O Coro Das Velhas
Sérgio Godinho
La eu pelo concelho de Caminha
Quando vi sentada ao sol uma velhinha
Curioso, uma conversa entabulei
Como se diz nuns romances que eu cá sei
Chamo-me Adosinda, disse, e tenho já
Os meus 84 anos, feitos há
Mês e meio, se a memória não me falha
Mas inda vou durar uns anos, Deus me valha
Com esta da austeridade, meu senhor
Nem sequer da para ir desta pra melhor
Os funerais estão por um preço do outro mundo
Dá pra desistir de ser um moribundo
Rabugenta, eu? Não senhor
Eu hei-de ir desta pra melhor
Mas falo pelos que cá deixo
Não é por mim que eu me queixo
Ó Felisbela, ó Felismina
Ó Adelaide, ó Amelinha
Ó Maria Berta, ó Zulmirinha
Vamos cantar o coro das velhas?
Cá se vai andando
C'o a cabeça entre as orelhas
Não sei ler nem escrever mas não me ralo
Alguns há que até a caneta lhes faz calo
É só assinar despachos e decretos
P'ra nos dar a ler a nós, analfabetos
E saúde, eu tenho p'ra dar e vender
Não preciso de um ministro para ter
Tudo o que ele anda a ver se me pode dar
Pode ir ele p'ro hospital em meu lugar
E quanto a apertar cinto, sinto muito
Filosofem os que sabem lá do assunto
Mas com esta cinturinha tão delgada
Inda posso ser de muitos namorada
Rabugenta, eu? Não senhor
Eu hei-de ir desta pra melhor
Mas falo pelos que cá deixo
Não é por mim que eu me queixo
Ó Felisbela, ó Felismina
Ó Adelaide, ó Amelinha
Ó Maria Berta, ó Zulmirinha
Vamos cantar o coro das velhas?
Cá se vai andando
C'o a cabeça entre as orelhas
E se a morte mafarrica, mesmo assim
Me apartar das outras velhas, logo a mim
Digo ao diabo, não te temo, ó camafeu
Conheci piores infernos do que o teu
Rabugenta, eu? Não senhor
Eu hei-de ir desta pra melhor
Mas falo pelos que cá deixo
Não é por mim que eu me queixo
Ó Felisbela, ó Felismina
Ó Adelaide, ó Amelinha
Ó Maria Berta, ó Zulmirinha
Vamos cantar o coro das velhas?
O Elixir Da Eterna Juventude
Sérgio Godinho
Estou velho!
Dói-me o joelho
Dói-me parte do antebraço
Dói-me a parte interna
De uma perna
E parte amiga
Da barriga
Que fadiga
O que é que eu faço?
Escolho o baço ou o almoço?
Vira o osso
Dói o pescoço
É do excesso
Do ex-sexo
Alvoroço
Reboliço
Perco o viço
Já soluço
Já sobroço
Esmiúço
Os meus sintomas
E já agora, do meu médico
Os diplomas
Esmiúço
A consciência
E já agora, apresento a penitência
Ah que estou arrependido
De ter feito e de ter tido
Ai coração, ora seja
Como a que ouvi na igreja
Mea culpa, mea culpa
Minha máxima desculpa
É ter vindo p´ro presente
Conservado em aguardente
Quero ser p'ra sempre jovem
As minhas células movem
Uma campanha eficaz
Água benta e água-raz
O elixir da eterna juventude
Esse que quer que tudo mude
P'ra que tudo fique igual
Estava marado
Falsificado
É desleal!
Vou implorar aos apóstolos
Mas é pior, que desgosto-os
Com tanto pecado junto
Não lhes pega nem o unto
Vou recorrer aos meus santos
Esses, ao menos, são tantos
Que há-de haver um que me acuda
Senão ainda tenho o buda
Maomé vai à montanha
O papa, ninguém o apanha
Na rússia, o rato rói a rolha
Venha o diabo e escolha
O elixir da eterna juventude
Esse que quer que tudo mude
P'ra que tudo fique igual
Estava marado
Falsificado
É desleal!
Misticismo agora à parte
Envelhecer é uma arte
"arte-nova", "arte-final"
Numa luta desigual
Só me vou pôr de joelhos
Ante o mais velho dos velhos
E perguntar-lhes o segredo
De p'ra ele inda ser cedo
Quando o espelho me mira
Já nem o chapéu me tira
Deito-lhe a língua de for a
Pisco o olho e vou-me embora
O elixir da eterna juventude
Esse que quer que tudo mude
P'ra que tudo fique igual
Estava marado
Falsificado
É desleal!

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