Através dos seus dois primeiros álbuns, Ramones (1976) e Leave Home (1977), os Ramones haviam moldado o seu formato musical, uma confluência de surf music e bubblegum pop dos anos 1960 com um rock agressivo e veloz, dando suporte a canções curtas e de arranjos simples, básicos, sem absolutamente nenhum tipo de virtuosismo instrumental tão comuns nas bandas de rock progressivo. Os Ramones estabeleceram o padrão do som punk e que se tornaria a “cartilha” sonora para uma infinidade bandas punks que viriam no seu rastro como, sobretudo as bandas inglesas como Sex Pistols e The Clash.
Mas foi o seu terceiro álbum, Rocket To Russia, que o quarteto nova iorquino consolidou o seu estilo. Rocket To Russia, não só consolida o que já havia sido feito nos dois primeiros álbuns como trouxe para os fãs o padrão musical Ramones melhor produzido e acabado, e até mesmo, mais radiofônico.
Com custo que girou entre 25 mil e 30 mil dólares, maior que o dos dois álbuns anteriores, Rocket To Russia foi gravado nos meses de agosto e setembro de 1977, no Media Sound, em Manhattan, Nova York, sob a produção de Tony Bongiovi e Thomas Erdelyi. Este último era nada mais nada menos que Tommy Ramone, baterista dos Ramones, que se revezou na produção e na bateria da banda. Rocket To Russia foi o último álbum que Tommy gravou como baterista dos Ramones. Ele deixaria a banda depois do lançamento do álbum para se dedicar à carreira de produtor de discos.
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| Ramones, da esquerda para a direita: Johnny Ramone, Joey Ramone, Tommy Ramone e Dee dee Ramone. |
No entanto, uma outra pessoa se tornou fundamental na produção do disco, o engenheiro de som Ed Stasium. Segundo o guitarrista dos Ramones, Johnny Ramone, Stasium foi fundamental para que o som de Rocket To Russia saísse do jeito que a banda queria. Inclusive, Johnny afirmou em entrevistas que Stasium esteve mais atuante na produção de Rocket To Russia do que o próprio produtor. Além de ter trabalhado na engenharia se som do álbum, Stasium tocou guitarra e fez vocais de apoio em algumas faixas.
A primeira faixa do álbum é “Cretin Hop”, um punk rock veloz e urgente, trazendo a bateria reta e direta de Tommy. Na sequência, “Rockway Beach”, faixa em que a energia e velocidade do punk rock e a influência da surf music dos Beach Boys se encontram. O título da música faz referência a uma praia do bairro do Queens, em Nova York.
Depois de duas faixas agitadas, o rock balada “Here Today, Gone Tomorrow” que traz um pouco de calmaria e romantismo. A influência do bubblegam pop dos anos 1960 é perceptível na linha melódica e na letra simplória da canção: “And I think of times we were together / As time went on it seemed forever / But times have changed”. (“E eu penso nos momentos que passamos juntos / Quando o tempo passava, parecia eterno /Mas os tempos mudaram”.)
A atmosfera juvenil do som das bandas pop dos anos 1960 com “verniz” punk prossegue em “Locket Love”, um rock sobre um medalhão do amor, com direito a vocais de apoio que rementem aos dos primórdios do rcok’n’roll. “I Dont” Care” é um punk rock de ritmo desacelerado e de versos simples e repetitivos.
“Sheena Is A Punk Rocker” é a faixa mais famosa do álbum e dos maiores sucessos da carreira dos Ramones. A surf music dos anos 1960 exerceu grande influência nesta música onde os Ramones homenageiam Sheena, A Rainha das Selvas, uma personagem de histórias em quadrinhos criada por Will Eisner e S.M. “Jerry” Iger, em 1937. Na música dos Ramones, de heroína da selva, Sheena aparece como uma punk rocker. “Sheena Is A Punk Rocker” foi lançada como single em maio de 1977, bem antes de Rocket To Russia ser lançado. Na segunda edição de Leave Home, a gravadora retirou a faixa “Carbona Not Glue” e trocou por “Sheena Is A Punk Rocker”, temendo possível processo judicial por parte da Carbona Products Company, proprietária da marca Carbona Cleaning Fluid, que deu nome à música. Na edição inglesa de Rocket To Russia a música que substituiu “Carbona Not Glue” foi “Babysitter”.
