sábado, 6 de dezembro de 2025

Corazón Americano - 1986 - Mercedes Sosa - León Gieco - Milton Nascimento

 


1 - Rio de Las Penas (León Gieco - Mercedes Sosa - Gustavo Santaolalla)
G. Santaolalla
2 - Canción para Carito (León Gieco)
A. Tarragó Ros - L. Gieco
3 - Volver a los 17 (Mercedes Sosa - León Gieco - Milton Nascimento)
Violeta Parra
4 - Circo Marimbondo (Milton Nascimento)
Milton Nascimento - Ronaldo Bastos
5 - Casamiento de negros (León Gieco - Milton Nascimento)
Violeta Parra
6 - Cio da terra (Mercedes Sosa - Milton Nascimento)
Chico Buarque - Milton Nascimento
7 - Cio da terra (Mercedes Sosa)
Chico Buarque - Milton Nascimento
8 - Sueño con serpientes (Mercedes Sosa - Milton Nascimento)
Silvio Rodriguez
9 - San Vincente (Mercedes Sosa - Milton Nascimento)
Fernando Brant - Milton Nascimento
10 - Cuando tenga la tierra (Mercedes Sosa)
Petrocelli - D. Toro
11 - Solo le pido a Dios (Mercedes Sosa - León Gieco)
León Gieco
12 - Coração de estudante (León Gieco - Mercedes Sosa - Milton Nascimento)
Milton Nascimento - Wagner Tiso - Vers. Victor Heredia

Músicos
Milton Nascimento - Mercedes Sosa - León Gieco - Nicolás Brizuela - Oscar Além - Domingo Cura - Osvaldo Avena - Wagner Tiso - Nico Assumpção - Robertinho Silva - Ricardo Silveira
 
*************************
 
Eis um espetáculo memorável, gravado em 1984 no estádio Vélez Sarsfield, em Buenos Aires, Argentina. Três grandes nomes da música latino-americana, exemplo de uma integração nas artes, que deveria ser estendida em diversas áreas em prol da soberania dos povos que lutam para não terem as suas terras tomadas como quintais do imperialismo.




Araçá Azul - 1973 - Caetano Veloso

 


Domínio Público
2 - De conversa / Cravo e canela
3 - Tu me acostumbraste
4 - Gilberto misterioso
Caetano Veloso
5 - De palavra em palavra / De cara / Quero essa mulher assim mesmo
Caetano Veloso / Caetano Veloso - Lanny Gordin / Monsueto Menezes
7 - Sugar cane fields forever
Caetano Veloso
8 - Júlia/Moreno
Caetano Veloso
9 - Épico
Caetano Veloso
Caetano Veloso

Músicos
Dona Edith do Prato - Luciano Oliveira - Luciano Oliveira - Caetano Veloso - Tutty Moreno - Moacyr Albuquerque - Perinho Albuquerque - Tuzé de Abreu - Antônio Perna Fróes - Rogério Duprat
 
******************************
 
Quinto LP da carreira de Caetano, segundo após o retorno do exílio, aprofunda o experimentalismo de "Transa" e inaugura a trilogia que se constituiria com "Joia" e "Qualquer coisa". Trata-se de um repertório calcado na poética concretista, trazendo desde colagens com Dona Edith do Prato e seus sambas de roda, passando pelo rock apoiado na guitarra de Lanny Gordin, bem como, orquestrações arranjadas por Rogério Duprat. Gravado em 1972 e lançado em 1973, é um LP controverso, teve muita devolução e foi retirado de catálogo até 1987.
 



