quarta-feira, 24 de junho de 2026

EXTREME - EXTREME (1989)


Extreme é o álbum de estreia da banda norte-americana de mesmo nome, obviamente, a Extreme. Seu lançamento oficial ocorreu em 14 de março de 1989, através do selo A&M Records. As gravações aconteceram durante o ano de 1988 e a produção ficou a cargo de Reinhold Mack e do próprio grupo.

Eis o momento do RAC trazer um post sobre a banda Extreme e seu álbum de estreia. Como de costume, o Blog vai trazer a formação do conjunto para depois se ater ao disco propriamente dito.


Gary Cherone

Gary Francis Caine Cherone nasceu em 1961, crescendo em Malden, estado norte-americano de Massachusetts e frequentou a Malden High School, sendo o terceiro dos cinco irmãos e o mais jovem do gêmeo Greg Cherone.

Em sua adolescência, Cherone começou a cantar em bandas locais e foi fortemente influenciado por Roger Daltrey, do The Who, Steven Tyler, do Aerosmith, e Freddie Mercury, do Queen.

Em 1979, Cherone e o seu amigo baterista Paul Geary, junto ao guitarrista Matt McKay, formaram uma banda de hard rock chamada ‘Adrenalin’, que se apresentava localmente. Em 1981, eles mudaram o nome da banda para ‘The Dream’ e gravaram um EP independente de seis músicas.

Alguns anos depois, Cherone e o The Dream apareceram em um videoclipe produzido por David Horgan, no programa da MTV, Basement Tapes, um programa em que o público-alvo votava (por meio de um número de telefone gratuito) em um dos dois vídeos amadores concorrentes enviados por artistas sem gravadora.

Gary Cherone
O vídeo do The Dream para “Mutha, Don't Wanna Go to School Today” venceu a votação, batendo o então desconhecido Henry Lee Summer por apenas 1% do total de votos.

Nuno Bettencourt

Bettencourt nasceu em 1966, em Praia da Vitória, Terceira, Açores, Portugal.

Quando Nuno tinha quatro anos de idade, sua família, incluindo os irmãos Luís e Roberto, mudou-se para Hudson, no estado norte-americano de Massachusetts. Bettencourt viveu na Main Street, em Hudson, durante vinte e um anos.

Inicialmente, Bettencourt tinha pouco interesse pela música, preferindo passar o tempo jogando hóquei e futebol. Seu primeiro instrumento foi a bateria e a tocou exclusivamente até que seu irmão, Luís, começou a ensinar-lhe guitarra.

Enquanto Bettencourt demorava a adotar o instrumento, sob a tutela de seu irmão, suas habilidades rapidamente se desenvolveram quando ele começou a ser autodidata, e ele mencionou em muitas entrevistas que ‘matava’ muitos dias de escola para praticar mais de sete horas por dia.

Em seus dois primeiros anos do ensino médio, Bettencourt abandonou os esportes para se concentrar em tocar guitarra. Ele acabou abandonando o ensino médio, pelo mesmo motivo.

Nuno Bettencourt
Como guitarrista, uma das primeiras influências de Bettencourt foi Eddie Van Halen. No entanto, como ele desenvolveu seu ofício como guitarrista e compositor, suas influências se expandiram para abraçar os Beatles, o Led Zeppelin, o Prince, entre outros.

Extreme

Em 1985, Cherone e Geary conheceram o guitarrista Nuno Bettencourt e o baixista Pat Badger, em uma briga por um vestiário, mas os rivais logo se tornaram colaboradores e pouco depois o quarteto assumiu o nome Extreme, e começou a escrever seu próprio material.

O guitarrista Nuno Bettencourt estava em uma banda chamada ‘Sinful’, e o baixista Pat Badger estava tocando com um conjunto chamado ‘In The Pink’. Bettencourt se juntou ao grupo em 1985, seguido por Badger, em 1986.

O nome Extreme veio de um jogo com as palavras ‘Ex-Dream’.

Cherone e Bettencourt começaram a compor músicas juntos e a banda se apresentou continuamente na área norte-americana da Nova Inglaterra. O Extreme conquistou um grande número de seguidores regionais e foi chamado de "Outstanding Hard Rock Heavy Metal Act", no Boston Music Awards, em 1986 e 1987.

A banda acumulou várias músicas originais quando Bryan Huttenhower, diretor da gravadora A&R, os contratou em 1987 (que logo foi vendida para a PolyGram em 1988).

