Disco é o mais vendido do rock no século 21, contando as vendas a partir de 2001
Em 24 de outubro de 2000, era lançado o álbum de rock mais vendido do século 21. Ok, ‘Hybrid Theory’, o trabalho de estreia do Linkin Park, saiu em 2000, quando, respeitada a formalidade, ainda era século 20. Entretanto, boa parte de suas cópias foram comercializadas já a partir de 2001.
Falo sobre os números com outros detalhes mais adiante, mas ‘Hybrid Theory’ vendeu 27 milhões de cópias no mundo todo, sendo pelo menos 12 milhões delas nos Estados Unidos. Pouquíssimas bandas daquele período, como Green Day, Blink-182 e Nickelback, chegaram perto desses números. Era um dos últimos respiros do rock no mercado fonográfico enquanto “fato novo” – o estilo continuou gigante, mas para turnês e celebrações de artistas já consolidados.
Bennington foi recomendado a Jeff Blue, executivo do selo Zomba Music, que trabalhava com o Linkin Park – ainda chamado Xero. O vocalista foi convidado a gravar vocais para duas demos da banda. Uma delas era ‘Pictureboard’, que foi lançada só agora, na edição de 20 anos de ‘Hybrid Theory’. O resultado deixou Brad Delson impressionado, conforme o próprio relembrou em recente transmissão de vídeo no canal do grupo.
“Acho que ‘Pictureboard’ foi a primeira que ouvi na voz de Chester. Lembro de pegar a fita e perguntar para os caras o que eles achavam, pois Chester havia acabado de se candidatar. E eu estava… não chorando de alegria, mas quase chorando. Tipo, uau! Não sei nem o que senti. Era uma voz pequena e vulnerável nos versos, daí você ouvia todos os timbres e harmonias na parte pesada. Aquilo me deixou impressionado e nós falamos na hora: ‘precisamos conhecer esse cara’.”
Nasce – e sofre – o Linkin Park

Após a chegada de Chester Bennington, o Xero mudou seu nome para Hybrid Theory, mas havia uma questão jurídica relacionada a outra banda, chamada Hybrid. Então, eles alteraram para Linkin Park, uma espécie de tributo ao Lincoln Park, um parque local onde os músicos costumavam se encontrar com amigos. Ao escrever o nome errado, não havia chance de processo, não é?
A proposta “híbrida” do Linkin Park, que misturava rock e hip hop de forma mais clara que outras bandas do período, motivou a rejeição de várias gravadoras. A Warner foi a única a dar uma chance àqueles moleques, com pouco mais de 20 anos de idade na época. E eles não estavam dispostos a abrir mão dessa estética, conforme Mike Shinoda lembrou, em entrevista à ‘Billboard’:
“Quando eu cresci, ou você era do rock, ou era do rap, mas não se ouvia os dois tipos de música. Eu estava empolgado com Rage Against the Machine, Red Hot Chili Peppers, Beastie Boys, ou mesmo Led Zeppelin. Havia algumas bandas que misturavam vários estilos, mas não era o normal. Poder ter ajudado nessa mistura de estilos é, para nós, parte do legado do qual nos orgulhamos.”
Havia muito material a ser trabalhado, pois a banda havia produzido demos nos anos anteriores. Entretanto, muito material foi descartado – como a própria ‘Pictureboard’ –, enquanto outras faixas foram aproveitadas, mas foram bem alteradas.
O álbum ‘Hybrid Theory’ levou quatro semanas para ser gravado, sob orçamento ainda modesto para uma banda que ainda era vista como “aposta”. E mesmo em caráter experimental, o disco foi alvo de diversos questionamentos internos. Não dos músicos, mas, sim, dos executivos da gravadora, que tentaram até mesmo tirar Mike Shinoda da banda. O próprio Shinoda contou a história em entrevista à “Kerrang!”, em 2017:
“Estávamos no meio das gravações quando nosso A&R (funcionário do selo responsável pelo desenvolvimento artístico dos músicos) começou a perder as esperanças em nós. Ele recomendou que me colocassem nos teclados ou até me tirassem. Ele disse a Chester: ‘você é o talento, você deveria fazer um disco de rock, não precisa do rap, não precisa do resto dos caras’. Chester respondeu: ‘vá se f*der’.”
Apesar de toda a desconfiança da gravadora e até do produtor Don Gilmore, que não confiava na “parte rap” do som dos caras, ‘Hybrid Theory’ foi devidamente concebido. Na época, o Linkin Park era um quinteto, já que Dave Farrell ainda estava fora da banda. Boa parte das linhas de baixo foi gravada por Brad Delson, trazendo músicos de estúdio para apenas algumas faixas (Scott Koziol tocou ‘One Step Closer’, enquanto Ian Hornbeck é creditado por ‘Papercut’, ‘A Place for My Head’ e ‘Forgotten’). Há, ainda, uma participação especial dos Dust Brothers, com samples e afins em ‘With You’.
