sexta-feira, 12 de junho de 2026

D’Angelo and the Vanguard – Black Messiah (2014)

 


O regresso de D’Angelo aos discos é uma das grandes notícias dos últimos meses – e, se o disco já não é tão fresco quanto isso (saiu a meio de Dezembro de 2014, ao passo que ultrapassámos já as primeiras semanas de 2015), é inevitável, mesmo que tardiamente, falar dele.

A um imaginário musical construído com Brown Sugar (1995) mas sobretudo com o fantástico Voodoo (2000) seguiu-se uma pausa de catorze anos – intercalada com um acidente quase fatal (logo no ano em que Voodoo foi lançado) e uma detenção policial por sugestões menos próprias a uma agente de autoridade. Essa pausa foi quebrada agora com Black Messiah (termo que D’Angelo tenta associar a um imaginário colectivo e social, por mais que pareça condizer na perfeição com o misticismo envolto no seu regresso aos discos, que honra aqui sem mácula) – um título reminescente de Black Moses de Isaac Hayes, talvez.

Black Messiah tem sido amplamente aclamado, e creio que o merece inteiramente: é um álbum marcante e brilhante (adjectivo que não utilizo de ânimo leve), que vem mais uma vez «baralhar as cartas» da música americana. É, sobretudo, um disco que se atira de frente contra o simplismo e a banalidade, chamando a si um imaginário repleto de uma diversidade enorme de influências que vão sendo re-construídas, ao longo do disco, sempre com um cunho profundamente pessoal – D’Angeliano, se quisermos (porque a sua identidade tão demarcada já permite utilizar o termo, que poderíamos traduzir como «música que na lascividade encontra a subtileza e na festa, a seriedade»).

É difícil comentar os pontos altos, não só porque Black Messiah funciona perfeitamente como um todo (com as constantes ligeiras mudanças de direcção a não soarem nada forçadas) mas também porque seria bem mais fácil destacar as canções que não mantêm o altíssimo nível disco – uma, eventualmente duas -; o que, por razões lógicas, seria injusto fazer. A maioria é de um bom gosto inatacável: à impressionante «1000 deaths» (com momentos ora calmos e descontraídos, ora desviantes – do discurso religioso inicial à confusões de vozes que se misturam, culminando no ruidoso final) segue-se uma doce-quase-melosa (em bom) «The Charade». Encontra-se de seguida uma jazzística «Sugah Daddy» (que é também single) que antecede a delicadeza – aqui quase melancólica – de «Really Love» (fosse português e no início a voz que sussurra coresponderia ao belíssimo dedilhado com um portentoso fado, o que, felizmente, não é o caso, com D’Angelo a levar o tema novamente para a simplicidade amorosa).

Vai-se ainda nesta jornada, por exemplo, a «Back to the Future (part I)» (título como elegia à forma como Voodoo moldou a posteridade?) e à sujidade delicada de «Till It’s Done», da qual se parte para «Prayer» (que tem por lá uma guitarra surdamente estridente em modo blues) e  para «The Door» (novamente com a belíssima subtileza instrumental da guitarra e com melódicos assobios).

«Another Life» fecha o disco em grande nível, numa espécie de bonito embalo baladeiro que antecede um sono profundo – e que funciona aqui como o silêncio e a sentido de fim que se instaura após a audição de um disco imaculado.

Quer nos momentos mais lascivos e festivos quer nos momentos mais relaxantes e baladeiros, há uma subtileza e um bom gosto inatacável nos arranjos (interpretados com mestria, entre guitarras, baixo – honra a Pino Palladino -, bateria – o mesmo a James Gadson – e teclados), que tornam o diálogo entre os instrumentos sempre agradável, criando um caldeirão primorosamente cozinhado (e do qual é difícil sair) que vai do jazz ao blues, da soul à electrónica, dos beats de hip-hop (pense-se DJ Premier ou J Dilla) até a momentos desviantes que no limite podem ser associados ao psicadelismo.