PEROLAS DO ROCK N´ROLL - PROG FOLK - JONATHAN - Same - 1970



Artista / Banda: Jonathan
Álbum: Jonathan
Ano: 1970
Gênero: Progressive / Folk Rock
País: Itália

Comentário: Músico originário de Livorno, na região central da Itália, que começou sua carreira na música nos anos 60, em dupla com o francês Michelle Loskady, fazendo covers e chegando a lançar alguns compactos. Este é seu único álbum solo, cujas informações são mínimas (inclusive os músicos desconhecidos), lançado em um pequeno selo suíço e hoje impossível de achar.
São 12 curtas faixas que mesclam folk e pitadas de rock progressivo, ou proto-prog, já que este ainda estava se desenvolvendo no país. O álbum é muito voltado a parte lírica, com a bela voz de Pracchia, e letras todas em italiano, havendo algumas partes de declamações a capella, porém o acompanhamento instrumental tem seus ótimos momentos, se destacando de outros discos deste gênero, com violão 12 cordas, percussão e principalmente flauta, além de alguns momentos de órgão Hammond e guitarra.
Certamente uma pérola para fãs de RPI e prog/ folk em geral, recomendado!

Jonathan - Jonathan - 1970 
MUSICA&SOM ☝

Músicos:
Maurizio Pracchia (Jonathan)
?

Faixas:
01 Lontano
02 Il treno
03 E' tutto vero e non è vero niente
04 Signor Rossi
05 Haoum
06 Come colombacci di passaggio
07 Nel giardino di Dio
08 Il castello oltre il soffitto
09 Io di più
10 Milano ore 25
11 Il fiore nella polvere
12 L'infame rospo



sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

PEROLAS DO ROCK N´ROLL - PROG/FUSION - RAINBOW BAND - Rainbow Band

Grupo da Dinamarca formado em København em 1970 e que só lançou um álbum em 1970 com esse nome, logo depois o grupo ficou sabendo que havia uma outra banda do Canadá que existia com o mesmo nome e mudou o nome do grupo para Midnight Sun, relançando o álbum Rainbow Band em 1971 com o nome de Midnight Sun e com um vocalista novo (Allan Mortensen), lançando além desse, outros dois álbuns até acabar no final de 1974 .

O álbum Rainbow Band foi uma pérola com um som bem variado, que tem na sua maioria rock progressivo e jazz rock/fusion, mas com alguns toques de música psicodélicas e blues (faixas como King of the Sun), contando ainda com algumas boas passagens mais pesadas na guitarra e faixas como Nobody onde o destaque é o piano e a flauta.
Pérola Recomendada!!!

- Peer Frost / guitars
- Carsten Smedegaard / drums
- Bent Hasselmann / winds
- Lars Bisgaard / vocals
- Bo Stief / bass
- Niels Bronstad / piano

01. Where Do You Live 4:27
02. King Of The Sun 5:06
03. Nobody 4:57
04. B.M. 2:45
05. Where Are You Going To Be 2:48
06. Living On The Hill 14:13
07. Rainbow Song 3:49



Wild Nothing – Life Of Pause (2016)

 

As canções de Jack Tatum, cintilantes e nostálgicas, funcionam como atraentes confecções pop encamadas numa envolvente, por vezes surreal, atmosfera narcotizante rica em detalhes. Persistem não na memória pelos orelhudos refrões ou melodias, mas como estes nos emergem instantaneamente reconhecíveis assim que os revisitamos. O modo como o homem por detrás dos Wild Nothing explora as potencialidades harmoniosas, rítmicas e estruturais de cada uma das suas canções fará porventura com que as mesmas não tenham (ou melhor, não cedam) ao imediatismo dos seus pares, mas aí reside porventura o seu fascínio: a pop como subliminar memória que refulge na sua fascinante totalidade assim que regressamos a ela – talvez a música de Tatum seja a que mais se aproxima, no espectro actual, da concepção literal do dream em dream pop.

Nocturne, o excelente registo anterior, distinguia-se do antecessor Gemini pela riqueza e diversidade instrumental, a beleza dos arranjos e a superior qualidade de gravação, potenciando a experiência mirabolante e absorvente do som dos Wild Nothing. Apontando como influências Todd Rundgrensoul de Filadélfia neste novo registo, a voz de “Shadow” dá proeminência na mistura a uma secção rítmica forte e fluida, sendo clara o papel dos dois na abordagem que Tatum tomou na produção de Life Of Pause. É graças à conjugação de um baixo petulante e inventivo e a persecutória e hábil precursão, presentes em todas as faixas, abrangendo desde krautrock em “TV Queen” à disco em “Reichpop”, que este é o disco mais coeso, homogéneo e fluido de toda a discografia do grupo.

