Cluster II é o segundo álbum completo do grupo alemão de música eletrônica Cluster e o primeiro com a banda reduzida a um duo. Conny Plank, que era creditado como membro no primeiro álbum, decidiu se concentrar na produção e engenharia de som. Plank ainda é creditado como compositor, juntamente com Hans-Joachim Roedelius e Dieter Moebius, em todas as faixas.
Cluster II foi gravado no Star-Studio em Hamburgo, Alemanha, em janeiro de 1972. Foi o primeiro lançamento do Cluster pela lendária gravadora de Krautrock Brain Records, uma parceria que duraria até 1975 e incluiria o álbum subsequente, Zuckerzeit, bem como os dois primeiros álbuns do Harmonia, grupo que contava com os dois membros remanescentes do Cluster e Michael Rother, do Neu!.
Cluster II deu continuidade à transição do som dissonante e protoindustrial do Kluster para um som mais eletrônico. Foi o primeiro álbum a apresentar faixas relativamente curtas e o primeiro em que as faixas receberam nomes. 5 estrelas Este álbum encerra as primeiras experimentações radicais de Moebius & Roedelius em música eletrônica e trabalhos com guitarra/órgão. As composições são sempre feitas de padrões repetitivos, motivos simples, ruidosos e cerebrais. No entanto, apresenta uma melhor implicação em termos de "estruturas". Os exercícios eletrônicos são mais curtos e mais controlados. O álbum começa com uma música atmosférica que te envolve, depois introduz uma linha contínua de órgão com "tons" eletrônicos estáticos perpétuos e distorção de guitarra. Essa música pode evocar a unidade da percepção. "Im Suden" utiliza um pulso eletrônico hipnótico de baixo/padrões de guitarra para produzir alucinações nos ouvidos. Gradualmente, alterna o nível sonoro de cada parte. Música cerebral fascinante e visceral. "Für Die Katz" combina sons elétricos modulados com muitos ruídos e efeitos eletrônicos ao fundo. A atmosfera resultante é muito sinistra, calibrada para uma verdadeira descarga de intensidade. "Live In Der Fabrik" é composta por um som elétrico repetitivo, concêntrico e duplicado, com uma espécie de som de baixo elétrico abstrato. Muito industrial e caótico. Também podemos ouvir harmonias de frequência moduladas e feedback no espaço da performance. "Georgel" é uma obra sombria e assombrosa para órgão, que se move irrevogavelmente para uma série de tons pulsantes e mutáveis. Uma meditação sonora, uma agradável massagem cerebral. Um dos álbuns mais incríveis e estimulantes que já ouvi.
Lista de faixas
1. Plas (6:16) 2. Im Suden (12:50) 3. Fur Die Katz (3:05) 4. Live In Der Fabrik (14:41) 5. Georgel (5:37) 6. Nabitte (2:40)
Depois de todos esses anos, eu ainda não tinha ouvido QE2 do Mike Oldfield. Quando me formei na faculdade, já tinha ouvido todos os outros álbuns dele, exceto Platinum. Este último é o que mais se aproxima de QE2. Embora eu goste bastante dos dois trabalhos seguintes do Oldfield, Five Miles Out e Crises, ambos também uma mistura de faixas longas e curtas, não percebo o mesmo tipo de composição inspirada em QE2, algo semelhante à minha reação com Platinum. Bom, agora eu ouvi e completei minha maratona de Oldfield. Mas preciso revisitar Incantations, que está na minha caixa de audição há uns três anos.
Ommadawn (1975)
Mais um daqueles discos que tenho desde sempre (desde a minha época, claro...). Este é um daqueles álbuns que fico esperando que evolua, mas nunca chega lá. Aqui, Oldfield explora temas familiares da paisagem rural inglesa e celta, semelhantes aos de Hergest Ridge, com uma única faixa ocupando os dois lados do disco, mas falta-lhe o clímax arrebatador daquele álbum. Mesmo assim, um LP excelente.
Five Miles Out (1982)
No ano passado, escrevi o seguinte sobre minha redescoberta de Crises (editado para maior relevância):
Na faculdade, eu estava numa fase Mike Oldfield, e este era o álbum mais recente dele na época... Naquele tempo, eu estava procurando cada vez mais rock progressivo underground, e Crises, para mim, era apenas metade de um álbum. Eventualmente, me desfiz dele. Ao readquirir o LP, eu poderia quase argumentar a mesma coisa – exceto que a metade que mais gosto hoje são as 6 faixas que compõem o Lado 1. Aliás, depois de absorver o álbum com 3 audições seguidas, eu poderia ser convencido a adicionar Crises à minha coleção X-Wave em vez de rock progressivo. Claro, Oldfield é considerado realeza do rock progressivo e convidou muitos músicos para este álbum, a maioria desse meio... No geral, isso resultou em mais 3 audições. Tenho certeza de que não demorará muito para eu encontrar Five Miles Out...