Desenganem-se os que julgam D’Angelo pelo estilo, registo criminal, rudeza ou falta de sobriedade: Black Messiah marcará a segunda década do Século XXI como Voodoo marcou a primeira.



Pearl Jam – Vitalogy (1994)

 


Aqui há uns tempos, o parceiro de escrita Altamont Carlos Lopes escreveu um texto especial sobre o terceiro álbum de diferentes bandas que o marcaram especialmente. Recordo-me de, aquando da partilha da sua vontade em o fazer, ter instantaneamente pensado em Vitalogy, e em debruçar-me sobre o mesmo, integrando-o no conceito definido de «difíceis terceiros discos». Porque para os Pearl Jam este foi sem dúvida um álbum definidor, usado para fazer um statement claro – recusar o caminho mais fácil, mais comercial, optando pelo choque frontal com uma indústria a salivar por entrevistas, videoclips e tours proveitosas.

Gravado ainda durante a tour do seu antecessor Vs., entre soundchecks, viagens de autocarro, e intervalos dos concertos, não se livrou de ter sofrido das consequências de algum estado de cansaço resultante dessa opção. A tensão entre os membros da banda foi marcante, também derivado de uma maior preponderância ganha por Eddie Vedder numa banda que até aí tinha sido de Stone Gossard e Jeff Ament. Mike McCready esteve entre reabilitações e portanto a primeira vítima desse ambiente foi mesmo o baterista Dave Abbruzzese, substituído por Jack Irons ainda a tempo de gravar uma das músicas do álbum (a colagem sonora «Hey Foxymophandlemama, That’s Me»). A meu ver tudo isto deu uma sonoridade mais crua, mais punk, a Vitalogy, já que a vontade para grandes arranjos era pouca e assim as músicas rapidamente evoluíram do papel para a gravação. Isto apenas serviu para dar ao statement uma maior agressividade, e com isso afastar definitivamente os fãs que apenas o eram por moda («This is not for you, fuck you!»).

Apesar de ainda marcar presença uma música de cariz tremendamente comercial («Better Man»), a toada do álbum é mesmo de ruptura com o passado recente, até na escolha para single de «Spin the Black Circle», tocada a um ritmo rápido e intenso, muito longe de um «Daughter» que despoletou tanta fama e amigos indesejados («Small my table, seats just two/got so crowded I can’t make room/where did they come from? stormed my room!»). «Last Exit», «Satan’s Bed», «Whipping», «Corduroy» todas caminham num sentido único, como que formando uma onda para engolir os media, a indústria discográfica, a poderosa Ticketmaster. A maravilhosa ode ao Kurt Cobain (apesar da constante negação, não há como enganar que o é) em «Immortality» («some die just to live»). E os interlúdios, «Pry, To», «Bugs» e «Aye Davanita», conjugadas com a tal montagem sonora final marcam também pela alienação que criam.

A carreira dos Pearl Jam teve um antes e um depois de Vitalogy, é inegável. No depois conseguiram ainda levar  adiante os seus intentos iniciados aqui, com um No Code ainda mais alienante, para depois irem amansando aos poucos, álbum a álbum e esquecendo estas lutas de jovens nos seus vintes a quererem acreditar que conseguem mudar o mundo. O tempo leva a melhor sobre qualquer irreverência, certo?

Vinte anos passados e ainda me recordo de ir à loja comprá-lo. De ver a embalagem criada, de formato diferente dos CD’s, e de prometer a mim mesmo que tudo o faria para o conservar assim, como novo. Pois bem ele lá está na estante, um dos poucos com protecção à volta. Já longe vão os tempos que os Pearl Jam eram a minha vida, que era fã do Ten Club, que seguia as setlists de todos os concertos, mas olhando para trás é este o momento que me permito destacar mais, o tal «difícil terceiro álbum» que acabou mesmo por ser o melhor da banda. Quaisquer semelhanças com o momento actual são pura coincidência.



