quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

STRAVINSKY

 


Os pais
Igor Fiodorovitch Stravinsky, nascido em Oranienbaum, atual Lomonosov, uma pequena cidade russa localizada nas proximidades do golfo da Finlândia, perto de São Petersburgo na Rússia em 17 de Junho de 1882.

Desde cedo recebeu influências musicais por parte de seu pai, Fyodor Ignatievich Stravinsky que era cantor da Ópera Imperial de São Petersburgo e casado com Anna Kyrillovna.


Ainda na infância teve lições de piano, posteriormente teoria musical e fazendo algumas tentativas de composição.

Aos oito anos, teve o seu primeiro contato com uma orquestra  quando assistiu “A Bela Adormecida” espetáculo de balé de Tchaikovsky no Teatro Mariinsky e ficou fascinado.
Com quatorze anos dominava o Concerto para Piano em Sol menor de Mendelssohn e, no ano seguinte, finalizou uma redução para piano de um dos quartetos de cordas de Alexander Glazunov.

Fachada atual da Universidade de São Petersburgo

Mesmo com todo o entusiasmo, desenvoltura e aptidão que demonstrava pela música, seus pais insistiram e em 1.901, Stravinsky inscreve-se na Universidade de São Petesburgo para estudar Direito, no ano seguinte com a morte de seu pai e a ausência de vocação para o curso dedicava mais tempo aos estudos musicais do que a faculdade e em quatro anos não frequentou cinquenta aulas. 


Em 1905, ocorreu o massacre conhecido como Domingo Sangrento em 22 de janeiro, impedindo que terminasse o curso, recebendo apenas um diploma de meio curso, em Abril de 1906.




Rimsky-Korsakov
Concentrou-se então apenas na sua paixão, a música, Nikolai Rimsky-Korsakov, que conhecera enquanto se preparava para a advocacia, aconselhou que não entrasse no Conservatório de São Petersburgo, passando a lecionar piano e harmonia duas vezes por semana, Stravinsky o tinha como um segundo pai. Começa a compor a sua Primeira Sinfonia, bem como a Sonata para Piano.



Katerina


Ainda em 1905 fica noivo de Katerina Gavriilovna Nossenko, sua prima, em 23 de Janeiro de 1906, casa-se, os seus primeiros filhos, Fyodor e Ludmilla, nasceram em 1907 e 1908 respectivamente.


Também em 1908 falece o seu mestre Rimsky-Korsakov, a quem dedicou a Sinfonia em Mi bemol maior.





No ano seguinte, na apresentação de Feu d'artifice (Fogo de artifício), em São Petersburgo, Sergei Diaghilev, o diretor dos Ballets Russos em Paris, estava presente e ficou bastante impressionado com a obra e convidou Stravinski a concluir algumas orquestrações e compor uma partitura completa do ballet, L'Oiseau de feu ("O Pássaro de Fogo"). O que foi prontamente aceito, viajou com a companhia de Sergei Diaghilev para a França e outros países europeus, conheceu vários músicos e compositores dentre eles Debussy, Ravel e Satie.

No alto: Stravinsky com Diaghilev e com Debussy
Embaixo: Stravinsky com Ravel e Eric Satie 

Concluiu “O Pássaro de Fogo” em 1910, encenado pela primeira vez em Paris, uma obra com orquestração muito imaginativa, rica em imagens e sons. Sucesso absoluto, proporcionando a Stravinsky o início da fama.