Crises (1983)
Na faculdade, eu estava numa fase Mike Oldfield, e este era o álbum mais recente dele na época, embora talvez Discovery tivesse acabado de ser lançado, não me lembro ao certo. Naquela época, eu estava procurando cada vez mais rock progressivo underground, e Crises, para mim, era apenas metade de um álbum. Eventualmente, me desfiz dele. Ao readquirir o LP, eu poderia quase argumentar a mesma coisa – exceto que a metade que mais gosto hoje são as seis faixas (veja abaixo para mais detalhes) que compõem o Lado 1. Aliás, depois de ouvir o álbum três vezes seguidas, eu poderia ser convencido a adicionar Crises à minha coleção X-Wave em vez de rock progressivo. Claro, Oldfield é considerado realeza do rock progressivo e convidou muitos artistas para este álbum, a maioria desse meio. Acho que a melhor faixa aqui é a extremamente cativante "Foreign Affair", seguida de perto por "In High Places". Em relação a esta última, este é o tipo de arranjo que melhor destaca a voz de Jon Anderson. E sim, o lado A possui uma forte presença de rock progressivo. No geral, isso resultou na minha segunda audição +3 do ano (veja Faithful Breath). Tenho certeza de que não demorará muito para eu encontrar Five Miles Out (e encontrei).
Hergest Ridge (1974)
Eu estava na faculdade quando o CD chegou ao mercado. Mas, claro, assim como os computadores pessoais da época, eles eram proibitivamente caros para nós, estudantes pobres. Só dava para olhar para aquelas "caixas compridas" e sonhar com uma experiência sem arranhões ou ruídos. Que ironia de hoje, quando todo mundo quer esses sons. Assim como muitos querem sua cerveja turva, depois de séculos aprendendo a purificar melhor a bebida. É um mundo que enlouqueceu.
Sem muita escolha, continuei com os discos de vinil porque era tudo o que eu podia pagar (mesmo naquela época eu não gostava de fitas cassete – outro formato que voltou à moda. Estou ficando louco, viu...). Então, em 1984, com apenas 19 anos e completamente sem dinheiro, comprei, obedientemente, minha edição americana usada e arranhada do álbum Hergest Ridge, da Virgin, por 1 dólar em uma loja local. Pois é, não eram apenas discos usados, mas também não eram necessariamente cópias em bom estado. As melhores custavam 4 dólares! Eu não tinha dinheiro para isso. Então eu levava o vinil para casa, colocava no aparelho de som vagabundo do meu colega de quarto, com uma agulha vagabunda, e tocava sem parar. Mais feliz que pinto no lixo.
Dois anos depois, consegui um estágio de verão em uma grande empresa de defesa. Estava ganhando rios de dinheiro (relativamente falando, claro) pela primeira vez na vida. Então fiz o que qualquer outro jovem de 21 anos recém-chegado à riqueza faria: comprei um aparelho de som bacana! Com um toca-CDs – uau, estou rico! E os dois primeiros CDs que comprei foram Meddle, do Pink Floyd, e Green Desert, do Tangerine Dream. Histórias para outro dia (e já contadas). Mas, caramba, CDs novos eram caros naquela época. Mas aí surgiu o crescente mercado de CDs usados (também não era barato, mas era melhor)...
Trago essa história para a resenha de Hergest Ridge porque esse foi o primeiro CD usado que comprei para substituir um LP surrado, iniciando uma tendência que continuou por anos. E sem nenhum arrependimento. Como mencionei acima, não tínhamos cópias impecáveis em vinil de 180 gramas como hoje. De jeito nenhum! Tínhamos apenas cópias velhas e usadas, arranhadas, de discos que provavelmente acabariam no lixo anos depois. E naquela época, até os álbuns novos eram reimpressões baratas dos anos 80 – novamente, daquelas bem comuns. Qualquer importação cara eu teria guardado em LP. E, para os meus ouvidos, este CD soava MUITO melhor do que meus antigos vinis!
Quanto à música, Hergest Ridge continua sendo meu trabalho favorito do Oldfield (embora Amarok – o álbum que surgiu do nada – seja um forte concorrente). Ele conseguiu capturar o som do interior da Inglaterra de forma semelhante a Anthony Phillips, mas em grande escala, com a participação de muitos nomes de peso. E o Lado 2 fica realmente intenso na metade – a raiva interior de Oldfield vem à tona com sintetizadores pulsantes e contínuos e solos de guitarra estridentes. Se você pensa em Oldfield como uma música tranquila para fãs de New Age de meia-idade, ouça este lado da música e você terá uma perspectiva diferente. Excelente no geral.
A banda iniciou a carreira na região da Sardenha e lançaram seu primeiro disco em 1975 pela Erre Records, mas este passou despercebido.
