sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Saudades - 1979 - Naná Vasconcelos

 


2 - Vozes (Saudade)
Naná Vasconcelos 
3 - Ondas (Na óhlos de Petronila)
Naná Vasconcelos 
Egberto Gismonti
5 - Dado
Naná Vasconcelos
 
Músicos

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Quarto álbum de Naná Vasconcelos, nesse registro figura o mestre da percussão solando majestosamente com o seu berimbau, a percussão fina e vocais intrincados ao lado de orquestra e de Gismonti. 




Infância - 1990 - Egberto Gismonti

 



02 - 7 anéis
03 - Meninas
04 - Infância

Músicos 

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Esse disco é marcado por ideias da infância, é quase um álbum de memórias das sensações, das euforias, dos medos e das descobertas, embalado por um conjunto com notórios e competentes músicos.




Quando a sorte te solta um cisne na noite - 1982 - Marco Antônio Araújo

 

1 - Floydiana
Marco Antônio Araújo
2 - Alegria
Marco Antônio Araújo
3 - Adágio
Marco Antônio Araújo
4 - Quando a sorte te solta um cisne na noite
Marco Antônio Araújo
5 - Pop music
Marco Antônio Araújo

Faixas da Edição em CD
6 - Ilustrações
Marco Antônio Araújo
7 - Cavaleiro - Trilha do Balé Cantares
Marco Antônio Araújo
8 - Sonata para Cello e Violão
Marco Antônio Araújo
 
Músicos
Marco Antônio Araújo - Mário Castelo - Ivan Corrêa - Alexandre Araújo - Antônio Maria Pompeu Viola - Max Magalhães - Eduardo Delgado - Oiliam Lana

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Esse é o segundo álbum de Marco Antônio Araújo. Obviamente, as referências à banda Pink Floyd são literais em algumas faixas. Mas não é algo que diminua a produção desse grande músico, falecido tão precocemente. O diálogo entre o rock progressivo e a música erudita com sotaque mineiro garante a marca de originalidade de Araújo. Essa postagem contém as faixas do LP (com a ordem original), além dos bônus da edição em CD. Conforme atesta Paulo Roberto de Andrade, autor da biografia “Marco Antônio Araújo – Entre a música e o silêncio”, lançada em agosto de 2023, ainda há muitas peças inéditas, em número suficiente para três álbuns. Oxalá, em breve, sejam disponibilizadas para a nossa alegria.




Bernardo Barata – Turista! (2015)

 


Toda a gente conhece o Bernardo Barata baixista, o groove de Diabo na Cruz, Oioai, Real Combo Lisbonense e Feromona. O que pouca gente sabe é que por detrás deste discreto sideman existe um original autor de melodias, urdindo na penumbra – qual Marcelo Rebelo de Sousa da pop – as grandes canções que agora nos mostra.

Desengane-se quem lhes venha à cabeça temas com três acordes e orelhas demasiado grandes. É outro o trilho que Bernardo percorre, com aquelas harmonias complexas e invulgares de quem já enfiou muito vinil do Sérgio Godinho e do José Mário Branco no bucho.

Talvez por timidez de iniciado, a maior parte das letras não são suas, mas o apurado gosto dos seus convivas apenas engrandece o disco. Metade delas foi escrita por Joana Barra Vaz, escriba tão sofisticada que nunca sabemos muito bem onde acaba a letra pop e começa a poesia; a outra metade foi gentilmente roubada a poetas consagrados como Boris Vian, Sophia de Mello Breyner, Oioai e Os Pontos Negros. Aliás, se há adjectivo que define como nenhum outro Turista! é justamente “literário”, tal é o amor com que Bernardo trata cada uma das mil quinhentas e sessenta e sete palavras que canta (mais do que as que há na discografia completa dos Ramones), todas escolhidas com o carinho e o rigor de quem sentiu antes na mão o peso exacto de cada uma.

A letra é sempre o seu ponto de partida, o novelo de lã emaranhado onde tudo começa. Depois, Bernardo vai desenrolando, com paciência e desenvoltura, o fio de melodia que encontra latente nas palavras-mãe. Em seguida, encontra-lhes uma atmosfera, o tom emocional que a canção respira. Em “Já Não Dá”, para dar apenas um exemplo, Bernardo descobre desespero, e através do seu soberbo arranjo, cheio de pesados e dolorosos silêncios, dá uma dimensão épica, quase apocalíptica, à canção. Não é segredo para ninguém que a poesia e a música são artes irmãs mas poucos são os que como Bernardo Barata levam tão longe este incestuoso matrimónio.

