
Resenha
Dominion
Álbum de Zopp
2023
CD/LP
Mesmo que você seja aquele tipo de elitista rabugento quando o assunto é rock progressivo contemporâneo, a música encontrada nesse disco pode agradá-lo. Neste segundo lançamento da Zopp – que já havia impressionado em seu debute em 2020 -, projeto capitaneado pelo multi-instrumentista, Ryan Stevenson, na companhia do baterista, Andrea Moneta – membro da banda de Neo-Progressivo, Leviathan -, eles entregam novamente uma verdadeira aula de um rock progressivo muito denso, com vários elementos de jazz, além de música ambiente, um pouco de vanguarda e até pinceladas de rock psicodélico, tudo isso se mantendo bastante acessível ao mesmo tempo que criam um som muito progressivo. É um trabalho que vai desviar do que bandas lendárias do rock progressivo fizeram 50 anos antes? Não - assim como tantas outras de rock progressivo contemporâneo que eu gosto também não desviam -, mas mesmo assim, a miscelânia da banda é simplesmente deliciosa, onde ela passa, por exemplo, por bandas como, Yes, Marillion, Genesis e toques de The Tangent, além de grandes nomes da cena de Canterbury, como National Health, Caravan e Hatfield and the North, mantendo-se sempre dentro de composições maciças e brilhantes. Vale destacar também, que diferentemente do disco anterior que foi 100% instrumental, aqui Stevenson assume os vocais e entrega um trabalho muito interessante, dando às vezes algumas dimensões diferentes para as músicas. “Amor Fati” é uma peça com pouco mais de dois minutos e um começo de disco bem tranquilo. Se fosse uma faixa composta nos anos 70 e fosse perguntada quem a compôs para qualquer admirador da cena de Canterbury, provavelmente 100% deles a associariam à Robert Wyard, também pudera, é fácil perceber o seu estilo permeando a música do começo ao fim. Um início de álbum que serve como preparação para à peça seguinte. “You”, com os seus quase 11 minutos é a segunda música mais longa do disco. Vale mencionar também, que já havia sido lançada em formato de EP ainda em 2022 – mais precisamente em 9 de setembro. Inicia por meio de um piano muito rítmico que logo em seguida vai ganhando a companhia do órgão, essa marcação permanece até por volta de 1:15, momento em que todos os demais instrumentos entram na peça, a direcionando para uma linha mais da cena de Canterbury. Os vocais são excelentes e muito melódicos, enquanto a música em si é fascinante do começo ao fim e extremamente bem arranjada por meio de uma infinidade de instrumentos. Um dos melhores momentos do disco. “Bushnell Keeler”, se comparada à faixa anterior, é uma entrega musical um pouco mais acessível e sem muitas nuances, mas ainda assim, com um grande aceno à cena de Canterbury, mais precisamente a linhas menos inventivas do Caravan. Os dois destaques da peça com toda certeza ficam por conta da flauta e principalmente da trompa, mas seção rítmica, guitarra e órgão também ajudam a criar um clima muito agradável. “Uppmärksamhet” direciona o disco para uma superfície mais branda, dando uma diminuição significativa na energia e rítmo do álbum, o que não quer dizer que cai a qualidade. A sensação floydiana é inevitável, isso muito bem alinhado a uma leve sensação sinfônica que abraça confortavelmente o ouvinte. “Reality Tunnels” é outro dos momentos mais brilhantes do discos. Diferentemente da peça anterior, entrega um ataque instrumental mais agressivo, com toques de ELP, linhas de heavy prog e acenos ao Van der Graaf Generator. Todo o trabalho instrumental é bem amarrado por meio de camadas muito bem encaixadas umas nas outras, destacando-se principalmente o trabalho de órgão e guitarra – o instrumento mais Canterbury da música -, porém, a seção rítmica executava de forma selvagem também merece uma forte menção. “Wetiko Approaching”, assim como a peça inicial serviu como preparação para os quase 11 minutos da seguinte, aqui o momento pode ser visto como uma faixa de preparação para o épico que encerra o disco. Possui uma melodia vocal muito bonita e acentuações instrumentais com os dois pés fincados na cena de Canterbury. “Toxicity”, ultrapassando os 14 minutos, é a maior peça do disco e também a que o encerra. Uma viagem por vários movimentos com acenos que vão desde Gentle Giant a até mesmo Asia, com todos muito bem encaixados um no outro, tendo como maior visibilidade sobretudo os belos trabalhos de teclados e guitarra. Adoro como as coisas vão se desenvolvendo do começo ao fim, parecendo uma espécie de divertimento, porém, extremamente profissional e de uma perspectiva sonora bastante cativante. Uma peça do tipo desafiadora de resultado muito bem-sucedido que finaliza o álbum perfeitamente. Dominion é rock progressivo tocado com muita classe por meio de composições diversificadas e influências múltiplas. Daqueles discos para serem ouvidos várias vezes e em cada uma delas absorver algo diferente, afinal, houve uma enorme quantidade de informações detalhadas e melodias bem construídas injetadas em todas as partes durante os seus cerca de 42 minutos. Uma obra sensacional do início ao fim.
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