O álbum de estreia

O disco de estreia da banda foi gravado em 1988, sob produção de Reinhold Mack e do próprio conjunto, sendo lançado pela A&M Records, em 14 de março de 1989.

Vamos às faixas:

LITTLE GIRLS

A gaita tocada por Rapheal May introduz de modo eficiente a envolvente "Little Girls", uma faixa mais cadenciada, embora pesada, mas que possui um toque Hip hop nos vocais de Cherone e a guitarra de Bettencourt bem agressiva.

A letra é sobre amores de juventude:

Some they say I'm too old for her
Old enough to be her father
Incestual blood is thicker than water
Do what's right not morally wrong
Flesh and blood can only be so strong
And it's my god not yours I'll have to answer


A música foi lançada como single, mas não teve maior repercussão em termos de paradas de sucesso.



WIND ME UP

"Wind Me Up" é mais efetiva em seguir o padrão do Glam Metal, com uma melodia mais leve e guitarras de fundo com alguma agressividade. Bons vocais de Cherone e um trabalho competente de Geary complementam a canção.

A letra tem conotação sexual:

Wind me up that's all you do
Wind me up and leave me blue
I'd like to see if you could be
Kind enough to me when you
Wind me up



KID EGO

Bettencourt traz um ótimo riff, com bastante pegada e muito peso em "Kid Ego", uma das músicas mais agressivas do disco. A abordagem sonora é mesmo bem próxima ao Heavy Metal e a banda capricha em um refrão simples, mas contagiante. Sem dúvidas, um dos melhores momentos do álbum de estreia do Extreme.

A letra fala sobre um jovem sem modéstia:

We think your head is getting
Bigger and bigger and bigger
We think you should be taught
Some manners, manners, manners


A faixa foi lançada como single e também não obteve maior repercussão.



WATCHING, WAITING

A seção rítmica constrói uma boa base para "Watching, Waiting", uma composição que se configura como uma 'power ballad'. Os backing vocals são bem eficientes, mas a música não chega a deslanchar.

A letra fala sobre perdão:

Three hours have gone by
We start to question why
Darkness falls in finding out
Why you must die
We can no longer see the Son
The three untie into one
Please forgive us Father
We know not what we've done



MUTHA (DON’T WANNA GO TO SCHOOL TODAY)

Bettencourt demonstra parte de suas habilidades nesta faixa, um típico Glam Metal, ou seja, uma composição que mistura doses precisas de peso e uma melodia maliciosa.

A letra é simples, com dilemas da juventude:

The teacher's always looking down
With her disappointed frown
Asking me to go sleep somewhere else

Esta foi mais uma canção lançada como single e que não causou nenhum tipo de repercussão.



TEACHER’S PET

A inspirada "Teacher's Pet" é um belo exemplar da época em que foi criada, em outras palavras, possui a cara do Hard festeiro dos anos 80.

A letra é sobre um estudante fascinado pela professora:

School boy fantasy
Lose control
Of all my faculties
Student body graduated
At the highest degree



BIG BOYS DON’T CRY

"Big Boys Don't Cry" tem uma pegada mais suja e maliciosa, sendo bem inspirada na sonoridade do Mötley Crüe. As guitarras são bem colocadas, os backing vocals funcionam precisamente e a bateria é parte fundamental da musicalidade.

A letra é em tom emotivo:

Hey, I'm not ashamed
To say a tear
Is in my eye
Because another tear
Will take its place
Before I die



SMOKE SIGNALS

"Smoke Signals" é um bom exemplo de Hard Rock com uma ótima pegada Bluesy e, ao mesmo tempo, influência do Van Halen setentista. O jeito despojado e até descompromissado da composição diverte bastante.

A letra é sobre a relação de pais e filhos:

Surgeon General's warning
Don't you drink and drive
Saying no to drugs
Hazardous to your health



FLESH ‘N’ BLOOD

"Flesh 'n' Blood" é mais direta, com boa dose de peso, embora com o andamento não muito veloz. Os vocais de Cherone são os destaques.

A letra tem teor sexual:

I wanna eat your body
Eat your body
Naughty, Naughty ,Naughty
Talkin' 'bout your body
Flesh, blood
I think I'm in love
Naughty, Naughty,Naughty
Eating up your body



ROCK A BYE BYE

Esta composição é bem mais contida e com aspecto tocante, contando com Bettencourt ao piano, coro de vozes e alguma orquestração, com referências de Queen. Em sua segunda metade, um grande solo de Nuno à guitarra.