Violent Femmes – Violent Femmes (1983)

 


Antes de conhecer a opressão amorosa vinda dos lados de Manchester, o Rock sónico da costa oeste americana ou a raiva alienante saída de Seattle, surgiu a banda perfeita para qualquer adolescente angustiado. Chamava-se Violent Femmes. Conheci os Violent Femmes (e tantas outras bandas) através do meu irmão que tinha os quatro primeiros álbuns lá em casa: Violent Femmes (1983); Hallowed Ground (1984); The Blind Leading the Naked (1986) e 3 (1989). Ouvi-os a todos do princípio ao fim, inúmeras vezes. A posição era sempre a mesma: sentada à frente da aparelhagem com a capa do disco na mão e o vinil a correr (ainda não tinha cds), seguindo as letras do álbum. Na altura, mal conhecia os Pixies ou os Sonic Youth (que mais tarde se vieram a tornar nas bandas mais ouvidas e as contemporâneas da minha adolescência). Gostava de tudo: da voz irreverente e sexy do vocalista, das letras sofridas e gozonas mas gostava especialmente da energia instrumental da banda. O primeiro álbum foi aquele que provocou o maior impacto. Foi também quando ouvi, pela primeira vez, a palavra fuck num disco. «Why can’t I get just one fuck? Why can’t I get just one fuck? I guess it’s got something to do with luck» cantava Gano em «Add It Up». Inesquecível.

Mais tarde vim a saber que os Violent Femmes começaram a tocar na rua, por não conseguirem tocar em bares e noutros locais de concertos. Reza a história (no site da banda) que após terem sido rejeitados num bar local (em Milwaukee) montaram o estaminé na rua e começaram a tocar. Lá dentro ia haver um concerto dos Pretenders. Ao ouvi-los, Chrissie Hynde pediu-lhes para fazerem a primeira parte do espetáculo. Teria começado assim a história dos Violent Femmes.

Violent Femmes, o álbum de estreia deste original trio de Milwaukee (Wisconsin) data de 1983 mas podia ter sido composto o ano passado. Quando Gordon Gano (ainda no Secundário) se juntou ao baixista Brian Ritchie e ao baterista Victor DeLorenzo, estava tudo a postos para demonstrar que não é preciso nascer nos subúrbios de Inglaterra nem de ter pedais de distorção para criar uma sonoridade Punk. Os laivos Punk encontram-se essencialmente na pujança com que os instrumentos são tocados, o que é absolutamente incrível se tivermos em consideração que são, na sua maioria, acústicos. Mas Violent Femmes é mais que isso, é pop e folk. Aliás, a grande originalidade da banda era essa mesma, criavam uma sonoridade única, de forma minimalista em termos instrumentais – guitarra acústica, baixo acústico e uma tarola (ocasionalmente saxofone, bombo, violino e xilofone).

A energia da banda é contagiante e arrebatadora. As canções são enriquecidas pelas letras de Gano, que exploram um universo de frustração adolescente, rebeldia e desilusão amorosa com um sentido de humor apurado, num subtil paradoxo de canções alegres e letras tempestuosas. O disco começa de forma brutal: os acordes da guitarra apressados rematados pela bateria – uma introdução impossível de esquecer – «Blister in the Sun» é o tema mais conhecido da banda, aliás, o tema é mais conhecido do que a própria banda. É difícil escolher temas num disco que se saboreia do princípio ao fim, sem saltar faixas. Ainda assim, destaco «Kiss Off», «Add It Up», «Gone Daddy Gone» (introdução inesquecível com xilofone) e «Good Feeling» (a balada chorosa) como os temas mais marcantes do álbum. Violent Femmes fica na (minha) história da música como o melhor álbum punk/folk alguma vez feito.



SQURL


Gosto deste trabalho dos SQURL. Para quem não sabe, “é a banda do Jim Jarmusch”. Reparei neles precisamente durante o último filme Only Lovers Left Alive, que de resto parece ser nada mais nada menos que a reverberação directa da sua banda sonora, e isso é extraordinário.