No mesmo ano muda-se para a Suíça onde nasce o seu segundo filho, Soulima (que mais tarde se tornaria um compositor menor), e a sua segunda filha, Maria Milena, nasceu em 1913. Durante esta última gravidez, descobriu-se que Katerina tinha tuberculose.
Ludmila, Katerine, Fyodor, Milena, Stravinsky e Soulima (1.920)
Compôs Petruschka e A Sagração da Primavera (Le Sacre du Printemps), em 1911 e 1913, respectivamente, ambas para a companhia de Diaghilev. Petruschka foi o primeiro balé a mostrar a mitologia folclórica, enquanto que Sagração foi causadora de muita polêmica, pela composição, cenário e a coreografia de Nijinski. Stravinsky tentou mostrar a brutalidade da Rússia pagã, que inspirou temas violentos através da obra e utiliza a orquestra como um grande instrumento de percussão, em que o ritmo conduz a estrutura da obra. Passava, então, a ser visto como um dos líderes da vanguarda musical. Seu nome entrava para a história da música universal.

Imagens da apresentação de Sagração da Primavera

Ramuz
Retorna à Rússia em Julho de 1914 com o objetivo de pesquisar material para Les Noces, voltou antes do fechamento das fronteiras causada pelo início da Primeira Guerra Mundial. Exilou-se voluntariamente na Suíça devido a Revolução Russa de 1917 e só voltaria a sua pátria natal nos anos 60. Compôs “O Rouxinol” em 1914, e “Les Noces” (“As Bodas”) entre 1914-23, com textos de do escritor Charles Ferdinand Ramuz, que conhecera na Suíça estabelecendo uma frutífera relação, tendo sido o primeiro resultado desta colaboração “Renard” (1922).

As dificuldades devido aos tempos difíceis na Europa, a sua esposa com uma saúde frágil e ainda tendo de manter quatro filhos, Stravinsky decide então com seus amigos Ramuz, Ernest Ansermet (maestro da companhia de Diaghilev) e Auberjonois (pintor e ilustrador) criar um “espetáculo de bolso”: “L’Histoire du Soldat” (A História do Soldado) baseado num conto popular russo. Stravinski tinha uma significativa relação artística com o filantropo suíço Werner Reinhart de quem obteve assistência financeira enquanto escrevia este espetáculo. 

Ansermet
A primeira execução foi conduzida por Ernest Ansermet a 28 de Setembro de 1918, no Teatro Municipal de Lausana. Em gratidão, Stravinski dedicou a obra a Reinhart, inclusive presenteando-lhe com o manuscrito original. Reinhart financiou uma série de concertos de sua música de câmara, que incluíam uma suíte de cinco números d' A História do Soldado, arranjadas para clarinete, violino, e piano. Reinhart, que era um excelente clarinetista amador e por isso Stravinski dedicou-lhe também a sua “Três Peças para Clarinete”, composta em Outubro-Novembro de 1918.

Reinhart
Reinhart fundou uma biblioteca musical Stravinskiana na sua casa de Winterthur. “A História do Soldado marca a minha ruptura final com a escola orquestral russa da qual fui aluno” – disse Stravinsky.
Mudou-se para a França em 1920, onde iniciou uma relação musical e de negócios com o fabricante de pianos francês Pleyel.
Arranjou muitos de seus trabalhos iniciais para que pudesse ser usada na Pleyela, a marca de pianolas de Pleyel.
Em 1934, época em que se naturalizou francês, passa a residir na rua Faubourg-St.Honoré, Stravinski recordaria depois esta como a sua última e mais infeliz residência europeia, a tuberculose da sua mulher infectou a sua filha mais velha, Ludmila, e a ele próprio. Ludmila morreu em 1938, e Katerina no ano seguinte. Stravinski passou cinco meses no hospital, durante os quais a sua mãe também morreu.

Durante o período em que morou na França escreveu as seguintes obras Sinfonia para Instrumentos de Sopro (1920-23), Pulcinella em colaboração com Pablo Picasso (1920), com Jean Cocteau compôs o oratório Oedipus Rex – Édipo Rei (1927) e com George Balanchine escreveu Apollon musagète – Apolo líder das musas (1928), Sinfonia dos salmos (1930), Persephone (1933), Jeu de Cartes – Jogo de Cartas (1936).