A letra é muito simples:

Rock a bye, baby
On the tree top
When the bough breaks
The cradle will rock



PLAY WITH ME

A décima-primeira - e última - faixa de Extreme é "Play with Me". Trata-se de uma canção que não inventa muito, flertando com o Heavy Metal, pois é direta, rápida e pesada, encerrando o trabalho com a energia em alta.

A letra é sobre juventude:

Jack and suzi sittin' in a tree
K-I-s-s-I-n-g
First comes love
Then comes marriage
Then comes adam
In a baby carriage

“Play with Me” é uma das mais famosas canções do Extreme.

A faixa foi lançada como single, embora não tenha repercutido em termos de paradas de sucesso desta natureza.

A música está presente no filme Bill & Ted's Excellent Adventure, de 1989, dirigido por Stephen Herek e estrelado por Keanu Reeves. Também é encontrada nos games Guitar Hero Encore: Rocks the 80s e Guitar Hero: Smash Hits.



Considerações Finais

O álbum Extreme esteve bem longe de ser um grande sucesso comercial.

O disco atingiu a modesta 80ª colocação da principal parada norte-americana desta natureza, a Billboard, conquistando a 97ª posição de sua correspondente australiana.

Stephen Thomas Erlewine, do site AllMusic, dá ao trabalho uma nota 3 (de 5), resumindo: “O primeiro álbum do Extreme mostra a banda lutando para perder suas influências, particularmente o Van Halen, e desenvolver um estilo próprio; consequentemente, é descontroladamente desigual, mas o guitarrista Nuno Bettencourt sempre vale a pena ouvir”.

Cristopher Thelen, do site Daily Vault, trata o disco da seguinte forma: “Apesar de todas as fraquezas, Extreme oferece algumas performances e esforços de alto calibre. “Kid Ego”, a música que primeiro acordou as pessoas para essa banda, tem o talento que poderia facilmente ter feito dela um single de sucesso, e oferece um vislumbre da veia que eles seguiriam em canções como “Decadence Dance”(...)”.

Por fim, Thelen completa: “Extreme é o tipo de álbum que você ocasionalmente ouve para lembrar a si mesmo quem eram esses caras antes que eles acertassem o grande momento - e caírem no chão pouco depois”.

As vendas do primeiro disco do Extreme foram suficientes para suportar um segundo lançamento.

Michael Wagener, que já havia trabalhado com Dokken e White Lion, foi contratado para produzir o segundo álbum da banda, Extreme II: Pornograffitti, de 1990.


Formação:
Pat Badger - Baixo, Backing Vocals
Nuno Bettencourt - Guitarra, Sintetizador, Piano, Backing Vocals, Percussão e Orquestração
Gary Cherone - Vocal
Paul Geary - Bateria, Percussão, Backing Vocals

Faixas:
01. Little Girls (Bettencourt/Cherone) – 3:47
02. Wind Me Up (Bettencourt/Cherone) – 3:37
03. Kid Ego (Bettencourt/Cherone) – 4:04
04. Watching, Waiting (Bettencourt/Cherone) – 4:54
05. Mutha (Don't Wanna Go to School Today) (Cherone/LeBeau/Hunt) – 4:52
06. Teacher's Pet (Bettencourt/Cherone) – 3:02
07. Big Boys Don't Cry (Bettencourt/Cherone) – 3:34
08. Smoke Signals (Bettencourt/Cherone) – 4:14
09. Flesh 'n' Blood (Bettencourt/Cherone) – 3:31
10. Rock a Bye Bye (Bettencourt/Cherone) – 5:57
11. Play with Me (Bettencourt/Cherone) – 3:29

Letras:
Para o conteúdo completo das letras, recomenda-se o acesso a: https://www.letras.mus.br/extreme/

Opinião do Blog:
O RAC traz mais uma banda que batalhou na extensiva cena Glam Metal: o Extreme.

O grupo norte-americano possuía talentos para se destacar. A seção rítmica era bem formada pelo baixista Pat Badger e o baterista Paul Geary. O bom vocalista Gary Cherone possuía carisma e voz agradável, mas, verdadeiramente, o guitarrista Nuno Bettencourt é quem merece todos os destaques dentro do conjunto.

A autointitulada estreia do grupo, Extreme, já surgiu quando o Glam Metal começava a fazer água, ou seja, poucos instantes antes de seu ocaso. Desta maneira, o pouco sucesso comercial é explicável também por este fato.