A sensação de espaço físico criada pelas camadas sonoras cativantes de Tatum tem, neste disco, resultados que variam desde o muito bom ao mediano. Infelizmente, encontra-se aqui em falta a dimensão emocional, pungência sónica, criatividade composicional e momentos sónicos inesperados que permeavam Nocturne, ainda o melhor trabalho no seu catálogo. O refrescante solo de marimba na primeira faixa “Reichpop”, seguido por saltitante ritmo acompanhado de óptimos rasgares solares na guitarra, é um dos melhores momentos do disco. Após este, a qualidade fraqueja nas quatro faixas seguintes, um kitsch 80s pouco inventivo, demasiadamente estéril e pouco enérgico. Todavia, após a foleira faixa-título, o disco melhora substancialmente, seguindo-se as faixas mais exploratórias, densas e aventurosas, onde o álbum arrisca mais sair da sua zona de conforto. “Alien” e “Whenever I” incorporam os ritmos sensuais Motown para resultados felizes, esta última com um dos melhores refrões da carreira da banda. A sónicamente irrequieta “Adore”, faixa que melhor conjuga a nova dimensão corporal e dançante de Life of Pause com a etérea e sonhadora dos dois registos anteriores, é um verdadeiro doce para os ouvidos, o seu psicadelismo extasiante, rico em texturas surpreendentes que efervescem e desvanecem para a outras dar lugar, dominado com uma mestria e classe fora do comum, culmina numa jam arrebatadora e hipnotizante. “To Know You” serve-se de uma batida motorik e de um ruidoso sintetizador para dotar a faixa de uma qualidade agridoce e agressiva previamente desconhecida à habitualmente acessível ambiência dos Wild Nothing.

Tatum apresenta ainda um talento nato para pérolas melódicas subjacentes ao imediato nas suas faixas e Life Of Pause é disco para muitas escutas. Todavia, peca por ter um par de canções menos inspiradas e nenhum momento que nos verdadeiramente destoe ou consideremos imprevisível. Aplaude-se a mudança, mas reticentemente sai-se deste álbum com a impressão de que poderia ter sido mais especial do que realmente foi.


Brian Eno – The Ship (2016)

Sou um admirador incondicional de Brian Eno e da sua vasta obra, mesmo quando grava (ou gravou) discos que considero de menor ou até mesmo residual interesse. É um mago, um pioneiro, um artista multifacetado, sempre uns bons quilómetros à frente dos seus pares, sempre visionário, sempre desbravador dos caminhos tortuosos da música e dos sons que a edificam. Não somente como autor em nome próprio, mas também como parceiro de outros, e até mesmo como produtor. Num tempo ceifante como este em que vivemos, terrível para os grandes nomes da música, a existência de Brian Eno é, desde logo, um conforto, um motivo adicional de contentamento, e também um sinal claro de que um novo disco de Eno nunca nos engana(rá). Tem sido quase sempre assim, e a esperança gerúndia que a marca Eno faz crer, leva-nos a nunca duvidar da qualidade de sua próxima obra. Claro que há quem o prefira dos tempos (e dos modos) de Here Come The Warm Jets (o seu disco de estreia a solo, em 1974), de  Tiger Mountain (By Strategy) (também de 74, e para mim o melhor disco de Eno na sua faceta de criador de canções), ou até mesmo de parte de Before And After Science (1977), embora outras, e são também muitas e acérrimas, mostrem maior apreço pela versão mais ambiental do mesmo autor, onde discos maiores como No Pussyfooting (em colaboração com Robert Fripp, de 1973) Discreet Music (1975) ou Ambient 1: Music For Airports (1978) se destacam claramente. No entanto, e mesmo sabendo que a versatilidade de Eno não se esgota nas obras citadas (e por isso não resisto a mencionar mais uma, a “avant la lettre” My Life In The Bush Of Ghosts, de 1981, em parceria com a cabeça falante David Byrne), o que nos chega neste momento às mãos é The Ship, álbum que baralha e volta a dar (no que a expressão tem de melhor, acreditem) todo um passado e toda uma memória sonora que dele fomos construindo durante largas décadas, agora elegantemente revisitada.