Em seguida, conseguem umm contrato com a gravadora Harmony, propriedade de Walter Guertler, e em 1976 são premiados no Festival di Castrocaro com a canção “Due ragazzi nel sole”, sendo um grande sucesso na Itália.
No ano seguinte, conseguem o segundo lugar no Festival di Sanremo com a canção “Tu mi rubi l'anima”.
Em 1978 lançam o álbum “Sole rosso”, e em 1979, participam novamente do Festival di San Remo con "La gente parla", escrito por Claudio Daiano. Em 1980 fazem sucesso com a canção "Donna musica".[2]
Participam do Festival mais duas vezes: em 1981, com “I ragazzi che si amano”, e em 1984, com “Quanto ti amo”.
Nos anos 90 contam com a colaboração de diversos músicos que participam das atividades da banda, dando origem a experiências com novos sons.
Em 2003 lançam o álbum "Abitudini e no", tido como musicalmente aberto, sofisticado, mesclando jazz e funk em algumas canções, enquanto outras estão trazem melodias e ritmos italianos.
Em 2010 lançam um CD duplo ao vivo contendo músicas inéditas como "Non ti dimenticherò" , que também deu nome ao álbum. O concerto foi gravado em agosto de 2009, em Muro Leccese.
The Endless River encerra um ciclo de quase 50 anos de história de uma das maiores bandas de sempre.
«The endless river… forever and ever.»Era com esta frase que terminava aquilo que a História julgava ser o último disco de sempre dos Pink Floyd: The Division Bell. No entanto quis o destino, ou neste caso o falecimento do teclista Richard Wright em 2008, que os seus companheiros David Gilmour e Nick Mason reavaliassem as sessões de 1993 com outros olhos. Afinal ainda havia nos arquivos da banda um bom pedaço de música por contar.
Durante anos correu entre a comunidade de fãs a lenda de que havia uma obra inacabada, apelidada de The Big Spliff, que conteria ideias e sons mais experimentais e que deveria ter saído como companion album de The Division Bell. Uma ideia que, segundo Nick Mason, esteve quase a ser concretizada, não fossem as limitações de tempo para acabar o disco que acabou por sair na primavera de 1994 e que deu origem a uma digressão mundial (que passou duas noites em Lisboa), com recordes de bilheteira sobejamente conhecidos.
Quem foi aos concertos desse ano lembra-se de uma intro tape, também conhecida como «Soundscape», que foi incluída na edição cassete do disco ao vivo Pulse. Muitos julgavam ser o tal The Big Spliff. Não. O verdadeiro segredo estava bem guardado no estúdio – Astoria Boat – de David Gilmour, em quatro ou cinco DAT, contendo cinco a seis horas de música e mais de 40 ideias musicais por explorar.
Claro que os Pink Floyd não trabalharam sozinhos para chegarem ao resultado final da sua 15.ª criação de estúdio. Há mérito nos produtores: Andy Jackson (engenheiro de som da banda desde o final dos anos 70), que fez as primeiras colagens de ideias; o amigo de Gilmour, Phil Manzanera (dos Roxy Music), que ajudou a sequenciar a música; e Martin Youth Glover dos Orb que emprestou à música um tratamento ainda mais experimental, construindo ambientes tipicamente «floydianos» dignos de aparecer em discos importantes como Meddle, A Saurceful of Secrets ou Ummagumma. Depois de tudo muito bem cozinhado, foi tudo à aprovação do chef Gilmour, que, com a sua mulher Polly Samson, escreveu a única verdadeira canção do disco: “Louder than Words”. Mas já lá vamos…
O que interessa a reter aqui é que este é o álbum com a marca de Richard Wright. É o seu espirito que paira sobre The Endless River. É precisamente com a sua voz que começamos a aventura em “Things Left Unsaid”: «We certainly are underspoken and understanding / But there’s a lot of things unsaid as well / We shout and argue and fight, and work it on out…»
O tom que marca o disco é sempre aquela melancolia «floydiana» do costume. Sempre aquela divisão do us vs. them, sempre aquele espírito de alienação «lunática do lado oculto da lua», ou o «diamante louco às portas da madrugada» que sofre por «ter se render à máquina». As guitarras de Gilmour, parece que choram sempre que o seu autor as chama para um solo (“Eyes to Pearls”). Os teclados discretos de Wright, sempre entre o jazz e o clássico, que sempre vagueiam por territórios sombrios do espaço sideral (“It’s What We Do”). A bateria de Mason, competente q.b., aqui com um momento alto na sua prestação na faixa “Skins”.
Impõe-se a pergunta: falta lá Roger Waters? Claro que sim. As suas letras eram uma parte vital da banda e o disco teria certamente ganhado com isso. Contudo o único cenário perfeito foi, em 2005, no Live 8, quando os quatro elementos se reuniram pela última vez. Infelizmente não teve continuidade. Mas foram os melhores vinte minutos musicais de televisão em directo de sempre.
