domingo, 4 de janeiro de 2026

Makaya McCraven em quatro andamentos

 

Não há uma lógica conceptual na divisão dos quatro EP Techno LogicThe People’s MixtapeHidden Out! e PopUp Shop, também reunidos no álbum duplo Off the Record, uma edição tripartida entre a XL Recordings, a International Anthem e a Nonesuch.

Dez anos depois de In The Moment o ter projectado no campo grande do jazz, e de se ter afirmado como arquitecto sonoro das peles, as quatro peças unem-se como fim através do improviso extensivo, mas cada uma tem um tempo e cumplicidades próprias a definir o diálogo. Em Techno Logic, a tuba de Theon Cross tem o peso de um colosso. Em Technology, ouve-se Ben LaMar Gay a incitar “feel that, it’s going technologyem tom de profecia afroespiritual. Se existir uma ordem, e este for o primeiro EP da fila, fica evidente que McCraven seguiu apenas a intuição, desinteressando-se da organização da informação. Em Boom Bapped, vénia à escola dos 90 do hip-hop, somos reenviados para a informalidade do acid-jazz e, claro, um certo charme de Miles Davis enquanto se imaginam pedras de gelo a derreter no Moscatel.

Se Techno Logic foi gravado a três tempos em Londres (2017), Berlim (2024), e Nova Iorque (2025), The People’s Mixtape é um filho bastardo do serão comemorativo de In The Moment, em janeiro deste ano em Brooklyn. McCraven reencontra-se com o contrabaixista Junius Paul e o trompetista Marquis Hill, peças essenciais nesse disco, com Joel Ross, com quem vem interagindo desde Universal Beings (2017), e com o mágico dos sintetizadores Jeremiah Chiu. Fascinante caleidoscópio de hipóteses, o EP vive da interacção com o outro, muito mais do que da definição de rotas. O compasso lento de What a Life dá lume a um potencial beat de hip-hop estampado por Mobb Depp ou A Tribe Called Quest.

A consistência de Off The Record está na identidade própria e valor acrescentado de cada uma das peças. Hidden Out! anima-se nas cordas de Jeff Parker, guitarrista essencial da cena de Chicago, e nos silêncios inteligentes. Na aparência, talvez seja o mais clássico dos quatro mas a homogeneidade não só é eficaz no todo como resulta da excelência não-virtuosa dos intervenientes - de novo Junius Paul, Marquis Hill no trompete e electrónicas, e Josh Johnson no saxofone e electrónicas.

PopUp Shop é o velho samurai dos quatro, ao resgatar material estreado em 2015 em Los Angeles. Uma fotografia da evolução de McCraven de músico emergente para maestro do jazz actual, mas o retrato de diferentes momentos não se queda à individualidade e celebra também a energia colectiva que diferentes personalidades e sensibilidades podem gerar. A pós-produção é assumida, mas não rouba o calor do momento nem o prazer da troca. Se esta colecção arruma gavetas e faz a ponte para um outro futuro, então o melhor continua por vir. Como tem sido recorrente nele, aliás.

Makaya McCraven actua no Teatro S. Luiz a 12 de novembro. O concerto está integrado na programação do Misty Fest

A ópera maior de Rosalía

 

Na semana em que a Lux nasceu eterna, Zohran Mamdani venceu as eleiçōes de Nova Iorque e os Radiohead enjaularam-se em palco após sete anos de abstinência. Três acontecimentos sem qualquer ordem entre si, mas que simbolizam uma mesma necessidade colectiva de ruptura e confronto com o grotesco. Ainda que a banda tenha, pela primeira vez na sua longa vida, regressado sem novos argumentos, provavelmente para se reconciliar internamente e reencontrar o karma perdida, continua a simbolizar invenção e metamorforse. Precisamos desta euforia poética para sentir a frescura do mar nos ossos antes de nos afundarmos outra vez na lama. O ciclo repete-se como a rotação do sol.

