Aguenta Aí
Sérgio Godinho
O meu nome é Joaquim
O meu apelido é Mendes
Sou do Porto, porque sim
Mas também sou donde sendes
E quero aplaudir a gente
Que se amanda e que se mexe
É pelo menos ponto assente
Não ficar no queixe-queixe
Mas não vou dizer ámen
Quando as coisas dão p'ró torto
Embora haja para quem
Criticar é só desporto
Aguenta aí, não és santo nem és padre
Fazes por ti, mas não há cão que não te ladre
Há dias de manhã
Em que um homem à tarde
Não pode sair à noite
Nem voltar de madrugada
(Ganda piada!)
Cada dia, saio cedo
P'ra um trabalho mesmo chato
E o patrão diz-me em segredo
Fazes muito e sais barato
Tenho, p’ra não ir a pé
Um carro em sétima mão
Trava com a marcha à ré
E acelera, também não
Farto de engarrafamentos
Aqui vai meu contributo
Vou mas é mandar o trânsito
Apanhar no viaduto
Aguenta aí, não és santo nem és padre
Fazes por ti, mas não há cão que não te ladre
Há dias de manhã
Em que um homem à tarde
Não pode sair à noite
Nem voltar de madrugada
(Ganda piada!)
Atirei o pau ao gato
Que se vendia por lebre
Vou passear ao Palácio
Mas habito num casebre
Busquei casa na cidade
Há justiça nesta vida
A prova é que a má qualidade
Está tão bem distribuída
Património mundial
É orgulho, com certeza
Falta pôr no pedestal
"Aqui não entra a pobreza"
Aguenta aí, não és santo nem és padre
Fazes por ti, mas não há cão que não te ladre
Há dias de manhã
Em que um homem à tarde
Não pode sair à noite
Nem voltar de madrugada
Aguenta aí, não és santo nem és padre
Fazes por ti, mas não há cão que não te ladre
Há dias de manhã
Em que um homem à tarde
Não pode sair à noite
Nem voltar de madrugada
Aguenta aí, não és santo nem és padre
Fazes por ti, mas não há cão que não te ladre
Há dias de manhã
Em que um homem à tarde
Não pode sair à noite
Nem voltar de madrugada
Há dias de manhã
Em que um homem à tarde
Não pode sair à noite
Nem voltar de madrugada
(Ganda piada!)
Antes O Poço Da Morte
Sérgio Godinho
Como no poço da morte
como no poço da morte
a gente roda e gira e gira
a gente joga tudo
a gente arrisca a vida
a gente roda e gira
rumo à terra prometida
e quando lá chegamos
já a encontramos revolvida
a terra que sempre se desejou
e que se deixa de reconhecer
no dia em que se vai p'ra lá morar
Mas como se costuma dizer
tem que ser
porque parar, nunca!
Ficar parado?
Antes o poço da morte
que tal sorte
Como no poço da morte
como no poço da morte
a gente roda e nos ouvidos
os motores vão formando melodias
cantadas logo em coro
P'ra conjurar avarias
que os motores nunca falhem
que esta vida são dois dias
são viras e são rocks e são hinos
que a gente deixa de saber de cor
no instante que se acaba de cantar
Mas como se costuma dizer
tem que ser
porque parar, nunca!
Ficar parado?
Antes o poço da morte
que tal sorte
Como no poço da morte
como no poço da morte
a gente gira contra ventos e marés
e tempestades e tornados
como os miúdos teimam
em ficar acordados
e lutam contra o sono
com os olhos arregalados
assim nós também p'ra lá da fadiga
giramos acordamos e dizemos:
eu tenho a morte toda p'ra dormir
Mas como se costuma dizer
tem que ser
porque parar, nunca
Ficar parado?
Antes o poço da morte
que tal a sorte
Como o poço da morte
como o poço da morte
a gente roda e gira e queima o tempo
e queima gasolina e queima etapas
a gente puxa o brilho
aos motociclos e nas chapas
reluzem nossos fatos
nossas botas, nossas capas
e com a certeza já de estontearmos
ligamos os motores um dia mais
E vai de roda e gira sem parar
Mas como se costuma dizer
tem que ser
porque parar, nunca
Ficar parado?
Antes o poço da morte
que tal sorte
Aos Amores
Sérgio Godinho
A vida que tudo arrasta, arrasta os amores também
Uns dão à costa, exaustos, outros vão mais além
Navegadores, só solitários dois a dois
Heróis sem nome e até por isso heróis
Desde que o John partiu, a Rosinha passa mal
Vive na Loneley Street, Heartbreak Hotel, Portugal
Ainda em si mora a doce mentira do amor
Tomou-lhe o gosto ao provar-lhe o sabor
Olha os amores são facas de dois gumes
Têm de um lado a paixão, do outro os ciúmes
São desencantos que vivem encantados
Como velas que ardem por dois lados
Aos amores
Aos amores
Aos amores
Aos amores
No convento as noviças cantam as madrugadas
E a bela monja escreve cartas arrebatadas
É por virtude tua que tu és o meu vício
Por ti eu lanço os ventos ao precipício
O Rui da Casa Pia sabe que sabe amar
Sopra na franja, maneira de se pentear
Vai à posta restante para ver quem lhe escreveu
Foi uma bela monja que nunca conheceu
Olha os amores são facas de dois gumes
Têm de um lado a paixão, do outro os ciúmes
São desencantos que vivem encantados
Como velas que ardem por dois lados
Aos amores
Aos amores
Aos amores
Aos amores
(Desordeiros, irresistíveis, deleituosos, entranhantes
Verdadeiros, evitáveis, buliçosos, como dantes
Bicolores, transgressores, impostores, cantadores)
A Marta, quinze anos, vê na televisão
Um beijo igual ao que ontem deu dentro do vulcão
Faz baby-sitting à espera de parecer mulher
Quando é que o amor lhe explica o que dela quer?
Depois da dor, como conservar a inocência?
Leia um bom livro, legue as lágrimas à ciência
E parta o vidro em caso de necessidade
Deixe o seu coração ir em liberdade
Até que os amores são facas de dois gumes
Têm de um lado a paixão, do outro os ciúmes
São desencantos que vivem encantados
Como velas que ardem por dois lados
Aos amores
Aos amores
Aos amores
Aos amores
Desordeiros, irresistíveis, deleituosos, entranhantes
Verdadeiros, evitáveis, buliçosos, como dantes
Bicolores, transgressores, impostores, cantadores
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