Stokowsky
Os patronos estavam sempre por perto. No início dos anos 1920, Leopold Stokowski deu apoio regular a Stravinski. O compositor era também capaz de atrair encomendas: muito do seu trabalho depois d' O Pássaro de Fogo foi escrito para ocasiões específicas e foi pago generosamente. O período compreendido entre 1920 e 1939, passado em França, corresponde à composição de obras ao estilo neoclássico, reativando os estilos e gêneros musicais do séc. XVIII.

No final dos anos 30, desgostoso com tantas perdas, busca novos ares.
Stravinsky mantinha relações profissionais com diversas pessoas nos Estados Unidos, na época trabalhava na sua Sinfonia em Dó para a Orquestra Sinfônica de Chicago, e foi convidado para conferências em Harvard entre 1939-40.

Vera de Bosset



Após a morte de sua esposa Katerina, assume o romance com Vera de Bosset Sudeikina (1888-1982), o verdadeiro amor da sua vida, companheira até à sua morte. Com o início da Segunda Grande Guerra em Setembro decide deixar a Europa para trás e morar nos Estados Unidos. Vera seguiu-o no início do ano seguinte e eles casaram-se em Bedford, MA, EUA, em Nove de Março de 1940.





Disney e Stravinsky
Na América conquista rapidamente o seu espaço. Compra uma casa em Hollywood, Los Angeles, no número 1260, da North Wetherly Drive, onde passou mais tempo como residente que em qualquer outra cidade durante a sua vida, e se torna o compositor favorito de algumas influentes personalidades norte-americanas, a exemplo de Walt Disney, que usou A sagração da primavera no filme Fantasia. (Assista no Youtubehttps://www.youtube.com/watch?v=EiAFUJ4Shao ou se preferir no link disponível no final da postagem).


Em Los Angeles, e por vezes conduziu concertos com a Orquestra Filarmônica de Los Angeles no Hollywood Bowl.






No dia 15 de Abril de 1940, devido ao seu arranjo da The Star-Spangled Banner levou à sua prisão pela polícia de Boston por violar a lei federal que proibia a rearmonização do Hino Nacional.


Stravinsky recebeu a cidadania americana em 1945.




Durante a década de 40 compôs as seguintes obras:
A já citada Sinfonia em Dó em 1940, a Sinfonia em Três Movimentos em 1945, Orpheus em 1947 que ainda remetiam a classicismo musical de meados do século XVIII ao início do XIX, compôs ainda Ebony Concerto para clarinete e jazz band em 1945 e a ópera The Rake's Progress em 1950. Foi em 1951, que terminou seu último trabalho neoclássico - a ópera A Carreira do Devasso, com libreto de W. H. Auden, baseado na obra de Hogarth.

Robert Craft, Vera e Stravinsky

No início da década de 1950, Stravinski começa suas composições seriais, cruzando com elementos medievais e renascentistas assim como elementos oriundos do seu próprio passado musical, e incluindo ainda o dodecafonismo de Schönberg, tudo isto com o incentivo de seu amigo Robert Craft. Experimentos com trabalhos de pequena escala para voz e câmara como Cantata (1952), Septet  e Three Songs from Shakespeare (ambas de 1953), Canticum sacrum (1956).

Agon (1954–57) é seu o primeiro trabalho a incluir o dodecafonismo, expandido em Threni (1958), A Sermon, a Narrative, and a Prayer (1961) e The Flood (1962), todos baseados em textos bíblicos. Agon é um balé coreografado para doze dançarinos, e representa a transição entre o neo-clássico ao serial.
São deste período ainda Movimentos para piano e orquestra (1959), Variações (1960), Elegia para JFK (1964) e Réquiem (1966).

