domingo, 21 de agosto de 2022

POEMAS CANTADOS POR SÉRGIO GODINHO

A Carroça dos Poetas

Sérgio Godinho


Arre burro para Loulé

carregado de café

arre burro para Melgaço

carregado de bagaço

arre burro para Viana

carregado de banana

arre burro para Lisboa

carregado com os restos mortais

do Fernando Pessoa

e mais os seus trinta heterónimos

nem vão caber nos Jerónimos


Na carroça dos poetas

segue à solta a poesia

e eu vou dentro a recitar

um poema da minha autoria:


"Meu amor eu gosto tanto

da forma como tu gostas

mas por favor ando buscar

as tuas unhas às minhas costas".


A Minha Cachopa
Sérgio Godinho

 
A minha cachopa sabe a chocolate
Não sei de mulher que melhor me trate
Seus olhos dão mais luz que uma janela
Trança amarela
Traz
A balançar cá p´ró rapaz.

A minha cachopa sabe a chocolate
Só a dormir é que diz disparate
Falta ao respeito com uma gargalhada
Fala de nada
E tudo
Deixa-me embasbacado e mudo.

REFRÃO

A minha cachopa sabe a chocolate
Roubou-me um beijo e eu paguei o resgate
Assaltou casas nos meus seis sentidos
Dois foragidos
Fomos
Desta certeza agora somos.

Anda cachopa
Puxa o corpo p´ró mar
Anda cachopa
Puxa a filha p´ró ar.

A minha cachopa sabe a chocolate
Quem não a conhece amor deste quilate
Não faz ideia da vida que dá
Ao deus dará viveu
Perdido no que não é seu.

Anda cachopa
Puxa o corpo p´ró mar
Anda cachopa
Puxa a filha p´ró ar.


A Noite Passada
Sérgio Godinho

A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"



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