Durante o filme um dos actores principais, que por sinal é vampiro, produz música, com a qual expressa a sua vertente lúgubre em isolamento poético. Sem saber sequer que Jarmusch era ele próprio músico, tive a certeza que aquele vampiro guitarrista era o próprio Jim. Só podia. Pensando nas outras obras do realizador norte americano lembro-me que a música para ele é de facto fulcral. Desde o extraordinário Samurai Dog, que me abriu as portas do hip hop, passando pelo Broken Flowers, que deu a conhecer ao mundo Mulatu Astatke, Dead Man, cuja banda sonora é basicamente um dos trabalhos mais interessantes  de sempre de Neil Young, etc.

(um apart para referir que se Only Lovers Left Alive parece ser consequência da música, diz-se que em Dead Man Jarmusch meteu o Neil Young a dar-lhe na guitarra enquanto visionava o filme, ou seja, música como consequência do cinema)

Jarmusch a fazer-me lembrar tangencialmente Vincent Gallo, também ele realizador e músico, com a diferença do primeiro ter feito parte da cena nova iorquina do No Wave no início dos 80, enquanto Gallo por essas alturas não passava dum red neck de valores republicanos meio maluco, e essa diferença é brutal.

Extraodinariamente bem produzido, este trabalho em forma de esquilo assenta em alicerces de feedback e arranjos electrónicos – coisa que me agrada. Às vezes soa a metal, outras a algo saído de ressaca de charro. Parece-me não ter pretensões. Fazem aquilo que eu próprio gosto de fazer com a guitarra – perder-me nela com languidez e ruído. É curioso este conjunto de EPs ter um blues, formato excelente para queixume existencial. Desagradável ter um par de love songs, mas Jarmusch é um romântico, já se sabe. Perdoo-lhe.

Apesar dos laivos de drone rock, SQURL a não deixar com que a música se arraste em demasia, não tendo problemas em acabar com a trip num repente, como quem diz já chega caralho. Tal como este texto.



George Thorogood & The Destroyers – The Baddest Show On Earth: Greatest Hits Live (2026)

 


Country: USA
Genre: Blues Rock, Boogie Rock
Year : 2026

1. Who Do You Love? (Live In Atlanta, Georgia / 1980) (05:18)
2. Move It On Over (Live In Boston, Massachusetts / 1982) (05:07)
3. One Bourbon, One Scotch, One Beer (Live In Atlanta, Georgia / 1980) (10:47)
4. Ride On Josephine (Live In Roslyn, New York / 1978) (05:50)
5. Madison Blues (Live In Boston, Massachusetts / 1982) (05:48)
6. Bad To The Bone (Live In Boston, Massachusetts / 1982) (05:10)
7. Born To Be Bad (Live In Sarasota, Florida / 2024) (04:53)
8. Steppin’ Out (Live In Midland, Texas / 2022) (02:20)
9. Howlin’ For My Baby (Live In Hyannis, Massachusetts / 2023) (05:58)
10. Tail Dragger (Live In Kansas City, Missouri / 2020) (06:09)
11. Boogie Chillun (Live In Toronto, Canada / 1978) (12:33)

MUSICA&SOM ☝



Mike Richmond [Love Tractor] – Without An Audience (2026)

 


Country: USA
Genre: Rock
Year : 2026

1. All For You (03:23)
2. It’s Never Too Late To Finish Last (03:26)
3. How Many More Times (03:42)
4. Without An Audience (03:40)
5. You Are Not Alone (04:04)
6. Oh Well (03:00)
7. Small Southern Towns (06:00)
8. Murder In The Forest (02:23)
9. Old Victorian House (05:53)
10. 5 Hammers (04:26)
11. Now I Stand Before the Gates of Eternity (03:40)
12. Maiden Voyage (Bonus Track) (07:20)

Joe Rowe (The Glands),
David Barbe (Mercyland / Sugar),
John Neff (Japancakes / Drive-By Truckers / The Star Room Boys),
Adam Poulin (Grassland String Band),
Ben Hackett (New Madrid),
Jason NeSmith (Pylon Reenactment Society),
Matt Tamisin (Flash to Bang Time),
Neil Rosenbaum.

