terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Black Sabbath – Os anos obscuros com Tony Martin parte 2 (1993-1996)

 



Capítulo 4: Cross Purposes e a manutenção da dupla dinâmica (1994)

Ao final da turnê de promoção para o já clássico álbum Dehumanizer, foram agendadas duas datas nos dias 14 e 15 de novembro de 1992 em Costa Mesa, nos Estados Unidos, na despedida da carreira de Ozzy. Dio se recusa a participar de tal evento e o Black Sabbath se vê novamente sem vocalista. Mais uma vez Tony Martin é chamado às pressas para cumprir as duas datas, mas por problemas no visto de trabalho, sua ida aos Estados Unidos ficou inviabilizada. Para os dois shows, Rob Halford foi chamado e cumpriu com grande classe o papel de front man do Sabbath.

Após mais um ciclo se encerrando era a hora de entrar no estúdio e compor mais um álbum, algo que Tony Iommi sempre fez com grande rapidez e objetividade. Para esse novo projeto, Tony Martin foi chamado novamente (!) e juntamente com Geezer Butler, que desta vez decidiu ficar ao lado de Iommi, começam a composição do novo álbum, que ainda conta com grande participação de Geoff Nicholls e o estreante nas baquetas Bobby Rondinelli. Cross Purposes demorou seis semanas para ser criado e gravado e o lançamento é datado de 31 de janeiro de 1994 no Reino Unido, enquanto que nos Estados Unidos o lançamento ocorreu em 08 de fevereiro de 1994.

Para Cross Purposes, Tony Martin decidiu abordar temas atuais em suas letras, ao contrário dos temas históricos e mitológicos que encontramos em Headless Cross e TYR. “I Witness” que abre o disco fala sobre o estilo de vida do povo amish, um grupo cristão ultraconservador. Já “Cross of Thorns” aborda os diversos conflitos políticos que ocorreram ao longo dos séculos na Irlanda, enquanto que “Psychophobia” fala sobre o cerco de Waco, Texas que ocorreu em 1993 (seita religiosa comandada por David Koresh), que culminou com a morte de 75 pessoas durante um incêndio. Outras letras de destaque são “Dying for Love” que aborda tema relacionado aos conflitos na antiga Iugoslávia e “The Hand That Rocks the Cradle” (também escolhida como single e vídeo clipe de divulgação) que fala sobre uma enfermeira serial killer que mata bebês. Como bônus para o mercado japonês encontramos a excelente faixa “What’s the Use?” que poderia muito bem fazer parte do tracklist mundial do disco e além disso, estar presente no set list da turnê.

A turnê de promoção de Cross Purposes começa com uma extensa turnê norte-americana, a primeira de Tony Martin na banda. A esse fator podemos dizer que a presença de Geezer Butler contribuiu muito. No dia 08 de fevereiro a banda se apresenta no The Sting, em New Britain já apresentando um Tony Martin com certas dificuldades para se apresentar ao vivo, diferentemente do que foi visto em suas três primeiras turnês com o Black Sabbath. Todavia, em alguns shows como em San Jose (03 de março) e em Los Angeles (04 de março) mostravam um Martin mais confiante e tentando mostrar ao público americano quem ele era. Tanto que nos shows da perna americana o vocalista sempre fazia questão de se apresentar à plateia. Ao todo, foram 26 datas entre Estados Unidos e Canadá, com destaques para as já citadas datas de 03 e 04 de março, além dos shows em Montreal, Canada (12 de fevereiro), New York (15 de fevereiro) e Sunrise, Florida (13 de março). Logo em seguida a banda seguiu para o Japão para cumprir cinco datas (Yokohama, Tokyo – 2 vezes, Nagoya e Osaka) e mais uma vez a voz de Tony Martin oscila entre bons e maus momentos, com destaque positivo para o show em Yokohama e o show em Tokyo apresentando problemas.

Para a tour pelos Estados Unidos, Canadá e Japão, a banda escolhe quatro músicas do mais recente álbum para compor o set list: “I Witness”, “Cross of Thorns”, “Pshycophobia” e “Immaculate Deception”. A única outra faixa dos álbuns com Tony Martin a estar presente nos shows foi “Headless Cross”. Uma outra curiosidade da turnê foi a volta de músicas que não eram executadas há muito tempo, como “The Wizard”, “Into the Void”,”Symptom of the Universe” e “Sabbath Bloody Sabbath”. E as curiosidades não param por aí, pois a faixa de abertura em todos os shows foi “Time Machine” de Dehumanizer, que realmente caiu muito bem na voz de Tony Martin.