Gilmour ironicamente já anunciou que este é o derradeiro disco dos Pink Floyd. O fim. No entanto, para quem pensou que a banda já tinha há muito falecido, não deixa de ser uma bela aparição. Chegamos a “Louder Than Words”, tema autobiográfico sobre os conflitos que atravessaram a banda durante décadas, como a cereja no topo do bolo que encerra um ciclo de quase 50 anos de história de uma das maiores bandas de sempre.
Tomei contacto com Scott Walker há muitos anos. Foi através de uma maravilhosa coletânea intitulada Boy Child, que reúne duas dezenas de temas do autor, datados de 1967 a 1970. Foi amor à primeira audição. Quem me levou até a esse disco, curiosamente, foi Julian Cope, confesso admirador do músico americano, uma vez que sobre ele foi sempre tecendo vários comentários, tanto nos textos que publicou no seu site como em entrevistas várias.
O passo seguinte, logicamente, deu-se com os celebrados Scott 1 a Scott 4, até que tudo mudou, bem mais tarde, na carreira de Walker. A partir de Climate of Hunter e de Tilt sobretudo, discos de 1984 e 1995, o projeto musical do artista sofreu uma guinada assombrosa, e os caminhos trilhados desde então avançaram para patamares sonoros de enorme densidade, sendo que a audição dos seus trabalhos posteriores a essas datas podem ser entendidos como autênticas odisseias, tal o esforço que exigem por parte de quem os ouve. No entanto, esse dispêndio quase físico exigido ao ouvinte é sempre recompensado. The Drift, por exemplo, é um marco bem comprovativo do que digo, autêntico rochedo sonoro que incomoda, magoa, faz sangrar. O mesmo acontece com o «ambisymphonico» Bish Bosh, fim da trilogia começada em Tilt.
Até que, oito anos depois desse lançamento, eis que nos chega um novo trabalho, desta vez em parceria com os também americanos Sunn O))), banda de drone metal, dark ambient, noise e outros termos afins que nada me dizem, diga-se de passagem. Mas há exceções, como é fácil perceber, e Sunn O))) é uma delas. Curiosamente, também os havia conhecido por via do mesmo Julian Cope, uma vez que o meu adorado músico inglês tinha colaborado com eles no disco White 1, que ouvi com estranheza e algum agrado inconfessado até à data da escrita destas últimas palavras. Quando soube da existência do projeto, fiquei estupefacto! O que poderia sair desse confronto criativo aparentemente tão improvável? O que daí resultou chama-se Soused, álbum a que tenho dedicado a minha maior atenção nestes últimos tempos.
São cinco faixas apenas. Ocupam pouco mais de 48 minutos, mas pesam toneladas! As camadas sonoras são obscuras, soturnas, feitas de nervo, aço, e da mais negra escuridão. Por sobre elas paira a voz de Walker, firme, intensa, dramática. Por vezes, quase num registo de ópera. Parece teatro cantado, peça dramática de desespero e sofrimento. Walker surge errante, do princípio ao fim do disco, por entre riffs de maior ou menos intensidade, ambientais todos eles, numa extensão sonora onde as ideias rítmicas estão quase ausentes. Ruídos de guitarra por todo o lado, sons que não sabemos o que são ou como nos chegam aos ouvidos. No entanto, o sentido composicional de tudo isto parece nunca sair beliscado, e, no fim, depois de termos sobrevivido aos pequenos infernos de «Brando», «Herod 2014», «Fetish», «Lullaby» e «Bull», sentimo-nos esmagados pela força sonora que desabou por cima de nós, pela torrencial descarga de palavras e gritos (que não chegam bem a ser gritos de verdade) a que fomos sujeitos, espécie de intempérie que nos atordoa, mas que ao mesmo tempo também nos fascina, de tão inusitada. A perplexidade é muita, e não sabemos bem o que pensar. Talvez nem o devêssemos fazer, numa primeira instância. Talvez…
Soused não é, nem nunca poderia ser tendo em conta os seus intervenientes, um disco fácil, um disco para todas as ocasiões. Mas não deixa de ser mais um interessante e curioso objeto sonoro feito por mestres credenciados em áreas distintas, mas que aqui, fazendo uso dos seus vastos méritos, convergem na construção de uma obra grandiosa, embora estranhamente bela.
Forcefield remete-nos para um conceito constante em qualquer infância feliz e activa. Campo de forças: uma barreira de energia capaz de proteger o que envolve de ataques / intrusões exteriores. A nossa pequenez da altura, repleta de um imaginário espacial e animado, simplificou um complexo conceito ainda hoje incógnito à ciência. Mas para os Tokyo Police Club tal conceito não é estranho, de todo.