Sendo tão diversas as fontes literárias de que faz serventia, seria de esperar alguma dispersão de conjunto. Ora, não é isso que acontece, existindo uma surpreendente unidade – de tom e de conteúdo – em todo o disco. São os temas da alienação, da incomunicabilidade, da angústia, do desejo de evasão, que espreitam a cada canto, num registo desencantado que apenas admite fugaz escape na ilusão da arte e do amor. Que um disco tão denso e amargo se chame Turista! é uma das suas mais deliciosas ironias.

Tom Waits disse um dia que o mundo é um lugar infernal e que a má escrita está a destruir a qualidade do nosso sofrimento. Felizmente para nós que Turista! apenas nos serve para o jantar angústia filet mignon, de tão bem escrita e musicada que está. Já que não podemos ser felizes, saibamos ao menos saborear a nossa tragédia com todo o requinte que ela nos merece, diz-nos a cada instante o inesperado disco de estreia de Bernardo Barata. Venham mais cinco iguais a este.



Eagles of Death Metal – Zipper Down (2015)


Num novelo de riffs pesados e devassa moral, os Eagles of Death Metal mantêm-se fiéis a si mesmos. Jesse “The Devil” Hughes e Josh Homme regressaram a este que muitos consideram, erradamente, um projecto paralelo de Queens of The Stone Age. Sete anos depois de Heart On, os EODM lançam Zipper Down e, apesar de muitas coisas se manterem iguais – como o à vontade de fazerem e dizerem o que lhes apetece, por exemplo -, este último álbum pode ser a prova que faltava de que Homme é uma das personagens mais influentes da música contemporânea.

Espancando a tarola como se fosse uma piñata, completando os arranjos vocais com back vocals semelhantes aos que fez em AM e, mais importante ainda, assinando todas as despesas da produção do disco, Homme injecta QOTSA em tudo o que toca. O rei Midas do rock conseguiu fazer com que EODM soasse ainda mais à banda que imponentemente lidera, dotando-a de guitarras mais agressivas mas melódicas, e fugindo um pouco à maluquice dos trabalhos mais antigos, onde andava tudo demasiado à solta, demasiado descontrolado. Temos um som mais maduro mas que não perde a genuinidade que se esconde atrás destas canções: a amizade de Josh e Jesse.

Conhecem-se há muitos anos e partilham uma visão do rock n’roll que já não é muito comum. O rock de cabedal, álcool, droga e mamas, que grandes senhores como ZZ Top, por exemplo, usavam como estandarte, mantém-se vivo com os EODM. A única diferença é o facto de não se levarem demasiado a sério. Fazem isto porque é divertido e por acaso até há uns quantos milhares de pessoas que também o acham. E isto sente-se.

De modo geral, Zipper Down é sólido, não vacila enquanto descarrega boas doses de rock dançável e até cantável. “Complexity”, o primeiro single e faixa de abertura, lança a toada para as coisas boas que se avizinham. O kitsch de “I Love You All The Time” acaba por ser bem recebido e a música que se segue, “Oh Girl”, é o primeiro verdadeiro cavalo vencedor da louca corrida que se desenrola em Zipper Down. Amor, traição e insegurança nunca soaram tão badass, escondidas atrás de um refrão poderoso, pleno em fuzz sumarento. “Got The Power” é música de pista de dança (ou de autoestrada) e na antepenúltima faixa do disco chegamos ao orgasmo. Jesse (ou Boots Electric) e Josh (ou Baby Duck), esbofetearam todo o azeite dos Duran Duran e trocaram-no por uma boa dose de tensão sexual condensada sob a forma de notas musicais. O clássico “Save a Prayer” ganha um par de botas de cowboy, calças de ganga esburacadas, casaco de cabedal, uma mão cheia de tatuagens e ameaça engatar todas as miúdas de todos os bares com mais espaço para estacionar choppers em vez de carros. “The Reverend”, a última música, sai prejudicada por se fazer seguir a “Save a Prayer” – é muito boa, mas a melhor veio primeiro.