Em 1959, Stravinski recebeu o Sonning Award, a mais alta honra musical da Dinamarca. Em 1962 aceitou um convite para regressar a Leningrado (hoje São Petersburgo) para uma série de concertos. Teve uma conversa de mais de duas horas com o líder soviético Nikita Khrushchev, que pediu que retornasse à União Soviética. Apesar do convite, Stravinski continuou estabelecido no Ocidente.
Em 1969 mudou-se para Nova Iorque, passando os seus últimos anos na Essex House. Dois anos depois, com a idade de 88 anos, morreu em Nova Iorque no dia 06 de Abril de 1971 e foi sepultado em Veneza na ilha cemitério de San Michele, próximo ao túmulo do Sergei Diaghilev.
Stravinski foi também um membro devoto da Igreja Ortodoxa Russa durante toda a sua vida, comentando certa vez, "A música louva Deus. A música é tão bem, ou melhor, capaz de louva-Lo que o edifício da igreja e toda a sua decoração; é o maior ornamento da Igreja".
A vida profissional de Stravinski havia compreendido a maior parte do século XX, incluindo muitos dos estilos musicais clássicos modernos, e influenciou compositores tanto durante como após a sua vida. Tem uma estrela na Calçada da Fama em 6340 Hollywood Boulevard, e recebeu postumamente o Grammy Award por Lifetime Achievement em 1987.
Stravinsky através de sua obra expõe um panorama da arte do Séc. XX, com as variedades estilísticas de sua época tempo. O contato com outras grandes figuras da cultura do séc. XX (Diaghilev, Nijinsky, Cocteau, Picasso, Baskt, Foukine, Balanchine, entre outros) reflete o seu carácter cosmopolita e de uma curiosidade insaciável.



BOLERO

 

A BAILARINA!
Ida Rubinstein

Ida Lvovna Rubinstein, nascida em Kharkov na Ucrânia no dia 05 de Outubro de 1885, foi atriz e dançarina russa, considerada muito bonita, expressiva e audaciosa no palco. Oriunda de família judia russa muito rica, ainda jovem ficou órfã, sendo criada por parentes, teve uma educação refinada e orientada para as artes. Aos dezenove anos com recursos próprios montou a peça Antígona de Sofócles, tomando para si, o papel principal. Casou-se com o seu primo Vladimir Horwitz em 1908. No mesmo ano montou o espetáculo de dança Salomé, baseado na obra de Oscar Wilde, considerado indecente e erótico pelos censores do Império. No ano seguinte, ingressa no grupo de balé de Serguei Diaghilev, participando de diversas apresentações por dois anos. Durante a Primeira Guerra, pouco se apresenta, dedicando-se a obras de caridade e assistência financeira aos feridos de guerra. Em 1920 volta a atuar com a companhia de Diaghilev. Oito anos mais tarde funda a sua própria companhia, Les Balles de Ida Rubinstein.
Artistas renomados ou ainda não se tornaram muito conhecidos através de encomendas suas.  A criação do balé Bolero, de Maurice Ravel, foi uma encomenda sua ao autor, em 1928. Neste mesmo ano, ela o interpretaria, com coreografia de Bronislava Nijinska.

A COREÓGRAFA

Bronislava Nijinska,
 coreógrafa oficial da companhia de Ida Rubinstein e irmã de Vaslav Nijinsky, nascida em Minsk, na atual Bielorrússia, em 08 de Janeiro de 1891, além de coreógrafa, foi dançarina e professora de balé, também fez parte da companhia de Diaghilev juntamente com o seu irmão. Sua mais importante criação foi Les Noces baseada na música de Igor Stravinsky.



O AUTOR
Maurice Ravel

Isaac Albéniz
O Bolero é uma obra musical em um único movimento escrita para orquestra, é a peça mais famosa de Maurice Ravel. Composta entre Julho e Outubro de 1928, tem o seu título original era Bolero-Fandango. O bolero é um ritmo que mescla raízes espanholas com influências locais. Como citado anteriormente obra foi um pedido da dançarina Ida Rubinstein, que encomendou a Ravel a criação de um balé com características espanholas, a princípio seria uma orquestração da obra Iberia de Isaac Albéniz, o que não foi possível, pois os direitos foram passados por Albéniz ao seu pupilo Ferdinand Enrique Arbos. Sendo assim teve compor algo totalmente novo e específico.