The Ship é um disco dividido em duas grandes partes, a primeira com o mesmo título do álbum e a segunda designada por “Fickle Sun” que, por sua vez, se desmembra em três andamentos: “Fickle Sun”, “The Hour Is Thin” e “I’m Set Free”, cover dos eternamente saudosos The Velvet Underground. Parece-me claro (mas falo de uma clareza nebulosa, com alguma opacidade, mas mesmo assim repleta de uma vastíssima limpidez) que este The Ship, trabalho inspirado pelo afundamento do Titanic, é uma obra densa, que descobre na voz e nos efeitos que surgem a partir dela, um universo sonoro de enorme beleza, como se a voz de Eno pudesse, ela mesma, criar um universo paralelo às normais estruturas da composição musical. A voz como centro sonoro de tudo quanto existe!, parece-me uma possível e justa interpretação do que se ouve em The Ship, o primeiro tema do disco. E assim, em seu redor, outras vozes se elevam, outras ainda se reduzem, aumentando e minimizando amplitudes espaciais que se transformam em dilatadas paisagens sonoras, lençóis de sons que envolvem aquele que as escuta. Adivinham-se os silêncios anteriores a estes sons, e os ruídos burilados que chegam até nós vindos do vazio das profundezas surpreendem pela beleza trágica que encerram.

Na segunda faixa do disco, no andamento “Fickle Sun (i)”, ouvimos um poema dito pelo ator Peter Serafinowicz, criado por um software de nome Markov Chain Generator, capaz de produzir linhas e linhas de texto sequencial, mas também ruídos de maquinaria, excertos dormentes de velhas canções da primeira guerra mundial entre muitas outras coisas sem nome e sem lugar, como se estivessem perdidas no espaço. Tudo em pouco mais de dezoito minutos de inquietação…

Outro momento de grande interesse, talvez o maior de todos, sobretudo para os mais acostumados e amigos do formato canção, reside nos últimos cinco minutos e vinte segundos do disco, através do conhecidíssimo “I’m Set Free”, do álbum homónimo dos The Velvet Underground. A canção de Lou Reed permanece intacta na sua deslumbrante graciosidade, e a voz de Brian Eno dá-lhe a tonalidade perfeita para que este The Ship acabe com delicadeza e circunstância.

Reitero, para terminar este discurso, a ideia inicial destas linhas: ouvir Brian Eno é sempre um grande prazer! Se for ouvido em condições de exceção, como seria bom que acontecesse, o deleite será ainda maior. Permitir que The Ship se afunde, de forma distinta e requintada dentro de si, pode ter um impacto saudavelmente devastador!



Dälek – Asphalt For Eden (2016)

 

É finalmente primavera e parece que o sol e o calorzinho chegaram e se instalaram. Tempo perfeito, só que não. Nunca nos últimos dias quis tanto céu carregado e ventania, ou um daqueles dias de nevoeiro cerrado que parece que vai levantar, mas depois não acontece nada. Este meu desejo de horário de inverno e meteorologia correspondente é o resultado de escutas sucessivas de Asphalt For Eden que assinala o regresso aos discos dos Dälek ao fim de sete anos desde Gutter Tactics.

Dificilmente o trabalho de outros artistas de hip hop tem este efeito particular. Mas os Dälek sempre se distanciaram do cânone do género, incorporando samples de ambient e apostando na criação de ambientes tão shoegaze como os que criam os Have A Nice Life.