Sexo, drogas e rock n’roll vivem nas entrelinhas deste disco raçudo de uma banda que cada vez mais se parece com outra mas que mantém a vivacidade que transpira dos seus dois grandes maestros. Diversão, catarse e confiança é o que se ganha desta mistela. Tudo elementos que fazem da música a coisa fantástica que é, tudo elementos que compõem o âmago dos Eagles of Death Metal. Que nunca o percam nem deixem que ninguém lhes tire.


Placebo – MTV Unplugged (2015)


À beira de completar 20 anos de carreira, os Placebo nunca gozaram da credibilidade artística de muitos dos seus pares dos anos 90. Fosse o ar andrógeno do vocalista Brian Molko, fosse aquele visual quase a atirar para o Emo (blhargh!), fosse aquele universo eternamente juvenil que sempre encarnaram, a verdade é que raros são os fãs de rock que coloquem os Placebo à cabeça das suas bandas preferidas.

Perante isso, a banda foi lançando discos, todos eles bons. Alguns bem sucedidos, quando o mundo estava atento, outros vendendo milhões na Alemanha e pouco nos restantes mercados, mas todos eles com pontos fortes suficientes para justificar um respeito que nunca lhes foi dado. O período mais forte do seu percurso começou na estreia homónima, em 1996, e durou até Meds, 10 anos depois (escolhemos Without You I’m Nothing, de 1998, como seu melhor álbum).

No entanto, com algumas mudanças de formação que nunca alteraram o ADN da banda, sempre seguiram em frente. Até, no ano da graça de 2015, terem desembocado num palco que serviu de consagração a muitos outros grandes vultos da música popular das últimas décadas: o Unplugged para a MTV (é surpreendente e de assinalar que a estação ainda tenha algo vagamente a ver com a música).

Partimos para este disco, admita-se, com expectativas baixas. Afinal, o forte dos Placebo sempre foram as malhas e os riffs fortes e aquele ambiente de frustração adolescente que, num formato acústico, corria o risco de nos dar uma coisa apenas deprimente. Felizmente, os receio revelaram-se infundados.

O espectáculo foi gravado em Londres, em Agosto, perante um público de fiéis, como é da praxe nestes episódios. São-nos oferecidos um generosos 17 temas, que correm todos os discos da banda. Um dos pontos muito fortes do álbum são os arranjos. De facto, como a própria banda admite, o objectivo não foi simplesmente sentarem-se à volta das guitarras acústicas e tocarem as músicas da mesma forma que em disco, apenas sem electricidade. O grupo juntou-se na sala de ensaios durante vários meses, procurando soluções e vias menos óbvias para apresentar os temas. E isso nota-se, com agrado, no resultado final. Cordas, piano, percussões arábicas e arranjos originais fazem deste disco uma experiência rica de (re)descoberta. Mais, Molko controlou aquele seu tom nasalado que a tantos irritou, e aqui, num plano mais despido, está a cantar melhor que nunca.

Pontos que nos encheram particularmente as medidas: “36 Degrees”; “Every Me, Every You”, com o vocalista convidado Majke Voss Romme; “Where Is My Mind?”, cover dos enormes Pixies; “Protect Me From What I Want”, com Joan as Police Woman; e “The Bitter End”, que fecha o disco, entre vários outros.

Este MTV Unplugged é um triunfo que, naturalmente, dirá pouco a quem nunca foi fã da banda. Mas aposto que mesmo esses, ouvindo o disco do princípio ao fim, não conseguirão deixar de reconhecer uma coisa: os Placebo, por baixo de toda a maquilhagem, têm grandes músicas durante todo o seu caminho. E, na verdade, é isso que interessa. A prova da relevância de uma banda mal-amada está aqui.


BadBadNotGood & Ghostface Killah – Sour Soul (2015)