Em 1997, os Radiohead embarcavam no futuro com receio em OK Computer. Em 2025, Rosalía rejeita o convénio da meta-pop, diz não à robotização e à produção pop por atacado em fábricas de refrōes. “Tem de haver outra maneira de fazer pop”, declarou no Popcast do New York TimesPara fora, a catalã afaga o furacão mas Lux, como boa parte das revoluçōes pop, nasce do confronto com o estabelecido e do desejo de reescrever uma nova teologia. E é dessa recusa do afunilamento, da modelação a partir de fórmulas confortáveis, e da reciclagem obsessiva de modelos que nasce esta luz eterna. Estamos em território desconhecido, sujeito à falibilidade, mas ainda assim sem perder a universalidade. Ser pop e livre é um acto político de uma coragem inaudita nos últimos anos, que rejeita o cinismo do jogo de espelhos e o conforto das câmaras de eco.

Rosalía perde a religião mas preserva o academismo que teorizou o vanguardismo de El Mal QuererEm 2018, o mundo foi obrigado a guardar o seu nome na lista de contactos. Foi um momento-chave para a cultura pop rever fronteiras e incluir o mundo latino no seu espaço de discussão e fruição artística, e não só como suplemento energético. Abriu-se uma avenida e embora singles como Despecha e parelhas com J BalvinTravis ScottBillie EilishRauw AlejandroLisa ou The Weeknd tenham consolidado a ubiquidade, tanto El Mal Querer como Motomami provaram uma leitura total da arte - musical, visual, conceptual - distintiva das demais e próxima da nobreza de Beyoncé.

A cascata de camadas de Lux é fascinante, desde a imagem purificada de freira, à comunicação especulativa culminada com uma explosão colectiva em Madrid, a um single complexo sem potencial radiofónico - tal como Paranoid Android e Karma Police -, mas ainda assim propulsor de um acontecimento. Berghain foi tratado como declaração de intençōes. As cumplicidades de Björk Yves Tumor marcaram território. Seria a mesma, voltaria diferente.

A islandesa é uma das principais fontes de Lux. Não há coincidências entre Dios Es Un Stalker e a marcha militar de Human Behaviour, mas o ascendente de Björk está na conciliação entre a pesca subterrânea e o regresso da embarcação a terra. Como nenhum outro objecto pop desde…El Mal QuererLux sonda o desconhecido e o improvável mas não cai do vazio. Admira os horizontes metalizados de FKA Twigs e absorve os fragmentos laboratoriais de Arca. Há a Orquestra Sinfónica de Londres, conduzida por Daníel Bjarnason, uma peça decisiva na escrita desta magna carta, e o poliglotismo de 13 idiomas como exercício de fluência e humanidade.

Escutam-se coros grandiosos, pizzicatos cartoonescos e barroquismos radiofónicos como na lindíssima Reliquia. Em Porcelana, a claustrofobia metalizada recolhida em Yeezus, de Kanye West, harmoniza-se com autotune e uma veia clássica que nunca soa excessiva ou exibicionista. Tem as medidas certas como em De Madruga, uma troca de correspondência com Malamente. Um bom exemplo de contenção é a monumental La Yugular, sem excessos vocais ou arranjos saloios. Na aciganada La Rumba Del Pardon, o sangue corre a ferver pelas veias e nem é preciso um desfado para aveludar Memória, em boa hora ofertada por Carminho. Ser silêncio e poesia é o bastante.

Rosalia esculpiu uma ópera-pop em que a erudição sobe ao povo. É uma peça magnífica de renascimento da arte sublime, em que a perplexidade com a espuma dos dias é respondida na prática e não só com comentários. Ao contrário do que tem sido propalado na febre comunicacional, em que todos falam e ninguém ouve, o nível médio da pop baixou drasticamente graças à patologia imediatista e à falta de escrutínio nos sistemas digitais de relacionamento.

Rosalía não anda aqui para servir Espressos nem brincar aos casamentos. Fica-lhe bem a passadeira branca. Perante o apagão generalizado, este brilho é inigualável. Tal como Mamdani, suspeitamos de um regresso ao futuro. Ainda não sabemos qual, mas queremos fazer parte dele. Lux vê muito para além do seu quadrado e distancia-se do seu tempo, para reivindicar uma intemporalidade que a proximidade ainda não permite reconhecer. Álbum do ano? Sim. Álbum da década? Candidato. Bíblia pop? Profecia.

Destaque

Ty Segall – $ingle$ 2 (2014)

Numa das últimas edições da sempre boa revista Mojo, Ty Segall afirma, candidamente: «o meu objectivo é fazer merdas esquisitas e ver o que ...