sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Blind Guardian – Imaginations from the Other Side [1995]

 

Blind Guardian – Imaginations from the Other Side [1995]

Imaginations from the Other Side é o quinto álbum de estúdios da banda alemã Blind Guardian, lançado oficialmente em abril de 1995, através dos selos Virgin e Century Media. Somewhere Far Beyond, o quarto álbum de estúdio da banda, foi lançado em 1992 e produzido por Kalle Trapp. O álbum viu a banda desenvolvendo seu próprio som original, sem deixar de empregar a maioria de suas técnicas de speed/power metal. Em paralelo, a arte da capa e as duas “The Bard’s Song” deram à banda o apelido de “Os Bardos”. O uso do apelido também se estendeu aos fãs do grupo, sendo o extinto fã-clube nomeado Círculo dos Bardos, e Hansi Kürsch, baixista e vocalista do Blind Guardian, frequentemente chamando os fãs de “Bardos”.

Blind Guardian em 1995: Marcus Siepen, Hansi Kürsch, Thomen Stauch e Andre Olbrich

O álbum foi aclamado pelos fãs de power metal em toda a Europa, e especialmente no Japão, permitindo-lhes fazer uma turnê pela primeira vez fora da Alemanha. A turnê pelo Extremo Oriente levou ao lançamento do primeiro álbum ao vivo da banda, Tokyo Tales. Desta forma, tendo obtido muito sucesso com seus lançamentos recentes, Somewhere Far Beyond e Tokyo Tales, a banda estava otimista ao começar a compor um novo álbum. Logo notaram a lentidão do processo em comparação com as sessões de composição anteriores, pois, para essas novas músicas, as escolhas pessoais foram elevadas às partes que deveriam ser incluídas, e as ideias que não eram satisfatórias foram descartadas.

Versão japonesa slipcase de Imaginations from the Other Side

No entanto, após as duas primeiras músicas, “Imaginations from the Other Side” e “The Script for my Requiem”, serem gravadas em demo, os integrantes da banda ficaram satisfeitos com sua qualidade excepcional, e assim que as duas músicas seguintes, “I’m Alive” e “A Past and Future Secret”, foram compostas e adicionadas à fita demo, eles estavam confiantes com o novo material. Como já estavam insatisfeitos com a produção de seus dois últimos lançamentos, os citados Somewhere Far Beyond e Tokyo Tales (ambos produzidos por Kalle Trapp), Kürsch e o guitarrista Andre Olbrich logo começaram a procurar um novo produtor enquanto viajavam pela Europa.

Em sua primeira parada, na Dinamarca, eles conheceram o produtor Flemming Rasmussen, que já havia trabalhado com as bandas Rainbow, Pretty Maids e Metallica (uma influência predominante no estilo da banda). Depois de visitar outros estúdios ao longo do verão, até mesmo aqueles onde álbuns dos Beatles e dos Rolling Stones foram gravados, os dois sentiram que Rasmussen, que havia ficado visivelmente impressionado com a fita demo, era a escolha óbvia. Apesar do produtor exigir mais da banda do que estavam acostumados com Trapp (especificamente na guitarra base e nas performances vocais), havia uma química notável entre Rasmussen e o Blind Guardian. O guitarrista base, Marcus Siepen, refletiria que ele “os levou a um nível completamente diferente, em todos os aspectos“.

Raro k7 ucraniano

Seguindo os passos dos discos anteriores da banda, o Imaginations … continuou a se distanciar das tendências puramente speed metal. Além de riffs de guitarra rápidos, vocais (distorcidos e agudos) e a bateria extrema (características do speed metal), surgiram progressões de acordes cativantes e vocais limpos – componentes que lembram a música folk europeia clássica. Duas faixas, “A Past and Future Secret” e “Mordred’s Song”, poderiam até ser consideradas baladas.

Além de Kürsch e Olbrich (que levam todos os créditos de composição), completavam o gurpo, Marcus Siepen na guitarra rítmica e Thomen Stauch na bateria. Também participaram das gravações: Mathias Wiesner (Efeitos), Jacob Moth (Violão em “A Past and Future Secret”) e Billy King, “Hacky” Hackmann, Rolf Köhler, Piet Sielck, Ronnie Atkins – todos nos Backing Vocals.

CD single de “A Past and Future Secret”

“Imaginations from the Other Side” abre o disco com muita categoria, um Power Metal com influências de Thrash Metal. “I’m Alive” traz peso e forte influência do Metallica (antigo), com a faixa oscilando entre passagens intensas e outras mais amenas. Uma linda balada, a qual possui influências folk, “A Past and Future Secret” traz a voz de Kürsch em sua grande versatilidade. Com vários momentos que remetem a um Heavy Metal mais clássico, “The Script for My Requiem” é das melhores canções do trabalho. “Mordred’s Song” segue na pegada do disco, com seu Power Metal muito intenso e vocais incríveis de Kürsch. A influência Thrash fica mais evidente na ótima “Born in a Mourning Hall”.

CD single de “Bright Eyes”

“Bright Eyes” traz mais momentos cadenciados e bons solos de Olbrich e, de acordo com uma entrevista com Hansi, é a sua própria história, ao contrário de muitas outras canções da banda que são baseadas em obras populares de fantasia. Um Power Metal bem pesado está presente em “Another Holy War”, com vocais bem agressivos de Kürsch. “And the Story Ends” encerra o trabalho com categoria e as guitarras bem afiadas.