Não haverá presunção alguma em reclamar-se preconizações desta eventual colaboração. Talvez incluindo não Ghostface Killah, possivelmente outra gorda personagem de ombros largos do hip-hop de velha guarnição, lá dos primórdios, dos que se multiplicam em features por meio da reputação e do peso do nome, eventualmente também segundo a delinquência prestada à convenção do tempos áureos deles; porém, cá a temos, cá a esperávamos, porquanto tão eventual era essa possibilidade quanto plausível é o entrosamento da sonoridade de BadBadNotGood (BBNG) com a ambiência genérica da velha guarnição do hip-hop. Inclusivamente, meia dúzia de colaborações nos entretantos com Tyler, the Creator ou colegas de linhagem concretizam e justificam a expectativa que reivindico, embora não sejam a sua causa. Pois bem, BBNG são intrinsecamente hip-hoppers: a atmosfera jazzy e os subterfúgios dos sopros de Leland Whitty mascaram e camuflam a intenção da banda, em púlpito palpitando no núcleo das suas composições, guardando em efervescência a agressividade de Public Enemy, o groove de Biggie, em casos fortuitos a elegia religiosa de 2Pac — alguém me corrija, se errado estiver. É precisamente a emancipação recorrente de riffs substanciais e de baixos hipnóticos que intermedeia a improvisação jazz segundo os padrões de Miles Davis (admita-se), uma vez que a intenção da espontaneidade se evidencia e constringe, se solta e se lhe são tomadas de novo as rédeas. Há equilíbrio, e o equilíbrio é ambíguo, mas invariável e prepotentemente pende para o pulular hip-hopper, em detrimento da frugalidade jazzy.

Assim, não é colaboração oca. Ghostface Killah é complementar de BBNG, e encaixam, encaixe esse que pariu Sour Soul. O próprio título do álbum ilustra o confronto directo entre o jazz de superfície assinado pela banda e o núcleo do old-school da Costa Este idiossincrático de Wu-Tang Clan: a amargura e tensão do gueto com a melopeia espiritual dum Ornette Coleman em speeds. Vinha já essa complementaridade sendo desenhada na rítmica trap de “Can’t Leave the Night”, em III, seguindo a espiral descendente do caos dos primeiros álbuns, acompanhando a agravamento caleidoscópio daquilo que é, hoje, tanto no transacto trabalho de BBNG como em Sour Soul, elegância e ordem; acompanhando a lírica (enfim, não esquecer que se trata do primeiro récord com mais do que meia dúzia de palavras mastigadas) austera e acusadora de 36 Chambers.

Vai-se ouvindo, essa dicotomia. D’Angelo tem delicadezas que se vêm descobrindo em “Stark’s Reality”. Na verdade, incorpora-se em curta medida a soul daquele, na medida certa para que se tempere, se apazigue aqueloutra dicotomia. O resultado é ambiência amena, prazenteira — assim, por intuição, chega-me o adjectivo soothing —, suficientemente neutra para que a primazia seja de Ghostface, interlocutor intenso, brusco. Qual não é a surpresa quando, desarmado, o ouvinte se dá ao deleite inicial de “Tone’s Rap”, defronte depois, num baque, do inesperado “AYO, BITCH”? Pois bem, inflexões semelhantes, de carácter idêntico nos álbuns transactos de BBNG (de maneira particular em permutas de ritmo e jogos de silêncio), dinamizam as faixas, conferem-lhes tensão, electrizam-nas. No geral, potencialmente seriam de contemplação descomprometida, álbum anestésico; porém, são espaços de intervenção, são possíveis jam sessions, uma vez que a aparente economia sonora transversal a Sour Soul — um não-minimalismo embora não-maximalismo — se recheia de pormenor. É tão espontâneo quanto pode ser, e é tão calculista nas suas possibilidades quanto pode ser. Não há obsessão de tudo estar no seu sítio, e no entanto há sentido de asseio. O low-profiling foi uma prioridade para a colaboração, e ao mesmo tempo laivos groovychill têm direito a um plano muito próximo do belicismo paternalista de Killah.

Sour Soul é exactamente o que se esperava que fosse. Não vem daí prejuízo, não vem daí acusação à criatividade: pelo contrário, o álbum estabelece, consciente de si, a ideia platónica daquilo que seria uma colaboração nos meandros do hip-hop e do jazzSour Soul é o que se imagina que seria, e parte maior do mérito da colaboração é a concretização dessa ideia. A criatividade de “Six Degrees” é ser o que é, é o agrado de a expectativa ser a realidade, sendo a expectativa o que se queria que fosse a realidade; a criatividade de “Ray Gun” e “Nuggets of Wisdom” — em particular a segunda parte, de fluidez inegável — é epitomizar a sonoridade e o conceito; a criatividade de Sour Soul é padronizar e consagrar Sour Soul. Depende de um preconceito a determinado grau, decerto (e os meus ritmos do pós-punk terão tido influência bastante no entrelaçar com os [meus] ritmos de Coltrane); contudo, é um álbum necessário. Não é groundbreaking, não há génio; contudo, ajunta e fortifica uma ideia. É sólido. É discreto. É paciente, é suave, é indulgente.

