roupagem heavy metal que faria, facilmente, qualquer headbanger balançar incessantemente a cabeça. Era o tecladista Vincent Crane, era o guitarrista John du Cann e o baterista Paul Hammond, afinal de contas. 

O line up trazia músicas dos primeiros trabalhos da banda e outras mais recentes à época. A começar com “They Took Control Of You” que é um verdadeiro petardo que faria qualquer banda heavy metal dizer “amém”, peso e agressividade são as palavras que definem. 

"They Took Control Of You", do álbum "Atomic Rooster", de 1980

Na sequência tem o hino “Death Walks Behind You” que, além de manter aquele clima sombrio, é encorpada por uma tensão sonora pesada e ameaçadora, mais rápida e veloz também. “Watch Out!” traz de volta a pegada heavy rock, com muita velocidade e intensidade, um show à parte no quesito instrumental. “Tomorrow Night” surge na sequência, o clássico da banda, bem viva e rejuvenescida, mas com aquela inevitável vontade de dançar.

 "Death Walks Behind You" - "Live at The Marquee", de 1980

Seven Lonely Streets” ressuscita o Atomic Rooster setentista, um poderoso hardão. “Gershatzer” traz uma eficácia ao set, carismática e poderosa, cativa aos fãs apreciadores do estilo mais hard n’ heavy. “I Can’t Take No More”, outra clássica, segue a mesma proposta da faixa anterior, é excelente ao vivo, ganha mais força e peso, em qualquer época.


 "I Can't Take No More", live at Beat Club, 1971

In The Shadows” é igualmente avassalador, um heavy metal vanguardista e que podemos dizer ter sido a pedra fundamental para o estilo, sem sombra de dúvida. Outro clássico que ganhou uma bela roupagem foi “Devil’s Answer” com guitarras estridentes, vocais rasgados e teclados ao nível patológico do frenesi. 

"Devil's Answer", live at Top of the Pops, 1971

Fecha com “Do You Know Who’s Looking For You?” que já entrega com um riff pesado no início e diria, sem medo, que tem uma levada punk, suja e despretensiosa. 

"Do You Know Who's Looking for You?", do registro ao vivo "Live at The Marquee"

Assim é “Live at Marquee Club”, um Atomic Rooster sujo, rasgado, agressivo, poderoso, uma, até então, nova faceta, que revelava o que sempre foi o Velho Atômico. Pesado e arrogante!

“A banda consumiu tanta energia que, imediatamente ao sair do palco, eles entraram em colapso, e que o pensamento de um bis era incapacitante”.

John du Cann




A banda:

Vincent Crane nos teclados
John du Cann na guitarra e vocal
Paul Hammond na bateria e percussão

Faixas:

1 - They Took Control Of You
2 - Death Walks Behind You
3 - Watch Out!
4 - Tomorrow Night
5 - Seven Lonely Streets
6 - Gershatzer
7 - I Can’t Take No More
8 - In The Shadows
9 - Devil’s Answer
10 - Do You Know Who’s Looking For You?




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