Imaginations from the Other Side traz a banda em seu melhor momento, quando seu estilo único estava se consolidando: um Power Metal repleto de nuances épicas e neoclássicas, e com forte influência do Thrash Metal – particularmente do Metallica. Desta forma, o Power Metal do Blind Guardian quando é pesado, é realmente muito intenso: riffs poderosos, seção rítmica pulsante e vocais rasgados de Hansi Kürsch. Tudo isto leva a sonoridade do conjunto a um patamar diferenciado dentro do estilo. Porém, simultaneamente, há muito espaço para melodias belíssimas por todo o álbum, que podem ser condensadas na belíssima “A Past and Future Secret”, na qual todo o poder da voz de Kürsch é sentido. Aliás, Kürsch, o grande destaque do álbum, utiliza bem mais vocais limpos neste disco, assim como o uso de corais nos refrões passa a ser bem mais frequente – características que se tornariam marcas registradas da banda.

Blind Guardian no encarte do CD: Siepen, Olbrich, Stauch e Kürsch

Embora não tenha repercutido nas paradas de Estados Unido e de Reino Unido, Imaginations from the Other Side fez barulho. Conquistou o 11º, o 13º e o 33º lugares nas paradas de Japão, de Alemanha e de Suíça, respectivamente. Em 2005, Imaginations from the Other Side foi classificado 373º lugar em um livro da revista Rock Hard, Os 500 Maiores Álbuns de Rock & Metal de Todos os Tempos. A Loudwire nomeou o álbum em segundo lugar em sua lista “Top 25 Álbuns de Power Metal de Todos os Tempos” e a Metal Hammer o classificou em terceiro em uma lista semelhante.

Em 1996, aproveitando o sucesso, o grupo lançou a coletânea The Forgotten Tales, um álbum que apresentou uma mistura de covers e novas versões para material original lançado anteriormente. Um novo álbum de inéditas sairia em 1998, com o clássico Nightfall in Middle-Earth.

Contra-capa de Imaginations from the Other Side

Faixas:
1. Imaginations from the Other Side – 7:19
2. I’m Alive – 5:31
3. A Past and Future Secret – 3:48
4. The Script for My Requiem – 6:09
5. Mordred’s Song – 5:29
6. Born in a Mourning Hall – 5:14
7. Bright Eyes – 5:16
8. Another Holy War – 4:32
9. And the Story Ends – 6:00


Cock Sparrer – Shock Troops [1982]

 

Cock Sparrer – Shock Troops [1982]

Ao contrário do pensamento comum, o movimento skinhead não se trata de uma manifestação neonazista. Essa cultura surgiu nos anos 60, entre a classe operária inglesa e era fortemente influenciada pelos Rude Boys da Jamaica, que migraram para a Grã Bretanha na mesma época.  A princípio era apenas um movimento musical, mas inevitavelmente os fatores político-sociais influenciaram e fragmentaram-no em várias subculturas. E foi nesse contexto que surgiu o Street Punk, também conhecido como Oi! E dentro dele apareceram várias bandas, como Cockney Rejects, Sham 69, The 4 Skins e o Cock Sparrer. Numa época em que o verdadeiro Punk Rock já estava em decadência, e toda a suavização da New Wave tomava conta, o Street Punk vindo dos subúrbios de Londres, com seus ideais proletários e encharcado de suor e cerveja, buscava resgatar o punk mais primitivo, rasgado, bruto.

O Cock Sparrer, com influências de Glam e Pub Rock, já tinha dez anos de estrada quando lançou sua obra prima, Shock Troops, em 1982. Com uma sonoridade extremamente simples, carregada de melodias grudentas, refrões de fácil memorização e recheado de sing alongs, é um disco tão contagiante que nem se percebe quando chega ao fim. O vocal rouco e o carregado sotaque britânico de Colin McFaull são características bastante marcantes no som do grupo.

O Street Punk Tinha forte vínculo com o futebol, a bebedeira, virilidade e vida trabalhadora e isso transparece em todas as músicas do disco, que abre com “Where Are They Now” e seu riff extremamente “catchy”, contestando a primeira geração do punk, que conquistou milhares de seguidores e sumiu deixando muitos órfãos (“Where are they/six years on and they’ve all gone/Now it’s all turned/ so Where are they now”). A segunda faixa é “Riot Squad”, uma ode à violência que representa todo o repúdio às autoridades. Na sequência vem “Working”, um hino proletário, com destaque para o simples e bonito solo de guitarra.

“Take’em All”, é mais uma canção agressiva, que critica os executivos de gravadoras, supostamente americanos (“Well tough shit boys, it aint our fault/Your record didn’t make it/We made you dance, you had your chance/But you didn’t take it/Well, I gotta go make another deal/Sign another group for the company/I don’t suppose we’ll ever meet againYou’d better get back to the factory.”). Obrigatória nos shows, e com o coro “Take’em All! Take’em All!” berrado em coro pelos fãs, foi até utilizada como grito de guerra de algumas torcidas de futebol.

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Em “We’re Coming Back”, o Sparrer presta uma homenagem ao companheirismo e amizade entre os integrants, com uma melodia extremamente contagiante, e o refrão (“So remember, out there somewhere/You’ve got a friend, and you’ll never walk alone again”). Talvez o hino de amizade mais simples e honesto já escrito.

Depois temos “Watch Your Back”, uma das letras mais polêmicas e interessantes da banda, que prega contra os supostos líderes politicos que se aproveitam da classe trabalhadora para ascender a algum cargo importante e depois “esquecem” de como chegaram lá (“Things get worse with every hour/the future fades into the past/all they want is total power/climbing on the back of the working class).