Não é à toa que o álbum é editado pela Profound Lore Records, mais direccionada para géneros mais pesados e experimentais (ainda no ano passado nos deu o incrível A Northern Meadow, dos Pyramids), ao invés de ter o selo de uma editora com um catálogo mais virado para aquilo que achamos que é o público-alvo do hip hop. A própria carreira dos Dälek acabou por afastá-los deste target quando embarcaram em digressões com bandas como The Dillinger Escape Plan, Tool ou Godflesh

A maioria das referências dos Dälek talvez nem se cruze com as dos nomes maiores do hip hop dos últimos quinze anos, e é isso precisamente que faz com o seu som seja distinto em relação a outros artistas, e que os deixe mais próximos de uma onda mais experimental. “Masked Laughter (Nothing’s Left)” ou a instrumental “6db” facilitam a compreensão desta descrição, envoltas numa neblina que resulta desta combinação menos óbvia de géneros.

Mas depois também há o contraste em “Critical” e “Control”, onde o hip hop se coloca numa posição mais dominadora do que nos restantes temas. Os beats mais rápidos e o tom mais inflamado de MC Dälek (Will Brooks) deixam estes temas mais perto da zona mais popular do género, como que a fazer-nos lembrar que no final do dia, em Asphalt For Eden e no cerne dos Dälek há muito, muito hip hop, e do bom.

Na verdade, quanto mais ouço Dälek, mais me parece que eles são uma das melhores bandas de entrada para aqueles que, como eu, um dia disseram que não gostavam de hip hop. O que torna o trabalho dos Dälek tão peculiar, e Asphalt For Eden não é excepção, é esta personalidade um tanto à margem de géneros, que resulta numa combinação daquele groove instantâneo do hip hop à mistura com a cadência lenta e cinzenta do material mais noise incorporado desde o início ao fim do disco.

Sejam mais hip hop e menos experimental ou vice-versa (ou nenhuma das duas) e mesmo sob as nuvens cinzentas que traz consigo, a escuta de Asphalt for Eden é mais que recomendada.



Mayer Hawthorne – Man About Town (2016)

 

Quando me caiu no ouvido Man About Town, desconhecia por completo quem fosse Mayer Hawthorne. Pensava eu. Porque depois fui ao Google, que me disse que de cada vez que eu acompanhei na rádio o refrão “just ain’t gonna work out, just ain’t gonna work out, girl”, estava a cantar Mayer Hawthorne. Pronto, já podiam ter dito.

E oiço o disco com um pouco mais de atenção. Está lá o groove, a soul e o funk, todos delicadamente conjugados, nem demasiado pop, nem demasiado disco. O falsete continua sexy, os coros são suaves e nada soa estranho ao nosso ouvido. Somos seduzidos pela voz em “Cosmic Girl”, namoramos ao som de “Breakfast in Bed”, balançamos com “Get You Back“, aceleramos o passo em “Love Like That” e ainda damos uma perninha no reggae com “Fancy Clothes”. Tudo cool, tudo certo.

E então sigo para a merecida segunda volta – afinal o disco está bem feito – e, aos poucos, vamos percebendo que a Man About Town lhe falta um pouco de sal e pimenta, aquele refrão que fica na cabeça, aquelas canções que se distanciam das outras e que fazem um disco único. No fundo, carregamos no play e é como se conduzíssemos auto-estrada fora de cabelos ao vento, alcatrão novo com curvas ligeiras à esquerda, outras à direita, sem trânsito, nem buracos, nem grandes emoções. Mayer prefere não se aventurar demasiado e sentir-se bem confortável ao volante do seu descapotável – com seguro contra todos – oferecendo-nos as suas melodias simples de mão beijada, sem precisarmos de mexer no volume.

Contas feitas, e depois de também espreitar o remanescente reportório do músico, Man About Town é só mais um disco bem feito de Mayer Hawthorne, um dos bons, que só não é brilhante porque não nos traz nada de novo. Não deixem, porém, de o espreitar pois, mesmo em auto-estrada, uma viagem ao som de Man About Town será sempre mais cool do que aborrecida.