Ademais, Extreme é um disco irregular. Ele revela que o grupo bebeu em boas fontes, notavelmente o Van Halen, mas também o Mötley Crüe, a grande referência em termos de Glam Metal. No entanto, a banda ainda buscava maturidade e uma mais contundente identidade musical.

O álbum apresenta faixas mais pesadas, boas e intensas como "Play With Me", "Mutha (Don't Wanna Go to School Today)" e a bluesy "Smoke Signals", além de "Kid Ego", de longe, a melhor do trabalho.

Ao mesmo tempo, algumas canções carecem de melhor tratamento como "Watching, Waiting" e "Wind Me Up", as quais se configuram mais genéricas.

Entretanto, e concluindo, Extreme é uma fiel amostra da época em que foi concebido, refletindo um grupo que ainda teria que caminhar para o sucesso - o qual chegaria em Extreme II: Pornograffitti. Mesmo assim, é um trabalho indicado para fãs deste tipo de sonoridade e que pode gerar momentos divertidos afinal o Extreme possuía um guitarrista acima da média na figura de Nuno Bettencourt.



Summer Nights - John Travolta & Olivia Newton-John

 


"Summer Nights" , interpretada por John Travolta (como "Danny Zuko") e Olivia Newton-John (como "Sandy Olsson") como parte da trilha sonora do filme musical "Grease" (1978) , é um clássico do amor juvenil e da nostalgia do verão, e uma das canções mais emblemáticas do cinema musical americano.

A canção é estruturada como um diálogo musical entre Danny e Sandy, que narram seu romance de verão para seus respectivos grupos de amigos. O que é realmente intrigante na música é que cada um oferece uma versão diferente dos mesmos eventos: Danny exagera seu papel de mulherengo para impressionar os amigos, enquanto Sandy descreve uma história mais doce e romântica. Essa dualidade funciona perfeitamente como um contraste entre os versos mais travessos de Travolta e o romantismo da voz poderosa de Newton-John .

Musicalmente, “Summer Nights” é rítmica e cativante, repleta de vocais de apoio entusiasmados de ambos os grupos de amigos e ostentando uma melodia instantaneamente reconhecível desde o primeiro minuto, convidando você a cantar junto. O refrão  “ Tell me more, tell me more ” é tão teatral quanto irresistível, e os coros “Ah, ah, ah, ah” dão vontade de cantar e dançar em qualquer festa, enquanto, ao mesmo tempo, a música carrega uma forte sensação de nostalgia dos anos 1950.

Nenhuma outra canção capturou tão claramente aquele sentimento de nostalgia por um amor de verão passageiro, e o tema adolescente do filme, apesar de ser claramente baseado nas roupas e costumes da década de 1950, fez de "Summer Nights" uma canção praticamente atemporal, que manteve sua popularidade intacta até hoje, mesmo após ter sido regravada, parodiada e homenageada à exaustão.



I Wanna Be Sedated - Ramones

 

Eu quero namorar, Ramones

      Vista sua jaqueta de couro, cuspa no chão e aumente o volume até seus ouvidos sangrarem! " I Wanna Be Sedated", dos Ramones , foi lançada em 1978 no álbum * Road to Ruin*. A música é uma bomba punk que explode sua mente e te faz querer mandar todo mundo se foder. Ela não pede permissão, não se curva a ninguém: é um grito cru, um soco na cara do cansaço, do tédio e da rotina diária.

Joey Ramone vomitou essa música por pura frustração de estar preso na estrada, com a mente à beira de explodir. Gravada no Media Sound Studios , com produção de Tommy Ramone e Ed Stasium , foi lançada como single em outubro de 1978. Sucesso comercial? Os Ramones não davam a mínima; eles queriam incendiar o sistema. Em 2 minutos e 29 segundos, eles te atingem com um riff que perfura seu crânio, uma bateria que soa como uma britadeira e Joey berrando: "Me sedem, eu não aguento mais!". É punk puro, sem frescuras nem floreios.