“My vocab is powerful, spit shit subliminal / Slang therapist, my whole style is criminal” contrariaria essa ideia, decerto. Em reminiscências de Nas, ocasião esta de “It Ain’t Hard to Tell”, em particular de “I kick a skill like Shaquille holds a pill / Vocabulary spills I’m Ill plus Matic”, é rico Sour Soul, assim como em ocasiões outras basilarmente chegadas ao individualismo empowering, chegado a um altruísmo excêntrico, do autor de Illmatic. Ghostface (e reparo em Danny Brown e sua incorporação flashing no esqueleto de “Six Degrees”) retrata os seus contemporâneos, aqueles, lá do início, os da velha guarnição; porém, incorpora-os, apazigua-os. Há algo largamente cinematográfico nesse contraste, nessa fusão que acabei de evidenciar. À semelhança do que reparei há parágrafos, denota-se contenção no improviso jazz, contenção essa que se dispõe na toada do que carrega a herança de Wu-Tang.

“Food” abraça e hibridiza esta ideia em coisa de três minutos e meio: soothingness, dizia eu mais acima, está no núcleo da produção. Em última instância, é um álbum terapêutico. Ameno. A ansiedade queda-se por aí, algures: nota-se-lhe a proximidade, e eventualmente seria perceptível na voz de Killah ou numa ou noutra extravagância de BBNG; porém, não se apalpa. “Experience” catalisa meia hora de confronto saudável em serenidade. A imagem com que Sour Soul se despede é saudosa, se me é permitido. O trabalho está feito, o sorriso sensaborão rasgou-se-me no rosto. Não é um bom trabalho, como o de Whiplash, contudo. Não é tão-só competência desinteressada. Prometia, criava expectativa, cumpre. O álbum é um statement, e raras vezes um statement foi tão prazenteiro.


Chá de Gim – Comunhão (2015)


Não sabemos se algo de diferente tem vindo a ser misturado na água da cidade brasileira de Goiânia, mas parece. Carne Doce, Boogarins ou Luziluzia são alguns dos nomes da nova música rock local, dos quais temos dado conta aqui no Altamont, mas há mais, muito mais, estranhamente mais.

Os Chá de Gim são outro fruto doce de Goiânia, tão fresquinhos que acabam de lançar o seu disco de estreia, este Comunhão.

O percurso, ainda curto, conta-se rapidamente. Com apenas um ou outro single editado mas já alguma presença em palco, os Chá de Gim foram fazendo caminho em festivais no Brasil, em Goiânia e não só.

Aquilo que distingue esta banda das restantes que mencionámos antes é, talvez, uma apropriação mais directa e maior da herança da variedade da música brasileira. O som dos Chá de Gim, liderados pelo vocalista Diego Wander, traz-nos um caldeirão onde cabe tudo e mais um par de botas. Temos Brasil profundo no samba e no forró mais eléctrico; temos bossa, claro; temos os eternos Mutantes; temos Jorge Ben e Luiz Gonzaga; temos construções e apontamentos jazz aqui e ali; e temos rock, a linguagem primordial, com laivos subtis de psicadelismo controlado.

Esta referência à música tradicional brasileira, a música do povo – o samba e o forró – não é nova. Lembrem-se os saudosos Raimundos, que partiam da mesma base mas em direcção ao punk e ao rock mais pesado. Aqui, está tudo mais próximo da raiz (ouça-se “Samba Verde” ou o single “Zé”, para se perceber como se pode fazer coisas novas e frescas, respeitando totalmente a tradição). Para rock escute-se “Dropei”, guitarra eléctrica toda efeitos e ritmo frenético de bater o pé.

Um disco de estreia a prometer muita coisa boa. Uma Comunhão de velho e novo, a merecer a nossa atenção.


Thin Lizzy – Black Rose: A Rock Legend [1979]

 Thin Lizzy – Black Rose: A Rock Legend [1979]

Black Rose: A Rock Legend é o nono álbum de estúdios da banda irlandesa Thin Lizzy, lançado oficialmente em abril de 1979 pelos selos Vertigo (Europa), Mercury (Canadá) e Warner Bros. (Estados Unidos). Em 1978, o Thin Lizzy lançou seu primeiro álbum ao vivo, Live and Dangerous. Há alguma discordância sobre quanto do álbum foi realmente gravado ao vivo – o produtor Tony Visconti afirmou que as únicas partes que não foram overdubladas foram a bateria e a plateia. No entanto, Brian Robertson contestou isso, afirmando que recusou o pedido de Phil Lynott (líder, baixista e vocalista) para regravar um solo de guitarra e que as únicas partes overdubladas foram os backing vocals e algumas partes de guitarra de Scott Gorham.