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| Sheena, a heroína das histórias-em-quadrinhos, serviu de inspiração para "Sheena Is A Punk Rocker". |
No punk rock “We're A Happy Family”, os Ramones mostram que aquele tipo de família “feliz” e “normal”, pode esconder muitos segredos como a homossexualidade do papai, o vício em remédios da mamãe e que a família trafica drogas. A faixa fecha o lado 1 da versão LP de Rocket To Russia.
Abrindo o lado 2 do álbum, “Teenage Lobotomy”, um punk rock que trata sobre um garoto adolescente que passa por uma lobotomia após uma exposição aos efeitos do DDT. Na sequência, o primeiro cover presente em Rocket To Russia, uma versão de “Do You Wanna Dance”, sucesso de Bob Freeman de 1958, e que foi regravada por vários artistas como Cliff Richard, The Mamas & The Papas, John Lennon e T.Rex, mas que teve com Johnny Rivers, a regravação mais famosa. Diferente da versão Rivers, doce e romântica, a versão dos Ramones era um punk rock veloz.
“I Wanna Be Well” é um punk rock desacelerado e com uma inclinação pop, com uma letra que parce fazer referência ao uso de drogas. Em “I Can’t Give You Anything”, Joey Ramone canta as dores de um rapaz pobre e apaixonado que sabe que não tem nada a oferecer para a garota que ama. “Ramona” é sobre uma garota que dá nome à canção, e que no Brasil, ganhou uma versão em português nos anos 1990 com a banda Raimundos, e que virou “Pequena Raimunda”.
“Surfin’ Bird”, um clássico da surf music da banda The Trashmen, de 1963, ganhou uma versão praticamente definitiva com os Ramones. Se a versão original já era bem louca, com os Ramones, a música ganhou mais peso, velocidade e agressividade.
“Why Is It Always This Way?” encerra o álbum, mais um punk rock com do “pop chiclete” dos anos 1960. A letra sugere um caso bizarro de um suicídio de uma garota, cujo corpo estaria agora repousando numa garrafa de formol.
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| The Trashmen, autores de "Surfin' Birds", regravada pelos Ramones. |
Lançado em 4 de novembro de 1977, Rocket To Russia tem o seu título inspirado no contexto geopolítico em que se encontrava o mundo naquela época, quando ainda vivíamos sob a sombra da Guerra Fria. A arte da contracapa foi concebida pelo ilustrador John Holmstrom, e mostra na ilustração um foguete partindo dos Estados Unidos supostamente em direção à Rússia.
Rocket To Russia teve uma boa recepção por parte da crítica, que destacou a evolução na qualidade do som dos Ramones e da produção do álbum em relação aos trabalhos anteriores.
Contudo, isso não foi o suficiente para que o álbum tivesse um bom desempenho comercial. Na parada da Billboard 200, por exemplo, Rocket To Russia figurou no 49º lugar. Segundo o jornalista Legs McLeil, editor do legendário Punk Magazine e autor do livro Please Kill Me (no Brasil, Mate-me, Por Favor), a má impressão deixada pelos Sex Pistols com sua turnê pelos Estados Unidos, no começo de 1978, envolvidos com muita confusão e baderna, acabou de alguma forma sendo associada ao punk rock como um todo. Os Ramones foram atingidos de uma certa maneira por causa disso, e o álbum que tinha tudo para estourar, teve um número de vendas bem abaixo do esperado.
Apesar de tudo, Rocket To Russia construiu ao longo tempo a sua reputação, e é sempre citado entre jornalistas e especialistas em música como um dos mais importantes e influentes álbuns da história do punk rock.
Faixas
Lado 1
- “Cretin Hop”
- “Rockaway Beach”
- “Here Today, Gone Tomorrow”
- “Locket Love”
- “I Don't Care”
- “Sheena Is a Punk Rocker”
- “We're A Happy Family”
Lado 2
- “Teenage Lobotomy”
- “Do You Wanna Dance?” (Bobby Freeman)
- “I Wanna Be Well”
- “I Can't Give You Anything”
- “Ramona”
- “Surfin' Bird” (Al Frazier / Sonny Harris / Carl White / Turner Wilson)
- “Why Is It Always This Way”
Todas as faixas são de autoria dos Ramones, exceto as indicadas.
Ramones: Joey Ramone (vocal principal), Johnny Ramone (guitarra), Dee Dee Ramone (baixo e vocais de apoio) e Tommy Ramone (bateria e produção).
"Locket Love"
"Sheena Is A Punk Rocker"
(videoclipe oficinal)
"Do You Wanna Dance?"




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