Baoba Stereo Club + M. Takara – Baoba Stereo Club + M. Takara [EP] (2013)

 

O verão é a época por excelência do ser humano. É a época do riso, dos troncos nus camaleónicos, da cerveja – ou algo mais – ao fim da tarde. E é a época do amor fugaz, do beijo dado sem preocupações presentes e ressentimentos futuros. Desse verão poético e imaginativo faz-se a música dos Baoba Stereo Club, portento de fusão da linguagem jazz com tudo o que vier à rede, aqui auxiliados pelo multi-instrumentista Maurício Takara num EP reeditado em 2015 pela portuguesa A Traineira.

Baoba Stereo Club + M. Takara é fruta da época. No inverno, talvez os seus encantos não nos consigam seduzir; mas mal o nosso rosto sente a primeira aragem quente do ano eis que o EP serpenteia pela cóclea, transmite aquela sensação de alegria que só uma noite tórrida, por entre o amor e o ruído, consegue transmitir. É música que se dança, corpo a corpo, ou é música que se aprecia sentado em bares mais ou menos fumarentos. Eclético e multi-facetado e portador das mais diversas magias, como os bons discos devem ser.

O primeiro ato mágico não poderia ter melhor título: “Abre Caminho”. Porque é isso que o tema faz, através de um motif de piano repetido, ao qual se junta um maravilhoso – e turbulento – som de trompete, como que indicando a faca e o alguidar que se escondem nas vielas de Lisboa durante o Santo António. E isso também é estranho: os Baoba Stereo Club são oriundos de São Paulo. Não teriam como reinventar essa imagem de Lisboa. Mas fizeram-no… Até porque o jazz é uma linguagem universal e cada um vê nele o que bem entende.

É um disco curto para a qualidade que tem; apenas 20 minutos de deleite. Normalmente, dir-se-ia que não precisava de mais, mas a verdade é que esta música deveria ressoar como um verdadeiro amor de verão: durante três meses intensos e em que no final restassem as memórias bonitas e inapagáveis. Como assim não é, somos obrigados a rodá-lo duas, quatro, vinte vezes, deixando que a melancolia punk de “(Adeus) Fidel” e o passo apressado de “Para Moacir” marinem no goto até cansar. O que é impossível. Amar não cansa.


Discos que ficariam melhores se as sobras de estúdio estivessem incluídas neles – parte 2

 

Discos que ficariam melhores se as sobras de estúdio estivessem incluídas neles – parte 2

Como prometido, este texto dará continuidade à matéria já publicada aqui neste site, citando mais cinco discos que, na minha visão, não são necessariamente ruins, mas poderiam ser ainda melhores se algumas “sobras de estúdio” ou faixas lançadas apenas como “lados B” de singles (ou tocadas apenas ao vivo) fizessem parte do track list oficial do disco finalizado. Reforço que estas escolhas seguem somente o meu próprio gosto pessoal, e deixo ao leitor que se sinta livre para concordar ou discordar nos comentários, além de sugerir outros álbuns que poderiam passar pelo mesmo “processo” de “melhoria” em sua versão mercadológica. Sendo assim, seguem minhas escolhas para esta segunda parte, novamente em ordem cronológica de lançamento.