A letra surgiu de um momento de pura exasperação: os Ramones estavam presos em Londres no Natal de 1977, com tudo fechado e a loucura os consumindo em um hotel decadente. Joey , com sua ansiedade no auge e sua aura de desajustado, cuspiu versos como "Vinte, vinte, vinte e quatro horas para ir / Eu quero ser sedado ". É um grito contra o tédio, um soco no estômago quando você quer desligar o cérebro em um mundo que te esmaga. A música foi lançada como um single de vinil de 7 polegadas, com o lado A contendo "I Wanna Be Sedated " e o lado B contendo " The Return of Jackie and Judy", pela gravadora Sire Records. A capa é um soco visual, sem qualquer sentimentalismo, apenas os Ramones com seu visual e atitude desleixados.

A música é simples e direta, porém letal: três acordes que penetram em você, um riff que frita seu cérebro e uma produção mais limpa que a dos álbuns anteriores, mas igualmente selvagem. A bateria é um trem desgovernado e a guitarra corta como vidro estilhaçado. Joey canta como se estivesse prestes a explodir, meio vulnerável, meio "Eu não dou a mínima para nada " . "I Wanna Be Sedated " é a alma do punk: crua, urgente, sem paciência para rodeios ou bobagens; é o hino daqueles que não se encaixam, daqueles que preferem destruir o mundo a lamber botas. A música se tornou um marco para todos, dos Sex Pistols ao Green Day, e pode ser encontrada em filmes, videogames e até comerciais, mas nunca perde sua essência. É o som daqueles que estão fartos e precisam extravasar.



The Koln Concert - Keith Jarrett

 

O disco mais empolgante e improvável que já ouvi foi gravado há 50 anos, em uma apresentação especial na Ópera de Colônia, para uma plateia lotada de jovens, já que poucos dos 1.400 jovens alemães presentes em 24 de janeiro de 1975 eram frequentadores assíduos. Eles tinham ido naquela noite para ouvir algo ainda mais incomum e menos comercial: uma improvisação solo de piano de uma hora de duração por Keith Jarrett, um jovem de 29 anos da Pensilvânia. Você pode achar que 60 minutos de improvisação ininterrupta soam indulgentes e esotéricos, caso em que você nunca ouviu The Köln Concert, o LP duplo do show lançado ainda naquele ano; você pode achar que um álbum de jazz ao vivo inteiramente improvisado por um único músico deve ter sido, na melhor das hipóteses, um objeto de culto, caso em que você pode se surpreender ao saber que isso fez de Jarrett uma das estrelas pop menos prováveis ​​da história; Até hoje, estima-se que tenha vendido 3,5 milhões de cópias, colocando-o ao lado de Kind of Blue, de Miles Davis, como um dos álbuns de jazz mais populares de todos os tempos. Nas palavras do The Guardian, "Seus concertos começaram a se assemelhar a rituais religiosos, frequentados por multidões de devotos para quem sua música tinha um poder meditativo, espiritual e transformador". Isso foi em meados da década de 70, uma época turbulenta. Quando chegou a Colônia, Jarrett era um jovem, mas já experiente músico, com quase uma década de experiência profissional criando jazz. Ele havia tocado piano para o saxofonista Charles Lloyd antes de se juntar à banda de Miles Davis em 1970 e passar para os teclados. Essa foi uma época particularmente tumultuada para Davis: sua música havia se tornado incrivelmente densa, expansiva e rítmica, com canções que frequentemente se estendiam por quase meia hora e apresentavam vários bateristas e baixistas. Mas Jarrett, um sujeito inquieto e um prodígio musical, precisava de mais espaço para expressão do que aquele furacão lhe permitia.