Em seguida vem “I Got Your Number”, uma crítica generalizada à imprensa, e seus valores e parcialidade (“It can’t be right what I’m reading here/No one believes in all this stuff no more/Our ideas don’t see eye to eye/You get your press with a pocketfull of lies/Telling everybody every word is true/One day soon they’re gonna see through you”). Assim como a maioria das faixas do disco, “I Got Your Number” possui um refrão grudento, e impossível  de não ficar cantarolando por um bom tempo depois de ouvi-lo.

Passamos pelas menos notáveis e “Secret Army” e “Droogs Don’t Run”, e Shock Troops encerra com a canção anti-militar “Out On An Island”, em ritmo de marcha, que traduz todo o repúdio da juventude pelo autoritarismo e disciplina das forças armadas, (“Everybody gets the training, in the wind and the rain/Ten miles cross country, driving you insane/Everybody gets to jump the hoop and march in time/You just gotta remember you gotta toe the line/So dont go looking over your shoulder for me”).

O Cock Sparrer teve pouca repercussão, mesmo com vários anos de carreira, e nunca chegou a ser celebrado por crítica ou grande parte do público, apesar de ter um grupo de fãs bastante fiéis e só lançar outros excelentes discos, e Shock Troops trata-se de uma obra simples, mas feita com muita garra e qualidade, essencial para se conhecer um pouco mais sobre a cultura streetpunk e skinhead, e acabar com aquele estereótipo de jovens carecas neo-nazistas e anti-semitas. Tive a felicidade de poder ver o primeiro show dos ingleses no Brasil, em 2012, um dos momentos mais marcantes da minha vida  e as canções do álbum em questão estiveram em peso no setlist da noite, com o público entoando todas em uníssono. Trilha sonora perfeita para um dia de futebol em um bar lotado com os amigos, para cantar com o copo de cerveja lá no alto. OI! OI! OI!

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Track list (versão original)

  1. Where Are They Now
  2. Riot Squad
  3. Working
  4. Take ‘em All
  5. We’re Coming Back
  6. Watch Your Back
  7. I Got Your Number
  8. Secret Army
  9. Droogs Don’t Run
  10. Out on an Island




Otis Redding - "Live in Europe" (1967)


"Ele parecia um cavalo de raça
esperando pelo sinal para correr (...)
Quando o show anterior acabou,
Otis entrou por trás do palco,
agarrou o microfone e começou a andar
de uma ponta a outra do palco.
Eu não acreditei no que estava acontecendo:
uma energia que eu nuca tinha visto antes."
Al Bell,
produtor musical
e executivo da Stax



Um dos ao vivo mais eletrizantes que eu já ouvi na minha vida. Energia pura. A gente sente, ouvindo, que uma espécie de êxtase delírio, catarse paira no ar nas apresentações de Otis Redding que fazem parte do disco "Live in Europe" (1967) que apanha fragmentos preciosos dos shows realizados em Paris, na turnê coletiva de artistas da gravadora Stax pela Europa.
Com apresentações curtas por causa do número de artistas que a gravadora levara para as apresentações no Velho Mundo, Otis Redding já tinha que chegar com o pé na porta mostrando que não vinha para brincadeira e por isso mesmo o soulman já saía largando a esfuziante "Respect", cuja interpretação mais marcante, provavelmente, seja a de Aretha Franklin, mas a dele, o autor, não menos clássica, mostra-se, espacialmente ao vivo, tão grandiosa quanto. O povo já ia ao delírio logo de cara.
Sem deixar cair a bola, o disco traz na sequência a vibrante "I Can't Turn You Loose", baixando a rotação logo em seguida com "My Girl", clássico dos Temptations carregada nas doses certas de romantismo, doçura, sensualidade e pungência; e com a dolorida balada "I've Loving You too Long" conquistando ainda mais o público francês.
"Shake", de Sam Cooke, ganhava uma versão de andamento acelerada e muita intensa em que o cantor chegava a rasgar o vocal em alguns momentos, mandando ver e quebrando tudo, acompanhado de sua competentíssima e não menos endiabrada banda.
O clássico riff rasgado de guitarra de Keith Richards, de "(I Can't Get No) Satisfaction" dos Rolling Stones, dava lugar a uma introdução vibrante de baixo, que sucedida por um naipe de metais empolgante, culminaria numa interpretação surpreendente e memorável de Redding, numa daquelas covers que a gente chega a pensar se não chega a ser melhor que a original.
"Fa-Fa-Fa-Fa-Fa" , um soul típico bem característico, tem a participação bacana do público no refrão e "These Arms of Mine" outra balada chorosa, esta com toques gospel, encaminha os momentos finis do álbum.
Assim como fizera com os Stones, Otis dava então a um clássico dos Beatles uma releitura interessantíssima. "Day Tripper" nas mãos do soulman e sua banda ganhava um andamento mais acelerado, um vocal mais ensandecido e uma metaleira marcante.
Final tradicional em todos os shows da turnê europeia, "Try A Little Tenderness", envenenada, frenética, alucinada, em uma interpretação pulsante e atuação de palco memorável enlouquecia definitivamente o Olympia de Paris. Em uma performance histérica na qual a banda terminava a música várias vezes para que o cantor a trouxesse de volta retomando-a ainda mais insanamente, não era difícil perceber ao fundo o público vindo abaixo. Êxtase, num final de espetáculo de deixar qualquer um paralisado, catatônico, incrédulo!
Otis Redding apresentaria-se ainda em  junho daquele mesmo 1967 no festival de Monterey onde teria sua consagração definitiva, infelizmente, por pouco tempo, uma vez que sua carreira e sua vida seriam tragicamente interrompidas por um desastre aéreo ainda no final daquele mesmo ano. Até por isso, "Live in Europe" ganha um papel mais importante dentro da discografia do artista, a de mostrar a qualidade, a performance, o brilhantismo, o carisma e a intensidade de Otis Redding em cima do palco, neste que foi o único registro ao vivo em álbum de sua carreira.
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FAIXAS:
1. Respect 3:43
2. Can't Turn You Loose 3:29
3. I've Been Loving You Too Long (To Stop Now) 4:08
4. My Girl 2:43
5. Shake 2:56
6. (I Can't Get No) Satisfaction 3:01
7. Fa-Fa-Fa-Fa-Fa (Sad Song) 4:04
8. These Arms Of Mine 3:47
9. Day Tripper 3:06
10. Try A Little Tenderness 5:07

