Na semana em que a Lux nasceu eterna, Zohran Mamdani venceu as eleiçōes de Nova Iorque e os Radiohead enjaularam-se em palco após sete anos de abstinência. Três acontecimentos sem qualquer ordem entre si, mas que simbolizam uma mesma necessidade colectiva de ruptura e confronto com o grotesco. Ainda que a banda tenha, pela primeira vez na sua longa vida, regressado sem novos argumentos, provavelmente para se reconciliar internamente e reencontrar o karma perdida, continua a simbolizar invenção e metamorforse. Precisamos desta euforia poética para sentir a frescura do mar nos ossos antes de nos afundarmos outra vez na lama. O ciclo repete-se como a rotação do sol.
Em 1997, os Radiohead embarcavam no futuro com receio em OK Computer. Em 2025, Rosalía rejeita o convénio da meta-pop, diz não à robotização e à produção pop por atacado em fábricas de refrōes. “Tem de haver outra maneira de fazer pop”, declarou no Popcast do New York Times. Para fora, a catalã afaga o furacão mas Lux, como boa parte das revoluçōes pop, nasce do confronto com o estabelecido e do desejo de reescrever uma nova teologia. E é dessa recusa do afunilamento, da modelação a partir de fórmulas confortáveis, e da reciclagem obsessiva de modelos que nasce esta luz eterna. Estamos em território desconhecido, sujeito à falibilidade, mas ainda assim sem perder a universalidade. Ser pop e livre é um acto político de uma coragem inaudita nos últimos anos, que rejeita o cinismo do jogo de espelhos e o conforto das câmaras de eco.
Rosalía perde a religião mas preserva o academismo que teorizou o vanguardismo de El Mal Querer. Em 2018, o mundo foi obrigado a guardar o seu nome na lista de contactos. Foi um momento-chave para a cultura pop rever fronteiras e incluir o mundo latino no seu espaço de discussão e fruição artística, e não só como suplemento energético. Abriu-se uma avenida e embora singles como Despecha e parelhas com J Balvin, Travis Scott, Billie Eilish, Rauw Alejandro, Lisa ou The Weeknd tenham consolidado a ubiquidade, tanto El Mal Querer como Motomami provaram uma leitura total da arte - musical, visual, conceptual - distintiva das demais e próxima da nobreza de Beyoncé.
A cascata de camadas de Lux é fascinante, desde a imagem purificada de freira, à comunicação especulativa culminada com uma explosão colectiva em Madrid, a um single complexo sem potencial radiofónico - tal como Paranoid Android e Karma Police -, mas ainda assim propulsor de um acontecimento. Berghain foi tratado como declaração de intençōes. As cumplicidades de Björk e Yves Tumor marcaram território. Seria a mesma, voltaria diferente.
A islandesa é uma das principais fontes de Lux. Não há coincidências entre Dios Es Un Stalker e a marcha militar de Human Behaviour, mas o ascendente de Björk está na conciliação entre a pesca subterrânea e o regresso da embarcação a terra. Como nenhum outro objecto pop desde…El Mal Querer, Lux sonda o desconhecido e o improvável mas não cai do vazio. Admira os horizontes metalizados de FKA Twigs e absorve os fragmentos laboratoriais de Arca. Há a Orquestra Sinfónica de Londres, conduzida por Daníel Bjarnason, uma peça decisiva na escrita desta magna carta, e o poliglotismo de 13 idiomas como exercício de fluência e humanidade.
Escutam-se coros grandiosos, pizzicatos cartoonescos e barroquismos radiofónicos como na lindíssima Reliquia. Em Porcelana, a claustrofobia metalizada recolhida em Yeezus, de Kanye West, harmoniza-se com autotune e uma veia clássica que nunca soa excessiva ou exibicionista. Tem as medidas certas como em De Madruga, uma troca de correspondência com Malamente. Um bom exemplo de contenção é a monumental La Yugular, sem excessos vocais ou arranjos saloios. Na aciganada La Rumba Del Pardon, o sangue corre a ferver pelas veias e nem é preciso um desfado para aveludar Memória, em boa hora ofertada por Carminho. Ser silêncio e poesia é o bastante.
Rosalia esculpiu uma ópera-pop em que a erudição sobe ao povo. É uma peça magnífica de renascimento da arte sublime, em que a perplexidade com a espuma dos dias é respondida na prática e não só com comentários. Ao contrário do que tem sido propalado na febre comunicacional, em que todos falam e ninguém ouve, o nível médio da pop baixou drasticamente graças à patologia imediatista e à falta de escrutínio nos sistemas digitais de relacionamento.
Rosalía não anda aqui para servir Espressos nem brincar aos casamentos. Fica-lhe bem a passadeira branca. Perante o apagão generalizado, este brilho é inigualável. Tal como Mamdani, suspeitamos de um regresso ao futuro. Ainda não sabemos qual, mas queremos fazer parte dele. Lux vê muito para além do seu quadrado e distancia-se do seu tempo, para reivindicar uma intemporalidade que a proximidade ainda não permite reconhecer. Álbum do ano? Sim. Álbum da década? Candidato. Bíblia pop? Profecia.

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