Ele deixou o grupo em dezembro de 1971 e logo foi contatado por Manfred Eicher, um alemão que havia fundado recentemente sua própria gravadora, a ECM Records. Eicher atraiu Jarrett com a promessa de total liberdade artística, e o pianista concordou, entregando uma gravação de estúdio, Facing You, composta por improvisações solo. No extremo oposto da cacofonia de Davis, essa performance era belamente limpa, direta e acústica — tão acessível quanto o pop, sem a bajulação ao público do rock que caracterizava muitos grupos de fusion da época. O disco obteve um sucesso moderado, principalmente entre os aficionados por jazz, e Eicher decidiu levar Jarrett em turnê. A Europa era, em muitos aspectos, um público mais receptivo aos músicos de jazz do que os Estados Unidos naquela época; enquanto o número de clubes de jazz nos EUA diminuía ao longo da década de 1960, a música era ostentada pelos europeus mais jovens como um símbolo revolucionário. Artistas de todo o continente, como o polonês Tomasz Stanko e o norueguês Jan Garbarek, impregnaram o jazz com novas tonalidades que se distanciavam bastante do blues, do bebop ou das abordagens modais mais suaves desenvolvidas nos EUA. Mas o público europeu também ansiava por artistas americanos, e Jarrett era uma figura conhecida, tendo realizado extensas turnês internacionais como membro das bandas de Lloyd e Davis. Eicher o introduziu em um circuito regular de mercados europeus sempre que sua agenda permitia, e Jarrett desenvolveu seu estilo totalmente improvisacional em lugares como Bergamo, Berna, Genebra e Molde. Na maioria das noites, ele tocava dois movimentos de meia hora seguidos por um bis de cinco minutos; uma apresentação típica transitava entre extensas passagens rítmicas, quase gospel, e seções líricas e baladas, frequentemente desviando-se para momentos mais livres e atonais ao longo do caminho. Jarrett tornou-se um fenômeno, tanto pela audácia de seu método quanto pela singularidade de sua presença de palco. Ele frequentemente parecia mais um ginasta do que um pianista: em pé, contorcendo os braços descontroladamente, respirando pesadamente e cantando junto com suas melodias. Seus concertos eram proezas de resistência atlética e criativa, mas também continham um profundo componente espiritual, como Jarrett deixou claro nas notas do encarte de sua primeira gravação ao vivo com a ECM: “Não acredito que eu possa criar, mas acredito que sou um canal para a Criatividade. Acredito no Criador e, portanto, na verdade, este é o álbum dele, através de mim, para vocês, com o mínimo de intermediários possível neste mundo dominado pela mídia.” Esse tipo de jargão vago de psicologia religiosa e ceticismo pop provavelmente se encaixa bem na sua concepção de 1973, o auge da Mother Earth News, dos Sabonetes Mágicos do Dr. Bronner e dos movimentos de retorno à natureza e vida comunitária. Em poucos anos, a revista DownBeat descreveria as seções monótonas e meditativas de Jarrett como “mandalas sonoras”.enquanto a Melody Maker sugeria que sua música transmitia uma vibe de "mãos juntas e caftãs".

Em resumo, o mundo estava pronto para o Concerto de Colônia, ou pelo menos mais pronto do que se poderia imaginar. Certamente, a atmosfera era propícia a tal fervor na própria casa de ópera, onde Jarrett se apresentaria no quinto show da chamada série Jazz em Colônia, organizada por uma jovem entusiasta chamada Vera Brandes. Vendendo ingressos por apenas quatro marcos alemães cada, Brandes garantiu casa cheia, com quase todos os presentes tendo a mesma idade de Jarrett. Por sua vez, ele subiu ao palco parecendo "ter acabado de sair do musical Hair", como um espectador comentou recentemente à BBC. Jarrett estava com sono atrasado e estressado naquela noite, e seu humor só piorou pelo fato de a casa de ópera ter lhe fornecido um piano relativamente pequeno e mal afinado em vez do piano de cauda Bösendorfer que ele havia solicitado. Mesmo após uma afinação de emergência, o instrumento, segundo relatos, soava como um brinquedo, com agudos estridentes e pouca projeção nos registros graves. No álbum, após passar por dois microfones, o piano adquire um som quase sobrenatural, como se tivesse cinco andares de altura e fosse feito de vidro. Jarrett o toca com mais força do que em suas outras gravações solo, golpeando as teclas e se limitando principalmente ao registro médio, talvez por frustração. "O que aconteceu com esse piano foi que fui forçado a tocar de uma maneira que, na época, era nova", explicou ele anos depois. "De certa forma, senti que precisava explorar todas as qualidades que esse instrumento tinha."


Tudo isso é história e contexto, mas como álbum, The Köln Concert dissolve tudo isso, vaporiza tudo: como música pura, existe além do tempo e do espaço. É um produto perfeito da crueza e da pegada stoner dos anos 70, mas soa completamente moderno agora e ainda soará assim daqui a 40 anos. Como tudo que a ECM lança, soa um tanto clínico, à maneira europeia, mas a imaginação musical de Jarrett é inegavelmente americana, abrangendo funk, blues e baladas pop. Concordo com a afirmação de Geoff Dyer: "Quando Jarrett está no seu melhor, fragmentos de todos os tipos de música fluem por sua obra, mas nunca há uma sensação de tensão, de um esforço consciente para combinar essas influências díspares." Isso é o mais perto que se pode chegar de ouvir um gênio pensar. Ideias se constroem e se transformam, e Jarrett é um instrumentista tão incrivelmente talentoso que parece não haver distância entre seu cérebro e seus dedos. Mas que coisa maravilhosa e estranha é que um artista como esse tenha se tornado tão popular, mesmo que por um instante, aceito por pessoas como meu pai, que mal se interessavam por jazz. Descobri Köln no porão de casa, entre os LPs antigos do meu pai, entre Ten Years After, Grin e Mountain. Eu era adolescente, intrigado pela capa discreta do álbum e curioso para saber como meu pai podia gostar de algo tão new age. Quando o ouço agora, tenho a mesma sensação da primeira vez: me sinto mais forte, mais inteligente, mais inspirado. Funciona quando estou triste, quando estou feliz, quando estou dirigindo ou quando estou pegando no sono.