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Ouça:
Otis Redding Live in Paris Full Concert



Ornette Coleman – “The Shape of Jazz to Come” (1959)


"Ornette é um dos meus astronautas favoritos"
Wayne Shorter


“’Kind of Blue’ era um álbum bonito, delicado,
mas não lembro de ele ter realmente
virado minha cabeça na época.
 Então, quando Ornette surgiu,
 ele de fato soava como se
 pertencesse a uma outra era, 
a um outro planeta.
A novidade estava ali”.
Joe Zawinul



Chego ao meu 50° ÁLBUM FUNDAMENTAL por um motivo especial. Embora todos os discos sobre os quais escrevi sejam caros a mim, quando percebi que chegava a essa marca não queria que fosse apenas mais um texto. Tinha que ser por um motivo especial. Escreveria sobre os artistas brasileiros a quem ainda não resenhei: Chico BuarqueEdu LoboMilton NascimentoPaulinho da Viola? Ou das minhas queridas bandas britânicas, como The CureThe SmithsCocteau TwinsEcho and The Bunnymen? De algum dos gênios da soul, Gil Scott-Heron, Otis Reding, Curtis Mayfield, que tanto admiro? Do para mim formativo punk rock (Stranglers, Ratos de Porão, New York Dolls)? Obras consagradas de um Stravinsky ou alguma sinfonia de Beethoven? Outro de John Coltrane ou Miles Davis? Nenhum desses, no entanto, me pegava em cheio. A resposta me veio no último dia 11 de junho, quando o saxofonista norte-americano Ornette Coleman deu adeus a esse planeta. Aos 85 anos, Coleman morreu deixando não apenas o mérito da criação do free-jazz como uma das mais revolucionárias obras do jazz. A cristalização da proposta de inovação musical – e espiritual – de Coleman veio pronta já em seu primeiro disco, o memorável “The Shape of Jazz to Come”.

Gravado no mesmo ano de 1959 que pelo menos outros dois colossos do jazz moderno – "Kind of Blue", de Miles, arcabouço do jazz modal (agosto), e “Giant Steps”, de Coltrane, a cria mais madura do hard-bop (dezembro) –, “The Shape...”, vindo ao mundo a 22 de maio, não aponta para o lado de nenhum deles. Pelo contrário: engendra uma nova direção para a linha evolutiva do estilo. Nascido no Texas, em 1930, Coleman era daquelas mentes geniais que não conseguiam pensar “dentro da caixa”. No início dos anos 50, já em Nova York, nas contribuições que tivera na banda de seu mestre, o pistonista Don Cherry, ele, saudavelmente incapaz de seguir as progressões harmônicas do be-bop, já demonstrava um estilo livre de improvisar não sobre uma base em sequências de acordes, mas em fragmentos melódicos, tirando do seu sopro microtons e notas dissonantes, arremessadas contra às dos outros instrumentos, contra si próprias. Fúria e espírito. Carne e alma.

Seu processo era tão complexo que, exorcizando clichês, atinge um patamar até psicanalítico de livre associação e reconstrução do inconsciente coletivo, o que levou um dos pioneiros do cool jazz, John Lewis, a dizer: “Percebi que Coleman cunhou um novo tipo de música, mais semelhante ao ‘fluxo de consciência’ de James Joyce do que o entretenimento operado por Louis Armstrong com sua variação sobre uma melodia familiar”. Se na literatura este é seu melhor comparativo, faz sentido colocá-lo em igualdade também a um Pollock nas artes plásticas ou um Luis Buñuel no cinema. Na música, remete, claro, a Charlie Parker e Dizzie Gillespie, mas tanto quanto a compositores atonais da avant-garde como John Cage e György Ligeti.

Em “The Shape...”, a desconstrução conceitual já se dá na formação da banda. Traz o desconcertante sax alto de Coleman, a bateria ensandecida de Billy Higgins, o duplo baixo de outro craque, Charlie Haden (de apenas 22 anos à época), e o privilégio de se ter o próprio Cherry, com sua mágica e não menos desafiadora corneta. Nada de piano! Tal proposta, tão subversiva da timbrística natural do jazz a que Coleman convida o ouvinte a apreciar, assombra de pronto. “Lonely Woman”, faixa que abre o disco, é uma balada fúnebre e intempestiva. O free jazz, consolidado por Coleman um ano depois no LP que trazia o nome do novo estilo, dá seus primeiros acordes nesse brilhante tema. Dissonâncias na própria estrutura melódica, compasso discordante da bateria e um baixo inebriado que parece buscar um plano etéreo, longe dali. Algo já estava fora da ordem, anunciava-se. Coleman e Cherry, pupilo e mestre, equiparados e expondo uma nova construção composicional aberta, incerta, em que a música se cria no momento, numa exploração dramática conjunta.