Phil Lynott, Gary Moore e Scott Gorham. Trio endiabrado do Thin Lizzy em 1979

Robertson acrescentou: “Simplesmente não é verdade. A única razão pela qual dissemos que foi gravado por completo foi obviamente por questões fiscais… então tudo o que Visconti alega é besteira.” Gorham concorda, afirmando que tentou regravar um solo, mas não conseguiu recriar o som ao vivo, acrescentando: “Eu refiz uma faixa rítmica e alguns vocais de apoio. Mas é isso.” O álbum foi um enorme sucesso, alcançando o segundo lugar no Reino Unido, e foi classificado como o melhor álbum ao vivo de todos os tempos pela revista Classic Rock em 2004.

Brian Robertson saiu definitivamente do grupo algum tempo depois de um show em Ibiza, em 6 de julho de 1978, quando os desentendimentos com Lynott chegaram ao limite. Lynott substituiu Robertson por Gary Moore novamente (que havia feito parte da banda em duas ocasiões diferentes anteriormente), e nessa época a banda uniu forças com Steve Jones e Paul Cook, do Sex Pistols, e também com Chris Spedding e Jimmy Bain, para formar o The Greedy Bastards, que fez alguns shows tocando uma seleção variada de músicas. Dessa forma, Lynott conseguiu alinhar sua banda ao movimento punk e evitar ser rotulado como um “dinossauro”, como muitas outras bandas de rock dos anos 1970 haviam sido. Outros membros ocasionais do The Greedy Bastards incluíam Bob Geldof e Pete Briquette, do Boomtown Rats.

Gary Moore, Scott Gorham e Brian Downey (em pé); Phil Lynott (sentado)

O Thin Lizzy iniciou outra turnê pelos Estados Unidos em agosto de 1978, seguida por uma viagem à Austrália e à Nova Zelândia. Brian Downey não os acompanhou, tendo contraído pneumonia e preferindo passar algum tempo na Irlanda. Ele foi substituído na turnê pelo baterista americano Mark Nauseef. Em seu retorno, Downey se juntou à banda e no início de 1979 eles gravaram Black Rose: A Rock Legend em Paris. As sessões foram marcadas pelo aumento do vício em drogas de Lynott e Gorham, e pela presença geral de drogas ao redor do grupo. Por conseguinte, isso também transpareceu na temática do álbum, em canções como “Got to Give It Up”. As influências celtas permaneceram, no entanto, principalmente na música que encerra o álbum, “Róisín Dubh”, um medley de sete minutos de canções tradicionais irlandesas com um toque de rock com guitarras gêmeas.

A formação do grupo continha Phil Lynott (Vocal e Baixo), Scott Gorham (Guitarras), Gary Moore (Guitarras) e Brian Downey (Bateria e Percussão). Também participam do disco: Jimmy Bain (Baixo em “With Love”), Huey Lewis (Gaita em “Sarah” e “With Love”) e Mark Nauseef (Bateria em “Sarah” – não creditado)

Single de “Sarah”

Black Rose incluiu a segunda música que Phil Lynott escreveu sobre um membro de sua família, intitulada “Sarah”. A primeira música com esse nome apareceu em Shades of a Blue Orphanage, de 1972, escrita sobre sua avó, também chamada Sarah. A música em Black Rose é sobre sua filha recém-nascida. A música “Will You Go Lassie, Go” (também conhecida como “Wild Mountain Thyme”) às vezes é erroneamente creditada como uma canção tradicional, mas na verdade foi escrita por William McPeake e gravada pela primeira vez por Francis McPeake. Ela é creditada no álbum a “F. McPeak”.

Pelo menos duas das músicas – “Waiting for an Alibi” e “S & M” – surgiram no início do verão de 1978, antes da saída de Brian Robertson da banda. As gravações ocorreram entre dezembro de 1978 e fevereiro de 1979 nos estúdios Pathé Marconi EMI Studios, em Paris (França) e no Good Earth Studios e no Morgan Studios, ambos em Londres (UK). A produção ficou por conta de Tony Visconti e do Thin Lizzy.