O RITMO E A DURAÇÃO

O bolero tem um ritmo invariável e uma melodia uniforme e repetitiva, a notação de tempo na partitura original é semínima igual a 76, entretanto há um risco e o número 66 substituindo a marcação original, o que significa que o metrônomo baterá 76 vezes por minuto, e pela quantidade de compassos a duração teórica original da peça seria de catorze minutos e dez segundos. Este tipo de notação é bastante comum em partituras. Na primeira gravação de Piero Coppola, contando com a presença do compositor, o Bolero durou quinze minutos e quarenta segundos. Ravel comentou tempos mais tarde, a um jornalista do Daily Telegraph que a obra duraria dezessete minutos. Anos mais tarde o maestro português Pedro de Freitas Branco, amigo de Ravel, dirigiu uma execução lenta da obra (semínima = 54), o que fez com que a obra durasse 18m30s.

Ravel em 1931 comentou: “Devo dizer que o Bolero raramente é regido como penso que deveria ser. Digo, o Bolero deve ser executado em tempo único do início ao fim, no estilo queixoso e monótono das melodias árabe-espanholas. [...] Os virtuoses são incorrigíveis, imersos em suas fantasias, como se os compositores não existissem”.
A caixa, instrumento musical que teve a sua origem na Europa do século XV, a sua utilização básica era a marcação de ritmos em marchas militares. Este instrumento dita o ritmo do bolero, são dois compassos repetidos cento e sessenta e nove vezes, estes dois compassos em ostinato dão ao Bolero de Ravel o ritmo uniforme e invariável.

OSTINATO
Em música, ostinato é um motivo ou frase musical que é persistentemente repetido numa mesma altura. A ideia repetida pode ser um padrão rítmico, parte de uma melodia ou uma melodia completa.
Basso ostinato (também chamado de baixo ostinato; em inglês "ground bass") é uma parte do baixo ou linha do baixo que se repete continuamente enquanto a melodia, e possivelmente a harmonia feita sobre ele, se altera. Foi desenvolvido já no Século XIII e usado com frequência da era barroca em diante.

Em música popular, muitos riffs para baixo podem ser vistos como uma versão moderna do baixo ostinato. Dois exemplos são as canções Money (2), do Pink Floyd (de The Dark Side of The Moon - 1973) e Planet Caravan (2), do Black Sabbath.
Uma pequena peça com um ostinato famoso pode ser encontrada na música tema do filme Tubarão composta por John Williams. Foram utilizadas duas notas da seção do baixo da escala, repetidas em vários andamentos, para expressar as diferentes atividades do tubarão assassino. Esse ostinato de duas notas talvez seja a música de filme mais facilmente reconhecível da história do cinema.
Outro exemplo bastante conveniente para se entender o método é a famosa canção do ABBA, "Take a Chance on Me"(2). Nesse vídeo musical, os quatro membros do grupo são distribuídos nos quatro cantos da tela; durante a execução da canção, Benny and Björn cantam, repetidamente, "take a chance, take a chance, take a, take a chan-chance", ao mesmo tempo em que Agnetha e Frida cantam a letra da canção.
Sendo uma estrutura acessível que permite a improvisação, o ostinato foi amplamente utilizado no período barroco. Por cerca de um século e meio, começando por volta de 1770, a técnica quase foi abandonada. Ela ressuscitou repentinamente no início do século XX com o desenvolvimento do jazz.