Na revolução do free jazz, cada membro é tão solista quanto o outro. “Eventually”, um blues vanguardista em alta velocidade, e “Peace”, com seus 9 minutos de puro improviso solto, sem as amarras do encadeamento tradicional, são mostras disso. Cada músico está ligado ao outro primeiramente pelo estado de espírito, não apenas pela habilidade técnica. E eles perdem o apelo momentâneo? Jamais, apenas o centro melódico é outro. Os riffs e o tom estão lá como os do be-bop; a elegância do blues trazida do swing também. Mas o conceito e a dinâmica aplicados por Coleman e seu grupo fazem com que se desviem das formas tradicionais a as diluam, direcionando a uma tonalidade expandida como praticaram Debussy, Messiaen e Stravinsky.

Nessa linha, "Focus on Sanity" se lança no ar inquieta, mas logo freia para entrar o maravilhoso baixo de Haden, suingando, serenando-a. Não por muito tempo: por volta dos 2 minutos e meio, Coleman irrompe e o grupo retorna em ritmo acelerado para seu novo solo da mais alta habilidade de fúria lírica. O mesmo faz Cherry, que entra raspando com o pistão e forçando que o compasso reduza-se novamente. “Foco” e “sanidade”, literalmente. A inconstância desse número dá lugar ao blues ligeiro "Congeniality". Mais “comportada” das faixas, traz, entretanto, a fluência do quarteto dentro de um arranjo em que se prescinde da referência harmônica das cordas – o piano. Pode parecer um be-bop comum, mas, ditado pela intuição e não pelo arranjo pré-estabelecido (tom, escala, variação), definitivamente não é. Fechando o álbum, “Chronology” mais uma vez ataca na desconstrução da progressão acorde/escala. As explosões emocionais súbitas de Coleman e seu modo atritado e carregado de tocar estão inteiros neste tema.

Wayne Shorter, Anthony Braxton, Eric Dolphy, Albert Ayler, Pharoah Sanders e o próprio Coltrane, mesmo anterior a Coleman, não seriam os mesmos depois de “The Shape...”. O fusion e o pós-jazz nem existiriam. Coleman influenciou não apenas jazzistas posteriores como, para além disso, roqueiros do naipe de Jimi HendrixDon Van VlietFrank Zappa e Roky Erickson. Ele seguiu aprofundando esse alcance em vários momentos de sua trajetória. No ano seguinte ao de sua estreia, emenda uma trinca de discos, começando pelo já referido “Free Jazz” (dezembro) mais “Change of the Century” (outubro) e “This Is Our Music” (agosto). Em 1971, surpreende novamente com a sinfonia cageana “Skies of America”, para orquestra e saxofone. No meio da década de 70, ainda, adere ao fusion, quando lança o funk-rock “Body Meta” (1976), recriando-se com uma música dançante e suingada.

Além disso, Coleman teve a coragem de legar ao jazz um sobgênero, o que, juntamente com o contemporâneo “Kind of Blue”, referência inicial do jazz modal, ajudou a desafiar conceitos e padrões estabelecidos. O jornalista e escritor Ashley Kuhn, em “Kind of Blue: a história da obra de Miles Davis”, recorda a receptividade de “The Shape...” à época entre músicos e críticos, os quais vários deles (como um dos pioneiros do fusion, o pianista Joe Zawinul), colocavam os dois discos em polos opostos: free jazz versus modal. No entanto, como ressalta Kuhn: “No fim das contas, Coleman e Davis parecem mais filosoficamente compatíveis do que musicalmente opostos: ambos dedicaram suas carreiras a reescrever as regras do jazz”.

Desde que meu amigo Daniel Deiro, que mora em Nova York, disse-me anos atrás tê-lo assistido em um bar da Greenwich Village, fiquei esperançoso de também vê-lo no palco um dia. Não deu. O astronauta do jazz, capaz de fazer quem o ouve também flutuar sem gravidade, deixa como suficiente consolo uma obra gigantesca e densa a ser decifrada, sorvida, descoberta. Como a de um Joyce, Pollock ou Buñuel. Se a função do astronauta é desbravar o espaço, Ornette Coleman cumpriu o mesmo papel através da arte musical, que ele tão bem soube explorar em sua dinâmica atômica e imaterial através da propagação dos sons no ar, na atmosfera. E o fez de forma livre, como bem merece um free jazz. Agora, então, foi ele que se libertou para poder voar sobre outros planetas igual à sua própria música.

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FAIXAS:
1. "Lonely Woman" - 4:59
2. "Eventually" - 4:20
3. "Peace" - 9:04
5. "Focus on Sanity" - 6:50
5. "Congeniality" -  6:41
6. "Chronology" - 6:05



Ornette Coleman – “Free Jazz - A Collective Imprevisation by the Ornette Coleman Double Quartet” (1961)


“Quero expressar meus sentimentos em vez de ilustrá-los. Todo bom artista pinta o que é.“

Dois takes. Puro improviso. Mas muito mais do que isso. Há 50 anos, o compositor de jazz (e de qualquer outro gênero intergaláctico que se queira classificar) norte-americano Ornette Coleman mudava os paradigmas do jazz e da música. E pela segunda vez. E em apenas um ano! “Free Jazz - A Collective Imprevisation by the Ornette Coleman Double Quartet”, ou simplesmente "Free Jazz", o livre e coletivo improviso produzido por ele e seus súditos, tinha na banda músicos que o acompanhavam desde o primeiro sinal desta revolução: “The Shape of Jazz to Come”, de 1959. Ali, Coleman já propunha uma revisão do blues através da reelaboração do tempo e do tom em harmonias imprevisíveis e pouco usuais, algo que apontava para outro extremo daquilo que Miles Davis trazia naquele mesmo último ano dos 50 com o jazz modal de “Kind of Blue”. Coleman provava que cabia, sim, novos olhares (e ouvidos) para o jazz, menos ilustrativos e muito mais subjetivos.