Sinceramente, não consigo fazer uma análise faixa por faixa como costumo fazer, porque não havia uma intenção específica por trás dessas músicas. Este álbum é mais a experiência de um músico verdadeiramente sábio que domina seu instrumento completamente, mais do que quase qualquer outro. É como ouvir Charlie Parker ou Sonny Rollins no saxofone, ou Hendrix ou Tosin Abasi na guitarra. É realmente uma das performances musicais mais incríveis que já ouvi e está entre os dois ou três melhores álbuns ao vivo que já escutei. Ele simplesmente improvisa sobre longos ritmos, tão bem quanto os que você ouvirá em qualquer um dos álbuns de jazz mais aclamados pela crítica de todos os tempos. Recomendo que qualquer pessoa que goste deste álbum procure vídeos dele improvisando. Mais do que com qualquer outro músico que eu já tenha visto, a música parece fluir dele com uma naturalidade absurda. É uma das coisas mais incríveis que já vi. Um dos meus aspectos favoritos deste álbum é como ele conseguiu um contraste tão grande entre as duas músicas: a primeira, uma peça longa e leve que me faz imaginar sendo apresentada em uma turnê celestial. É tão lindamente executada e tem seções repetidas que são verdadeiramente viciantes. A segunda peça é muito mais vigorosa e te faz querer se mexer de uma forma incrível. Eu realmente não consigo pensar em uma comparação para o que eu imagino que essa faixa seria usada, e tentei por uns 15 minutos. É uma experiência completamente única e incrivelmente bem elaborada, com esses grandes momentos de intensidade justapostos a seções mais lentas e emotivas. Posso preferir a música de outros pianistas de jazz como Herbie Hancock, Thelonious Monk ou Bill Evans, mas quando falamos em termos de talento e habilidade, acho que Jarrett está confortavelmente entre os dois ou três melhores. Ele toca como se fosse a própria respiração, e a maneira como ele toca chega a ser quase espiritual. 

Em suma, este é facilmente um dos melhores álbuns de jazz de todos os tempos e um dos melhores álbuns ao vivo de todos os tempos. Para mim, "The Köln Concert" representa uma mudança bem-vinda em relação à música da sua época. Jarrett o gravou quando o fusion estava em voga. Esse jazz-rock estridente e agressivo tem seus fãs; acerta em cheio, mas sempre pende para o otimismo e a vivacidade. 



An American Prayer - The Doors

 


O álbum "An American Prayer" é uma obra singular no repertório do The Doors . Lançado em 1978, sete anos após a morte de seu icônico vocalista  Jim Morrison , representa uma interessante fusão entre poesia falada e o blues-rock característico do grupo californiano, um verdadeiro experimento artístico que transcende os limites convencionais do gênero musical para se tornar uma experiência sensorial e filosófica.

A faixa-título incorpora perfeitamente esse conceito de poesia recitada por Jim Morrison , acompanhada pela música dos membros remanescentes da banda. A gravação original da voz de Morrison data de 1969, quando o cantor gravou uma série de poemas em um estúdio de Los Angeles. Desde o primeiro verso, a canção se apresenta como uma oração moderna, uma invocação carregada de crítica social, existencialismo e simbolismo. Morrison questiona os rumos da sociedade americana, sugere uma desconexão entre a humanidade e a natureza e denuncia a corrupção das estruturas de poder.