De volta ao Bolero de Ravel, a única sensação de mudança é dada pelos efeitos de orquestração e dinâmica, com um crescendo progressivo e uma curta modulação em Mi maior próxima ao fim, mas retorna ao Dó maior original faltando apenas oito compassos do final. Alguns críticos dizem que o Bolero é o mais longo crescendo da música erudita mundial, outros o citam como um grande orgasmo musical.
Ravel considerava como um simples estudo de orquestração. Um exercício de composição privilegiando a dinâmica em que se pretendia uma redefinição e reinvenção dos movimentos de dança. O Bolero, entretanto guarda muita originalidade e, em sua versão de concerto, chegou a ser uma das obras musicais mais interpretadas a ponto de permanecer, até 1993, em primeiro lugar na classificação mundial de direitos da Sociedade dos Autores, Compositores e Editores de Música (SACEM). O próprio Ravel ficou surpreendido com a divulgação e popularidade, pois para ele a obra só teria sentido acompanhada da coreografia. Para ele não existia música nenhuma neste balé apenas a dança.

O BALÉ
Ida Rubinstein com o figurino do balé.

Ravel pretendia que o balé fosse montado em área externa, com uma fábrica ao fundo, numa alusão à Carmen de Bizet, ópera que admirava. No entanto, a montagem situou a ação num obscuro café de Barcelona, iluminado apenas por uma lâmpada. A bailarina começa a dançar sobre uma grande mesa enquanto, homens permanecem sentados jogando cartas.


Alexandre Benois
Desenho de Benois
O balé teve a sua estreia em Paris, na Ópera Garnier, em 22 de Novembro de 1928, com a regência de Walther Straram, coreografia de Bronislava Nijinska e cenários de Alexandre Benois. Ida Rubinstein representava o papel da bailarina de flamenco, numa coreografia sensual que despertou escândalo.


René Chalupt, crítico da época, escreveu:
“Movimento orquestral inspirado numa dança espanhola, caracterizado por ritmo e tempo invariáveis, uma melodia obsessiva em dó maior, repetida sem nenhuma modificação, exceto pelos efeitos orquestrais, num crescendo que termina com uma modulação em mi maior e uma coda estrondosa.”
Nota: Coda (que traduzindo do idioma italiano para o português quer dizer cauda) é a seção com que se termina uma música.
O Bolero foi a única composição de Ravel em 1928, sendo que não compunha para um balé desde La Valse em 1919.


Em 1934, o estúdio Paramount produziu um filme, protagonizado por Carole Lombard e George Raft, intitulado Bolero, em que a música desempenha importante papel. A fama da obra já não podia ser detida.



Algumas curiosidades sobre a obra:

- O saxofone sopranino na partitura original é um saxofone em Fá; todavia, hoje há somente saxofones em Mi bemol. Não se sabe se alguma vez um saxofone sopranino em Fá terá existido, ou se Ravel pretendia uma transposição. Tanto as partes de saxofone como de saxofone sopranino são tocadas no saxofone soprano em Si bemol.

- O Bolero é tocado diariamente na Praia do Jacaré em João Pessoa-PB durante o pôr-do-sol, pelo músico Jurandy do Sax. (1)

- A música faz parte da trilha sonora do anime Digimon e do jogo Xenogears.

- Em 1961, o dançarino e coreógrafo Maurice Béjart criou sua versão para o Bolero, tornando-a uma de suas obras mais importantes. Em 1980, a coreografia de Béjart foi reproduzida pelo bailarino argentino Jorge Donn no filme Retratos da Vida (Les uns et les autres), do diretor francês Claude Lelouch. (1)

- Nos jogos de inverno de 1984, a dupla Torvill & Dean do Reino Unido fizeram a sua apresentação ao som do Bolero. 

- No desfile cívico-militar do Dia da Independência, 07 de setembro de 2014, a tropa da Polícia Militar da Paraíba desfilou aos acordes do Bolero de Ravel, adaptado pela Banda de Música da PMPB.

- A dupla Jica e Turcão fizeram uma versão do Bolero chamada Bolero da Rosicler, sendo a base da música feita por um despertador. 




Destaque

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