Porém, em “Free Jazz”, ia além. Afora o trompetista Don Cherry, o baterista Billy Higgins e o baixista Charlie Haden, Coleman subvertia os preceitos de toda a tradição do jazz e dobrava todos os instrumentos, mas de forma orgânica, visceral. Afinal, colocava junto a este time também Freddie Hubbard, no outro trompete; Eric Dolphy no clarinete baixo; e Scott LaFaro no segundo contrabaixo; além de Ed Blackwell, que intercala a bateria com Higgins. Nunca ninguém havia entrado em um estúdio para performar daquela maneira, nem na "música aleatória" de Cage, nem nos dodecafônicos, nem o mais radical dos dadaístas.

Lançado quase um ano depois de sua gravação pelo selo Atlantic, “Free Jazz” traz uma experiência sem igual até então. Intensa e delimitadora, numa simbiose total entre criador e criatura. Coleman, que começou como autodidata no saxofone alto aos 14 anos, vinha de um tempo em busca dessa abordagem própria que os ditos “não eruditos” têm. Depois das primeiras experiências de apresentação com bandas de rhythm-and-blues na sua cidade-natal, Forth Worth, no Texas, estabeleceu-se em Los Angeles no início dos anos 50 e concentrou nessa arqueologia sonora diferente. Era um meio de escapar dos padrões e progressões de acordes tradicionais do be-bop, o que levou músicos e críticos a lhe rejeitaram, alguns até sugerindo que ele não soubesse tocar seu instrumento. 

Genialidade irrefreável: Coleman revolucionava
o jazz e a música há 60 anos
Mas o gênio Coleman era irrefreável. Tanto foi, que ele seguiu em frente até encontrar a sua turma. Eles também entraram na onda de perscrutar o que o jazz ainda não havia explorado, fronteiras que os levaram a aproximarem-se da vanguarda e do atonalismo. O certo é que compraram a ideia das “harmonias melódicas” de Coleman, em que um elemento não prescinde do outro e se interdependem. Horizontes inexistem a um “astronauta da música”, como classificou Wayne Shorter a Coleman. Pronto: depois do swing, do be-bop e do cool, vinha uma nova forma de enxergar e entender o jazz. Uma nova tábua começava a ser escrita. E agora com total liberdade.

Essa caminhada em direção ao espaço infinito se reflete em “Free Jazz”. Como os traços de “White Light”, a linda pintura a óleo do expressionista norte-americano Jackson Pollack, que ilustra a capa do disco, o que está dentro é dotado de igual abstração. O próprio método de concepção lembra em certo aspecto o ritual caótico de produção de uma tela do artista visual símbolo de uma geração: dois quartetos tocando isolados um em cada um dos dois canais do estúdio. Isto permitia que se produzissem passagens extraordinárias de improvisação coletiva de todos os oito músicos sem que um quarteto influísse na “liberdade” do outro. 

Assim como em raros momentos na história da Arte, a música incorpora tanto o espírito de seu tempo que acaba por confundir-se com outras formas de manifestação artística. Foi assim no século XVIII na Europa quando da literatura ao teatro, passando pela poesia, pintura, escultura e, claro, a música, beberam do Romantismo para forjar os novos padrões da arte ocidental. Os quase 40 minutos de total transgressão dos padrões tornaram-se instantaneamente também  um dos mais controversos do artista e do gênero. Muitos, seja por ignorância ou inveja, torceram-lhe o nariz. Caso de Miles e Roy Eldridge. Entretanto, houve também os entusiastas que não se intimidaram diante de tanta provocação, como a Modern Jazz Quartet, Leonard Bernstein e Lionel Hampton. No entanto, amando ou odiando, o fato é que em “Free Jazz”, Ornette engendra uma nova visão para o jazz e para a música do século XX, no mesmo peso do que Schöenberg, StravisnkyCharlie Parker ou Beatles promoveriam. Tanto que, além de redefinir os conceitos de avant-garde, como poucas obras na história da música virou mais do que um título, mas a representação de um gênero. E isso não diz pouco.

Dispersão, ordem, fúria, corrosão, poesia, figuração, expansão, anarquia, traços, paixão, introspecção... Inúmeros adjetivos podem ser usados para adjetivar “Free Jazz”. Mas nenhum consegue classificá-lo. Melhor mesmo é ouvi-lo. Afinal, cinco décadas depois de ser concebida, a obra máxima de Ornette Coleman segue desafiadora mas apaixonante. Mais dois adjetivos totalmente ineficientes diante de tamanha elevação. Afinal, só mesmo quem passeia por outros planetas para saber pintar a si mesmo.

