quinta-feira, 25 de agosto de 2022

POEMAS CANTADOS POR SÉRGIO GODINHO

Sérgio Godinho

Aprendi a Amar

Sérgio Godinho


Aprendi a amar pela madrugada

no frio denso, no frio denso

com os dentes fechados a morder o lenço

sem poder calcar a porta de entrada

aprendi a matar bem mais do que penso

aprendi a matar bem mais do que penso.


Aprendi a amar com as duas mãos

de amor intenso, de amor intenso

uma para a ferida outra para o penso

a molhar os dedos nos líquidos sãos

aprendi a matar bem mais do que penso

aprendi a matar bem mais do que penso.


Aprendi a amar junto dos armários

queimando incenso, queimando incenso

repetindo mais palavras por extenso

aprendi a amar por motivos vários

aprendi a matar bem mais do que penso

aprendi a matar bem mais do que penso.


Aprendi a amar derramando vinho

no mar imenso, no mar imenso

a ver se não perdia o que sei que não venço

deixando corpos caídos no caminho

aprendi a matar bem mais do que penso

aprendi a matar bem mais do que penso.


Arranja-me um Emprego

Sérgio Godinho


Tu precisas tanto

de amor e sossego

e eu preciso de um emprego

se mo arranjares

eu dou-te o que é preciso

por exemplo o paraíso

anda ao deus-dará

perdido nessas ruas

vou ser mais sincero

sinto que ando às arrecuas

preciso de galgar

as escadas do sucesso

e por isso é que eu te peço

arranja-me um emprego


Arranja-me um emprego

pode ser na tua empresa

concerteza

que eu dava conta do recado

e para ti era um sossego


Se meto os pés para dentro

a partir de agora

eu mete-os para fora

se dizia o que penso

eu posso estar atento

e pensar para dentro

se queres que seja duro

muito bem serei duro

se queres que seja doce

serei doce, ai isso juro

eu quero é ser o tal

e como tal reconhecido

e assim digo-te ao ouvido

arranja-me um emprego


Arranja-me um emprego

pode ser na tua empresa

concerteza

que eu dava conta do recado

e para ti era um sossego


Sbendo que as minhas intenções

são das mais sérias

partamos para férias

mas para ter férias

é preciso ter emprego

espera aí que eu já chego

agora pensa numa casa

com o mar ali ao pé

e nós os dois

a brindarmos com rosé

esqueço-me de tudo

com o por-do-sol assim

chega aqui ao pé de mim

arranja-me um emprego


Arranja-me um emprego

pode ser na tua empresa

concerteza

que eu dava conta do recado

e para ti era um sossego


Se em mandasse neles

os teus trabalhadores

seriam uns amores

greves era só

das seis e meia às sete

em frente a um cassetete

primeiro de Maio

só de quinze em quinze anos

feriado em Abril

só no dia dos enganos

e reivindicações

quanto baste ma non troppo

anda, bebe mais um copo

arranja-me um emprego


Arranja-me um emprego

pode ser na tua empresa

concerteza

que eu dava conta do recado

e para ti era um sossego


As Armas do Amor

Sérgio Godinho


Desarmem

os campos minados da ignorância

onde se infiltra friamente

o preconceito, esse sim, fatal, letal, brutal

e não há senso que lhe valha

o preconceito desempalha

animais incongruentes

atacando pela trilha

de uma ilha outrora virgem

Aparência da virtude

O preconceito nunca falha

flecha certeira

na esteira

da inocência

aparência de virtude

E por mais que se escude

na justificação pseudo-ética

cosmética, caquética

do seu valor de guardião das morais

vitais pra lá do ano 2000

o preconceito não tem estado civil

é casado com a morte

divorciado da vida

é viúvo de si mesmo

é solteiro e por junto separado

suicida


Desarmem o preconceito!


Armem por favor as armas do amor

amor no sentido primeiro e secular

armem o mar

armem o vento p´ro uso depois

vão e regressem depois

mas por quem sois

mas por quem sois

armem as armas do amor

armem as armas do amor

armem as armas do amor

armem por favor

as armas do amor


Desarmem

as metralhadoras côr-de-cinza

que defendem

a condescendência

cautelosa, lacrimosa

das decisões oficiais

carimbadas despachadas

e só por isso legais

mas que vão milhas atrás

das atrozes realidades

que o corpo grita

e a alma berra

A condescendência não desferra

No cofre forte onde se encerra

a planificação ponderada

de um problema complexo

há soluções de fachada

2 mil mortos perfilados na parada

há palestras sobre sexo

é um problema complexo

nosso dano se ninguém resolve nada

ano após ano

2 mil mortos perfilados na parada

1 por ano

nossa escada em caracol para o nirvana


Desarmem a condescendência!


Armem por favor as armas do amor

amor no sentido primeiro e secular

armem o mar

armem o vento p´ro uso depois

vão e regressem depois

mas por quem sois

mas por quem sois

armem as armas do amor

armem as armas do amor

armem as armas do amor

armem por favor

as armas do amor


Desarmem

a pose altiva

emproada gargalhada

que veste a incompetência

incipiência

disfarçada de suma

sabedoria

quem diria

quem diria que debaixo de uma

só alegoria

tanto exemplo existiria

Exemplos de incompetência

são aos montes, são às serras

impossíveis de escalar

passos vãos, inúteis guerras

A incompetência é incapaz de se olhar

o cadáver inocente

é olhado pelo soldado incontinente

pelo menos é um olhar

a incompetência, nem pensar

nem pensar

em juntar o resultado à vontade

o sonhado

à realidade

e do real

partir para a utopia

menos mal

assim seria

menos mal


Desarmem a incompetência!


Armem por favor as armas do amor

amor no sentido primeiro secular

armem o mar

armem o vento p´ro uso depois

vão e regressem depois

mas por quem sois

mas por quem sois

armem as armas do amor

armem as armas do amor

armem as armas do amor

armem por favor

as armas do amor


Desarmem

a boa consciência arrogante

altissonante, complacente

da intolerância religiosa

da intolerância civil

da intolerância, tanto faz

desdenhosa e incapaz

de intuir na diferença

a trave-mestra desta vida

sal da vida

A intolerância é uma água envenenada

rota em jorros mas dos gritos

só sai água silenciosa

a mais perigosa

engrossa rios, traz detritos

traz a caixa das esmolas

flutuando já tombada

penetra casas e escolas

leva livros

ditos sagrados

mas levados

mais à letra

que a própria letra

das suas margens

e assim pondo-se à margem

dos próprios rios sagrados


Desarmem a intolerância!


Armem por favor as armas do amor

amor no sentido primeiro e secular

armem o mar

armem o vento pro uso depois

vão e regressem depois

mas por quem sois

mas por quem sois

armem as armas do amor

armem as armas do amor

armem as armas do amor

armem por favor

as armas do amor

 

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