sábado, 12 de novembro de 2022

POEMAS CANTADOS DE SÉRGIO GODINHO

O Coro Das Velhas

Sérgio Godinho

 

La eu pelo concelho de Caminha

Quando vi sentada ao sol uma velhinha

Curioso, uma conversa entabulei

Como se diz nuns romances que eu cá sei


Chamo-me Adosinda, disse, e tenho já

Os meus 84 anos, feitos há

Mês e meio, se a memória não me falha

Mas inda vou durar uns anos, Deus me valha


Com esta da austeridade, meu senhor

Nem sequer da para ir desta pra melhor

Os funerais estão por um preço do outro mundo

Dá pra desistir de ser um moribundo


Rabugenta, eu? Não senhor

Eu hei-de ir desta pra melhor

Mas falo pelos que cá deixo

Não é por mim que eu me queixo


Ó Felisbela, ó Felismina

Ó Adelaide, ó Amelinha

Ó Maria Berta, ó Zulmirinha

Vamos cantar o coro das velhas?


Cá se vai andando

C'o a cabeça entre as orelhas


Não sei ler nem escrever mas não me ralo

Alguns há que até a caneta lhes faz calo

É só assinar despachos e decretos

P'ra nos dar a ler a nós, analfabetos


E saúde, eu tenho p'ra dar e vender

Não preciso de um ministro para ter

Tudo o que ele anda a ver se me pode dar

Pode ir ele p'ro hospital em meu lugar


E quanto a apertar cinto, sinto muito

Filosofem os que sabem lá do assunto

Mas com esta cinturinha tão delgada

Inda posso ser de muitos namorada


Rabugenta, eu? Não senhor

Eu hei-de ir desta pra melhor

Mas falo pelos que cá deixo

Não é por mim que eu me queixo


Ó Felisbela, ó Felismina

Ó Adelaide, ó Amelinha

Ó Maria Berta, ó Zulmirinha

Vamos cantar o coro das velhas?


Cá se vai andando

C'o a cabeça entre as orelhas


E se a morte mafarrica, mesmo assim

Me apartar das outras velhas, logo a mim

Digo ao diabo, não te temo, ó camafeu

Conheci piores infernos do que o teu


Rabugenta, eu? Não senhor

Eu hei-de ir desta pra melhor

Mas falo pelos que cá deixo

Não é por mim que eu me queixo


Ó Felisbela, ó Felismina

Ó Adelaide, ó Amelinha

Ó Maria Berta, ó Zulmirinha

Vamos cantar o coro das velhas?

 


O Elixir Da Eterna Juventude

Sérgio Godinho

 

Estou velho!

Dói-me o joelho

Dói-me parte do antebraço

Dói-me a parte interna

De uma perna

E parte amiga

Da barriga

Que fadiga

O que é que eu faço?

Escolho o baço ou o almoço?

Vira o osso

Dói o pescoço

É do excesso

Do ex-sexo

Alvoroço

Reboliço

Perco o viço

Já soluço

Já sobroço

Esmiúço

Os meus sintomas

E já agora, do meu médico

Os diplomas

Esmiúço

A consciência

E já agora, apresento a penitência


Ah que estou arrependido

De ter feito e de ter tido

Ai coração, ora seja

Como a que ouvi na igreja


Mea culpa, mea culpa

Minha máxima desculpa

É ter vindo p´ro presente

Conservado em aguardente


Quero ser p'ra sempre jovem

As minhas células movem

Uma campanha eficaz

Água benta e água-raz

O elixir da eterna juventude

Esse que quer que tudo mude

P'ra que tudo fique igual

Estava marado

Falsificado

É desleal!


Vou implorar aos apóstolos

Mas é pior, que desgosto-os

Com tanto pecado junto

Não lhes pega nem o unto


Vou recorrer aos meus santos

Esses, ao menos, são tantos

Que há-de haver um que me acuda

Senão ainda tenho o buda


Maomé vai à montanha

O papa, ninguém o apanha

Na rússia, o rato rói a rolha

Venha o diabo e escolha


O elixir da eterna juventude

Esse que quer que tudo mude

P'ra que tudo fique igual

Estava marado

Falsificado

É desleal!


Misticismo agora à parte

Envelhecer é uma arte

"arte-nova", "arte-final"

Numa luta desigual


Só me vou pôr de joelhos

Ante o mais velho dos velhos

E perguntar-lhes o segredo

De p'ra ele inda ser cedo


Quando o espelho me mira

Já nem o chapéu me tira

Deito-lhe a língua de for a

Pisco o olho e vou-me embora


O elixir da eterna juventude

Esse que quer que tudo mude

P'ra que tudo fique igual

Estava marado

Falsificado

É desleal!

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