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FAIXAS:
1. “Free Jazz” (Part 1) - 19:55
2. “Free Jazz” (Part 2) - 16:28
Todas as composições de autoria de Ornette Coleman




Novos Baianos - "Novos Baianos F.C." (1973)

 

“Eles se achavam na época
melhores jogadores de futebol
do que músicos.” 
Solano Ribeiro



Quem me conhece sabe que a minha banda brasileira favorita veio da Bahia não é o Camisa de Vênus. Claro que são os Novos Baianos. E toda vez que alguém fala neles, pensa direto em "Acabou Chorare", um verdadeiro... clássico da MPB de todos os tempos. Adoro este disco. Mas o meu favorito deles é outro: “Novos Baianos F.C.”, terceiro disco da trupe, lançado um ano depois do “Acabou...”. Pensem bem: depois de fazer um disco como aquele, como seguir em frente? Pois Pepeu, Baby, Paulinho e Moraes e sua gangue resolveram fazer um LP falando das coisas que faziam parte da sua vida cotidiana naquele sítio em Jacarepaguá onde viviam em total harmonia (mais ou menos, né? como ficou claro no filme "Filhos de João - O Admirável Mundo Novo Baiano", de Henrique Dantas).

A brincadeira começa com “Sorrir e Cantar Como Bahia”, música de Luiz Galvão e Moraes Moreira que faz um jogo de palavras com a gravidez de Baby Consuelo e a maternidade do planeta: “Mãe pode ser e ter bebê/ E até pode ser Baby também”. Ela estava permanentemente grávida de Riroca, Zabelê e Nana Shara, suas três meninas que se tornariam o trio SNZ. O futebol do título está presente em “Só Se Não For Brasileiro Nessa Hora”. Como cronista do cotidiano, Galvão consegue mostrar exatamente o que acontecia nas ruas do Brasil, até bem pouco tempo, o joguinho de bola na calçada: “Que a vida que há do menino atrás da bola/ para carro, para tudo/ quando já não há tempo/ para apito, para grito/ E o menino deixa a vida pela bola/ Só se não for brasileiro nessa hora”. O lado nonsense de Galvão, o letrista da banda, aparece em “Cosmos e Damião”, uma verdadeira viagem onomatopaica na voz de Paulinho Boca de Cantor. Olhem que maluquice: “Qui qui qui qui qui não é qui qui qui/ Que bom é bom demais pra ser aqui/ Onde um faz hum e outro hum hum/ Mas que bom, todos hum!/ Como um dia, não ria ?/ Sorria como nós...um dia como esse de Cosmos e Damião/ você pode até dançar com Damião/ Mas quem contrariar a lei do Cosmos/ não vai pagar/ já paga ao contrariar”. Doideira total emoldurada pelas guitarras, bandolins e violões de Pepeu e Moraes, o baixo de Dadi, Jorginho Gomes na bateria mais Paulinho, Baby, Baixinho e Bola nas percussões. Eles fazem a gente cantar estes versos enlouquecidos.

Uma das influências mais marcantes do grupo,  Dorival Caymmi, é reinterpretado e rearranjado em “O Samba da Minha Terra”. Uma mistura de MPB com Jimmi Hendrix, a versão deles valoriza o verso: “Quem não gosta de samba/ Bom sujeito não é/ É ruim da cabeça ou doente do pé”. Esse sim é o verdadeiro roque brasileiro, onde as guitarras convivem harmonicamente com a percussão e não copiam ninguém. Ao ouvir os discos dos Novos Baianos – e esse, em particular –, fico imaginando porque grande parte da gurizada se deixa seduzir pelo “rock brasileiro” dos anos 80. Todas as bandas daquela fase são inspiradas em algum grupo inglês do período. Poderia também dizer copiadas. Enquanto isso, os NB usaram a incrível e inesgotável matriz de ritmos nativos para fazer uma música criativa e inteligente. “Vagabundo não é Fácil” é outro exemplo das letras maluquetes de Galvão numa cama de samba com um surdo bem marcado: “Se eu não tivesse com afta/ até faria uma serenata pra ela/ Que veio cair de morar/ Em cima de minha janela”. Lá pelas tantas, rola uma rima de “Bicarbonato de sódi”o com “pessoas sem ódio”. Hilário! E no final, mais um jogo de palavras: “Ao menos leve uma certeza/ Você me deixa doído/ Mas só não me deixará doido/ Porque isso sou/ Isso eu já sou”. Na sequência, outro sambão daqueles de sair cantando pela rua: “Com Qualquer Dois Mil Réis”. Na voz de Paulinho Boca de Cantor, a música brinca com a figura do malandro carioca: ”E o malandro aqui/ Com Qualquer Dois Mil Réis/ Põe em cima uma sandália de responsa e essa camisa/ de malandro brasileiro/ que me quebra o maior galho”. E o refrão é chicletaço musical: “E esse ano não vai ser/ Igual aquele que passou/ oh oh oh oh oh que passou”.