Os Tokyo Police Club estrearam-se em 2007 com o EP A Lesson in Crime, que os elevou de imediato ao estatuto de «The Strokes canadianos». Estes quatro rapazes, cuja intenção de fama era nula, atingiram um patamar gigante para a sua pequena idade. Em 2008 satisfizeram as expectativas com Elephant Shell, o primeiro longa-duração. Foi desta maneira que assumiram uma atitude saltitante e jovial, como se pôde observar com o single «Your English Is Good». Refrões e riffs catchy, acompanhados por uma voz docemente depressiva, sustentada por um baixo melodicamente directo e por uma bateria veloz e ágil, fazendo lembrar Pretty Girls Make Graves, típicas das colheitas do new wave do início do segundo milénio. O sintetizador e a guitarra eram melódicos e embalantes, com a missão de criar a atmosfera intencionada. Os TPC tinham encontrado a sua fórmula. Esforçaram-se por reutilizarem-na no álbum seguinte, com o nome Champ (2010).
Após quatro anos de jejum, no que lhes toca a discos de originais, regressam. Mas não da mesma forma. Numa entrevista dada à Pitchfork, depois de Champ, os TPC decidiram proteger-se de toda a multiplicidade de tendências que iam aparecendo e desaparecendo. Porque, de acordo com o vocalista/baixista, eles não querem aparecer para desaparecer, mas sim fazer «algo que durasse». A banda filtrou as suas influências: a identidade da banda e a natureza musical dos seus membros era tudo o que era permitido. Tudo o resto intoxicaria a essência do que queriam. E daí a compreensão do título Forcefield: esta missão de emergência tornou-se numa redescoberta honesta da verdadeira identidade dos TPC.
Tal foi a emergência que a primeira faixa dita vorazmente os ventos da mudança. «Argentina (I,II,III)», uma canção sobre um amor antigo, impinge-nos nove minutos de juventude progressiva e solarenga; fazer isso, sem nos aborrecer, é uma tarefa difícil. Contudo as diferentes dinâmicas são uma lufada de ar fresco à imagem de marca dos TPC, que se reinventam como uma banda versátil e progressiva. E penso que é a diversidade que mais marca este novo álbum. Em «Hot Tonight» (o single do disco), «Miserable» e «Toy Guns» é-nos ditado um clima tropical, presente na maior parte do disco, sugerindo uma autêntica explosão pop: o amor ingénuo e efémero, com o típico refrão pastilha-elástica. Apesar da ténue fronteira entre os ritmos saltitantes pop e a foleirice, os TPC fizeram o bom trabalho de cruzar baterias a fazer lembrar Panic! At The Disco com melodias pop ligeiras, o que nos remete ao trabalho mais recente de The Wombats ou The Kooks. Em «Gonna Be Ready» a bateria introdutória, que também está presente no refrão, tem a frenética energia do início da clássica «I Bet you Look Good on the Dance Floor» dos Arctic Monkeys, com a inconfundível explosão de riffs de Wolfmother e o embalo dos versos de Oasis. «Through the Wire» e «Feel The Effect» podiam muito bem ser o final de uma tarde veranil, com as suas guitarras, na maior parte das vezes, arpejadas, mantendo sempre a sua disposição saltitante, em tons tórridos, dignos dum gin tónico junto à praia. No entanto este disco também tem o negrume do anoitecer em «Beaches» e na minha predilecta «Tunnel Vision». Apesar da minha modesta opinião, não resisti a entusiasmar-me com a notável fusão do poder do riff de baixo, semelhante ao de «Juicebox» dos The Strokes, com uma cavalgada digna de The Mars Volta e umas sombrias cordas de violino emuladas, fazendo lembrar o pós-punk dos The Names na sua canção «Calcutta». E, apesar de todas estas paranóicas referências, relembram-nos que são os Tokyo Police Club, introduzindo no tema seus distintos refrões catchy e pop.
Sem dúvida, os TPC fizeram os seus trabalhos de casa nos seus quatro anos de cativeiro, no que toca a temas originais. O isolamento deu-lhes perspectivas e, talvez até, o amadurecimento musical. Forcefield foi a demonstração de que os Tokyo Police Club não são uma mera imitação. Mas este disco também mostrou uma certa esquizofrenia, talvez positiva, talvez negativa. Só o futuro dirá se, com tantas possibilidades, perderão o fio à meada. Porque, afinal, um dia eles terão de sair do campo de forças para uma nova aventura.
É verdade, ele voltou. Richard David James – a.k.a. Aphex Twin –, qual D. Sebastião regressado numa manhã de nevoeiro, apareceu, após uma longa travessia do deserto, de álbum na mão e sorriso maroto chapado na cara. Treze anos após drukQs*, Aphex Twin vem por fim à seca de que a música electrónica tem vindo a padecer nos últimos anos (excepto alguns oásis que vão resistindo à tentação de ser invadidos pelas areias vizinhas), trazendo consigo não só o novo Syro, como também muito mais material que acumulou nestes anos de paragem e que, palavra do próprio, irá ser lançado ao longo de álbuns vindouros. Syro não é portanto mais um oásis, mas sim, espera-se, o início de um processo de «des-desertificação».