Desta vez, a passagem pela terra natal da banda foi bem menor do que nas turnês passadas. Para promover Cross Purposes, foram realizados shows em Manchester, Wolverhampton, Newport e Londres. Destaca-se o show em Londres, no Hammersmith Apollo que se transformou no ao vivo Cross Purposes Live, lançado no formato VHS + CD, que hoje em dia é raríssimo e mesmo naquela época a sua divulgação não foi das melhores. Para a gira pelo Reino Unido, a banda tirou do set list “Immaculate Deception” e incorporar a já clássica “Anno Mundi” que funcionou muito bem ao vivo com essa formação.

A banda então parte para a sua já costumeira gira pelo restante da Europa, que contou com shows na França, Holanda, Bélgica, Alemanha (17 shows), Itália, Áustria, Hungria, República Tcheca e Finlândia. Para tais shows, a banda trocou “Anno Mundi” por “When Death Calls” e neste caso Geezer Butler não executou ao vivo a belíssima introdução de baixo, a mesma ficou a cargo dos teclados de Geoff Nicholls. A turnê européia que ocorreu entre 16 de abril (início em Paris, França) e 11 de junho (final em Seinajoki, Finlândia) teve 32 shows.

No final de agosto o Black Sabbath chega à América do Sul para shows na Argentina, Chile e Brasil com mudanças em sua formação. Sai Bobby Rondinelli e entra o saudoso Bill Ward. O primeiro show ocorre no Monsters of Rock em São Paulo no dia 27 de agosto e além de um Bill Ward totalmente fora de forma, a banda encontra diversos problemas técnicos ao longo da apresentação. Para colaborar com a apresentação abaixo do esperado, Tony Martin não estava em um de seus grandes dias. Os shows na América do Sul consistiam dos grandes clássicos da banda e de algumas poucas músicas da fase Martin, como “I Witness”, “Cross of Thorns” (apenas no Chile) e “Headless Cross”. As apresentações seguintes ocorreram em Santiago, no dia 01 de setembro e em Buenos Aires nos dias 03 e 04 de setembro, encerrando assim a turnê de promoção do álbum Cross Purposes. Mais uma vez desiludidos com toda a situação da banda e mais algumas tentativas frustradas de reunião com Ozzy nos bastidores não se concretizarem, Geezer Butler e Bill Ward saem mais uma vez da banda, deixando Iommi sozinho novamente e se vendo na situação de precisar dos serviços do já confiável Tony Martin e querendo reviver as glórias do passado, recruta novamente Neil Murray e Cozy Powell, para junto de Geoff Nicholls iniciarem mais um capítulo na história do Black Sabbath.


Capítulo 5: Forbidden e o retorno de um time entrosado (1995)

O ano é 1995 e a gravadora I.R.S propõe a Tony Iommi a entrada do Black Sabbath à sonoridade dos anos 1990. Por algum motivo Iommi topa a presença de Ernie C, guitarrista do Body Count para a produção do disco, que recebe inúmeras críticas. Para quem tem a curiosidade de saber como o instrumental do disco soa nas demos, tais gravações são facilmente encontradas na internet. A verdadeira proposta de Forbidden era a de resgatar a essência do Black Sabbath dos três primeiros discos de estúdio, ou seja, chegar no estúdio e gravar o disco praticamente ao vivo. E foi exatamente o que aconteceu, já que Forbidden foi gravado em aproximadamente 10 dias e lançado no dia 12 de junho de 1995 na Europa e 20 de junho do mesmo ano nos Estados Unidos. Outro fato que comprova a “pressa” para o lançamento de Forbidden reside no fato de Tony Martin ter afirmado em entrevista na época do lançamento que ele não trabalhou nas letras como nos discos anteriores. Simplesmente cantou de improviso e segundo o vocalista “letras que vieram do coração”, cantadas em cima das guias instrumentais. Um reflexo disso é que percebemos uma abordagem mais centrada nas relações humanas, evidenciadas em faixas como “Can’t Get Close Enough”, “I Won’t Cry for You”, “Guilty as Hell”, “Sick and Tired”, “Forbidden” e “Kiss of Death”. Apesar das críticas, pode-se identificar bons riffs e composições em faixas como “The Illusion of Power” (com a polêmica presença de Ice T tanto dividindo os vocais com Tony Martin como as letras), “Get a Grip” (vídeo e single de trabalho), “Guilty as Hell”, “Rusty Angels”, “Forbidden” ,“Kiss of Death” e a excelente bônus japonesa “Loser Gets it All”.