Depois deste samba balançado, vem a faixa mais “roquenrou” de todo o disco, “Os Pingo da Chuva”, que Baby Consuelo se encarrega de dar aquele molho. Preste a atenção nos comentários da guitarra de Pepeu durante toda a canção, enquanto Baby canta este história pro seu namorado – não por acaso, ele, Pepeu, na época –, dizendo que ele não deve se preocupar com o céu que está “preto e as nuvens que até as sombras assombram”. Ela sabe que “Você tem seus argumentos de querer/ o sol pra bater sua bola/ E a lua pra ver sua mina/ ou só pra ir ali na esquina...Faça como eu que vou como estou/ porque só o que pode acontecer/ É os pingo da chuva me molhar”. E esse rock vira um baião elétrico no final. É aí que eu me refiro. Com tantas possibilidades rítmicas e melódicas, os roqueiros dos anos 80 se contentavam em copiar The SmithsThe Cure, The Police, entre outros. Que desperdício! “Quando Você Chegar” é uma bossa a lá João Gilberto onde Moraes fala de um filho que está chegando e que, aparentemente, iria chamar de Pedro. Os planos devem ter mudado, pois este filho é o guitarrista Davi Moraes, que veio a Porto Alegre em 2013 com ele para um show em homenagem aos 40 anos de “Acabou...”. Lá pelas tantas, esta bossa vira um samba. E a letra é tão boa que vai inteira: “Quando você chegar/ é mesmo que eu estar vendo você/ Sempre brincando de velho/ me chamando de Pedro/ me querendo menino que viu de relance/ Talvez um sorriso em homenagem à Pedro/ Pedro do mundo dum bom dum bom dum bom.../ Fique quieto que tudo sana/ Que a língua portuguesa, a língua da luz/ A lusitana fez de você o primeiro guri/ Meu guri, meu gurizinho/ Água mole em pedra dura, pedra pedra até que Pedro”.

Pra encerrar “Novos Baianos F.C”, duas faixas sem letra. Desde "Acabou Chorare" existia, dentro dos Novos Baianos, o grupo instrumental A Cor do Som, formado por Pepeu, Dadi, Jorginho e os percussionistas. As duas últimas músicas são dedicadas a este embrião de trabalho que iria desembocar no grupo de mesmo nome que gravaria seu primeiro disco em 1977. Na formação de estreia, só Dadi permaneceria, tendo ao seu lado o irmão Mu mais Armandinho e Gustavo. “Alimente” e “Dagmar” são dois exemplos do que seria desenvolvido pela Cor e por Pepeu em seu primeiro trabalho solo, “Geração de Som”, em 1978. Choro, samba, rock, tudo misturado e embalado pra presente. Uma delícia de disco que muita gente não conhece. Em 1978, os Novos Baianos gravam seu último disco, “Farol da Barra”, outro trabalho incrível. E decolam as carreiras solo de Pepeu, Baby, Dadi na Cor do Som. Mas isso, como sempre, é outra história.


vídeo de "Só Se Não For Brasileiro Nessa Hora" - Novos Baianos


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FAIXAS:
1. "Sorrir e cantar como Bahia" (Luiz Galvão/Moraes Moreira) – 3:37
2. "Só se não for Brasileiro Nessa Hora" (Galvão/Moraes) – 3:28
3. "Cosmos e Damião" (Galvão/Moraes) – 4:07
4. "O Samba da minha Terra" (Dorival Caymmi) – 3:29
5. "Vagabundo não é Fácil" (Galvão/Moraes) – 5:06
6. "Com qualquer Dois Mil Réis" (Galvão/Moraes/Pepeu Gomes) – 3:26
7. "Os Pingo da Chuva" (Galvão/Moraes/Pepeu) – 4:10
8. "Quando você Chegar" (Galvão/Moraes) – 3:19
9. "Alimente" (Jorginho Gomes/ Paulinho Gomes) – 4:44
10. "Dagmar" (Moraes) – 2:31


Nirvana - "Nevermind" (1991)

 

"Eu me odeio e quero morrer."
Kurt Cobain




Já nasceu clássico!
Num vazio de sonoridade, atitude, ídolos e identidade, "Nevermind" aparecia como uma luz, como uma perspectiva em meio a um universo rock perdido e inexpressivo.
"Smells Like Teen Spirit" era o novo grito de uma geração. Com sua letra aprentemente desconexa e alienada, era na verdade praticamente uma súplica de "nos dêem alguma coisa". Era um libelo, ao mesmo tempo que um reflexo de uma juventude vazia.
Kurt Cobain era a personificação daquele momento; mas mais precisamente, de tudo CONTRA aquele momento: perturbado, agressivo, inconformado, sarcástico, triste... Suas letras transpareciam isso. Sua fúria mostrava isso. E sua morte prematura comprovou que tudo aquilo não era só mise-en-scène como muitos rockstars fazem por aí.
Mas voltando ao álbum, além do clássico "Smells Like Teen Spirit", responsável pelo estouro e ascensão da banda, apresenta-nos músicas intensas como "Come as You Are", o foguete destruídor chamado "Territorial Pissings", os gritos de fúria de "Breed" e "Lithium" ou uma balada acústica dorida e melancólica como "Something in the Way" que fecha o disco.
Tem mais: a grande "In Bloom", a ótima "Polly; outra pedrada: "Stay Away", e por aí vai...
Um discaço!
Uma porrada!
Um verdadeiro tiro na cabeça!
O Nirvana viria a confirmar que este baita disco não fora exceção ou obra do acaso com o ótimo "In Utero" lançado depois em 1993, mas foi "Nevermind", efetivamente, que depois de muito tempo sem álbuns significativos na história do rock, conseguiu tornar-se um daqueles que se pode chamar FUNDAMENTAL.
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FAIXAS:
  1. "Smells Like Teen Spirit" - 5:01
  2. "In Bloom" - 4:14
  3. "Come as You Are" - 3:39
  4. "Breed" - 3:03
  5. "Lithium" - 4:16
  6. "Polly" - 2:56
  7. "Territorial Pissings" - 2:23
  8. "Drain You" - 3:43
  9. "Lounge Act" - 2:36
  10. "Stay Away" - 3:32
  11. "On a Plain" - 3:16
  12. "Something In The Way" - 3:50



Destaque

Grandes canções: Van Morrison - "The Way Young Lovers Do" (1968)

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