MUSICA&SOM ☝


Daizy Pinehill Band – Rocking Wild 2026

 


Genre: Hard Rock / Blues
Year : 2026
Country: Sweden

01 – Dealer.mp3
02 – Life of mine.mp3
03 – Running wild.mp3
04 – Rocking blues.mp3
05 – The Wind.mp3
06 – The Fieldmouse.mp3
07 – I’m coming back.mp3
08 – Feel the pain.mp3
09 – Look in the sky (Extended Version).mp3
10 – Plugged in and wired.mp3
11 – Good night blues.mp3
12 – The Eagle.mp3
13 – Beginning in the end.mp3

MUSICA&SOM ☝



Bella and The Final Fifth – The Shadowland Sessions 2026

 


Genre : Blues/Hard Rock
Year : 2026
Country:

01 – Like A Feather.mp3
02 – Give You All The Love.mp3
03 – Devil Delight.mp3
04 – Green-Eyed Lady.mp3
05 – Just What I Needed.mp3
06 – Blues For Mahsa.mp3
07 – Bullet From The Past.mp3

MUSICA&SOM ☝


Andrea Braido – Plays Deep Purple & Rainbow (Live in Hard! Remixed Edition) 2026

 


Genre : Hard Rock
Year : 2026
Country: Italy

01 – Picture of Home (Live Remixed).mp3
02 – Spotlight Kid (Live Remixed).mp3
03 – Soldier of Fortune (Live Remixed).mp3
04 – Lady Double Dealer (Live Remixed).mp3
05 – Space Truckin’ (Live Remixed).mp3
06 – Black Night (Live Remixed).mp3
07 – Highway Star (Live Remixed).mp3
08 – Lazy (Live Remixed).mp3
09 – Smoke on the Water (Live Remixed).mp3
10 – Stormbringer (Live Remixed).mp3
11 – Demon ‘s Eye (Live Remixed).mp3
12 – Blues _ Startruck (Live Remixed).mp3

MUSICA&SOM ☝


ARCPELAGO Crossover Prog • Brazil

 

ARCPELAGO

Crossover Prog • Brazil

Biografia do Arcpelago:
A banda foi fundada pelo tecladista Ronaldo Rodrigues (Massahara). Ele é acompanhado por Jorge Carvalho no baixo, Eduardo Marcolino na guitarra (Anxtron) e o baterista Rafael Melo. O nome da banda em 2011 era Aurah. Rafael foi substituído por Renato Navega em 2014 e, recentemente, Eduardo foi substituído por Diogo Albano. A banda fez seu primeiro show ao vivo no Rio de Janeiro em 2015. Eles começaram a gravar seu primeiro álbum, "Simbiose", com um novo nome. Sua música é inspirada pelo som dos anos 70 e mistura rock com jazz e blues. A banda gosta de estender suas músicas com longos trechos instrumentais.




Simbiose
Arcpelago Crossover Prog

 "Do nada, o amor surgiu de repente, do céu, veio o sol". Essa letra de "Out of the Blue", do Roxy Music, certamente se confirma nesta maravilhosa descoberta. Explorar dezenas de bandas semanalmente pode ser uma tarefa árdua, e quando um baixo pulsante me chama a atenção, fico bastante empolgado. E quando, por acaso, a banda é brasileira, todos os meus sentidos começam a dançar também. O Arcpelago lançou seu álbum de estreia em 2016, passando completamente despercebido por mim até que, por pura sorte, acabou na minha coleção. Um quarteto formado por quatro artistas talentosos: o guitarrista Eduardo Marcolino, Renato Rodrigues nos teclados e vocais, o baterista Renato Navega e o já mencionado mestre do baixo elástico, Jorge Carvalho. O que torna este álbum tão especial, além do arsenal de teclados vintage à disposição e de todos os suspeitos de sempre, figuras conhecidas do prog rock, é a natureza sinfônica do seu estilo, muito anos 70 com doses generosas de Pink Floyd, Eloy, PFM, etc.?

