domingo, 4 de janeiro de 2026

35 anos à velocidade da Lush

 

Como n’O Estranho Caso de Benjamin Button, o filme de Gala começa pelo final. Há uma personalidade em crescimento e uma linguagem que se refina sem se despolarizar. Ainda são umas Lush cruas mas já a abrir avenidas para o bravado do shoegaze. Guitarras etéreas, texturas abrasivas, jogos harmónicos entre Emma Anderson e Miki Berenyi, e um duelo constante entre delicadeza melódica e ruído envolvente. Por contraste com outras bandas da 4AD e com os futuros colegas de página My Bloody Valentine e Slowdive, as Lush eram dotadas de uma sensibilidade pop mais explícita, sem perder a densidade. O triângulo Sweetness and LightSunbathing Breeze, de outubro de 1990, é de uma claridade jubilante e encaminha as Lush para uma utopia real e tangível.

Rescaldo de dois anos imparáveis de rápida evolução e promessa cumprida, a colectânea foi editada para servir de cartão de visita nos mercados americano e japonês, e reuniu os EP de 1990 Mad Love e Sweetness and Light, ambos desse ano, ao mini-álbum inaugural Scar, de 89. Para a sobremesa, uma versão de Hey Hey Helen, dos Abba, e uma remistura de Scarlet, por Robin Guthrie, dos Cocteau Twins, para uma compilação do Melody Maker.

Em De-Luxe e Leaves Me Cold, encontramos as Lush no apogeu da rebentação. Ruído, harmonias pop e guitarras jangle coexistem sem se canibalizarCom uma secção rítmica mais extrovertida, Downer podia entrar no catálogo dos Dry Cleaning. E há Thoughtforms, filha bastarda da cascata onírica e celestial dos Cocteau Twinsproduzida por Guthrie, com quem já planeavam trabalhar desde Scar.

“O termo shoegaze foi inventado para se referir aos estudantes chatos que ficavam a olhar para os próprios pés em palco”, recordava Miki Berenyi em entrevista recente à revista FloodA explicação podia ser adoptada como legenda pelo TikTok para o súbito e inexplicável contágio do subgénero na plataforma, mas tem outro propósito. As camadas flutuantes das duas vozes camuflavam uma desolação terrena no centro do turbilhão de guitarras.

As colectâneas costumam ser desvalorizadas em relação aos álbuns mas o comboio descendente de Gala é um expresso não só pela memória das Lush, mas um pedaço da arqueologia da madrugada de uns anos 90 exorbitados até hoje. No mini-álbum de estreia Scar, a instabilidade emocional das cançōes expunha nervo (Baby Talk) e uma compulsão pós-punk, assimilada de Siouxsie & The Banshees, notada na circularidade hipnótica da secção rítmica de Second Sight, no baixo amotinado de Bitter, na órbita suspensiva de Scarlet e na literalidade de Etheriel.

Para uma banda a navegar ao sabor da amizade de Anderson e Berenyi, apenas com dois anos de vela, tudo aconteceu à velocidade da Lush - talvez mais depressa do que pudessem suspeitar, mas os romances mais intensos não têm limite de velocidade. No revivalismo shoegazer, não há energia renovável como esta. A naturalidade das Lush sobrepunha-se a qualquer intenção racional e quando o ruído exterior interferiu na fluidez, a parede sonora ruiu.

Além da reedição remasterizada de Lush, foi disponibilizado no YouTube o filme de estrada A Far From Home Movie. O retrato da intimidade da banda em digressão foi captado em Super8 pelo baixista Phil King entre 1992 e 1996.

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