
Resenha
Watershed
Álbum de Opeth
2008
CD/LP
Watershed é mais um dos discos do Opeth que pode ser considerado um divisor de águas, pois muitos novos elementos foram incluídos na música da banda, inclusive, até mesmo desagradando algumas pessoas – e agradando muitas outras -, porém, acho que a banda conseguiu manter o seu som típico e o álbum é mais um trabalho de alto nível do grupo. Outro ponto importante e que deve ser levado em consideração em relação Watershed, é que se trata do primeiro álbum de estúdio do Opeth a apresentar o guitarrista Fredrik Åkesson e o baterista Martin Axenrot , que substituiu o guitarrista de longa data Peter Lindgren e o baterista Martin Lopez. Um fato curioso em relação a banda, é que alguns dos seus álbuns que eu considero mais difíceis, digamos assim, me pegaram de primeira, enquanto outros, que considero mais fáceis, demoraram um pouco para entrar em acordo comigo, caso que aconteceu exatamente com Watershed. Vale destacar também, que os fãs mais hardcores não vão aceitar os novos membros tão bem logo de cara, porém, negar o talento de ambos é forçar a barra, principalmente em relação ao baterista, Martin Axenrot, que particurlamente acho um músico melhor para banda que foi Martin Lopez – que também entregou um trabalho ótimo enquanto esteve atras da bateria do Opeth. Embora as influências percussivas do jazz não possam mais ser ouvidas, há uma dose adicional de metal muito interessante. Apesar de não ser um disco conceitual propriamente disco, segundo o próprio Mikael Åkerfeldt, de certa forma, Watershed tem um fluxo de um disco conceitual. Não entendeu? Explico, todas as letras são sobre experiências de vida do líder da banda e como ele mudou desde que se tornou pai. Não existe uma história fictícia como um conceito de registro genérico, não é sobre um personagem. Segundo palavras do próprio Mikael em uma entrevista: “antes de se tornar pai, você nunca imagina como isso vai mudar você, mas muda, aconteceu o mesmo com todo mundo com quem falei e que tem filho. Essa nova câmara de emoções que você realmente não sabia que existia antes se abre - e de repente você está sentado em frente à televisão chorando por causa das coisas que estão acontecendo no mundo.” Em relação as canções sombrias em que é mencionado crianças - “Hessian Peel” e “Hex Omega” -, Mikael diz que foram inspiradas em uma ex-namorada que cometeu suicídio enquanto ele estava em estúdio, ela inclusive tinha um filho da mesma idade da filha de Mikael, então, isso acabou sendo uma grande fonte de inspiração para que ele escrevesse essas canções. Resumindo, um disco que conta experiências bastante pessoais de Mikael. “Coil”, começa o disco de uma maneira bem suave, com vocais femininos de Natalie Lorichs (cantora sueca e namorada de Martin Axenrot). Apesar de ser curta, é uma música muito melancólica e emotiva, e começa o álbum de forma grandiosa, dando uma sensação de frescor. Mikael certa vez disse, que a ideia era iniciar o disco por meio de "Heir Apparent”, no entanto, eles preferiram "Coil" como faixa introdutória por seu contraste com "Heir Apparent". Ainda há mais uma mulher convidada na música, Lisa Almberg que cria um excelente efeito tocando um oboé ao fundo. “Heir Apparent”, após o final de uma introdução tão suave, temos a música mais pesada do álbum. E por que não dizer que é a mais pesada da discografia da banda? Afinal, é a única música da banda em que os vocais são 100% de death metal. Além de um peso genuíno, possui solos progressivos e acordes acústicos. A melodia que inicia por volta dos 7:23 e se mantém até o final da música é viciante. “The Lotus Eater”, quando falamos de Opeth, o uso de blast beat não costuma ser lembrado, mas aqui é o que acontece logo no início da música - na verdade, após uma voz suave. Mas após os 50 segundos o estilo muda e agora sim temos algo mais clássico da banda, um ritmo mais progressivo. Também há espaço para um interlúdio inicialmente sombrio e atmosférico, mas que aos poucos vai ganhando um corpo mais jazzístico até que toda a banda explode em uma linha jazz com pinceladas funk, com destaque para as guitarras e os teclados. Voltando para o clássico death metal melódico antes de chegar ao fim. “Burden”, é aquele tipo de balada que a gente escuta, quando acaba respiramos fundo e falamos, “que coisa mais linda”. Soa diferente do que a banda costuma fazer, mas claro, no fim, tudo funciona muito bem. As guitarras gêmeas são lindas, mas um apaixonado por órgão Hammond que sou, tirei o chapéu principalmente para o solo de Per Wilberg. Maravilhosa do começo ao fim. “Porcelain Heart” começa com um peso clássico da banda antes de silenciar em uma linha mais lenta e melancólica liderada por violão e piano, enquanto Mikael canta alguns versos. A faixa continua com seus contrastes entre partes pesadas e suaves. Perto dos 5 minutos a peça fica linda, voz limpa, belíssimos violão e teclado, então que os riffs pesados utilizados anteriormente direcionam a música até o final. “Hessian Peel”, passando dos 11 minutos é a peça mais longa do disco. A primeira metade, um belo e melancólico rock progressivo. Violões e algumas cordas tocam linhas lindas e tristonhas entre os versos. A segunda metade da música começa frenética por meio de um death metal raivoso, com a primeira parte vocal rosnada antecipando um breve, mas excelente solo de guitarra. A banda segue em uma passagem instrumental impressionante, então que retorna para uma sonoridade suave e cativante, algo completamente inesperado. São tantos ingredientes oferecidos em apenas uma música e mesmo assim tudo soa tão coeso do começo ao fim. A sonoridade pesada ainda regressa novamente em mais uma ótima transição antes da peça chegar ao fim. “Hex Omega” é a peça que finaliza o disco. Possui um riff inicial excelente e bastante pesado. Apesar de certa forma, possuir o mesmo tipo de sentimento da anterior, soa menos progressiva. Segue sombria e assustadora, entrega ótimos riffs e solo de guitarra, além de Mellotron por toda a parte, então que suaviza em uma melodia melancólica. Quando regressa à uma sonoridade pesada, segue em um ritmo repetitivo até o fim. Desde Damnation, Watershed foi o álbum mais suave da banda. E falando em suavidade, Watershed foi o último disco do Opeth – pelo menos até o lançamento de In Cauda Venenum – a conter vocais de death metal. Mais uma vez, há uma entrega de um disco muito bem feito em sua composição, diversidade, sentimento, musicalidade e execução de cada uma de suas peças.
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