1. In the Court of the Crimson King (King Crimson – 1969)

Assim como ocorre com Red, a estreia do King Crimson é um dos meus discos favoritos do grupo, mas eu nunca consegui entender ou gostar da primeira faixa do lado B, chamada “Moonchild”. Da primeira parte, mais calma e com vocais, eu gosto bastante, mas, quando a música se torna instrumental e mais abstrata, minha mente não consegue acompanhar a “viagem” da banda. Coubesse a mim selecionar as faixas que viriam a compor este clássico do rock progressivo, teria mantido apenas a primeira parte desta composição (como a banda passou a fazer ao vivo nas encarnações com Jakko Jakszyk nos vocais), e completaria o lado B (que, obviamente, contaria também com a inclusão da faixa de encerramento do álbum, a clássica “The Court of the Crimson King”) com alguma das faixas que a banda costumava interpretar ao vivo na época, mas que não chegaram a ser registradas em estúdio, como a cover para “Get Thy Bearings” (originalmente gravada pelo cantor Donovan), ou as originais “Travel Weary Capricorn” ou “Mantra”, faixas que me agradam muito mais que a sessão instrumental de “Moonchild”, e que podem ser encontradas em diversos registros oficiais do período lançados posteriormente, como o box set Epitaph.


2. Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me (The Cure – 1987)

Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me sempre me soou como um daqueles muitos casos de um vinil duplo que, se fosse simples, seria muito melhor. Contente com o sucesso do disco anterior, The Head on the Door, de 1985, o líder Robert Smith solicitou aos outros membros do grupo que participassem do processo de composição do novo álbum, abrindo mão da quase ditadura autoral que havia no The Cure até então. O resultado disso foi que nada mais nada menos que quarenta músicas foram apresentadas, sendo que trinta chegaram a ser gravadas, com dezoito delas fazendo parte do disco oficial (que ficou tão longo que uma faixa, “Hey You!!!”, acabou ficando de fora da versão em CD original por falta de espaço). Das faixas gravadas e não aproveitadas, pelo menos cinco foram aproveitadas como lados B dos singles lançados para promover o disco (além de fazerem parte de um vinil laranja que vem como bônus em uma raríssima edição britânica do mesmo, que eu, infelizmente, nunca vi). Pois qualquer uma destas cinco faixas, a meu ver, teria potencial para fazer parte da versão finalizada do álbum, especialmente “Breathe” e “A Chain of Flowers” (as outras são “A Japanese Dream”, “Snow in Summer” e “Sugar Girl”), que poderiam facilmente substituir faixas pelas quais não tenho tanto apego, como “Like Cockatoos”, “Icing Sugar” ou “The Perfect Girl” (ou mesmo outras mais famosas, mas que também não me agradam muito, como “Hot Hot Hot!!!”, “Why Can’t I Be You?” ou “If Only Tonight We Could Sleep”). Acredito que estas alterações não fariam o conceito do disco “subir” muito na minha avaliação em relação à discografia do grupo, mas certamente fariam com que eu fosse atraído a ouvi-lo mais constantemente do que faço!


3. Eldorado (Neil Young – 1989)

Eldorado é um EP de cinco músicas lançado por Neil Young no começo de 1989, inicialmente apenas no Japão e na Austrália, segundo a wikipedia. Apenas seis meses depois, o canadense lançaria Freedom, álbum que “resgatou” sua credibilidade no meio musical (depois de uma década de 1980 cheia de percalços), e levou a carreira do músico de volta ao nível de popularidade que ele tinha durante os anos 1970, e que continha três faixas também presentes em Eldorado. Acontece que este EP de vinte e cinco minutos é tão interessante (a meu ver), que, se a ele fossem somadas as duas versões de “Rockin’ in the Free World” (uma acústica, outra elétrica) mais a longa “Crime in the City (Sixty to Zero Part I)” e a também bastante recomendável “No More” (todas presentes em Freedom), teríamos mais pelo menos vinte e três minutos, que comporiam um disco de quase uma hora ainda mais conciso (em termos de estilo musical) e interessante do que Freedom, e que seria, a meu ver, melhor que muita coisa que Young lançou nos últimos quarenta e poucos anos. A opção do canadense foi outra (com um resultado até que bem satisfatório, pois Freedom não é, nem de longe, um disco desprezível como alguns registros que vieram antes e depois), mas algo bem mais atraente poderia ter resultado das sessões de gravação que ele fez com seus colegas à época.