A turnê de promoção do disco começa com dois shows pela Europa em festivais, sendo eles: Esbjerg Rock Festival na Dinamarca (04 de junho) e Karlshamn Rock Festival (16 de junho), sendo neste último a única vez que a faixa “I Won’t Cry For You” foi tocada ao vivo. A turnê de fato começa pelos Estados Unidos e Canadá no Toad’s Place em New Haven no dia 29 de junho. No set list encontramos músicas clássicas como “War Pigas”, “Sabbath Bloody Sabbath”, “The Wizard”, “Black Sabbath”, “Children of the Grave”, mas também podemos conferir uma bela mistura de canções da fase Martin, com “The Shining”, “Headless Cross”, “When Death Calls” e as novas “Get a Grip”, “Can’t Get Close Enough” e “Rusty Angels”. Outro fator de destaque na turnê é que Tony Martin estava bem mais à vontade em relação à turnê de Cross Purposes, tanto em sua performance quanto com relação à interação com o público. Nesta parte da turnê destacam-se os shows em Tinley Park 07 de julho, New York 10 de julho, Hampton Beach (14 de julho) e Portland (29 de julho). Ao todo, a turnê pela América do Norte passou por 25 cidades e sua última data foi agendada para 03 de agosto em Universal City, California. Apesar das boas performances da banda, nem tudo são boas notícias para a banda. Alegando cansaço mental e físico, Cozy Powell decide se afastar, muito em função também do desgaste causado pelo descontentamento com as suas partes de bateria que não ficaram de seu agrado.

 

Para o seu lugar foi chamado o já conhecido Bobby Rondinelli e com isso a perna européia da turnê se iniciou em Gmund, Alemanha em 19 de agosto. Mesmo com a mudança de última hora na formação, podemos conferir um Black Sabbath ainda muito entrosado e as músicas de Forbidden funcionando muito bem ao vivo e muitos fãs compartilhando a opinião de que tais músicas soam melhor ao vivo do que no estúdio. A turnê pelo Velho Continente teve aproximadamente 50 datas, com grande destaque para a Alemanha (17 datas), Suécia (cinco datas) e Itália (quatro datas). Mais especificamente alguns shows como o de Gzira, Malta, realizado no dia 25 de agosto ficou bem conhecido dos fãs dessa fase do grupo, já que foi filmado para TV e é facilmente encontrado no youtube. Outros shows de destaque nessa perna da turnê são Poznan, Polônia, realizado em 09 de setembro Hamburgo, Alemanha, realizado em 02 de outubro, Hannover, Alemanha, realizado em 07 de outubro, Dudelange, Luxemburgo, realizado em 12 de outubro Gotemburgo, Suécia, realizado em 19 de outubro e Umea, Suécia, realizado em 25 de outubro. Destaca-se o fato de que a partir dos shows realizados na Alemanha em setembro e outubro, a música “Kiss of Death” foi incluída no set list no lugar de “Get a Grip” e funcionou muito bem ao vivo, mostrando ser uma das melhores músicas não só do disco, mas também de toda a fase Tony Martin.

A banda então parte para a turnê pelo Reino Unido, com datas por Cambridge, Manchester, Bristol, Londres e Wolverhampton, antes de embarcar por uma turnê na Ásia que traria novidades em algumas de suas datas: a inclusão da música “Changes”. Foram quatro datas, sendo uma na Coréria do Sul (Seul) e três no Japão (Tokyo, Nagoya e Osaka), entre 16 e 22 de novembro. A banda iria fazer uma turnê de oito datas por Austrália e Nova Zelândia entre 25 de novembro e 09 de dezembro, mas as datas foram canceladas para que Iommi fizesse uma cirurgia no pulso. Mais tarde, em dezembro a banda volta à Ásia para mais dois shows, Singapura no dia 12 e Bangkok no dia 14, sendo este o último show de Tony Martin com o Black Sabbath.


Capítulo 6: The Sabbath Stones e o fim de uma era (1996)

O ano de 1996 começa cheio de rumores sobre a volta de Ozzy ao Black Sabbath, mas Iommi insistentemente diz que a banda continua com a formação com Martin, Rondinelli, Nicholls e Murray. Planos para um novo álbum de estúdio começam a ventilar, juntamente com uma última parte da turnê de Forbidden que passaria pela América do Sul. Se vendo cheio de problemas e se afundando cada vez mais no ostracismo, Tony Iommi decide encerrar o contrato com a IRS Records não com um álbum de estúdio como o esperado, mas sim com uma coletânea chamada The Sabbath Stones, lançada no Brasil contento 14 faixas, incluindo a bônus do álbum Forbidden, “Loser Gets it All”.

Assim, Iommi se vê livre do contrato com a gravadora e pode armar uma reunião com Ozzy e os antigos membros de Sabbath. Tony Martin nunca recebeu uma carta de demissão ou um até logo. Simplesmente foi colocado em stand by por praticamente um ano, até que no início de 1997 foi anunciada a volta da formação original do Black Sabbath, dando um fim à fase Tony Martin na banda. E assim Tony Martin se despede dos grandes palcos, do mainstream, das notícias e do spotlight. De forma silenciosa. Como diz o final da letra de “Kiss of Death”, última faixa de Forbidden: “This is no ordinary soul, that you’re destroying, not just another life that drifts along with the sands of time”, com um som de relógio em tique-taque, anunciando o fim de uma era.

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