Enquanto havia essa mescla entre rock, hip hop e até música eletrônica na parte musical, o campo das letras era bem homogêneo, pois as composições lidavam com as angústias e os anseios de jovens “pós-adolescentes” daquele período. Esse foi um dos grandes acertos da banda: conseguir dialogar com o público que começava a consumir música naquele momento.
A maior parte das letras traz reflexões de Chester Bennington sobre sua adolescência. Aliás, Chester sempre fazia letras muito autobiográficas e bem diretas ao ponto. Em ‘Hybrid Theory’, questões como seu vício em drogas, problemas de saúde mental e brigas familiares, motivadas pelo divórcio de seus pais, estavam entre as principais pautas.
Hybrid Theory, faixa a faixa

‘Papercut’ é a responsável por abrir a tracklist de ‘Hybrid Theory’. Com letra que busca descrever a paranoia, trata-se da música que melhor sintetiza o Linkin Park naquele momento: embora já tivesse um direcionamento musical bem definido, a banda estava encaixada em um movimento, que era o nu metal. Mike Shinoda descreveu, à ‘Billboard’:
“Ela traz toda a identidade da banda em uma música. Até pelo fato de começar com um beat, daí entra em um rap com guitarras pesadas, o próprio Chester fazendo rap comigo no refrão – não dá para ouvir por causa da mixagem, que faz parecer que era só ele, mas éramos nós dois.”
Curiosamente, ‘Papercut’ foi lançada como single apenas na Europa, por uma questão burocrática. ‘One Step Closer’ e ‘Crawling’ já haviam sido promovidas neste formato e a segunda estava indo muito bem nos Estados Unidos, mas na Europa, teve repercussão apenas boa. A gravadora sabia que precisaria esperar para ter ‘In the End’ como single definitivo e mundial – que sairia junto do álbum –, então, divulgaram ‘Papercut’ no velho continente enquanto ‘Crawling’ rendia na América.
Em seguida, há ‘One Step Closer’, que foi, de fato, o primeiro single do álbum. A letra buscou retratar a raiva que os músicos sentiam de Don Gilmore em meio ao processo de gravação.
O produtor era acostumado com rock, mas não entendia tanto de hip hop, então, deixou essa parte a cargo dos músicos. Porém, quando havia algum conflito artístico com a gravadora, que pedia mais rock e menos rap, Gilmore não os defendia. Shinoda, à ‘Billboard’, comentou:
“’One Step Closer’ era Chester e eu literalmente falando sobre Don. Estávamos tão irritados com ele. A parte do ‘shut up’ (‘cale a boca’) era literalmente Chester gritando com Don.”
Após duas músicas mais “radiofônicas”, ‘With You’ adota um formato mais experimental. Aqui, os Dust Brothers, que produziram samples para artistas que vão de Beastie Boys a Hanson, colaboraram com o Linkin Park. Com a palavra, Mike Shinoda, à Billboard:
“Sempre adorei ‘With You’. Era uma música mais da época, bem nu metal. Adoro as partes de Joe na música. Gosto da produção, dos beats e das minhas partes”.
Embora não tenha saído como single geral, ‘Points of Authority’ ficou famosa porque ganhou um videoclipe na época – e teve um remix de boa repercussão, intitulado ‘Pts.OF.Athrty’, no disco ‘Reanimation’ (2002). Aqui, apesar do groove típico do hip hop, o vocal é assumido quase todo por Chester Bennington.
Uma das músicas mais marcantes de ‘Hybrid Theory’, ‘Crawling’ nasceu como um flerte bem pontual a abordagens musicais mais melódicas. A letra expressa, de forma clara, os problemas de Chester com os vícios. Joe Hahn, à ‘Billboard’, refletiu:
“‘One Step Closer’ era bem agressiva e não soava tão delicada. ‘Crawling’ saiu como single em seguida e representou um lado diferente do que fazíamos, trazendo algo bem íntimo com um toque emotivo e até mesmo alguns gritos no meio.”
Com músicas do porte de ‘Papercut’, ‘Crawling’ e ‘One Step Closer’ – além de ‘In the End’, que será comentada mais adiante –, quem iria pensar em outra faixa como grande hit deste álbum? De início, o Linkin Park apostava em ‘Runaway’, que vem em seguida na tracklist.
À ‘Billboard’, Mike Shinoda relembrou que ‘Runaway’, originalmente intitulada ‘Stick and Move’, era uma das favoritas dos fãs nos shows do Linkin Park antes da fama.
“Em todos os nossos primeiros shows, essa era a nossa grande música. As pessoas sempre falavam sobre ela. Sempre achávamos que era uma música importante para gravarmos. Quando outras faixas começaram a tomar forma, pensamos: ‘oh, não, uma de nossas melhores músicas agora é uma de nossas piores.”
Fato é que, após ter passado por alterações, ‘Runaway’ ganhou uma pegada diferente, um pouco mais padronizada. Ainda assim, é um bom momento, que não deixa a peteca cair na tracklist de ‘Hybrid Theory’.
‘By Myself’, em seguida, traz outro experimento: a influência do metal industrial, de nomes como Ministry e Nine Inch Nails. Por não ser tão nu metal, ajuda a trazer uma boa quebra de ritmo ao álbum.
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