Em Syro perpetuam-se algumas características de trabalhos anteriores e abandonam-se outras. Por exemplo, os beats fortes continuam lá, mas não são tão crus como o eram antigamente. Os sons estridentes que apareciam do nada e que ensurdeciam quem fosse apanhado desprevenido também não têm lugar aqui. Ao contrário, os teclados melódicos, mais típicos da fase inicial da sua carreira, ganham algum destaque, algo que se tinha diluído no mar de sons e efeitos que os últimos trabalhos de Aphex Twin abarcavam. Numa análise mais imediata, parece haver uma ligeira inclinação para o seu som mais ambiente, embora sem nunca largar aqueles beats ácidos que tão bem emprega, sendo talvez a música «CIRCLONT14 [152.97]» o melhor exemplo disto. Este equilíbrio (ambient / techno) ligeiramente desequilibrado faz com que, ao ouvir Syro, tanto sejamos transportados para uma rave cheia de putos a dançar com ecstasy no sangue a fazer de combustível, como para um passeio ao luar, por ruas vazias numa noite fria.
O álbum abre com o single «minipops 67 [120.2]» e daí segue para a épica (e longa) viagem de «XMAS_EVET10 [120]». Depois vem «produk 29 [101]» (no qual é repetido vezes sem conta a expressão «fucking whore») e as viagens ácidas de «4 bit 9d api+e+6 [126.26]», «180db_ [130]» e «CIRCLONT6A [141.98]», seguidas de um interlúdio à la «Fitter Happier», «fz pseudotimestretch+e+3 [138.85]». Daí até à última música (com destaque para a fantástica «syro u473t8+e [141.98]») são mais 25 minutos de música electrónica pura e dura, que neste álbum é feita sem qualquer falha: muito bem misturada, técnica e melodicamente perfeita.
Syro é um álbum muito mais sonicamente sofisticado e cerebral que qualquer outro; este perfeccionismo quase maníaco faz com que este seja mais calmo, não tendo em si (ou tendo pouco) daquele misto de estranheza-surpresa-admiração que muitos sons, em trabalhos anteriores, provocavam a quem os ouvia. Vão fazer falta? Alguns com certeza acharão que sim. São precisos? Se calhar, não. É esse o principal ensinamento de Aphex Twin neste novo álbum: as coisas mais calmas também têm uma beleza muito própria e que merece ser explorada da mesma forma que os sons extraterrestres criados em outras alturas. O expoente máximo disto é a música de fecho do álbum, «aisatsana [102]», na qual a única coisa que existe a acompanhar um piano desprovido de qualquer efeito é o canto de um bando de pássaros no fundo, tornando-se esta música a mais bela e emocionalmente forte do álbum. É após uma hipnotizadora hora da melhor música electrónica dos últimos tempos que nos apercebemos dessa verdadeira beleza interior de Syro. E que maravilhosa descoberta é essa…
A estreia dos Blur não foi a mais auspiciosa. Apesar de estar vários milhões de anos-luz acima de qualquer álbum dos U2, Leisure é apenas o melhor dos discos assim-assim. Os seus singles são uma delícia, mas há falta de sal em muitas das canções. Mais grave do que isso; por pressões da editora e imaturidade da banda (tinham então pouco mais de 20 anos), o primogénito dos Blur tem pouca personalidade, limitando-se a seguir as modas da altura: muito madchester e alguns laivos de shoegazing. No final de ’91, a banda de Damon Albarn pouco mais é do que um one-hit wonder: «There’s No Other Way» – a melhor canção dos Stone Roses nunca escrita pelos Stone Roses – vendeu que se desunhou.
As coisas pioram quando o burlão do agente dos Blur os deixa endividados até ao pescoço. Para pôr as contas em dia, lá vão eles contrariados para uma tournée pelos Estados Unidos, absolutamente inglória devido à histeria grunge que por lá grassa. Quando regressam ao Reino Unido, já ninguém quer saber deles: não há o raio de um holofote mediático que não esteja apontado para os Suede. Ignorados na América e desprezados em Inglaterra, os Blur passam um mau bocado. Mas nunca se resignam. Com o orgulho ferido, e qual Hitler da pop, o quarteto Londrino abre duas frentes de batalha.