"An American Prayer" é também uma reflexão profunda e introspectiva sobre a morte, a espiritualidade e o propósito da vida. Em uma de suas passagens mais memoráveis, sugere que a morte nos dá "asas onde tínhamos ombros ", uma poderosa metáfora para transformação e transcendência, que a banda preenche com um acompanhamento musical atmosférico e envolvente, marcado pelos teclados etéreos de Ray Manzarek , a guitarra suave de Robby Krieger e a percussão sutil de John Densmore . Não é uma música que você ouviria no rádio ou incluiria em uma  playlist típica de Morrison  , mas é um grande testemunho artístico do trabalho de um poeta que se tornou cantor, uma joia tão peculiar quanto brilhante, altamente valorizada pelos fãs de Jim Morrison e The Doors.



A Feast of Friends - The Doors

 


"A Feast of Friends" é uma das composições mais enigmáticas e poéticas do The Doors , incluída no álbum póstumo "An American Prayer" (1978) , onde os membros remanescentes da banda musicaram gravações de poesias recitadas por Jim Morrison . Esta peça, com pouco mais de dois minutos de duração, condensa em sua brevidade um peso simbólico e emocional que a torna uma das expressões mais puras do espírito artístico de Morrison .

A canção não segue uma estrutura musical convencional, pois, em vez de apresentar versos e refrões, encontramos uma narrativa poética, uma espécie de oração ou manifesto existencial recitado por Jim Morrison  com sua voz característica, profunda e pausada, enquanto a música etérea, atmosférica e quase cinematográfica o envolve e serve de pano de fundo para o drama e a intensidade das palavras.

“A Feast of Friends” é uma meditação sobre a vida, a morte, a liberdade e a rebeldia contra as normas sociais. Compartilha com  “An American Prayer ”, a faixa-título do álbum, o tema central da morte, mas em  “A Feast of Friends” não se trata de um fim trágico, e sim de uma transformação libertadora que chega “sem aviso prévio” e transforma as pessoas em “anjos”.  O título (“A Feast of Friends”) descreve como deveria ser esse grande final: uma celebração íntima entre almas gêmeas que se conheceram em vida ( “Prefiro um banquete de amigos a uma grande família”).



She's the One - Ramones

 

Ela é a escolhida, Ramones

     Em 1978, os Ramones lançaram Road to Ruin , seu quarto álbum de estúdio, e com ele, a canção "She's the One ", uma faixa crua, direta e romântica. O álbum foi uma tentativa de evoluir para um som mais acessível. A canção, escrita por Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy Ramone , tornou-se um reflexo do amor deles pelo pop dos anos 60, misturado com a energia desenfreada que os caracterizava. Essa canção é um exemplo claro da disposição do grupo em experimentar sem trair suas raízes.

O álbum marcou uma virada para a banda: Tommy Ramone , exausto das turnês, abandonou a bateria para se concentrar na produção, e Marky Ramone , ex-integrante do Richard Hell and the Voidoids , assumiu o posto. Essa mudança trouxe um toque de sofisticação técnica ao seu som, embora "She's the One" mantenha a simplicidade estrutural do punk. A música, com seu ritmo acelerado e duração de pouco mais de dois minutos, incorpora a urgência juvenil que os Ramones sempre defenderam. As canções deste álbum, incluindo "She's the One ", adotaram arranjos mais elaborados, mas sem perder a energia bruta que as tornava únicas. Era como se os Ramones , cientes das baixas vendas de *Rocket to Russia* , quisessem atrair um público mais amplo sem sacrificar sua identidade.

Este é um hino ao amor idealizado, uma constante no repertório dos Ramones . A canção contém aquela mistura de romantismo adolescente e atitude punk que os tornou tão autênticos. Versos como "Ela é a única, ela é a única que eu quero" são diretos, quase ingênuos, mas cantados por Joey com uma convicção e atitude que os elevam a outro patamar. Sua voz, sempre nasal e transbordando emoção, parece confessar uma paixão eterna enquanto os acordes de Johnny Ramone ressoam . Não há espaço para floreios: cru e direto. Foi lançada como single em 1978, frequentemente combinada estrategicamente com "I Wanna Be Sedated" no lado B, tornando-se uma faixa fundamental para a promoção do álbum.

A letra é simples, desprovida de grandes metáforas ou complexidade poética; os Ramones não pretendiam ser como Dylan, queriam que o ouvinte sentisse a mesma emoção que eles sentiam ao imaginar aquela pessoa especial. A canção contém influências dos anos sessenta, como grupos femininos e o pop dos Byrds , refletidas em sua melodia cativante, mas com o riff afiado de suas guitarras punk. É como se os Ramones , de seu pequeno universo no Queens , sonhassem com um amor cinematográfico, mas o gritassem de uma garagem.


Destaque

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