Single de “Do Anything You Want To”

“Do Anything You Want To” abre o álbum com a sonoridade roqueira do Thin Lizzy, ou seja, sem abrir mão de melodias criativas e guitarras gêmeas. “Toughest Street in Town” é mais hard rock, mais direta e traz um pouco mais de peso, contando com ótimo solo de guitarra. “S&M” é bem malemolente, trazendo um excelente trabalho do baixo, conferindo um certo swing para a canção.

A clássica “Waiting for an Alibi” mostra o relevante trabalho das guitarras e o baixo de Lynott muito presente, em um Hard Rock excelente. “Sarah” tem um clima ameno e descontraído, com melodias suaves e contagiantes. “Got to Give It Up” é um hard rock típico do Thin Lizzy, cheio de ritmo, sem abrir mão do peso. “Get Out of Here” é uma verdadeira porrada hard rock, com as guitarras infernais e ritmo acelerado. “With Love” flerta com uma pegada bluesy, dando bastante malícia para a sonoridade, em mais uma ótima construção do grupo. “Róisín Dubh: A Rock Legend” encerra o disco em uma jornada com várias passagens instrumentais e variações de dinâmicas bem interessantes.

Encarte de Black Rose

Juntar talentos como os de Phil Lynott e Gary Moore, dificilmente daria errado. O trabalho traz, sim, o peso do Hard Rock, com riffs e solos muito inspirados, explorando a categoria de um guitarrista como Gary. Ao mesmo tempo, a transcendental capacidade melódica de Lynott dá as caras por todo o álbum: as canções contam com verdadeiras ondas de melodias simples, suaves e acessíveis e que só acrescentam ao disco. E é neste contexto que surgem canções como “Waiting for an Alibi”, “Do Anything You Want To” e “Róisín Dubh (Black Rose): A Rock Legend”, todas destaques dentro da discografia do grupo.

Black Rose: A Rock Legend foi um sucesso no Reino Unido, alcançando o 2º lugar na principal parada britânica de discos. Segundo estimativas, o álbum supera a casa de 100 mil cópias vendidas apenas no Reino Unido. Entretanto, ficou apenas com a 89ª posição em sua correspondente norte-americana. “Waiting for Alibi”, “Do Anything You Want To” e “Sarah” foram singles que fizeram barulho no Reino Unido, alcançando os 9º, 14º e 24º lugares na principal parada desta natureza naquele país.

Revista promocional de 1979 com Thin Lizzy na capa

Em 4 de julho de 1979, após tocar no Day on the Green, em Oakland, Gary Moore deixou o Thin Lizzy abruptamente no meio de outra turnê. Anos depois, Moore disse que não se arrependia de ter saído, “mas talvez tenha sido errado o jeito que eu fiz. Eu poderia ter feito diferente, eu acho. Mas eu simplesmente tive que sair.”. Posteriormente, ele seguiu carreira solo, lançando vários álbuns de sucesso. Ele havia tocado com Lynott e Downey em seu álbum de 1978, Back on the Streets, e no single de sucesso “Parisienne Walkways” antes de deixar o Thin Lizzy, e, em 1985, Gary e Lynott se uniram novamente no single de 5ª colocação no Reino Unido, “Out in the Fields”.

Single de “Got To Give It Up”

Após a saída de Moore, o Thin Lizzy continuou a turnê por algumas noites como um trio antes de Lynott trazer Midge Ure para substituí-lo temporariamente. Ure tinha planos anteriores de se juntar ao Ultravox, mas havia co-escrito uma música, “Get Out of Here”, com Lynott em Black Rose: A Rock Legend, e concordou em ajudar o Thin Lizzy a completar seus compromissos de turnê.


Em seu retorno ao Reino Unido, a banda seria a atração principal do Reading Festival pela segunda vez, em 25 de agosto de 1979, mas teve que cancelar esta participação devido, segundo se acredita, a problemas justamente em sua formação. Especula-se que a apresentação como headliner exigiria um show mais extenso e não havia tempo de Ure aprender todo o repertório.

Contra-capa de Black Rose

Faixas:
1. Do Anything You Want To
2. Toughest Street in Town
3. S & M
4. Waiting for an Alibi
5. Sarah
6. Got to Give It Up
7. Get Out of Here
8. With Love
9. Róisín Dubh (Black Rose): A Rock Legend



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