A frente leste chama-se Suede. Damon Albarn é um fulano competitivo. Se em ’95 se medirá com os Oasis na célebre batalha da Britpop, agora, dois anos antes, envolve-se numa mini-contenda com os Suede. Neste primeiro embate, ganha a banda de Brett Anderson: o seu álbum de estreia é número um, ofuscando Modern Life Is Rubbish, que se fica por um tímido 15.º lugar. A passagem do tempo será contudo generosa para os Blur. De derrota em derrota acabarão por ganhar a guerra.
A frente oeste é Miss America, com a horda de bárbaros grunge invadindo a civilização. Desde os anos 80 – muito por obra e graça da sinistra Thatcher – que a cultura de massas americana havia tomado conta da Grã-Bretanha. Agora a americanização do Reino Unido sobe mais um degrau, estendendo-se também ao campeonato indie. É altura de resistir.
A inveja e o ressentimento que Damon nutre por ambos os adversários podem não ser os mais nobres dos sentimentos. Pouco importa. Funcionam como o fuel perfeito para os Blur encontrarem uma voz própria, reinventando por completo a sua identidade. A história da pop agradece.
Na sua canção «Glamorous Glue», Morrissey já tinha feito antes o diagnóstico correcto: «We look to Los Angeles for the language we use / London is dead.» Complementem Los Angeles com Seattle e o retrato estará então completo. Contudo Damon tem a ousadia de ir para lá da cínica fotografia: acredita – contra a opinião de muita gente, inclusive a da própria Food Records – que seria mesmo possível resistir à invasão grunge através da afirmação descomplexada da cultura britânica.
Tudo tresanda a britishness em Modern Life Is Rubbish: a locomotiva a vapor da capa, a pintura a óleo dos Blur vestidos com botas Doc Martens e calças arregaçadas com dobras; o revivalismo mod das melodias; as crónicas de costumes inspiradas nos Kinks. O que é interessante no patriotismo de Damon é que os retratos que pincela da sua amada ilha são essencialmente críticos, sarcasmos impiedosos sobre os vícios da sua classe média fútil e modernaça. O chauvinismo está lá na mesma mas escondido no seguinte subtexto: o Reino Unido, de tão americanizado que está, já não sabe quem é. Fuck Thatcher e a maldita sociedade de consumo que nos descaracterizou.
O álbum de estreia dos Suede pode ter sido o brilhante pontapé de saída de uma cena, mas Modern Life Is Rubbish é muito mais do que isso: é o álbum-manifesto, a bandeira que se ergue alto na batalha com o grunge. Aquilo que antes tinha sido apenas um grito vago da imprensa musical torna-se agora num movimento estético de carne e osso, cujas regras são inteiramente definidas pelo ideólogo Damon Albarn. Nascera a britpop.
Os Blur sempre viveram da tensão criativa entre Damon Albarn e Graham Coxon, duas almas muito diferentes, senão opostas. Damon tem uma sensibilidade essencialmente pop, britânica até à medula, transformando tudo o que toca em melodias certeiras e refrões assassinos. Graham tem uma sensibilidade mais indie, odiando o sucesso e desprezando as canções demasiado certinhas. Em Parklife e The Great Escape (os dois capítulos seguintes do tríptico que catapultou os Blur para o sucesso, mudando por completo a paisagem da pop inglesa), Damon moldou totalmente os Blur à sua imagem e semelhança. Já em Blur e 13, a balança pendeu para o lado de Graham Coxon: dois maravilhos álbuns lo-fi, sujos e anti-pop, muito ancorados no indie americano que ele amava. Ora o que é interessante em Modern Life is Rubbish é que a balança criativa Albarn/Coxon está completamente equilibrada. É esse o mágico segredo deste disco: maravilhosamente pop e melódico como Damon sempre quis, com guitarras sujas, difíceis e imprevisíveis como Coxon sempre desejou.
Pouco importa que Modern Life Is Rubbish tenha vendido relativamente pouco. O disco foi incrivelmente influente, funcionando como modelo para dezenas de outros espalharem a mensagem. No ano seguinte, Kurt Cobain morrerá. Não há coincidências.
Thom Yorke voltou. Está aí de novo. Sempre que regressa é como se D. Sebastião tivesse voltado. É desta que vamos ter mais uma obra-prima. Agora é que é. Todos os que gostam dele pensam assim, agem assim. Eu sou desses. Mal surgem os rumores, começa logo a fervilhar essa expectativa infantil, a mesma que me tomou quando soube que iria regressar. E regressou mesmo.
Tomorrow’s Modern Boxes é o novo trabalho de originais que assina a título próprio depois de The Eraser, em 2006. Como dizia, as expectativas eram (como sempre são) enormes, e as primeiras opiniões foram desmotivantes. Muito mais gente a dizer mal do que a dizer bem, muito mais gente a clamar por mais um flop. Fui ouvir: queria testar por mim próprio, depois de ler o que se escreveu sobre o trabalho (como prefiro sempre fazer), as coisas menos boas que se diziam. Ouvi, gostei, e desenhei uma possível razão para tanta gente olhar de lado para a carreira a solo de Yorke.