Hipnotizado e entregue à obediência absoluta ao seguir a onipresente linha de baixo desde o início, "Sopro Vital" embarca numa viagem de 11 minutos rumo a um groove pulsante e intransigente, com exclamações vibrantes de Rodrigues e Marcolino, salpicadas de reviravoltas suficientes para fomentar uma revolução (risos). Estruturas de órgão expansivas, riffs de guitarra elétrica cortantes e nítidos, e as obrigatórias mudanças de ritmo e atmosfera mantêm o medidor de adrenalina no máximo. Os vocais oníricos e repletos de eco conferem uma expansão bem-intencionada à faixa, servindo como trampolim para uma conclusão ainda mais elaborada, onde o baixo irrompe com a solidez característica de Wetton, guiando a guitarra solo delirante a reinos sublimes, selando a música com um toque final jazzístico.

"Distancia Entre Um Dia e Outro" é uma fera completamente diferente, oferecendo deslumbrantes toques de piano elétrico, uma batida de bateria frenética e um baixo impactante de tirar o fôlego, que lembra o estilo fuzz elástico de Hugh Hopper, famoso em muitos álbuns do Soft Machine! Um rolo compressor de jazz pesado, petulante e um tanto abrasivo, com um som vintage e retrô dos anos 70 que exala eternidade. Na metade da música, Renato Navega e Jorge Carvalho tomam o controle do arranjo, reiniciando lentamente o groove crescente em um solo de guitarra elétrica insano, percorrendo o braço da guitarra como mineiros maníacos em busca desesperada de ouro. Os sintetizadores vibrantes mantêm a chama acesa, procurando a mina de ouro.

Segue-se um trio de faixas mais curtas, com "Ebulicão dos Tempos" envolta num modo mais acessível, com uma base rítmica de rock compacta, carregada de vocais melancólicos como se a distância evocada na faixa anterior permanecesse ilusória e atemporal. Os solos são refinados e aristocráticos, sem firulas, um rock direto e impactante. O baixo agressivo, à la Lemmy, assume a liderança na acelerada "Cidade Solar", uma virada vertiginosa para horizontes mais galácticos, um sintetizador cintilante apontando os controles para o coração do cosmos, sem qualquer indício de olhar para trás, para a estrada percorrida. Rodrigues brilha como uma bola de fogo quando impulsionado com combustível extra, mas sem medo de se acomodar numa calma astral, com alguns delicados trechos de piano. O guitarrista tem a oportunidade de curvar os dedos no joystick, ecoando tensamente no silêncio do espaço, uma aventura extraveicular emocionante.

Destacada pela presença de um vibrato mellotron confortavelmente suave, "Universos Paralelos" serve como um breve momento de aceleração, um interlúdio flutuante e reflexivo com o sintetizador de flauta como principal ponto de interesse.

Um final épico pode ser encontrado na espectral «Dentro de Si», tão próximo quanto possível de qualquer expansão Pink Floyd, com seu padrão elementar de baixo e bateria, o tapete de órgão ostensivamente imponente, vocais vagamente nebulosos e o uso diligente de contraste e variação para manter o clima expansivo. Invariavelmente psicodélico e vigoroso, com força suficiente para seduzir até mesmo os momentos mais suaves, o palco está pronto para um solo de guitarra elétrica incrível que usa poucos efeitos, preferindo uma técnica incrivelmente ágil, e então passando o espírito da época para o delirante destaque do órgão de Rodrigues. Quando o baixo retorna ao centro das atenções, a apoteose é alcançada, como uma supernova explosiva que encerra a questão.

Muitos anos se passaram, mas se alguma vez houve necessidade de um segundo álbum surgir do Brasil, este certamente estaria no topo do pódio. 4,5 Sinergias da Ilha




Destaque

Chalk Hands – The Line That Shapes the Coast of Us

  Tentar apresentar e dar significado a um álbum como The Line That Shapes the Coast of Us não é uma tarefa fácil, mas é uma tarefa que ass...