A Carroça dos Poetas
Sérgio Godinho
Arre burro para Loulé
carregado de café
arre burro para Melgaço
carregado de bagaço
arre burro para Viana
carregado de banana
arre burro para Lisboa
carregado com os restos mortais
do Fernando Pessoa
e mais os seus trinta heterónimos
nem vão caber nos Jerónimos
Na carroça dos poetas
segue à solta a poesia
e eu vou dentro a recitar
um poema da minha autoria:
"Meu amor eu gosto tanto
da forma como tu gostas
mas por favor ando buscar
as tuas unhas às minhas costas".
A Minha Cachopa
Sérgio Godinho
A minha cachopa sabe a chocolate
Não sei de mulher que melhor me trate
Seus olhos dão mais luz que uma janela
Trança amarela
Traz
A balançar cá p´ró rapaz.
A minha cachopa sabe a chocolate
Só a dormir é que diz disparate
Falta ao respeito com uma gargalhada
Fala de nada
E tudo
Deixa-me embasbacado e mudo.
REFRÃO
A minha cachopa sabe a chocolate
Roubou-me um beijo e eu paguei o resgate
Assaltou casas nos meus seis sentidos
Dois foragidos
Fomos
Desta certeza agora somos.
Anda cachopa
Puxa o corpo p´ró mar
Anda cachopa
Puxa a filha p´ró ar.
A minha cachopa sabe a chocolate
Quem não a conhece amor deste quilate
Não faz ideia da vida que dá
Ao deus dará viveu
Perdido no que não é seu.
Anda cachopa
Puxa o corpo p´ró mar
Anda cachopa
Puxa a filha p´ró ar.
A Noite Passada
Sérgio Godinho
A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste
A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos
A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"

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