4. Falling Into Infinity (Dream Theater – 1997)

A versão lançada pelo Dream Theater de Falling Into Infinity não é aquela que a banda gostaria que fosse. A ideia inicial do quinteto era lançar um álbum duplo, com algumas faixas mais progressivas, incluindo uma longa suíte que ocuparia todo o lado D (pensando no vinil) e seria uma sequência para a faixa “Metropolis – Part I (The Miracle And The Sleeper)”, do álbum Images And Words. Algumas demos foram registradas, mas a gravadora não concordou com as ideias do grupo. Ela queria um álbum com maior potencial comercial, e, para isto, trouxe o produtor Kevin Shirley para “arredondar” mais algumas ideias das composições, além do famoso compositor Desmond Child, que trabalhou junto a Petrucci em uma nova versão para uma faixa até então chamada de “You or Me” (que viria a se tornar a conhecida “You Not Me”). O fato do grupo se ver obrigado a lançar a “versão da gravadora” no mercado ao invés da sua própria fez com que o disco soasse bastante diferente dos registros anteriores do Dream Theater, sendo até hoje alvo de controvérsias por parte dos fãs mais devotos da banda. Caso faixas como “Cover My Eyes”, “Where Are You Now?”, “The Way it Used to Be”, e, principalmente, “Speak to Me” e “Raise the Knife” (todas disponibilizadas anos depois na série de “bootlegs oficiais” lançada pelo grupo, a qual viria a ser relançada mais recentemente sob o nome “Lost Not Forgotten Archives”) tivessem sido lançadas à época (talvez, junto com a sequência de “Metropolis”, que, como sabemos, acabou virando depois um álbum completo, o aclamado Metropolis Pt. 2: Scenes From A Memory), como era o desejo do grupo (sendo que eu não gostaria de ver estas canções substituindo nenhuma faixa do álbum original, mas, sim, sendo agregadas a ele, formando o disco duplo que a banda desejava), Falling Into Infinity seria um álbum mais condizente com a carreira do Dream Theater até então, e, a meu ver, ainda melhor do que já é, ainda que muitos possam não concordar comigo!


5. Death Magnetic (Metallica – 2008)

Death Magnetic resgatou muito do prestígio que o Metallica havia perdido junto aos fãs mais “true” com a dupla Load/Reload, e principalmente, com o fraco St. Anger. A volta a composições com mais características de “RÉVI METÁU” e o retorno dos solos (ausentes no disco anterior) atraíram uma multidão de fãs que havia se afastado do grupo nos anos anteriores. Aí, no começo de 2012, a banda lançou o EP Beyond Magnetic, com quatro faixas que “sobraram” das gravações do álbum original (e que até mereceu um War Room especial aqui no site). E foi aí que comecei a me perguntar como conseguiram deixar “Hate Train” e “Just a Bullet Away” de fora do Death Magnetic (sendo que “Rebel of Babylon” também podia muito bem ter se encaixado lá). Quais músicas tirar para colocar estas? Eu gosto bastante do disco original, mas trocaria facilmente “The Judas Kiss” ou “My Apocalypse” pelas duas “descartadas”. E tenho certeza que muita gente preferiria ver uma delas no lugar de “The Unforgiven III”, faixa que sei que não agrada muitos dos fãs da banda. Não sei se o álbum ficaria muito melhor do que já é, mas, pelo menos, as duas primeiras faixas do EP teriam uma chance maior de se destacarem na discografia do Metallica, ao invés de ficarem relegadas a meras “coadjuvantes” em um EP do qual poucos ainda se lembram!

Estas foram as minhas escolhas para a segunda parte desta matéria. Agora é com vocês! Deixem suas opiniões nos comentários, e indiquem outros álbuns que poderiam ser “alterados” em sua concepção, para quem sabe termos mais partes em breve, e transformar esta ideia em uma nova seção para o site!

Destaque

INDIAN SUMMER - Indian Summer - 1971

  Outra banda desperdiçada e sem muito sucesso, o Indian Summer surgiu na Inglaterra em 1971 e lançou apenas esse raro disco com produção de...