Quer queiramos quer não, o vocalista dos Radiohead é uma das maiores referências músicas contemporâneas. A música da banda tocou a fundo milhares de pessoas, criou séquitos de fãs, construiu uma identidade. Por muito que os últimos trabalhos do grupo inglês tenham sido mais próximos daquilo que é Yorke a solo, o vincado cunho de rock alternativo dos seus primeiros trabalhos deu-lhes estatuto para terem alguma margem de manobra no que toca à experimentação. E Tom é isso, experimentação. É isso o que a sua carreira a solo é. Experimentar novas texturas, novas construções, novos géneros. Acho que é daqui que nasce o franzir de olho mais geral que cai sobre os dois trabalhos que fez sem o resto do grupo inicial. Somos criaturas de hábitos e isso reflete-se na nossa escolha musical, por isso muita gente que não o ouve agora assim fá-lo porque espera ouvir Radiohead, não Thom Yorke. Não digo que este seja o caso com todos que o oiçam, mas acredito que o é com muitos deles. A imagem que criou como grupo turva a opinião, mesmo inconscientemente, e isso dificulta a avaliação real daquilo que se ouve. Se o mesmo álbum que aqui será dissecado fosse assinado por um qualquer miúdo novo que só alguns conhecessem, seriam as críticas as mesmas? Tudo bem que o seu passado já lhe dá coisas que outros não têm, mas, mesmo assim, será justo avaliá-lo mais por essas mesmas coisas em vez daquilo que realmente se ouve?
Como dizia, Thom Yorke a solo é experimentação, e é isso que se ouve neste álbum. Tendo já quase todos os caminhos da instrumentalização orgânica sido trilhados, diminuindo assim, de alguma forma, a margem de manobra no capítulo da inovação, o mundo digital surge como uma nova forma de fazer música. Música nova, que nunca se ouviu antes, que não seja só mais um reaproveitamento de géneros dourados de outros tempos. Isso é o que a música eletrónica representa. Não toda aquela que se faz, mas uma que alguns criam com mestria e refinação. James Blake, Flying Lotus, Aphex Twin e… Yorke, são exemplos de alguns nomes que caem nessa categoria.
Tomorrow’s Modern Boxes, numa primeira audição, cai certeiro naquilo que é o estilo dos trabalhos eletrónicos de Yorke. Uma sonoridade estóica, soturna, onde o minimalismo refinado reina. Linhas de baixo monótonas, mas profundas, põem a mesa para um conjunto complexo de pormenores sonoros muito simples: simples individualmente, mas intricados quando combinados. «Brain in a Bottle» abre o disco precisamente assim, num para-arranca rítmico mexido (em comparação com o resto das músicas, pelo menos) que vai surgindo em camadas que ganham coesão quando a voz entra, o relaxante falsete característico do inglês, reforçado por um reverb espacial, que é talvez o único ponto de contacto entre este Thom e os Radiohead. «Guess Again!» segue-se, já com um bocadinho de ligação ao mundo corpóreo que surge com o piano de fundo. Fora isso mantém-se a aposta numa sonoridade digital, pacífica, sem grandes flutuações. Muito boa, esta faixa.
O álbum segue, sempre com uma solidez musical muito grande. Só há duas grandes diferenças nesta área ao longo das oito músicas do disco: ou está parado ou em marcha-atrás, querendo isto dizer que não há alegria nem grande dinamismo musical, pelo contrário. Temos introspeção e quase espiritualidade, num estilo mais pensativo que dançante. Há faixas um pouco mais mexidas (embora muito pouco) como «The Moder Lode», «There Is No Ice (For My Drink)» – muito boa – ou «Nose Grows Some», e outras molengonas e invernosas como «Interference», «Thruth Ray» ou «Pink Section».
De um modo geral, o disco leva-nos para um cenário cinzento, uma apneia da realidade onde viajamos num buraco negro, cheio de vazio, um vazio que é tudo menos seco. Não falamos de música que move multidões, mas sim de algo mais introspectivo, mais relaxante, digno de ouvir na cama com as luzes apagadas e de olhos fechados. É um bom disco, mas não é um bom disco para toda a gente. De um modo geral, gostei: não é uma viragem de 180 ° naquilo a que já nos habituou (muito pelo contrário), mas, o que faz, fá-lo sempre bem.
Não me vou alongar muito sobre a forma de distribuição do álbum: por muito que seja exposta como uma tentativa de democratizar a distribuição cultural, não passa de uma manobra de publicidade. O que importa na música é… a música, e nesse capítulo estamos bem servidos. Mais que estarmos bem servidos, ficamos cientes de que Thom Yorke continua a ser um pioneiro do movimento eletrónico, por muito que ainda o continuem a ver como vocalista de uma banda rock.