quarta-feira, 24 de agosto de 2022

POEMAS CANTADOS POR SÉRGIO GODINHO

Aguenta Aí

Sérgio Godinho

 

O meu nome é Joaquim

O meu apelido é Mendes

Sou do Porto, porque sim

Mas também sou donde sendes


E quero aplaudir a gente

Que se amanda e que se mexe

É pelo menos ponto assente

Não ficar no queixe-queixe


Mas não vou dizer ámen

Quando as coisas dão p'ró torto

Embora haja para quem

Criticar é só desporto


Aguenta aí, não és santo nem és padre

Fazes por ti, mas não há cão que não te ladre

Há dias de manhã

Em que um homem à tarde

Não pode sair à noite

Nem voltar de madrugada

(Ganda piada!)


Cada dia, saio cedo

P'ra um trabalho mesmo chato

E o patrão diz-me em segredo

Fazes muito e sais barato


Tenho, p’ra não ir a pé

Um carro em sétima mão

Trava com a marcha à ré

E acelera, também não


Farto de engarrafamentos

Aqui vai meu contributo

Vou mas é mandar o trânsito

Apanhar no viaduto


Aguenta aí, não és santo nem és padre

Fazes por ti, mas não há cão que não te ladre

Há dias de manhã

Em que um homem à tarde

Não pode sair à noite

Nem voltar de madrugada

(Ganda piada!)


Atirei o pau ao gato

Que se vendia por lebre

Vou passear ao Palácio

Mas habito num casebre


Busquei casa na cidade

Há justiça nesta vida

A prova é que a má qualidade

Está tão bem distribuída


Património mundial

É orgulho, com certeza

Falta pôr no pedestal

"Aqui não entra a pobreza"


Aguenta aí, não és santo nem és padre

Fazes por ti, mas não há cão que não te ladre

Há dias de manhã

Em que um homem à tarde

Não pode sair à noite

Nem voltar de madrugada

Aguenta aí, não és santo nem és padre

Fazes por ti, mas não há cão que não te ladre

Há dias de manhã

Em que um homem à tarde

Não pode sair à noite

Nem voltar de madrugada

Aguenta aí, não és santo nem és padre

Fazes por ti, mas não há cão que não te ladre

Há dias de manhã

Em que um homem à tarde

Não pode sair à noite

Nem voltar de madrugada


Há dias de manhã

Em que um homem à tarde

Não pode sair à noite

Nem voltar de madrugada

(Ganda piada!)


Antes O Poço Da Morte

Sérgio Godinho

 

Como no poço da morte

como no poço da morte

a gente roda e gira e gira

a gente joga tudo

a gente arrisca a vida

a gente roda e gira

rumo à terra prometida

e quando lá chegamos

já a encontramos revolvida

a terra que sempre se desejou

e que se deixa de reconhecer

no dia em que se vai p'ra lá morar


Mas como se costuma dizer

tem que ser

porque parar, nunca!

Ficar parado?

Antes o poço da morte

que tal sorte


Como no poço da morte

como no poço da morte

a gente roda e nos ouvidos

os motores vão formando melodias

cantadas logo em coro

P'ra conjurar avarias

que os motores nunca falhem

que esta vida são dois dias

são viras e são rocks e são hinos

que a gente deixa de saber de cor

no instante que se acaba de cantar


Mas como se costuma dizer

tem que ser

porque parar, nunca!

Ficar parado?

Antes o poço da morte

que tal sorte


Como no poço da morte

como no poço da morte

a gente gira contra ventos e marés

e tempestades e tornados

como os miúdos teimam

em ficar acordados

e lutam contra o sono

com os olhos arregalados

assim nós também p'ra lá da fadiga

giramos acordamos e dizemos:

eu tenho a morte toda p'ra dormir


Mas como se costuma dizer

tem que ser

porque parar, nunca

Ficar parado?

Antes o poço da morte

que tal a sorte


Como o poço da morte

como o poço da morte

a gente roda e gira e queima o tempo

e queima gasolina e queima etapas

a gente puxa o brilho

aos motociclos e nas chapas

reluzem nossos fatos

nossas botas, nossas capas

e com a certeza já de estontearmos

ligamos os motores um dia mais

E vai de roda e gira sem parar


Mas como se costuma dizer

tem que ser

porque parar, nunca

Ficar parado?

Antes o poço da morte

que tal sorte


Aos Amores

Sérgio Godinho

 

A vida que tudo arrasta, arrasta os amores também

Uns dão à costa, exaustos, outros vão mais além

Navegadores, só solitários dois a dois

Heróis sem nome e até por isso heróis


Desde que o John partiu, a Rosinha passa mal

Vive na Loneley Street, Heartbreak Hotel, Portugal

Ainda em si mora a doce mentira do amor

Tomou-lhe o gosto ao provar-lhe o sabor


Olha os amores são facas de dois gumes

Têm de um lado a paixão, do outro os ciúmes

São desencantos que vivem encantados

Como velas que ardem por dois lados


Aos amores

Aos amores

Aos amores

Aos amores


No convento as noviças cantam as madrugadas

E a bela monja escreve cartas arrebatadas

É por virtude tua que tu és o meu vício

Por ti eu lanço os ventos ao precipício


O Rui da Casa Pia sabe que sabe amar

Sopra na franja, maneira de se pentear

Vai à posta restante para ver quem lhe escreveu

Foi uma bela monja que nunca conheceu


Olha os amores são facas de dois gumes

Têm de um lado a paixão, do outro os ciúmes

São desencantos que vivem encantados

Como velas que ardem por dois lados


Aos amores

Aos amores

Aos amores

Aos amores


(Desordeiros, irresistíveis, deleituosos, entranhantes

Verdadeiros, evitáveis, buliçosos, como dantes

Bicolores, transgressores, impostores, cantadores)


A Marta, quinze anos, vê na televisão

Um beijo igual ao que ontem deu dentro do vulcão

Faz baby-sitting à espera de parecer mulher

Quando é que o amor lhe explica o que dela quer?


Depois da dor, como conservar a inocência?

Leia um bom livro, legue as lágrimas à ciência

E parta o vidro em caso de necessidade

Deixe o seu coração ir em liberdade


Até que os amores são facas de dois gumes

Têm de um lado a paixão, do outro os ciúmes

São desencantos que vivem encantados

Como velas que ardem por dois lados


Aos amores

Aos amores

Aos amores

Aos amores


Desordeiros, irresistíveis, deleituosos, entranhantes

Verdadeiros, evitáveis, buliçosos, como dantes

Bicolores, transgressores, impostores, cantadores


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